"Eu sou o que me cerca. Se eu não preservar o que me cerca, eu não me preservo".
José Ortega y Gasset

quinta-feira, 17 de setembro de 2026

Rio Esperança: quando a pesquisa termina, a história continua

Banner apresentado na MIPE
Vamos contar a história de uma de nossas ICs. Em abril de 2010, os meios de comunicação anunciaram a construção de uma usina hidrelétrica na comunidade de Rio Esperança, município de Rio dos Cedros, na sub-bacia hidrográfica do rio Benedito. O empreendimento seria realizado pela empresa canadense Brookfield Energia Renovável, com investimento previsto de R$ 120 milhões, e a Pequena Central Hidrelétrica (PCH) Arrozeira Meyer teria capacidade de geração de 27 megawatts, suficiente, segundo as informações divulgadas na época, para atender a uma população de até 100 mil habitantes.

Mas havia uma outra dimensão nessa notícia que nos chamou a atenção: a comunidade de Rio Esperança era formada por 46 famílias, parte das quais seria indenizada para deixar suas propriedades em razão da implantação do empreendimento. Ainda não havia, naquele momento, um prazo definido para a saída das famílias. Essas informações chegaram até nós, foram filtradas pelo nosso grupo e despertaram o interesse em conhecer esse processo de perto. Afinal, mais do que uma obra de engenharia e um investimento de milhões de reais, a construção de uma hidrelétrica significava uma transformação profunda no território, envolvendo propriedades, famílias, relações sociais, paisagem, rio e formas de apropriação da natureza.

A partir daí, iniciamos um pequeno levantamento para tentar entender melhor a situação. Foi nesse movimento que surgiu a ideia de transformar aquela inquietação em uma pesquisa de Iniciação Científica. Gilberto trouxe a ideia e a vontade de desenvolver o estudo, além dos primeiros rascunhos do projeto. Analisamos o material, discutimos juntos e fomos dando forma à proposta. Assim nasceu o projeto “A construção de hidroelétrica a ser realizada na comunidade de Rio Esperança (Rio dos Cedros, Santa Catarina): um estudo sob enfoque da História Ambiental”, executado pelo estudante pesquisador bolsista Douglas Ricardo Grubel sob orientações de Gilberto Friedenreich dos Santos. Submetemos a proposta ao Programa Institucional de Bolsas de Iniciação Científica (PIBIC), na tentativa de conseguir uma bolsa e contratar um estudante de História para assumir essa missão de pesquisa.

Conseguimos o recurso por meio do programa de Iniciações Científicas PIBIC-FURB, uma modalidade contrapartida institucional ao PIBIC/CNPq. Para nós, naquele momento, a conquista da bolsa significava mais do que financiamento: significava a possibilidade concreta de transformar uma notícia que havia despertado nossa curiosidade em uma investigação histórica.

A pesquisa foi desenvolvida ao longo de 2010, chegando até o final de outubro daquele ano. O estudo procurou compreender o processo de construção da hidrelétrica e, sobretudo, as transformações que ele poderia provocar na comunidade de Rio Esperança. Vista pela perspectiva da História Ambiental, a questão deixava de ser apenas a construção de uma infraestrutura energética. Tratava-se de observar as relações entre sociedade, território e natureza e perceber como diferentes interesses se encontravam, e entravam em tensão, diante da transformação de um rio, de uma paisagem e do espaço vivido por uma comunidade.

O nome do município, Rio dos Cedros, é em si um registro histórico: deriva da antiga abundância do cedro, preciosa madeira de lei que outrora dominava a paisagem (Santos; Grubel, 2011). Sob esta lente, o relevo e o rio não são cenários passivos, mas protagonistas que condicionaram desde a colonização trentina até o interesse contemporâneo do capital energético. O conflito em Rio Esperança coloca em xeque a convivência entre a herança biofísica do território e o imperativo técnico-industrial da geração de energia.

A sub-bacia do Rio Benedito e do Rio Esperança não é um alvo fortuito para a exploração hidrelétrica; sua geologia atua como um agente que dita o destino econômico da região. O território situa-se em uma zona de transição entre o planalto sedimentar da Bacia do Paraná e as rochas gnáissicas do Complexo Granulítico de Santa Catarina. Essa "discordância litológica" cria fortes rupturas de declive e um elevado gradiente nos canais de drenagem, fatores naturais que definem o potencial para o barramento das águas (Santos; Grubel, 2011).

A paisagem, caracterizada pelo domínio das serras litorâneas e um leito rochoso acentuado, é banhada por um regime climático mesotérmico e superúmido, garantindo um escoamento superficial concentrado. O fato de o município ser cercado por serras atua como um facilitador geográfico para a inundação necessária à barragem. Assim, a configuração abiótica do Rio Esperança, suas quedas e seu encaixe nas montanhas, é o legado natural que atrai o projeto de 27 megawatts, capaz de atender 100 mil habitantes, mas que exige a submersão de ecossistemas locais.

A ocupação humana, iniciada em 1875, foi impulsionada por fatores externos como a Revolução Industrial e a Guerra Franco-Prussiana, que trouxeram imigrantes trentinos ao Vale do Itajaí. A relação inicial com a Mata Atlântica foi de enfrentamento e transformação para garantir a sobrevivência. Na década de 1940, o ciclo do tabaco consolidou a integração da comunidade ao mercado, convivendo com uma economia de subsistência rigorosa. O depoimento de Egídio Pedrelli detalha o ritmo e a agressividade desse processo:

Era um capoeirão e aí a gente derrubava tudo... Queimava, fazia montes, botava fogo sempre mais de noitinha, botávamos fogo aqui embaixo e o fogo ia embora. (Egídio Pedrelli, 2011 apud Santos; Grubel, 2011).


A autossuficiência da época é reforçada por Romilda Gaulke, que descreve como a natureza era processada internamente:


Era muito difícil o trabalho antigamente, só que eles diziam para mim que eles gastavam menos do que nós agora por que eles tinham tudo em casa, só precisam comprar o trigo no mercado por que nós tínhamos o açúcar vermelho da cana, tinha o fubá de milho, a polenta era moída, também tinha sozinho, então era pouca coisa que nós comprávamos né. (Romilda Gaulke, 2011 apud Santos; Grubel, 2011).


A Madeireira Beyer, que operava na comunidade explorando lenha e madeira de lei, funcionava como o nó central entre o trabalho agrícola e a extração florestal. Seu fechamento na década de 1980 marcou a transição para uma vida urbana e operária, alterando novamente a fisionomia da paisagem (Santos; Grubel, 2011).

A exploração das águas de Rio dos Cedros segue um ciclo histórico de rupturas. A construção da Usina Palmeiras, na década de 1950, foi o primeiro grande marco de transformação, desviando a mão de obra da agricultura para as obras de infraestrutura e iniciando a desvalorização do modo de vida agropastoril. O projeto atual da PCH Arrozeira Meyer insere-se na mesma lógica, agora amparada pelo discurso do "desenvolvimento sustentável" e da "energia limpa".

Entretanto, o relatório de Grubel e Santos destaca que tais conceitos camuflam impactos bióticos severos, como a submersão de espécies e alteração de habitats. O processo administrativo, segundo o prefeito Fernando Tomaselli, indicava uma probabilidade de 90% para a construção da usina, com o Estudo de Impacto Ambiental (EIA) sob análise da FATMA (Santos; Grubel, 2011). A "angústia da falta de resposta" relatada por moradores como Jordana Agostini revela que o discurso do desenvolvimento raramente contempla o cronograma de vida das populações afetadas, gerando um estado de suspensão e incerteza sobre o futuro das terras e das indenizações.

O impacto social sobre as 46 famílias de Rio Esperança era mediado por uma distância corporativa acentuada. A Brookfield utilizava a Empresa Tecnologia do Solo e Serviços (ETS) como intermediária para as medições e avaliações de propriedades, o que aprofunda a sensação de isolamento da comunidade. Para os moradores idosos, a perda da terra não representa apenas um prejuízo financeiro, mas a desintegração de uma identidade cultural construída sobre o manejo secular do solo.

A falha na comunicação institucional é um dos pontos mais críticos do conflito. José Braulio Pires descreve a precariedade do diálogo estabelecido pela empresa e pelo poder público:

Foi no grito, três ou quatro dias antes a Celesc passou nas casas com um convite para a reunião, eu nem estava aqui, eu estava lá para Volta Grande... Cada um escutou ali e aí nós ficamos esperando a contra proposta deles, mas não teve uma contra proposta outra reunião. (José Braulio Pires, 2011 apud Santos; Grubel, 2011).


