"Eu sou o que me cerca. Se eu não preservar o que me cerca, eu não me preservo".
José Ortega y Gasset

terça-feira, 3 de fevereiro de 2026

A natureza tem História? Como a História Ambiental revolucionou nosso olhar sobre o passado

Você já se perguntou quando exatamente nós, seres humanos, nos tornamos uma força capaz de alterar o clima, os rios e as florestas em escala global? Em meio aos debates urgentes sobre a crise ambiental, essa pergunta parece se referir a um problema recente, fruto da industrialização e da globalização. No entanto, a própria percepção de que temos o poder de transformar – e destruir – a natureza tem uma história fascinante e muito mais antiga do que imaginamos. Entender as origens desse pensamento é fundamental para compreender os desafios que enfrentamos hoje.

Para navegar por essa questão, temos um guia fundamental: o artigo "The Theoretical Foundations of Environmental History", do historiador brasileiro José Augusto Pádua. Este texto funciona como um mapa para entendermos como a História Ambiental surgiu enquanto um campo de conhecimento nos anos 1970, revolucionando a forma como os historiadores olham para o passado.

Compreender como essa área nasceu nos ajuda a ver que as preocupações ecológicas não são apenas uma "moda" passageira. Pelo contrário, são o resultado de profundas mudanças na maneira como a ciência e a sociedade passaram a enxergar a complexa relação entre a humanidade e o planeta Terra. 
A História Ambiental não surgiu do vácuo. Ela foi impulsionada por uma combinação de pressões sociais e transformações internas no próprio campo do conhecimento.

Segundo Pádua, o surgimento da História Ambiental foi movido por um duplo motor: o fator sociológico e epistemológico.

Fator Sociológico
As "vozes das ruas" foram cruciais. O crescimento do ambientalismo e os intensos debates públicos das décadas de 1960 e 1970 criaram uma demanda social por respostas. Um exemplo claro foi o primeiro curso universitário de "História Ambiental" de grande impacto, ministrado em 1972 por Roderick Nash na Universidade da Califórnia. Nash afirmou explicitamente que estava "respondendo aos gritos por responsabilidade ambiental" daquela época. Embora alguns historiadores se sintam desconfortáveis com essa influência externa, Pádua argumenta que os historiadores "sempre olham para o passado com perguntas do presente". Ele lembra que a história monetária foi estimulada pela crise inflacionária dos anos 1920 e a história demográfica, pela explosão populacional do pós-Segunda Guerra.

Fator Epistemológico
Além da pressão social, mudanças internas no próprio conhecimento científico (ou seja, na forma como a ciência entende o que é possível saber e como se pode saber) foram fundamentais. Os historiadores começaram a ser desafiados por novas descobertas e a fazer novas perguntas ao passado, percebendo que a dimensão biofísica não poderia mais ser ignorada em suas análises.

A ideia de que a ação humana pode degradar a natureza de forma massiva é, como aponta Pádua, um tema essencialmente moderno. Por séculos, o debate se concentrou em como a natureza influenciava a história humana, e não o contrário. Um marco nessa virada de percepção foi o livro Man and Nature (1864), do diplomata americano George Perkins Marsh, que denunciou a destruição causada pela humanidade ao longo da história.

Pádua nos lembra de exemplos notáveis no contexto brasileiro, muito anteriores a Marsh, como José Bonifácio de Andrada e Silva (1815), que antes mesmo da independência do Brasil, ao escrever sobre o desmatamento em Portugal, alertou com uma perspectiva histórica: "países que perderam suas florestas são quase estéreis e sem gente. Assim aconteceu na Síria, Fenícia, Palestina". Anos depois, já no Brasil, ele advertiu que a agricultura predatória transformaria o país nos "desertos da Líbia". Outro nome mencionado é o de Tomás Pompeu de Sousa Brasil (1860), que ao discutir as secas no Ceará conectou o problema à destruição de florestas no norte da África, que, em suas palavras, foi o "celeiro da Itália". Ele argumentava que a história provava que a negligência humana com as matas poderia transformar a nação mais fértil em uma "desolação inabitável". Esses pensadores, embora não fossem "historiadores ambientais" no sentido moderno, já demonstravam uma clara percepção histórica dos processos de mudança ambiental.

