Quando os navios portugueses aportaram na costa do Brasil em 22 de abril de 1500, encontraram um continente coberto por uma floresta imponente e densa. Um dos primeiros atos dos recém-chegados foi simbólico e premonitório: derrubaram uma árvore para confeccionar uma cruz. Esse gesto inaugurou a história de uma civilização imposta por homens "movidos por cobiça e virtude, sem se deixarem levar por compaixão ou mesmo por curiosidade". A história da devastação que se seguiu é também a história da formação do Brasil. Ao olharmos para a destruição desta floresta, não vemos apenas uma tragédia ambiental, mas um espelho que reflete verdades contraintuitivas e impactantes sobre como nossa sociedade, economia e mentalidade foram moldadas.
Nesta postagem, analisamos dois capítulos centrais da obra A ferro e fogo: a história e a devastação da Mata Atlântica, de Warren Dean: o capítulo 3, “A segunda leva de invasores humanos”, e o capítulo 4, “Alheamento: despovoada, a floresta renasce”. A partir deles, discutimos alguns pontos sobre como a colonização europeia constituiu um processo profundamente ecológico, no qual despovoamento indígena, introdução de novas espécies e transformação da paisagem redefiniram a história da Mata Atlântica e a própria formação do Brasil.
Para começar, esqueça a imagem de um encontro ingênuo entre europeus astutos e nativos inocentes. A interação inicial foi impulsionada por um pragmatismo de ambos os lados. Os Tupis não trocaram toras de pau-brasil por bugigangas por serem simplórios; eles o fizeram porque desejavam obter ferramentas de metal que representavam uma revolução tecnológica, reduzindo o tempo para derrubar árvores em "cerca de oito vezes". Para os Tupis, no entanto, a troca era mais que um comércio; era um "sinal material de aliança", um pacto que incluía obrigações mútuas, como a ajuda em combate. Os europeus, operando sob uma lógica puramente transacional, jamais compreenderam essa dimensão relacional, estabelecendo um conflito de visões de mundo desde o primeiro contato.
A exploração não se limitou à flora. O comércio de animais era vasto e ecologicamente significativo. Um único navio em 1532, o Pelerine, carregou "3 mil peles de 'leopardos etc.', trezentos macacos e seiscentos papagaios". Para os Tupis, isso tinha um custo espiritual profundo. Matar uma onça, por exemplo, era um ato perigoso que exigia uma cerimônia complexa para aplacar seu espírito vingativo.
Apesar da parceria, as lógicas econômicas eram fundamentalmente distintas. Enquanto os europeus operavam sob um desejo insaciável de acumulação, os Tupis viam isso com perplexidade. Um Tupi, conversando com o feitor francês Jean de Lery, expressou essa diferença de forma eloquente:
Vocês franceses são uns grandes idiotas; precisam sofrer tanto para cruzar o mar, no qual (como você nos contou) suportaram tantas privações, apenas para acumular riquezas para seus filhos ou para aqueles que os sucederem? A terra que alimenta vocês não será suficiente para alimenta-los?.
Essa dinâmica, baseada em lógicas incompatíveis, estabeleceu as bases para uma exploração extrativista e predatória. A superioridade militar europeia é apenas uma parte da história. A verdadeira vantagem, como demonstrou o historiador Alfred Crosby com seu conceito de "imperialismo ecológico", foi biológica. Os invasores não vieram sozinhos; trouxeram consigo um "exército de plantas e animais domésticos". Gado, porcos, cana-de-açúcar e trigo, ao chegarem ao Novo Mundo, encontraram um ambiente livre de seus predadores e pragas originais, proliferando de forma avassaladora.
Em contraste, a atitude dos portugueses em relação à flora e fauna nativas foi de desinteresse e desdém, num distanciamento que contrastava com a "curiosidade universal dos humanistas" da época. Os frutos locais não lhes pareciam "tão bons quanto os de casa", e apressaram-se em classificar a dieta nativa como inferior, apesar de o físico dos Tupis ser "visivelmente mais imponente que o seu". A conquista foi, em grande medida, a substituição de um ecossistema por outro. A hegemonia europeia foi garantida tanto por seus germes, que dizimaram as populações nativas, quanto por suas espécies domesticadas, que transformaram a paisagem para sempre.
Após a chegada dos europeus, a Mata Atlântica passou por um período de forte regeneração em vastas áreas. A razão para isso foi uma tragédia humana de proporções continentais. As doenças do Velho Mundo, como varíola e sarampo, para as quais os povos nativos não tinham imunidade, causaram um colapso demográfico catastrófico. Estima-se um declínio de 95% entre os Tupis da costa em apenas um século. Esse despovoamento massivo, somado às guerras e à escravidão, criou um vácuo ecológico. A pressão humana sobre a floresta, exercida por milênios, diminuiu drasticamente.
O resultado foi que a floresta avançou. Registros históricos mostram que a vila de São Paulo, em 1587, possuía "mais bosques que outra coisa", e ordens foram emitidas no Rio de Janeiro para que os moradores cortassem as árvores que ameaçavam suas paliçadas. Ironicamente, esse fenômeno ajudou a forjar o mito de uma "terra vazia". Por mais de 400 anos, uma "interminável cadeia de cumplicidade" negou a realidade de um continente densamente povoado, permitindo aos neo-europeus se verem como "herdeiros de uma terra vazia".