A ausência de uma "contraproposta" ou de um canal contínuo de informação transformou a legítima busca por energia renovável em um processo de desarticulação social, onde o direito à estabilidade cultural dos remanescentes da colonização é negligenciado em favor da urgência energética. 

A contribuição desta IC de Grubel e Santos para a História Ambiental do Vale do Itajaí reside em demonstrar que a trajetória da comunidade de Rio Esperança é indissociável de suas características físicas. O potencial hídrico, gerado pela discordância litológica e pelas serras que outrora abrigavam os cedros, tornou-se o elemento de vulnerabilidade da comunidade frente ao avanço industrial.

Douglas na 5 MIPE

O caso de Rio Esperança sintetiza o dilema contemporâneo: até que ponto a busca por matrizes energéticas renováveis justifica a desarticulação de modos de vida tradicionais e a transformação irreversível de ecossistemas locais? A história dessa comunidade revela que, enquanto o capital busca a fluidez das águas, os moradores lutam pela solidez de suas raízes e pela resposta que o "silêncio" dos projetos de desenvolvimento teima em não fornecer.

É assim que algumas de nossas ICs começam: às vezes, com uma notícia de jornal, uma inquietação e a vontade de entender melhor o que está acontecendo no território. A partir daí, vem a pesquisa, a discussão coletiva, a elaboração do projeto, a busca por financiamento e, finalmente, o trabalho de um estudante que transforma aquela primeira pergunta em investigação histórica. Esse é um recorte, agora se tiver um tempo, acesse o relatório da IC:

GRUBEL, Douglas Ricardo. SANTOS, Gilberto Friedenreich dos. A construção de hidroelétrica a ser realizada na comunidade de Rio Esperança (Rio dos Cedros, Santa Catarina): um estudo sob enfoque da história ambiental. Relatório final de Iniciação Científica PIBIC/FURB. Blumenau: Grupo de Pesquisas de História Ambiental do Vale do Itajaí (GPHAVI). 2011.


Essa é uma dessas histórias. Mas depois não fizemos avanços na pesquisa, e não conseguimos mais acompanhar. E o que será que aconteceu, passado todo esse tempo? Quinze anos depois daquela pesquisa, o cenário é outro. A PCH Arrozeira Meyer, que em 2011 ainda era um projeto cercado de incertezas e cuja construção sequer havia começado, avançou no processo de licenciamento e implantação. A autorização do empreendimento passou posteriormente para a Arrozeira Meyer Energia S.A., o projeto foi atualizado para 24 MW e, em 2025, o IMA concedeu a Licença Ambiental de Implantação. Em 2026, as obras já estão em andamento na região de Rio Esperança, e o cronograma oficial prevê o enchimento do reservatório em setembro e o início da operação comercial das unidades geradoras no final deste ano. Mas ainda fica a pergunta: e aquelas pessoas? E quais impactos sua implantação está proporcionando neste exato momento? 

Fonte

Aquela IC de 2011 registrou um território antes da transformação. O que em 2011 era uma possibilidade e motivo de apreensão entre as famílias entrevistadas, de lá para cá, tornou-se uma obra em implantação. A história, que parecia terminar com o relatório de pesquisa, continuou acontecendo mas no território. E talvez seja justamente aí que a pesquisa histórica encontre uma de suas maiores forças: perceber que o objeto pesquisado não permanece parado depois que o pesquisador encerra seu trabalho. Quinze anos depois, aquele território é outro, as condições são outras e as perguntas também podem ser outras. Será que, diante dessas novas transformações, aquela pesquisa voltará a ser feita?

OBS.: Declaro que a autoria intelectual e a responsabilidade pelo conteúdo deste texto são humanas. O texto foi elaborado a partir de pesquisa, seleção, interpretação e análise realizadas pelo autor. Durante o processo de elaboração e revisão, foram utilizadas ferramentas de Inteligência Artificial, especificamente o NotebookLM e o ChatGPT, como instrumentos auxiliares na organização das informações, aprimoramento da redação, revisão e adaptação textual. A utilização dessas ferramentas não substituiu a autoria, a análise crítica ou a responsabilidade do autor pelo conteúdo apresentado. Todas as informações, argumentos, interpretações e referências foram revisados e validados pelo autor, que permanece integralmente responsável pela versão final do texto.

sexta-feira, 11 de setembro de 2026

Quando um edifício vira poeira: o que o 11 de Setembro pode ensinar à História Ambiental?

Fonte

Em 11 de setembro de 2001, o mundo acompanhou a destruição das Torres Gêmeas do World Trade Center, em Nova York. As imagens daquele dia foram registradas principalmente como imagens de um atentado terrorista: aviões atingindo edifícios, torres em chamas, pessoas fugindo e, depois, uma enorme nuvem cobrindo as ruas de Manhattan. Mas existe outra dimensão daquele acontecimento que merece ser observada naquela história.

O que aconteceu com o ambiente quando dois dos maiores edifícios de Nova York deixaram de existir?

Essa pergunta desloca o olhar, pois lá, naquele momento, o que era concreto tornou-se poeira. Vidro, aço, gesso, fibras, madeira, papel, materiais sintéticos e outros componentes do ambiente construído foram fragmentados, queimados, misturados e dispersos. Parte desse material foi carregada pela atmosfera, a outra parte depositou-se nas ruas, nos edifícios e nas residências. Trabalhadores, moradores, bombeiros e equipes de resgate passaram a respirar um ambiente que havia sido produzido pela própria cidade. É nesse ponto que o 11 de Setembro pode ser aproximado da História Ambiental.

Fonte:


Não se trata, nesta postagem, de propor uma história ambiental do atentado, de seus antecedentes ou de suas consequências. A intenção é mais especulativa, partiu de uma curiosidade minha após este último dia 11, e de algumas reportagens que assisti em minhas redes sociais sobre os efeitos da poeira. Assim achei algumas fontes para compreender aquele acontecimento com um olhar da história ambiental. 

Entre os trabalhos que permitem fazer essa aproximação está o artigo “Environments of Terror: 9/11, World Trade Center Dust, and the Global Nature of New York’s Toxic Bodies”, publicado pelo historiador Brett L. Walker, em 2015, na revista Environmental History. O texto faz parte de um fórum da revista dedicado às relações entre tecnologia, ecologia e saúde humana no contexto do Antropoceno. Walker parte de uma questão que ultrapassa a narrativa convencional do atentado: o que aconteceu com os materiais que constituíam o World Trade Center quando as torres ruíram? O historiador chama atenção para o fato de que o World Trade Center não era apenas um conjunto de edifícios. Era um enorme sistema tecnológico composto por diferentes materiais, substâncias e tecnologias, muitos deles produzidos a partir de recursos extraídos, transformados e transportados de diferentes partes do mundo.

Fonte

Quando os edifícios desabaram, essa infraestrutura, que já carregava em sua materialidade uma história de extração, transformação industrial e circulação dos recursos que deram origem aos materiais utilizados em sua construção, foi convertida em uma mistura de poeira, fumaça e fragmentos. Walker sintetiza essa transformação ao afirmar que: “The WTC eventually became an agent of history itself”  (Walker, 2015). A formulação é provocativa porque modifica a posição ocupada pelo edifício na narrativa. O World Trade Center deixa de ser somente cenário de uma ação humana. Sua própria materialidade passa a participar da história. 

No caso do World Trade Center, entretanto, existe uma particularidade, a de estar diante de um ambiente construído. Concreto, aço, vidro, gesso, fibras e materiais sintéticos não são simplesmente “natureza”. Mas tampouco existem fora dela. São resultado de cadeias históricas de extração mineral, produção industrial, circulação de mercadorias, desenvolvimento tecnológico, trabalho e consumo. O edifício, portanto, condensava uma história ambiental anterior ao próprio 11 de Setembro. Quando as torres ruíram, essa história material foi reorganizada de maneira abrupta.

A pesquisa realizada pelo U.S. Geological Survey (USGS) logo após o desastre fornece uma documentação particularmente importante para perceber esse processo. A pedido da EPA e do Public Health Service, pesquisadores do USGS realizaram estudos de sensoriamento remoto e caracterização mineralógica da região de Lower Manhattan. Amostras foram coletadas em mais de 35 localidades dentro de um raio de aproximadamente um quilômetro do World Trade Center. Os pesquisadores identificaram na poeira materiais como vidro, gesso, concreto e outras substâncias relacionadas à construção dos edifícios. Também foram identificados vestígios de crisotila, uma forma de amianto, uma substância que danifica a saúde humana quando respirada.

A cidade havia produzido aquele ambiente durante décadas. Mas estava isolado e "em coma", mas em algumas horas, o ambiente produzido transformou-se em material disperso pelo ambiente urbano. Essa transformação pode ser tomada como um problema histórico. A poeira também tem uma história, e talvez nenhum elemento seja tão importante para essa discussão quanto a poeira.