Mas para que essa percepção se transformasse em um campo de estudo, não bastavam alertas isolados. Eram necessárias duas revoluções intelectuais que mudariam para sempre nossa noção de tempo e de natureza. Primeiro, a percepção do tempo foi radicalmente alterada. A historiografia tradicional operava, no máximo, dentro de um "tempo bíblico" de cerca de seis mil anos. Contudo, a geologia e a biologia revelaram uma história planetária de 4,5 bilhões de anos. Para a História, que tradicionalmente se concentrava nos últimos milênios, essa nova realidade foi um choque, e a história humana se tornou um capítulo brevíssimo na imensa biografia do planeta. Segundo, a natureza como História. A visão da natureza como um cenário estático e passivo para a ação humana ruiu. Como descreve Pádua, foi como se, em meio a uma peça de teatro, "o cenário começasse a se mover", revelando-se não um pano de fundo, mas um ator central na trama. A natureza não é um palco inerte, ela tem sua própria história, cheia de mudanças, ciclos e transformações.

O principal desafio teórico da História Ambiental é superar a visão dualista que separa de forma rígida "natureza" e "sociedade". Por muito tempo, a historiografia tradicional tratou o que Pádua chama de "humanidade flutuante" — a ideia de que os seres humanos vivem como se não dependessem do mundo biofísico para respirar, comer e existir. A História Ambiental não busca reduzir tudo a um determinismo geográfico ou biológico. Pelo contrário, ela se propõe a ser uma expansão da análise histórica, incorporando a dimensão biofísica para tornar nosso entendimento do passado mais completo e complexo. Para escapar dessa armadilha dualista e colocar a análise integrada em prática, historiadores como Donald Worster propuseram um modelo de investigação que funciona como uma caixa de ferramentas, forçando o pesquisador a conectar três níveis fundamentais:

Nível 1 - A Natureza em si: O estudo dos ecossistemas do passado e de suas transformações ao longo do tempo (clima, vegetação, rios etc.).
Nível 2 - A Dimensão Socioeconômica: A análise de como as sociedades se organizam para interagir com o ambiente, incluindo seus "modos de produção", tecnologias e formas de trabalho.
Nível 3 - A Dimensão Cognitiva e Cultural: A investigação das mentalidades, valores, ideologias e percepções que as pessoas têm sobre a natureza e seu lugar nela.

Essa abordagem que integra ecologia, economia e cultura nos oferece uma ferramenta poderosa para compreender a complexidade dos problemas atuais. O desmatamento na Amazônia, a crise climática global ou a poluição de um rio urbano não podem ser entendidos apenas com dados técnicos. A perspectiva histórica revela que essas crises não são problemas de agora. Elas estão profundamente enraizadas em processos históricos, escolhas sociais, modelos econômicos e visões de mundo que foram construídas ao longo do tempo. Ignorar essa dimensão histórica é como tentar tratar os sintomas de uma doença sem entender suas causas.

A grande lição da História Ambiental é que a natureza tem uma história, e a nossa história está inseparavelmente entrelaçada a ela. Não somos meros espectadores, mas participantes ativos — e, na sutil observação de Alfred Crosby, muitas vezes "distraídos" — nos ecossistemas que habitamos.
Importante, essa lente histórica não serve apenas para catalogar desastres, mas também para revelar as formas complexas e por vezes criativas com que as culturas co-construíram suas paisagens.

Mais do que ditar o que fazer, a História Ambiental nos convida a um exercício de observação. Olhe para a paisagem ao seu redor, o rio que corta sua cidade, a área agrícola que a abastece, o parque urbano onde você caminha. Quando você observa se pergunte: qual história este lugar me conta? Este é o convite: aprender a ler as marcas do passado no mundo que nos cerca, transformando nosso olhar sobre a realidade que vivemos e construímos.

Caso você tenha interesse em ler o original que usamos para escrever esta postagem, clique aqui. Este texto da postagem passou por revisão e adaptações realizadas com a IA. A fonte é o estudo apresentado, a referencia segue a seguir.