O machado de metal acelerou o corte da floresta, mas foi uma ferramenta aparentemente mais modesta que alterou fundamentalmente a paisagem de forma irreversível: a enxada. Na agricultura indígena de corte e queima, os campos eram cultivados por pouco tempo e depois deixados em pousio para a regeneração da floresta. A introdução da enxada permitiu o cultivo dos mesmos campos por períodos muito mais longos. A consequência foi desastrosa: a exposição prolongada do solo ao sol destruía os micorrizos, que são fungos essenciais para as raízes que permitem a absorção de nutrientes. Sem eles, a floresta primária não conseguia mais renascer.
Essa mudança tecnológica servia a um propósito ideológico colonial: fixar a população em um lugar, em oposição à mobilidade sustentável da agricultura nativa. Essa necessidade constante por novas terras, pois as antigas se tornavam "cansadas", gerou uma forma peculiar de economia. Como observou o cronista Gabriel Soares de Souza, "acontece muitas vezes valer mais a novidade de uma fazenda que a propriedade". Nascia assim uma forma extrativa de capitalismo, um "capitalismo pelo avesso", no qual o estoque de capital era a própria natureza, que era rapidamente dissipada para gerar riqueza.
Mas a conquista não foi apenas física e biológica, ela foi também ideológica. Em seu esforço para converter os povos nativos, os jesuítas buscaram "afirmar a separação entre o divino e o natural". Uma de suas estratégias mais eficazes foi demonizar a cosmologia indígena. Os espíritos da floresta foram indiscriminadamente caracterizados como "diabos", e a Mata Atlântica, transformada na "morada do diabo", isso é uma "metáfora conveniente para aqueles que a receavam e pretendiam eliminá-la".
Mas a guerra ideológica foi dupla. Não bastava vilificar a floresta; era preciso glorificar sua destruição. A agricultura foi elevada a um ato sagrado, uma forma de cristianização da paisagem. O jesuíta Diogo Jacome exortou seus colegas com uma poderosa metáfora agrícola:
Este vinhedo carece de uvas porque não há ninguém aqui para derrubar as matas em volta e poda-lo; vocês são os podadores....
Essa separação psíquica entre a "civilização" (a vila) e a "barbárie" (a floresta) levou à desvalorização do imenso conhecimento que os povos nativos possuíam. A floresta, de um repositório de vida, foi reconfigurada no imaginário colonial como um inimigo a ser vencido.
Os capítulos analisados mostram a devastação da Mata Atlântica durante a formação do Brasil, mostrando aspectos ecológicos, sociais e econômicos. A mentalidade extrativista, a apropriação de terras vistas como "vazias" e o apagamento dos saberes tradicionais não são relíquias do passado. São ecos que ressoam nos desafios ambientais e sociais que o país enfrenta hoje. A prova mais duradoura e íntima dessa relação está em nosso próprio nome. Os habitantes da nova terra passaram a ser chamados de brasileiros, uma identidade derivada do ofício de cortar pau-brasil. Como notou Warren Dean, é uma "designação peculiar e pungente", que nos amarra etimologicamente ao primeiro ato de extração em massa da floresta.
Bem, este texto que analisamos, e que contem os dois capítulos mencionados pode ser baixado clicando aqui. O livro é uma leitura fundamental, e inclusive durante muitos anos foi uma das principais referencias do processo seletivo do mestrado/doutorado em História da UFSC. O texto descreve ao longo de cinco séculos, sucessivos ciclos econômicos, frequentemente apresentados como sinais inevitáveis de progresso, e que avançaram sobre a floresta, reduzindo um bioma de dimensões continentais a fragmentos isolados. É uma renovação no olhar da História do Brasil, que é marcada por escolhas políticas, interesses econômicos e impactos ecológicos profundos, que Warren Dean muito bem.
Warren Dean (Passaic, 17 de outubro de 1932 – Santiago do Chile, 21 de maio de 1994) foi um historiador estadunidense de destaque, reconhecido principalmente como brasilianista e por suas contribuições pioneiras à história ambiental. Dean nasceu em Nova Jersey e, ainda na adolescência, mudou-se com sua família para Miami. Estudou na Universidade de Miami e serviu como oficial da Força Aérea dos EUA, atuando como controlador de tráfego aéreo durante a Guerra da Coreia. Após o serviço militar, dedicou-se à história latino-americana na Universidade da Flórida, onde defendeu em 1964 sua dissertação sobre a elite industrial de São Paulo.
Como professor, lecionou primeiro na Universidade do Texas em Austin e, posteriormente, na Universidade de Nova York, onde permaneceu até sua morte. Sua carreira acadêmica produziu vários livros importantes sobre a história econômica e ambiental do Brasil, incluindo estudos sobre industrialização, monocultura e relações ambientais.
Sua obra mais influente, A Ferro e Fogo: a história e a devastação da Mata Atlântica Brasileira, representa um marco na história ambiental ao colocar o bioma da Mata Atlântica no centro da narrativa histórica sobre o Brasil. O livro recebeu o Bolton-Johnson Prize postumamente, reforçando a importância de sua contribuição acadêmica. Além de historiador, Dean se engajou politicamente ao organizar o Comitê Americano para Informação sobre o Brasil durante o regime militar, documentando e criticando o uso de tortura no país.
Warren Dean morreu tragicamente em Santiago do Chile, vítima de asfixia por um vazamento de gás, pouco depois de concluir sua obra sobre a Mata Atlântica. (Fonte da biografia: Wikipédia). Este texto tem como fonte o anexo, e passou por revisão de IA.

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