Um dos primeiros estudos científicos detalhados foi realizado por Paul J. Lioy, Clifford P. Weisel, James R. Millette e outros pesquisadores, que analisaram amostras da poeira e da fumaça depositadas a leste do World Trade Center nos dias 16 e 17 de setembro de 2001. Os pesquisadores encontraram uma mistura complexa de materiais de construção e produtos da combustão, incluindo metais, fibras, amianto, hidrocarbonetos aromáticos policíclicos, PCBs, dioxinas, furanos, pesticidas e outros compostos. As amostras eram compostas principalmente por materiais provenientes da construção, fuligem, tintas e fibras de vidro.

O concreto, enquanto parte do edifício, possuía uma função. A partir do colapso, passou a integrar uma nuvem de partículas. O vidro deixou de cumprir sua função arquitetônica e tornou-se fragmento. Materiais utilizados para proteção contra incêndios foram pulverizados. Substâncias incorporadas ao ambiente construído passaram a circular pela atmosfera. A natureza, nesse caso, não aparece como simples cenário. O ar transporta partículas. O vento dispersa materiais. A chuva deposita e desloca substâncias. Os edifícios recebem a poeira. Os sistemas de ventilação podem redistribuí-la. Os corpos humanos tornam-se lugares de exposição. A atmosfera participa do acontecimento, uma catástrofe que continuou depois do colapso.

Outra contribuição importante vem do estudo de Philip J. Landrigan, Paul J. Lioy, George Thurston e colaboradores, publicado em 2004 em Environmental Health Perspectives. Os pesquisadores classificaram o episódio como uma grande catástrofe ambiental e analisaram diferentes formas de exposição: ar ambiente, poeira depositada em ambientes externos e internos, dispersão atmosférica e efeitos sobre diferentes grupos da população. O estudo mostrou que a concentração de partículas foi maior imediatamente depois do ataque e diminuiu com a distância do local do colapso. A poeira apresentava elevada alcalinidade e continha, entre outros componentes, cimento pulverizado, fibras de vidro, amianto, chumbo, PAHs, PCBs, dioxinas e furanos.

A poeira também atravessou uma fronteira que normalmente separa o ambiente público do privado. Pesquisas posteriores encontraram contaminantes em ambientes internos de Lower Manhattan. Um estudo publicado em Journal of Exposure Science & Environmental Epidemiology analisou poluentes orgânicos persistentes presentes na poeira depositada dentro de edifícios após o desastre. Isso significa que o problema ambiental não estava restrito ao espaço imediatamente próximo ao Ground Zero. A poeira podia entrar em apartamentos, escritórios e outros ambientes fechados.

Quem morava próximo ao World Trade Center? Quem trabalhava nos edifícios? Quem permaneceu na região? Quem participou da limpeza? Quem possuía condições de abandonar temporariamente sua residência? Quem teve acesso a informações sobre os riscos? A distribuição da exposição não era necessariamente igual. O ambiente, portanto, também pode revelar desigualdades sociais.

É possível avançar ainda mais nessa interpretação. Na narrativa tradicional de um desastre urbano, tendemos a imaginar uma sequência simples: ação humana → destruição → consequência ambiental. Mas com um olhar voltado para a A História Ambiental podemos experimentar outra perspectiva: sociedade + infraestrutura + materiais + atmosfera + fogo + água + corpos + trabalho + instituições → produção de um novo ambiente. Nesse modelo, o ambiente não aparece apenas depois da ação humana. Ele participa da própria transformação histórica. O fogo altera os materiais. O ar transporta partículas. O vento interfere na dispersão. A chuva modifica a deposição. Os sistemas de ventilação redistribuem a poeira. Os corpos humanos incorporam parte desse ambiente. A limpeza remove, desloca e reorganiza resíduos. A reconstrução modifica novamente o espaço. São processos físicos e químicos, mas também sociais, econômicos, políticos e culturais. É nesse cruzamento que a História Ambiental encontra outras áreas da historiografia. Uma história também do trabalho, da economia e do poder. A poeira não atingiu todos da mesma maneira. Bombeiros, policiais, equipes médicas, trabalhadores da construção, voluntários, moradores e trabalhadores de Lower Manhattan estabeleceram diferentes relações com aquele ambiente. 

A história da limpeza do Ground Zero, por exemplo, pode ser analisada como História do Trabalho: quais trabalhadores participaram da remoção? Quais equipamentos de proteção estavam disponíveis? Como os riscos eram conhecidos ou desconhecidos? Como o trabalho foi organizado? Pode também ser analisada como História Política: quais instituições produziram informações sobre a qualidade do ar? Como os riscos foram comunicados? Que decisões foram tomadas? E pode ser estudada como História Econômica: quais materiais foram utilizados na construção? De onde vieram? Que cadeias produtivas estavam envolvidas? Como foram organizados os processos de remoção dos escombros e reconstrução? 
Há ainda uma História Cultural: como a poeira foi representada nas fotografias, nos jornais, nos filmes, nos relatos dos sobreviventes e na memória do acontecimento? O ambiente permite conectar essas dimensões.

Existe outro aspecto particularmente interessante. Os estudos científicos realizados depois do atentado não servem apenas para descobrir “o que havia na poeira”. Eles próprios constituem documentos históricos. O relatório do USGS, por exemplo, registra uma ciência produzida em situação de emergência. O estudo começou poucos dias depois do ataque. Técnicas de sensoriamento remoto, espectroscopia, microscopia e análises químicas foram mobilizadas para responder a problemas concretos de uma cidade atingida por uma catástrofe. Isso permite ao historiador perguntar: Como uma sociedade produz conhecimento sobre um ambiente quando ainda não sabe exatamente quais são os riscos que está enfrentando? Essa pergunta desloca a pesquisa para a História da Ciência e da Tecnologia, por exemplo. O conhecimento sobre a poeira também possui uma história: coleta de amostras, escolha de métodos, elaboração de mapas, identificação de substâncias, interpretação dos resultados, comunicação pública e revisão posterior. A própria produção do conhecimento ambiental torna-se parte da história.

É importante não transformar essa perspectiva em uma explicação alternativa que substitua as demais. O que a História Ambiental pode fazer é acrescentar outra pergunta: o que aconteceu com o mundo material quando esse acontecimento atingiu uma das maiores estruturas urbanas do planeta? Essa pergunta revela uma história que estava presente desde antes da queda das torres.

O World Trade Center era resultado de mineração, indústria, engenharia, arquitetura, energia, trabalho, circulação internacional de materiais e expansão urbana. Sua destruição reorganizou temporariamente esses materiais em outra forma ambiental: uma nuvem de partículas, fumaça e resíduos. Nesse sentido, o artigo de Brett Walker oferece uma chave interpretativa particularmente interessante. O historiador relaciona os materiais presentes nos edifícios a redes globais de extração e circulação e argumenta que os corpos dos nova-iorquinos passaram a carregar materiais cuja história começava muito antes de 11 de setembro de 2001. A história de um mineral extraído em determinado lugar podia terminar, décadas depois, no corpo de uma pessoa que respirou a poeira do World Trade Center. Essa conexão entre extração, circulação, construção, destruição e exposição constitui uma das possibilidades mais interessantes para uma História Ambiental do episódio.

Mas! O que ainda pode ser investigado? As fontes disponíveis permitem imaginar várias pesquisas. Uma delas poderia reconstruir a história ambiental dos materiais que compunham o World Trade Center: de onde vieram, como foram transformados, por que foram utilizados e o que aconteceu com eles após o colapso. Outra poderia acompanhar a história da poeira, desde sua formação até sua deposição, remoção e eventual ressuspensão. Também seria possível estudar a relação entre poeira, trabalho e desigualdade social, acompanhando trabalhadores, moradores e equipes de emergência, e as enfermidades e contaminações. Outra possibilidade seria investigar a história da produção científica sobre o desastre, observando como as instituições identificaram os riscos, produziram mapas, coletaram amostras e modificaram suas interpretações ao longo do tempo.

Fonte

E existe ainda uma dimensão pouco explorada pela historiografia ambiental, que é a transformação do próprio ambiente urbano de Lower Manhattan durante a limpeza e a reconstrução até o que é agora. Nesse sentido, o 11 de Setembro pode ser tomado menos como um objeto já fechado e mais como uma espécie de laboratório histórico para pensar as relações entre sociedade, tecnologia, materiais e ambiente.