Referência:
PÁDUA, José Augusto. The theoretical foundations of environmental history. Estudos Avançados, São Paulo, v. 24, n. 68, p. 81–101, 2010.

Sobre o autor:

José Augusto Pádua é historiador ambiental e professor associado do Instituto de História da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), onde coordena o Laboratório de História e Natureza. Graduado em História pela PUC-Rio (1983), é mestre e doutor em Ciência Política pelo IUPERJ (1985; 1997) e realizou pós-doutorado em História na University of Oxford (2007). É especialista em História Ambiental e políticas ambientais, com atuação destacada no Brasil e no cenário internacional. Foi presidente da ANPPAS (2010–2015) e, desde 2025, preside a Sociedade Latino-Americana e Caribenha de História Ambiental (SOLCHA). Integra a Global Faculty da University of Cologne (2024–2025) e é fellow do Rachel Carson Center (Munique). Atua em conselhos editoriais de importantes periódicos científicos e participou da criação do Museu do Amanhã. Desenvolve pesquisas sobre história do Brasil, florestas, agroecossistemas, ideias sobre a natureza e políticas de desenvolvimento sustentável.

quarta-feira, 28 de janeiro de 2026

O outro lado da História Ambiental? Crítica, ideologia e a invisibilização do capitalismo na crise socio ambiental


Nos últimos anos, discursos que se apresentam como “politicamente incorretos” têm ganhado grande visibilidade ao tratar de temas ambientais. Em comum, afirmam romper com o “alarmismo” e com a “ideologia ambientalista”, oferecendo uma leitura supostamente baseada em dados, otimismo tecnológico e celebração do progresso humano. Mas o que significa, afinal, falar em o outro lado da História Ambiental? Foi essa expressão que encontrei ao realizar uma pesquisa rápida pelo termo História Ambiental nos vídeos publicados em 2025 na plataforma YouTube. Entre os resultados, o título me chamou imediatamente a atenção. Confesso que, num primeiro momento, me questionei: pronto, o que seria isso? Que “outro lado” estaria sendo reivindicado? A curiosidade intelectual falou mais alto, e me coloquei a assistir ao material.

Em uma análise inicial, tornou-se evidente que se tratava de um conteúdo deliberadamente polêmico, construído muito mais no registro da provocação do que da crítica acadêmica propriamente dita. Não se trata, de fato, de uma crítica fundamentada à História Ambiental enquanto campo de pesquisa consolidado, com seus métodos, debates internos e diversidade teórica. 

No episódio do Millennium Talks, Leandro Narloch apresenta as ideias de seu Guia Politicamente Incorreto do Meio Ambiente. Narloch constrói sua narrativa em oposição direta ao que chama de ambientalismo moralista, pessimista e culpabilizador. Defende uma visão otimista da história recente, destacando os avanços tecnológicos que elevaram a expectativa e a qualidade de vida, e critica a educação ambiental por, segundo ele, reduzir inovações a narrativas de exploração e culpa. Propaga uma imagem de que o empresário faz o que faz para o bem humano, e com isso esconde inúmeras outras questões que estão em jogo, e faz isso com uma postura nada neutra. 

Ao celebrar conquistas como o aço, o cimento, a energia nuclear ou o plástico, o discurso desloca o foco das relações sociais e econômicas que tornaram essas tecnologias possíveis. O problema não é reconhecer seus benefícios, mas apresentá-los como resultados quase naturais da engenhosidade humana, dissociados de processos históricos de exploração, desigualdade e apropriação desigual da natureza. 

Um dos aspectos centrais do discurso “politicamente incorreto” é a personalização da crise ambiental. Cientistas “ativistas”, ambientalistas “ingênuos” ou empresários “bem-intencionados” ocupam o centro da narrativa. Assim, a degradação ambiental aparece como fruto de escolhas morais individuais — e não como resultado estrutural de um modo de produção baseado na acumulação incessante. Essa abordagem obscurece o funcionamento do capitalismo enquanto sistema histórico. A transformação da natureza em mercadoria, a externalização de custos ambientais e a desigualdade no acesso aos recursos não são desvios éticos ocasionais, mas elementos constitutivos desse modelo. Ao ignorar essa dimensão, o discurso despolitiza a crise ecológica.