Vinte e cinco anos depois, a pesquisa científica continua investigando os efeitos das exposições ocorridas em 2001. Isso também é historicamente significativo. Alguns acontecimentos possuem um momento claramente identificável. Outros continuam produzindo consequências durante décadas. O 11 de Setembro pertence às duas categorias. 

Existe o dia do acontecimento: 11 de setembro de 2001. Mas existe também uma sequência posterior de exposições, doenças, pesquisas, disputas, políticas públicas, reconstrução, memória e produção de conhecimento. E pelo olhar da História Ambiental essa continuidade mereça atenção. A queda das torres produziu uma paisagem que durou mais do que o instante do colapso. Produziu resíduos, alterou a atmosfera local, reorganizou espaços de trabalho e moradia e colocou em circulação materiais que antes estavam incorporados à infraestrutura urbana. 

O caso também mostra que aquilo que chamamos de “ambiente” pode estar dentro de uma parede, em uma coluna de aço, em uma janela, em um sistema de ventilação ou em uma camada de poeira acumulada sobre o chão. A História Ambiental pode, portanto, olhar para o 11 de Setembro não para substituir sua história política, social ou cultural, mas para acrescentar uma pergunta sobre a materialidade do acontecimento. Quando uma sociedade constrói uma cidade com materiais extraídos, transformados e distribuídos por redes globais, onde termina a história desses materiais quando o edifício desaba? Talvez a resposta esteja justamente na poeira.

Há, porém, uma outra história do 11 de Setembro que também merece ser explorada: a história das pessoas que viveram aquele momento, diretamente no local dos acontecimentos ou a milhares de quilômetros dali, enquanto seguiam suas vidas cotidianas e, de repente, foram atravessadas por uma notícia que parecia impossível. As imagens transmitidas pela imprensa, a apreensão, o silêncio, as informações desencontradas e a sucessão de acontecimentos transformaram aquele dia em uma experiência compartilhada mundialmente, mas vivida de maneiras muito diferentes.

E aqui entra também uma memória pessoal. Naquele 11 de setembro de 2001, eu estava em Madrid, na Espanha. Trabalhava como camarero no Restaurante Krüger, Cervecería Alemana, no centro da cidade. Estava servindo as mesas quando comecei a perceber o espanto dos clientes. Aos poucos, todos dirigiam a atenção para as televisões espalhadas pelo restaurante. Jornalistas visivelmente emocionados, imagens ainda fragmentadas, um clima de suspense e pessoas tentando compreender o que estava acontecendo.

As primeiras imagens da torre atingida ainda não permitiam compreender toda a dimensão do acontecimento. Lembro de ouvir algumas pessoas dizendo que poderia ter sido um míssil. Até que as imagens e as informações começaram a esclarecer o que estava acontecendo. E, naquele exato momento, aconteceu algo que tornou aquela lembrança ainda mais peculiar. O alarme de incêndio da cozinha disparou. Meus colegas, muitos deles cozinheiros filipinos, também estavam acompanhando as imagens pela televisão enquanto trabalhavam. A chapa havia pegado fogo. O problema foi rapidamente controlado, mas a cena ficou gravada na minha memória: as imagens das torres na televisão, o espanto dos clientes, o movimento do restaurante e, ao mesmo tempo, o alarme de incêndio soando na cozinha.

Eu estava havia algum tempo em Madrid, trabalhando e vivendo ali, e tinha minha passagem marcada para o dia 20 de setembro para retornar ao Brasil. Poucos dias antes de voltar, o mundo parecia outro. Nessa época não imagina o que era História Ambiental. Ao voltar para o Brasil retomei meus estudos na FURB, cursando História, aí depois chegamos aos dias de hoje.

Minha lembrança é esta. E a sua? O que você estava fazendo quando soube dos ataques de 11 de setembro de 2001? Onde estava? O que viu, ouviu ou sentiu naquele momento?

Se esta postagem despertou alguma lembrança, deixe seu comentário. Essas memórias também ajudam a construir a história de um acontecimento que, de diferentes maneiras, atravessou o ambiente, os corpos e o cotidiano de pessoas em todo o mundo. Caso tenha interesse pelo assunto, veja as seguintes fontes:


WALKER, Brett L. Environments of Terror: 9/11, World Trade Center Dust, and the Global Nature of New York’s Toxic Bodies. Environmental History, v. 20, 2015, p. 779–795. O artigo constitui a principal referência historiográfica utilizada nesta postagem, especialmente por discutir o 11 de Setembro a partir das relações entre ambiente construído, materialidade, poeira, toxicidade, corpos e História Ambiental. 

LIOY, Paul J.; WEISEL, Clifford P.; MILLETTE, James R. et al. Characterization of the dust/smoke aerosol that settled east of the World Trade Center (WTC) in lower Manhattan after the collapse of the WTC 11 September 2001. Environmental Health Perspectives, v. 110, n. 7, 2002, p. 703–714. O estudo é fundamental para compreender a composição da poeira e da fumaça depositadas após o colapso das torres, identificando diferentes materiais e contaminantes presentes no ambiente.

LANDRIGAN, Philip J.; LIOY, Paul J.; THURSTON, George et al. Health and environmental consequences of the World Trade Center disaster. Environmental Health Perspectives, v. 112, n. 6, 2004, p. 731–739. O artigo apresenta uma síntese das consequências ambientais e sanitárias do desastre, examinando a exposição à poeira, aos poluentes atmosféricos e aos materiais liberados após o colapso.

CLARK, Roger N.; GREEN, Robert O.; SWAYZE, Gregg A. et al. Environmental studies of the World Trade Center area after the September 11, 2001 attack. U.S. Geological Survey, Open-File Report 2001-429, 2001. O relatório registra uma das primeiras grandes investigações ambientais realizadas após o ataque, incluindo análises de materiais, poeira, partículas e áreas afetadas no entorno do World Trade Center.

CLARK, Roger N.; MEEKER, Greg; PLUMLEE, Geoffrey S.; SWAYZE, Gregg A. USGS environmental studies of the World Trade Center area, New York City, after September 11, 2001. U.S. Geological Survey, Fact Sheet 050-02, 2002. A publicação apresenta uma síntese das pesquisas ambientais realizadas pelo USGS, incluindo informações sobre os materiais encontrados, a distribuição dos resíduos e as condições ambientais observadas após o colapso.

OBS.: Declaro que a autoria intelectual e a responsabilidade pelo conteúdo deste texto são humanas. O texto foi elaborado a partir de pesquisa, seleção, interpretação e análise realizadas pelo autor. Durante o processo de elaboração e revisão, foram utilizadas ferramentas de Inteligência Artificial, especificamente o NotebookLM e o ChatGPT, como instrumentos auxiliares na organização das informações, aprimoramento da redação, revisão e adaptação textual. A utilização dessas ferramentas não substituiu a autoria, a análise crítica ou a responsabilidade do autor pelo conteúdo apresentado. Todas as informações, argumentos, interpretações e referências foram revisados e validados pelo autor, que permanece integralmente responsável pela versão final do texto.

quarta-feira, 2 de setembro de 2026

Uma análise da religião e meio Ambiente na Grécia Antiga segundo J. Donald Hughes

Esta análise fundamenta-se no capítulo 6 "Greek religions and the natural environmental", integrante da obra seminal Ecology in ancient civilizations (1975), de J. Donald Hughes. Sob a ótica da História Ambiental, o objetivo desta postagem é divulgar como o pensamento helênico não concebia a natureza como um cenário inerte para a ação humana, mas como um agente dotado de vontade e sacralidade. 

Para Hughes (1975), o sistema religioso grego operava como um mediador fundamental entre a sociedade e o ecossistema, estabelecendo limites éticos para a exploração de recursos. Para os gregos antigos, o meio ambiente era a própria esfera de atividade dos deuses. A religião grega constituía-se, essencialmente, como uma adoração da natureza, onde as divindades governavam e agiam através de elementos biofísicos tangíveis. 

. A agência natural era interpretada por meio de atribuições específicas:

-Zeus: Divindade dos fenômenos atmosféricos e climáticos. Controlava ventos e tempestades; nas palavras de Homero, quando o tempo era tempestuoso, dizia-se que "Zeus choveu a noite inteira".

-Poseidon: Originalmente vinculado ao submundo das nascentes e aos sismos que sacudiam montanhas, consolidou-se como o senhor dos mares.

-Atena: Embora associada à sabedoria, mantinha vínculos biológicos arcaicos com a coruja, a serpente e a oliveira sagrada.

-Ártemis: Sob o título de Potnia Theron (Senhora das Feras), atuava como guardiã da natureza selvagem e protetora da fertilidade animal.

-Deméter: Patrona da biologia das plantas; o crescimento dos grãos era visto como a própria divindade em ação (Hughes, 1975).

https://segredosdomundo.r7.com/deuses-da-mitologia/

A residência dos deuses em locais como o Monte Olimpo ou o Monte Ida reforçava a conexão entre o território geográfico e a estrutura religiosa, transformando paisagens de beleza selvagem em espaços de manifestação divina. A espacialidade do culto grego era intrinsecamente ecológica. Diferente das religiões centradas em edificações, o verdadeiro culto grego ocorria ao ar livre, nos bosques sagrados denominados alsos. 

Conforme observa Hughes (1975), os templos eram meros abrigos para imagens e oferendas, a sacralidade residia no ecossistema circundante. Os gregos não concebiam uma área sagrada sem árvores, a ponto de, na Acrópole de Atenas, que tinha um cume rochoso, buracos serem escavados na rocha sólida para o plantio de fileiras de árvores ao lado do Partenon.

A instituição do temenos (território demarcado) impunha restrições práticas: a proibição do pastoreio, do fogo e do machado. Essas áreas funcionavam como parques seminaturais onde a flora, como os ciprestes de Psophis (conhecidos como "As Donzelas"), atingia dimensões colossais devido à proteção. A gestão religiosa de recursos era tão rigorosa que a tentativa dos fócios de cultivar a planície de Crisa, dedicada a Apolo e devolvida ao estado selvagem, foi o estopim oficial para a Terceira Guerra Sagrada (Hughes, 1975). A fauna também recebia proteção, a caça era banida e certas espécies, como as corujas de Atena, eram consideradas intangíveis por representarem presságios ou formas metamórficas do divino.

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A integração entre biologia e cultura manifestava-se nos Mistérios de Elêusis através do mito de Deméter e Perséfone. Hughes (1975) analisa essa narrativa como uma representação precisa da fenologia das plantas na Grécia. O acordo que determinava a permanência de Perséfone no submundo por quatro meses correspondia exatamente à estação seca grega, período de dormência vegetal.

Para os iniciados em Elêusis, a agricultura não era apenas técnica, mas uma participação no "ciclo interminável do ser". O nascimento, a morte e a renovação humana eram espelhados no ciclo das sementes, integrando a existência humana ao ritmo biológico da terra (Hughes, 1975).
Relações de Poder, Ordem e Consequências Ambientais
Na cosmologia grega, a alteração drástica da paisagem era vista como hubris, uma arrogância que desafiava a ordem natural. Hughes (1975) destaca como intervenções antrópicas, como os canais cortados em istmos (que transformavam penínsulas em ilhas) ou a ponte de barcos de Xerxes no Helesponto, eram interpretadas pela historiografia clássica como ofensas passíveis de punição divina. O Colosso de Rodes, derrubado por um sismo, é um exemplo emblemático: o Oráculo de Delfos proibiu seu reerguimento, interpretando a queda como evidência da ira divina contra a presunção técnica humana.

Além disso, Hughes demonstra que a ecologia grega era uma extensão da ética social. Através de Homero, observa-se que a produtividade da natureza estava vinculada à justiça da liderança política: o "julgamento tortuoso" dos governantes atraía tempestades e inundações que devastavam os campos (Ilíada), enquanto o "rei irrepreensível", que sustenta a justiça, garantia que a terra produzisse trigo, as árvores carregassem frutos e o mar rendesse peixes (Odisseia).

A preservação dos recursos hídricos era mediada por tabus religiosos que funcionavam como salvaguardas de saúde pública. Hesíodo registrou proibições severas contra a contaminação de rios e nascentes com resíduos humanos (Hughes, 1975). A natureza do solo também era sagrada; na literatura homérica, o deus Apolo censura Aquiles por arrastar o corpo de Heitor, acusando-o de estar "desonrando a terra silenciosa".

Mesmo quando a motivação era ritual, como a ira do rio Escamandro contra Aquiles por poluir suas águas com sangue e cadáveres, a consequência prática era a proteção do equilíbrio ecológico. A punição do rio, uma inundação de silte e lama, ilustra a resistência da agência natural contra o abuso humano.

Em suma, a análise de J. Donald Hughes (1975) revela que o equilíbrio ambiental na Grécia Antiga era o reflexo de uma ordem ética e religiosa. A apropriação de recursos não era estritamente econômica, mas mediada pela percepção de uma agência divina imanente na paisagem. A religião atuou como um mecanismo de regulação social que, através de tabus, proibições rituais e a sacralização de ecossistemas, retardou significativamente a degradação ambiental no Mediterrâneo, estabelecendo uma relação de respeito e cautela diante do mundo natural. 

E, como de praxe, se você chegou até aqui, acesse o Capítulo 6 — [clique aqui] — e inclua-o em sua coleção. Em postagens anteriores, já disponibilizamos os Capítulos 1 a 5 e, agora, com este novo conteúdo, completamos a disponibilização até o Capítulo 6

OBS.: Declaro que a autoria intelectual e a responsabilidade pelo conteúdo deste texto são humanas. O texto foi elaborado a partir de pesquisa, seleção, interpretação e análise realizadas pelo autor. Durante o processo de elaboração e revisão, foram utilizadas ferramentas de Inteligência Artificial, especificamente o NotebookLM e o ChatGPT, como instrumentos auxiliares na organização das informações, aprimoramento da redação, revisão e adaptação textual. A utilização dessas ferramentas não substituiu a autoria, a análise crítica ou a responsabilidade do autor pelo conteúdo apresentado. Todas as informações, argumentos, interpretações e referências foram revisados e validados pelo autor, que permanece integralmente responsável pela versão final do texto.

Referência

HUGHES, J. Donald. Greek religions and the natural environmental. In: HUGHES, J. Donald. Ecology in ancient civilizations. Albuquerque: University of New Mexico Press, 1975. p. 48-55

terça-feira, 25 de agosto de 2026

Ciência, Tecnologia e História Ambiental: interconexões com o território

Imagem produzida com IA - ChatGPT

A presente postagem surge de uma análise bibliográfica que usei em uma de minhas aulas de tecnociência e sociedade. O objetivo da aula era analisar a interação tecnologia e território, uma abordagem que articula as teorias geográficas de Milton Santos sobre o meio técnico-científico-informacional com os Estudos Sociais da Ciência e Tecnologia (CTS). Historicamente, a transição para este debate marca uma ruptura com o paradigma da "ciência neutra" que predominou em parte do século XX. 

Sob a ótica da História Ambiental e dos CTS, o conhecimento científico não é uma acumulação linear de verdades, mas uma produção situada em contextos socioterritoriais específicos. Esta mudança de perspectiva fundamenta-se na crise dos paradigmas tradicionais. Karl Popper (1934) estabeleceu o princípio da falseabilidade, argumentando que a validade científica reside na capacidade de uma teoria ser testada e contestada pelos fatos. Conforme Thomas Kuhn (1962), a ciência avança através de revoluções que substituem modelos consolidados quando estes deixam de explicar anomalias da realidade. Tais bases epistemológicas permitem analisar como a natureza e o espaço geográfico deixam de ser cenários passivos para se tornarem agentes centrais.  A análise que se segue convida o leitor a compreender o território como um agente que molda e é moldado por sistemas técnicos, em uma relação de mútua constituição (Santos, 1991; Pinheiro et al., 2009).

O território não é meramente uma base física, mas um espaço socialmente produzido pela interação entre sistemas técnicos e o ambiente (Santos, 1991). Nesta dinâmica, os elementos ambientais exercem agência ao condicionar e interagir com as infraestruturas. A hidrografia, o relevo e a composição do solo atuam como forças estruturantes que definem a viabilidade e a localização de redes digitais, sistemas de transporte e matrizes energéticas. A natureza participa da rede técnica através de processos como a adubação natural e a cobertura vegetal do solo. Por exemplo, a floresta desempenha funções de manutenção da porosidade da terra e ciclagem de nutrientes, desafiando o homem a despertar o conhecimento para atuar em parceria com a força biológica. 

Segundo Santos (1991), a incorporação de "capital constante", como sementes selecionadas, fertilizantes e sistemas informacionais, altera a composição orgânica do território. A sequência histórica observa-se da seguinte forma: a evidência de novas infraestruturas técnicas promove uma interpretação de reorganização do espaço para atender a fluxos globais, resultando em uma nova relação sociedade-natureza, na qual a paisagem é tecnificada e hierarquizada de acordo com sua densidade técnica.

O vídeo "Indígenas Digitais" fornece evidências históricas da apropriação tecnológica para a defesa ambiental. Ferramentas como câmeras e internet são ressignificadas como "arcos digitais", instrumentos de monitoramento e proteção do bioma. Esta transição configura o "Cyberativismo" (cyberativismo), onde a tecnologia é mobilizada para a preservação de territórios e direitos.