O argumento de que as emissões de carbono dos países ricos “salvaram vidas” ao viabilizar tecnologias usadas no Sul global exemplifica um processo de des-historicização. Sob uma perspectiva marxista e da História Ambiental Crítica, tais tecnologias não podem ser separadas do imperialismo, da troca ecológica desigual e da exploração de territórios e populações periféricas. O mesmo desenvolvimento que produziu represas e infraestruturas também gerou vulnerabilidades socioambientais profundas, muitas vezes nas mesmas regiões que hoje dependem dessas “soluções”. Não se trata de gratidão, mas de reconhecer uma dívida histórica e material.

Quando o discurso celebra a incorporação de territórios indígenas à mineração ou ao agronegócio como libertação do “paternalismo ambientalista”, ignora-se a lógica da acumulação primitiva. A transformação de terras comunais em ativos econômicos frequentemente intensifica conflitos, destrói modos de vida e aprofunda desigualdades, ainda que venha acompanhada de promessas de progresso e inclusão.

Discursos como o de Narloch não são apenas populares; são eficazes. Justamente por isso, representam simultaneamente um desafio e uma oportunidade para a História Ambiental e para a ciência em si. Cabe aos cientistas qualificar o debate público, oferecendo análises que articulem rigor empírico, consciência histórica e crítica estrutural. Uma História Ambiental crítica não rejeita o progresso, mas interroga seus pressupostos: progresso para quem, a que custo e sob quais relações de poder? Quais consequências ambientais são produzidas — especialmente aquelas de difícil ou nula resiliência — e de que forma é possível promover processos efetivos de resiliência socioambiental? Estamos em um cenário de crise socioecológica global, e essas perguntas não são apenas acadêmicas!

O chamado “outro lado” da História Ambiental se apresenta como uma ruptura com dogmas, mas cumpre uma função ideológica clara: naturalizar o capitalismo, fetichizar a tecnologia e despolitizar a crise ambiental. Diante disso, a História Ambiental enquanto um campo de conhecimento crítico reafirma seu papel como ferramenta analítica e política, capaz de revelar as raízes históricas da crise ecológica e de dialogar com a sociedade sem abrir mão da complexidade, e apontar caminhos para uma sustentabilidade.

Mas considero fundamental que você veja por si mesmo, observe, analise e busque constatar o discurso de Narloch

Segue o vídeo:


O texto desta postagem passou por revisão e modificações realizadas por IA, mas sem violar a originalidade do texto do autor.

quinta-feira, 22 de janeiro de 2026

Ouro que não enriquece e os impactos da exploração em Gaspar e Blumenau.

Sob a densa vegetação da Mata Atlântica que define a paisagem do Vale do Itajaí, em Santa Catarina, jaz uma história quase desconhecida. Longe de ser apenas um santuário natural, este vale esconde os vestígios de uma intensa atividade de mineração, uma verdadeira "fábrica de sonhos" movida pela busca de ouro e prata, que reconfigurou a terra e a vida de seus habitantes de formas inesperadas e permanentes. Esta postagem explora algumas das histórias e paradoxos mais fascinantes revelados por essa herança extrativa. Veremos como o passado da mineração ainda ressoa na paisagem, na cultura e na memória local, revelando um legado complexo de riqueza fugaz, identidades transformadas e cicatrizes ambientais que hoje buscam um novo significado. 

A seguir, apresentamos alguns apontamentos sobre a história da mineração no Vale do Itajaí. A análise parte de três fontes audiovisuais disponíveis no YouTube: Programa Expressão – Mineração no Vale (1): Minas da Prata; Programa Expressão – Mineração no Vale (2): Arraial do Ouro; e Programa Expressão – Mineração no Vale (3). Deixaremos os links no final da postagem. 

Vale ressaltar que, no âmbito do GPHAVI, a historiadora e pesquisadora Marcela Adriana Grandi desenvolveu investigações fundamentais para desvendar minúcias dessa rica história ambiental da mineração, com foco especial na região da Nova Rússia.

“Quando o pessoal da FURB me convidou para depor no programa”, afirma o historiador Martin, “a primeira coisa que me veio à cabeça foi chamar a Marcela”. Prontamente, ela saiu de sua moradia em Gaspar, deslocou-se até a Nova Rússia e participou do programa, contribuindo de forma decisiva com seu conhecimento".

O que chama mais a atenção é que a exploração mineral não deixou ninguém do local rico! No Arraial do Ouro, em Gaspar, uma verdadeira "corrida por metais preciosos" levou muita gente a abandonar a lavoura na esperança de enriquecer. A promessa era real: os jornais da década de 1940 noticiavam a descoberta de pepitas notáveis, incluindo uma com "mais de 1 kg". Somente do terreno de um morador, Carlos Silvano, foram extraídos "62 kg do Metal" entre os anos 80 e 90. Apesar da aparente abundância, surge o grande paradoxo: o garimpo não gerou riqueza duradoura para os trabalhadores. A realidade, distante do sonho dourado, é confirmada pela memória de quem viveu a época.

..não vi ninguém até hoje não Nem eu mesmo não fiquei rico também porque comprei um terreninho...  Claro aliviou minha barra tudo mas não para rico não

Essa constatação descontrói o mito romântico da corrida do ouro. Em vez de fortunas instantâneas, o que a história revela é a dura realidade econômica e social da mineração artesanal. Este padrão, onde o imenso trabalho manual gera pouca riqueza local, frequentemente extraída por interesses externos ou dissipada rapidamente, é uma característica clássica das fronteiras de extração de recursos e dos seus ciclos de apogeu e declínio, um fenômeno visto desde o oeste americano até as colônias africanas.

Em Blumenau, a localidade de Nova Rússia, onde estão as Minas da Prata, carrega um nome que intriga. A origem não tem relação com imigrantes russos, mas sim com a própria atividade mineradora. Os primeiros colonizadores da região eram de origem prussiana/alemã, mas a força da mineração como atividade econômica central foi tão grande que redefiniu a identidade local. A explicação é direta:

"A mineração teve... a principal importância para essa colonização e, com o passar do tempo, todas as outras pessoas que passaram a trabalhar nas minas passaram também a ser chamados de Russos."

Este fenômeno sociolinguístico, impulsionado pela centralidade econômica da mineração, demonstra como, em sociedades de fronteira, identidades funcionais ("mineiro") podem se tornar marcadores sociais mais poderosos do que as origens étnicas herdadas ("alemão"). O trabalho nas minas, como eixo econômico central, foi capaz de redefinir o tecido social, criando uma "Nova Rússia" prussiana no coração do Vale do Itajaí.

Em meio às histórias de exploração econômica e ambiental, emerge um relato profundamente humano e afetivo. Eulina, uma moradora de 81 anos do Arraial do Ouro, guarda a memória de um momento singular: em 1948, ela e seu namorado foram ao ribeirão para garimpar o ouro que seria usado na confecção de suas próprias alianças de casamento. A lembrança, carregada de emoção, conecta o recurso natural diretamente a uma história de amor e orgulho.

Eles fizeram a nossa aliança com ouro que nós dois garimpamos é bonito né a gente tinha orgulho disso.

Essa memória pessoal oferece um contraponto delicado à narrativa, muitas vezes brutal, da extração mineral. Ela mostra como o ouro, para além de seu valor de mercado, pôde ser transformado em um símbolo de afeto e união, forjado pelas próprias mãos daqueles cuja história de vida se entrelaçou com o leito do rio.

A busca pela riqueza deixou um rastro de destruição. Em Gaspar, o uso indiscriminado de mercúrio para separar o ouro dos sedimentos resultou na contaminação do Ribeirão Arraial. As consequências não tardaram: o gado começou a adoecer e a produtividade agrícola caiu drasticamente. O problema gerou uma "mobilização a nível Nacional", que culminou na proibição da prática sem o uso de tanques de decantação. Nas Minas da Prata, em Blumenau, o risco ambiental persiste. Há uma preocupação de que a água que flui das antigas galerias possa estar contaminada com um elemento ainda mais perigoso: o arsênio. Como alerta um especialista, "pode estar saindo ali de dentro água com Arsénio e isso seria muito ruim porque tu poderia estar contaminando Mananciais".