A agência indígena manifesta-se na utilização de vídeos como evidências materiais diante de órgãos estatais. Um exemplo central ocorre quando uma Cacique, impossibilitada de viajar a Brasília por falta de recursos, utiliza o registro audiovisual para denunciar queimadas criminosas praticadas por agentes externos diante de deputados. O habitus indígena interage com a rede técnica para transformar a "caça física" em uma "caçada virtual" por soberania e visibilidade global. A tecnologia, neste contexto, não descaracteriza a cultura, mas serve como continuação da história e instrumento de governança do território contra a degradação seletiva.

A transformação ambiental em periferias manifesta-se através de tecnologias sociais que respondem à ausência de infraestrutura estatal. Projetos como o "Litro de Luz" e as intervenções na Vila Nova Esperança demonstram que as soluções técnicas emergem da necessidade e do conhecimento local. Um marco relevante é a horta comunitária estabelecida em uma ZEPAN (Zona Especial de Preservação Ambiental), onde a comunidade converteu um espaço degradado em um instrumento de segurança alimentar e recuperação ecológica.


Estes casos reforçam a busca por Soberania Digital, onde as periferias deixam de ser apenas consumidoras de tecnologia para se tornarem desenvolvedoras de soluções que respeitam a identidade local.

A tecnologia não possui neutralidade, ela incorpora valores e decisões políticas (Winner, 1977). O acesso desigual a infraestruturas cria "periferias técnicas", reforçando assimetrias onde a técnica é orientada por racionalidades de mercado (Santos, 2000).  Andrew Feenberg (citado em Pinheiro et al., 2009) distingue entre a racionalização técnica dominante e a "Racionalização Subversiva". Esta última ocorre quando comunidades ressignificam sistemas técnicos para atender necessidades sociais e ambientais, como observado nas iniciativas da Vila Nova Esperança. Na perspectiva de Latour (2000), as "redes sociotécnicas" são compostas por atores humanos e não humanos (clima, artefatos, recursos naturais). A governança do território brasileiro, frequentemente marcada pela apropriação corporativa, demonstra como a concentração de recursos técnicos resulta em degradação ambiental seletiva, priorizando áreas integradas ao capital global (Nascimento Júnior, 2012).

A relação entre tecnologia e território é definida pela mútua constituição. A tecnologia fornece os fluxos e a reorganização da vida social, a natureza e o território oferecem as condições materiais e históricas. Assim o conceito de "Território-Rede" é fundamental, uma vez que a tecnologia não apenas se sobrepõe ao espaço físico, mas produz novos territórios simbólicos e informacionais, como as zonas de segurança ou risco demarcadas por aplicativos (Latrônico et al., 2019).

A indissociabilidade entre técnica, sociedade e ambiente revela que o desenvolvimento econômico e a transformação da paisagem são processos simultâneos. A tecnociência, portanto, é um fenômeno enraizado no qual a preservação ambiental e a justiça social dependem da democratização dos sistemas técnicos e do reconhecimento da agência dos territórios sobre as ferramentas que os habitam.

A análise da relação entre ciência, tecnologia e território amplia as possibilidades interpretativas da História Ambiental ao permitir compreender que as transformações da natureza não resultam apenas de decisões econômicas, políticas ou sociais, mas também das técnicas, dos conhecimentos e das infraestruturas que tornam determinadas formas de apropriação ambiental historicamente possíveis. A tecnologia, nesse sentido, deve ser compreendida como uma mediação histórica das relações entre sociedade e natureza, e não como um elemento neutro ou externo aos processos ambientais.

Essa perspectiva também permite superar a compreensão do território como simples cenário dos acontecimentos. O território é simultaneamente condição, resultado e agente das relações históricas. Suas características ambientais, como relevo, hidrografia, solos, vegetação e disponibilidade de recursos, condicionam possibilidades técnicas e econômicas, enquanto estradas, máquinas, sistemas produtivos, redes de comunicação, infraestruturas energéticas e tecnologias informacionais transformam continuamente suas paisagens e usos. Sociedade, natureza, tecnologia e território constituem-se, portanto, em relações históricas de mútua transformação.

Para a História Ambiental, essa abordagem possibilita deslocar a pergunta de como os seres humanos transformam a natureza? para uma questão mais complexa: como sociedade, natureza, tecnologia e território se transformam mutuamente ao longo do tempo, e como relações de poder, conhecimento e economia orientam essas transformações? Essa mudança permite investigar não apenas os resultados da degradação ou da conservação ambiental, mas também os conhecimentos, técnicas, interesses e grupos sociais envolvidos na produção dessas paisagens.

Ao mesmo tempo, a tecnologia não deve ser interpretada exclusivamente como instrumento de exploração e transformação ambiental. Os exemplos analisados demonstram que diferentes grupos sociais podem apropriar-se, adaptar e ressignificar sistemas técnicos para responder às suas necessidades, defender territórios, produzir conhecimentos e enfrentar processos de degradação. A tecnologia pode, assim, operar tanto como instrumento de dominação e desigualdade quanto como recurso de resistência, proteção ambiental e reivindicação territorial.

Essa perspectiva torna-se particularmente relevante para a compreensão histórica de territórios marcados por intensas transformações ambientais, como o Vale do Itajaí. Investigar seus processos de ocupação, agricultura, exploração florestal, industrialização, urbanização e conservação implica também compreender as técnicas, os conhecimentos e as infraestruturas que possibilitaram essas transformações, bem como os diferentes grupos que delas participaram e foram afetados por seus efeitos.

Desse modo, Ciência, Tecnologia e História Ambiental: interconexões com o território não constitui apenas uma aproximação entre campos de conhecimento distintos. Trata-se de uma possibilidade de ampliar a própria compreensão histórica das relações sociedade-natureza, reconhecendo que os ambientes são transformados por sistemas técnicos e sociais, mas também que suas características materiais, limites e dinâmicas participam ativamente da construção das trajetórias históricas. A História Ambiental, ao incorporar essa dimensão, pode compreender o território como resultado de uma história simultaneamente social, ambiental, técnica e política.


Referências
LATRÔNICO, Ana Luísa Alves et al. O território como tecnologia de mediação urbana: a customização territorial dos aplicativos móveis. Urbe: Revista Brasileira de Gestão Urbana, Curitiba, v. 11, 2019.

NASCIMENTO JÚNIOR, Francisco das Chagas do. Uso do território e tecnociência: densidades, topologias e hierarquias territoriais da produção técnico-científica no Brasil. 2012. Tese (Doutorado em Geografia) – UNESP, Rio Claro, 2012.

PINHEIRO, Nilcéia Aparecida Maciel; SILVEIRA, Rosemari Monteiro Castilho Foggiatto; BAZZO, Walter Antonio. O contexto científico-tecnológico e social acerca de uma abordagem crítico-reflexiva. Revista Iberoamericana de Educación, v. 49, n. 1, 2009.

SANTOS, Milton. A revolução tecnológica e o território: realidades e perspectivas. Terra Livre, São Paulo, n. 9, p. 7-17, 1991.

SANTOS, Milton. A Natureza do Espaço: Técnica e Tempo, Razão e Emoção. São Paulo: EDUSP, 2000.

OBS: Declaro que a autoria intelectual e a responsabilidade pelo conteúdo deste texto são humanas. O texto foi elaborado a partir de pesquisa, seleção, interpretação e análise realizadas pelo autor. Durante o processo de elaboração e revisão, foram utilizadas ferramentas de Inteligência Artificial, especificamente NotebookLM e ChatGPT, como instrumentos auxiliares para organização das informações, aprimoramento da redação, revisão e adaptação textual. A utilização dessas ferramentas não substituiu a autoria, a análise crítica ou a responsabilidade do autor pelo conteúdo apresentado. Todas as informações, argumentos, interpretações e referências foram revisados e validados pelo autor, que permanece integralmente responsável pela versão final do texto.

segunda-feira, 17 de agosto de 2026

7º Simpósio Internacional de História Ambiental e Migrações: uma história de encontros, pesquisas e diálogos sobre sociedade e natureza


De 9 a 11 de novembro de 2026, a Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), em Florianópolis, será novamente espaço de encontro para pesquisadores, professores e estudantes interessados nas relações históricas entre sociedade, natureza e migrações. Nesse período acontece o 7º Simpósio Internacional de História Ambiental e Migrações, promovido pelo Programa de Pós-Graduação em História e pelo Programa de Pós-Graduação Interdisciplinar em Ciências Humanas da UFSC, por meio do Laboratório de Imigração, Migração e História Ambiental (LABIMHA).