Esse legado tóxico não apenas revela a face destrutiva da exploração, mas marca a origem de uma consciência ambiental na região. É crucial notar que essa consciência não nasceu de uma preocupação ecológica abstrata, mas de uma ameaça direta à saúde pública e à viabilidade econômica, a contaminação que adoeceu o gado e destruiu a produtividade agrícola. Foi um despertar forjado pela necessidade, um passo fundamental da conservação utilitária, focada em proteger recursos para o uso humano.

No contexto do início do século XXI, os antigos locais de mineração passam por um surpreendente processo de ressignificação. Em Gaspar, as lagoas que antes serviam para a decantação de rejeitos tóxicos foram transformadas em áreas de lazer, funcionando como estabelecimentos de "Pesque e Pague". Em Blumenau, o potencial é ainda maior. As Minas da Prata, localizadas dentro do Parque Nacional da Serra do Itajaí, estão destinadas a se tornar "uma das portas de entrada de atração turística do Parque Nacional". No entanto, o abandono atual gera problemas como vandalismo ("deixa um lixo quando todos que estragam ficam pixando"), evidenciando a urgência dos investimentos planejados.

Este movimento revela o complexo processo de ressignificação da paisagem. Aqui, testemunhamos a criação de uma "memória ambiental" e de um "patrimônio industrial", onde locais marcados pela degradação são convertidos em espaços de lazer, educação e conservação. Este ciclo, que transforma a cicatriz de uma exploração passada no alicerce para um futuro focado na preservação, levanta questões profundas sobre como as sociedades escolhem quais partes de um passado destrutivo devem ser lembradas e até mesmo modificadas.

A história da mineração no Vale do Itajaí é uma tapeçaria complexa, tecida com fios de sonhos de riqueza, impactos sociais inesperados, degradação ambiental e, por fim, um movimento em direção à preservação da memória e da natureza. Como resume uma das fontes, "é fascinante ver como a memória consegue conservar e ao mesmo tempo reconstruir um passado". A história da mineração no Vale do Itajaí ensina que estas paisagens não são cenários passivos; são arquivos de ambição, conflito e consequência. A derradeira lição das minas esquecidas é que a terra nunca esquece verdadeiramente, e é nossa tarefa aprender a ler as suas cicatrizes.

Os vídeos que utilizamos como fontes para esta postagem apresentam uma síntese da história da mineração no Vale do Itajaí, em Santa Catarina, com destaque para as Minas da Prata, em Blumenau (região da Nova Rússia), e o Arraial do Ouro, em Gaspar. As fontes analisam o papel da exploração de metais, como prata, ouro, cobre e chumbo, na dinâmica social e econômica regional, evidenciando atividades mineradoras que, em alguns casos, antecederam o próprio processo de colonização. Ao mesmo tempo, os materiais discutem os impactos ambientais deixados por essas práticas, como a contaminação por mercúrio no Ribeirão Arraial do Ouro e a presença de arsênio em antigas minas, ressaltando a importância da preservação tanto ambiental quanto histórica desses espaços. Por fim, os vídeos apontam o potencial turístico desses antigos sítios de mineração e a necessidade de investimentos em infraestrutura para visitação, articulando memória, patrimônio e desenvolvimento local. Para complementar a experiência, assista o programa na integra, a seguir expomos as suas partes:




O texto desta postagem passou por adaptações realizadas com o uso de IA. A referência utilizada são os vídeos acima citados.

terça-feira, 13 de janeiro de 2026

Entre a conservação e o uso da natureza: a história da comunidade de Salto de Águas Negras na zona de amortecimento do Parque Nacional da Serra do Itajaí (PNSI)

A história de uma comunidade não se escreve apenas com nomes e datas, mas também com as marcas deixadas na paisagem. Cada campo cultivado, cada rio alterado e cada trecho de mata que permanece ou desaparece conta uma parte da jornada de um povo. A terra é, em si, um documento vivo que revela as complexas interações entre a sociedade, sua cultura, sua economia e o ambiente natural que a sustenta.