Mais do que divulgar uma nova edição, é importante compreender a trajetória que acompanha esse evento. O primeiro Simpósio Internacional de História Ambiental e Migrações foi realizado em 2010, em um momento no qual os estudos sobre imigração e colonização já possuíam espaços consolidados de discussão, mas ainda era relativamente pequeno o número de eventos no Brasil dedicados especificamente à História Ambiental e, sobretudo, à aproximação entre História Ambiental e estudos das migrações. A proposta nasceu justamente para criar um espaço de encontro entre pesquisadores, estudantes de graduação e pós-graduação e professores, contribuindo também para inserir a produção brasileira no debate internacional da História Ambiental.

A partir daí, o simpósio passou a construir uma trajetória marcada pela continuidade e pela ampliação de seus temas. A 2ª edição, realizada em 2012, discutiu questões como a circulação de espécies animais e vegetais, agricultura e pecuária, saúde nos trópicos, águas, saberes tradicionais, percepções sobre o ambiente e desastres ambientais. Em 2014, a 3ª edição manteve a proposta de reunir diferentes perspectivas sobre as relações históricas entre seres humanos e meio ambiente.

A 4ª edição, em 2016, consolidou ainda mais o caráter internacional e interdisciplinar do encontro. Realizado na UFSC entre 12 e 14 de setembro, o evento reuniu pesquisadores de diferentes áreas e países e manteve a articulação entre conferências, apresentações científicas e simpósios temáticos.

Em 2018, o 5º Simpósio representou um momento importante dessa trajetória. A apresentação dos seus anais registra que, oito anos depois da primeira edição, o evento já havia se consolidado como um espaço permanente de diálogo entre pesquisadores de História Ambiental, imigração e migrações. A estrutura combinava conferências e mesas-redondas com pesquisadores de destaque e a apresentação de trabalhos em simpósios temáticos e pôsteres, permitindo tanto o aprofundamento de pesquisas consolidadas quanto a participação de novos pesquisadores.

Depois de um intervalo maior, o 6º Simpósio, realizado em 2024 (tivemos a COVID-19, lembrem), assumiu o formato virtual. Organizado pelo LABIMHA, o encontro aconteceu pelas plataformas YouTube e Google Meet e foi gratuito. A edição contou com conferências de pesquisadoras como Regina Horta Duarte e Stefania Barca e reuniu 105 trabalhos sobre as relações entre História, Meio Ambiente e Migrações. Ao final dos anais, a comissão organizadora expressou a expectativa de que a edição seguinte pudesse voltar ao formato presencial na UFSC.

É nesse percurso que chega o 7º Simpósio Internacional de História Ambiental e Migrações, que será realizado de 9 a 11 de novembro de 2026, em Florianópolis. A nova edição representa, portanto, a retomada do encontro presencial e a continuidade de uma iniciativa que, desde 2010, vem acompanhando a expansão e a diversificação da História Ambiental no Brasil e suas conexões internacionais. O próprio tema do simpósio expressa uma das questões fundamentais da História Ambiental: como compreender as relações entre as sociedades humanas e o mundo natural a partir de uma perspectiva histórica?

As migrações constituem uma dimensão particularmente importante dessa questão. O deslocamento de pessoas envolve também a circulação de conhecimentos, técnicas, plantas, animais, doenças, formas de ocupação do território, modos de produção e diferentes maneiras de perceber e transformar os ambientes. Por isso, estudar migrações também significa investigar transformações ecológicas e paisagísticas. É justamente nessa interface que o simpósio vem construindo sua identidade. A proposta não restringe a História Ambiental aos historiadores. O evento é aberto a pesquisadores de diferentes áreas do conhecimento e aceita trabalhos em português, espanhol e inglês. Mestrandos e doutorandos também podem apresentar suas pesquisas.  A 7ª edição está organizada em três simpósios temáticos, que ampliam as possibilidades de diálogo entre História Ambiental e diferentes problemas históricos.

O primeiro aborda as conexões globais entre paisagens, animais, plantas e água, colocando em discussão as transformações ambientais em diferentes escalas. O segundo trata das transformações ambientais, produção e migrações, permitindo discutir as relações entre mobilidade humana, formas de produção e mudanças nos ambientes. O terceiro, denominado “Movimentos e ideias sobre o ambiente: migrações, ideias e percepções”, reúne pesquisas sobre as relações entre meio ambiente e migração e sobre as diferentes formas pelas quais sociedades e grupos humanos historicamente compreenderam o mundo natural. A proposta também aproxima as dimensões local e global, discutindo como ideias religiosas, científicas, políticas e econômicas participaram da construção das percepções sobre o ambiente.
Um convite aos pesquisadores

O 7º Simpósio Internacional de História Ambiental e Migrações é uma oportunidade para apresentar pesquisas, conhecer novos estudos, estabelecer diálogos e fortalecer redes de pesquisadores dedicados à compreensão histórica das relações entre sociedade e natureza.

As propostas de comunicação oral devem ser vinculadas a um dos três simpósios temáticos. Mestrandos e doutorandos também podem submeter trabalhos, sendo exigida titulação mínima de graduação. Cada autor principal pode propor uma comunicação, com até dois coautores. A inscrição para apresentação de trabalhos é gratuita.

Não dá para perder!

📅 7º Simpósio Internacional de História Ambiental e Migrações
📍 Universidade Federal de Santa Catarina – Florianópolis, SC
📆 9 a 11 de novembro de 2026
🌎 Evento internacional
🎓 Aberto a pesquisadores de diferentes áreas do conhecimento
💰 Inscrição gratuita

Para quem pesquisa História Ambiental, migrações, imigração, colonização, paisagens, biodiversidade, águas, agricultura, circulação de espécies, mudanças ambientais ou as relações históricas entre sociedade e natureza, o simpósio constitui uma oportunidade especialmente relevante para apresentar trabalhos e participar de um dos espaços mais longevos de discussão dessa interface no Brasil.

O GPHAVI recomenda e divulga o 7º Simpósio Internacional de História Ambiental e Migrações como um importante espaço para o fortalecimento da pesquisa em História Ambiental e para a construção de novos diálogos sobre as relações entre humanidade e natureza.

👉 Confira a programação, os simpósios temáticos, os prazos e as inscrições na página oficial do evento: 7º Simpósio Internacional de História Ambiental e Migrações – LABIMHA/UFSC

Esta publicação é de autoria humana, resultante de pesquisa, seleção, análise e interpretação realizadas pelo autor. Durante sua elaboração, foi utilizado o ChatGPT como ferramenta auxiliar para organização das informações, síntese, revisão e aprimoramento da redação. A utilização da ferramenta não substituiu o trabalho intelectual, a análise crítica ou as decisões editoriais do autor. O conteúdo final foi revisado e validado pelo autor, que assume integralmente a responsabilidade pela versão publicada.

Fontes consultadas

LABORATÓRIO DE IMIGRAÇÃO, MIGRAÇÃO E HISTÓRIA AMBIENTAL – LABIMHA. 7º Simpósio Internacional de História Ambiental e Migrações. Florianópolis: Universidade Federal de Santa Catarina, 2026. Disponível em: https://labimha.eco.br/. Acesso em: 12 ago. 2026.

UNIVERSIDADE FEDERAL DE SANTA CATARINA – UFSC. Simpósio Internacional de História Ambiental e Migrações inicia nesta segunda-feira. Notícias da UFSC, Florianópolis, 10 set. 2010. Disponível em: Notícia da UFSC sobre a 1ª edição. Acesso em: 12 ago. 2026.

UNIVERSIDADE FEDERAL DE SANTA CATARINA – UFSC. História Ambiental e Migrações em debate na UFSC. Notícias da UFSC, Florianópolis, 2012. Disponível em: Notícia da UFSC sobre a 2ª edição. Acesso em: 12 ago. 2026.

UNIVERSIDADE FEDERAL DE SANTA CATARINA – UFSC. Simpósio na UFSC discute questões ambientais em perspectiva histórica. Notícias da UFSC, Florianópolis, 3 nov. 2014. Disponível em: Notícia da UFSC sobre a 3ª edição. Acesso em: 12 ago. 2026.

UNIVERSIDADE FEDERAL DE SANTA CATARINA – UFSC. 4º Simpósio Internacional de História Ambiental e Migrações. Notícias da UFSC, Florianópolis, set. 2016. Disponível em: Notícia da UFSC sobre a 4ª edição. Acesso em: 12 ago. 2026.

LABORATÓRIO DE IMIGRAÇÃO, MIGRAÇÃO E HISTÓRIA AMBIENTAL – LABIMHA. 6º Simpósio Internacional de História Ambiental e Migrações. Florianópolis: UFSC, 2024. Disponível em: LABIMHA – História Ambiental e Migrações. Acesso em: 12 ago. 2026.


sexta-feira, 14 de agosto de 2026

Entre serras e rios: a natureza como agente na colonização do Vale do Itajaí

Capa da obra
A análise da formação econômica e social de Santa Catarina requer uma abordagem que integre os fatores biofísicos às dinâmicas de ocupação humana. A obra de Maria Luiza Renaux, Colonização e Indústria no Vale do Itajaí: O Modelo Catarinense de Desenvolvimento (Editora da FURB, 1987), constitui um marco historiográfico ao investigar o hiato entre 1820 e 1880. Tendo em vista a primeira parte da obra: Fundamentos socioeconômicos do desenvolvimento catarinense, o objetivo é examinar como a natureza, os atores: relevo, hidrografia e cobertura florestal, atuaram como agentes históricos na História Ambiental do Desenvolvimento Regional do Vale do Itajaí. 

Bia (fonte)

Maria Luiza Renaux, conhecida como Bia Renaux (1946–2017), foi historiadora, professora e pesquisadora de grande importância para a compreensão da história do Vale do Itajaí. Bisneta do Cônsul Carlos Renaux, graduou-se e doutorou-se em História pela USP, dedicando sua trajetória aos estudos sobre colonização, imigração, industrialização, desenvolvimento e identidade regional. Na FURB, onde atuou como professora e pesquisadora, lecionou, entre outras disciplinas, História Antiga, coordenou o grupo de pesquisas História, Desenvolvimento e Globalização e integrou o Programa de Pós-Graduação em Desenvolvimento Regional (PPGDR). Autora de obras como Colonização e Indústria no Vale do Itajaí: O Modelo Catarinense de Desenvolvimento, e O Outro Lado da História: O Papel da Mulher no Vale do Itajaí 1850–1950, Bia também se destacou pela defesa da preservação da memória e do patrimônio histórico de Brusque. Como historiador, sinto-me honrado por ter sido seu estudante: Bia foi uma professora incrível, cuja inteligência, cultura e paixão pela História deixaram uma marca profunda em minha formação.

Fonte - clique aqui


A ocupação sistemática do litoral catarinense iniciou-se em 1748, fundamentada na pequena propriedade distribuída a imigrantes açorianos e madeirenses. O modelo de sesmarias de um quarto de légua em quadro exigiu uma adaptação imediata às condições locais. A tentativa de transpor a cultura do trigo, tradicional nas ilhas atlânticas, fracassou ante as especificidades climáticas e edáficas, sendo substituída pela farinha de mandioca, que se consolidou como base alimentar e item de exportação para os portos do Sul e do Prata. Contudo, a agricultura litorânea enfrentou entraves estruturais. O colono era frequentemente desviado para funções militares nas milícias de defesa da costa e para a manutenção da burocracia administrativa. Somado a isso, as características intrínsecas do meio impuseram limites severos ao desenvolvimento produtivo. Segundo a fonte:


"Outros fatores, segundo historiadores locais, como 'a natureza do solo, a vida fácil e ilusória da pesca, as endemias reinantes [...] foram responsáveis pelo quase nulo desenvolvimento dado à agricultura pela colonização açoriana."


Essa estagnação foi agravada pelo monopólio metropolitano sobre a pesca da baleia (iniciada em 1746), atividade que, baseada em mão de obra escrava, pouco contribuiu para a dinamização da economia interna da capitania.

A partir de meados do século XIX, a política de povoamento foi reorientada para o interior, marcando o encontro do imigrante germânico com a floresta tropical "desconhecida e hostil". O manejo ambiental adotado, o sistema de "roça ou capoeira", consistia na derrubada e queima da mata para o plantio. De acordo com a técnica descrita na fonte, o ciclo envolvia o esgotamento rápido do terreno e o posterior abandono da área cultivada antes que a floresta secundária (capoeira) tivesse tempo suficiente para regenerar o solo. Esse processo gerava uma baixa produtividade constante, forçando migrações internas em busca de terras virgens.

Como resposta aos desafios da mata densa, os colonos desenvolveram estratégias de cooperação social que fundiram tradições europeias à realidade local. O Kulturverein (sociedades culturais) e o trabalho de mutirão, um adaptação da Bittarbeit alemã, para o "Juntament" catarinense, foram fundamentais. Essas estruturas comunitárias permitiram a execução de tarefas impossíveis ao esforço individual, como a abertura de clareiras e a construção de engenhos de uso comum, transformando a cooperação em uma ferramenta de sobrevivência e adaptação ecológica.

A configuração geográfica foi determinante para a distinção entre colônias prósperas e núcleos estagnados. A Lei de Terras de 18 de setembro de 1850 atuou como o "divisor de águas" legal, ao disciplinar o uso das terras devolutas e priorizar a imigração estrangeira. Enquanto as colônias na região do Desterro, como São Pedro de Alcântara, definhavam devido ao relevo acidentado do maciço montanhoso e às vertentes inclinadas que aceleravam a erosão, os núcleos no Vale do Itajaí e no Nordeste floresceram.

A tabela abaixo sintetiza os contrastes geográficos e infraestruturais:



A industrialização no Vale do Itajaí não rompeu com o modelo agrário, mas dele emergiu. A estrutura da pequena propriedade e a prática da policultura evitaram a concentração extrema de riqueza típica do latifúndio monocultor brasileiro, permitindo uma acumulação de capital distribuída. As associações culturais, notadamente o Kulturverein, desempenharam papel crucial ao transitar do conhecimento empírico para uma "cultura racional" de produtos agrícolas, promovendo o estudo da fauna e flora locais e a importação de sementes selecionadas.


As primeiras indústrias eram extensões diretas do processamento de recursos naturais regionais:

- Olarias e Fábricas de Cerâmica: Aproveitamento do barro das margens fluviais.

-Serrarias: Exploração da madeira nativa para construção e exportação.

-Cervejarias e Fábricas de Vinagre: Beneficiamento do excedente da policultura.

-Curtumes: Processamento de couros derivados da atividade pecuária.
Sobre o papel dessas sociedades na racionalização do meio, a fonte aponta:

"Delas fazia parte o Kulturverein [...] cuja finalidade era de promover, na zona rural, a cultura racional de produtos agrícolas, aproveitando informações especializadas e a própria experiência já desenvolvida localmente, além de cuidar da [...] fauna, flora e costumes da população."


A leitura da obra de Maria Luiza Renaux Hering a partir da História Ambiental permite compreender a formação econômica e social do Vale do Itajaí como resultado de uma relação histórica e dinâmica entre sociedades humanas e mundo biofísico. Relevo, hidrografia, solos e cobertura florestal não constituíram simplesmente o cenário sobre o qual ocorreu a colonização, eles participaram ativamente da definição das possibilidades, dos limites e dos caminhos assumidos pelo desenvolvimento regional. 

A floresta  foi percebida pelos imigrantes como um ambiente desconhecido e hostil, e foi transformada por meio de técnicas de derrubada, queima e cultivo, enquanto os rios e as características do relevo orientaram a localização dos núcleos coloniais, das vias de circulação e, posteriormente, das atividades industriais. Ao mesmo tempo, essas transformações ambientais produziram respostas sociais, como o trabalho coletivo, as associações e a busca por novas técnicas de manejo e aproveitamento dos recursos. Nesse sentido, a trajetória apresentada por Renaux revela que a industrialização do Vale do Itajaí não pode ser compreendida como ruptura com a natureza, mas como resultado de uma longa história de interação, apropriação, transformação e adaptação ao ambiente. 

A perspectiva da História Ambiental evidencia, portanto, que o chamado “modelo catarinense de desenvolvimento” foi construído em permanente negociação com as condições ecológicas do território, e que compreender sua formação exige reconhecer a natureza não apenas como recurso ou limite, mas como agente histórico na produção das paisagens, das economias e das próprias relações sociais que constituíram o Vale do Itajaí. Leitor, caso tenha interesse na obra de Bia, clique aqui e tenha uma surpresa!

Declaro que a autoria intelectual e a responsabilidade pelo conteúdo deste texto são humanas. O texto foi elaborado a partir de pesquisa, seleção, interpretação e análise realizadas pelo autor. Durante o processo de elaboração e revisão, foram utilizadas ferramentas de Inteligência Artificial, especificamente NotebookLM e ChatGPT, como instrumentos auxiliares para organização das informações, aprimoramento da redação, revisão e adaptação textual. A utilização dessas ferramentas não substituiu a autoria, a análise crítica ou a responsabilidade do autor pelo conteúdo apresentado. Todas as informações, argumentos, interpretações e referências foram revisados e validados pelo autor, que permanece integralmente responsável pela versão final do texto.