Para explorar essa conexão, esta postagem se debruça sobre os resultados de um trabalho acadêmico que investigou mais de um século de transformações ambientais vividas por uma pequena comunidade no município de Botuverá, no entorno do Parque Nacional da Serra do Itajaí. O estudo História e Apropriação da Natureza na Zona de Amortecimento do Parque Nacional da Serra do Itajaí (PNSI): o caso da comunidade de Salto de Águas Negras em Botuverá-SC, de autoria de Gilberto Friedenreich dos Santos, Ana Cláudia Moser, Martin Stabel Garrote e Vanessa Dambrowski, foi apresentado em 2010, durante o V Encontro Nacional da ANPPAS, realizado em Florianópolis (SC). Clique aqui para acessar o estudo completo.

A comunidade de Salto de Águas Negras está localizada no município de Botuverá, em Santa Catarina, uma região geográfica conhecida como Médio Vale do Rio Itajaí-Mirim. Sua paisagem é marcada por vales estreitos e encostas íngremes que, à primeira vista, parecem desafiadoras para a agricultura. No entanto, a viabilidade do assentamento foi garantida por uma característica geológica crucial: a formação de rampas colúvio-aluvionares nas margens do rio, que depositaram um solo de textura argilosa e fértil nas camadas superficiais, permitindo o cultivo.

A localização da comunidade é de especial importância ecológica, pois está situada logo após a zona de amortecimento do Parque Nacional da Serra do Itajaí (PNSI), uma unidade de conservação criada para proteger remanescentes da Mata Atlântica. Essa proximidade com o parque coloca os moradores em uma interface direta entre as práticas de desenvolvimento e as necessidades de preservação ambiental.

A história da ocupação moderna da região começa no século XIX, com a intensificação da imigração europeia para o Brasil. A partir de 1876, imigrantes italianos, em sua maioria da província de Trentino, chegaram a Botuverá, encontrando uma paisagem radicalmente diferente da sua terra natal: uma região inteiramente coberta pela densa vegetação da Mata Atlântica.

Esses colonos trouxeram consigo não apenas suas ferramentas e costumes, mas também uma concepção de natureza forjada pela escassez. Vindos de uma região montanhosa nos Alpes, onde "se tornava impossível o desenvolvimento de uma agricultura robusta e suficiente", eles viam a natureza como "algo intocado, hostil e selvagem, ou seja, algo a ser domesticado pelo homem." Essa visão contrastava fortemente com a dos povos indígenas (Xokleng e Guarani) que habitavam a área anteriormente, cuja relação com o meio, baseada na caça, coleta e agricultura rudimentar, causava um impacto mínimo no ecossistema. Com a chegada dos europeus, a transformação do ambiente natural tornou-se mais acentuada e sistemática.

O estudo identifica quatro fases distintas que narram a história da apropriação dos recursos naturais e a transformação da paisagem em Salto de Águas Negras, compondo um arco de crescente impacto ambiental impulsionado por pressões econômicas.

Fase 1: A era do "desbravamento" (1876 ao final da década de 1940)

A primeira fase foi marcada pela necessidade de sobrevivência e estabelecimento. A principal atividade era o "desbravamento", a retirada da mata para a construção de casas e para a abertura de áreas para agricultura de subsistência, utilizando técnicas como a queimada. A exploração da madeira, especialmente de espécies nobres como canela e peroba, tornou-se uma importante atividade econômica. A extração era manual, e as toras eram transportadas em balsas pelo Rio Itajaí-Mirim até os centros comerciais. Um dos moradores mais antigos, I. Gianesini (2008), recorda como as famílias se organizavam para ocupar o território: "Eles vinham por conta própria. [...] Entravam em acordo, o outro era cunhado ou parente né, então eles diziam: 'tu pega daqui pra cá, que eu pego daqui pra lá'. [...] sempre foi respeitado esses marcos ali, como os velhos antigamente." A base da alimentação vinha da terra e do rio, incluindo uma rica variedade de culturas como milho, aipim, cará, taiá, batata doce, arroz e feijão, complementada pela caça e pesca. Engenhos de farinha e cana, além de atafonas movidas a água, eram estruturas essenciais para o processamento dos alimentos.

Fase 2: A chegada do fumo (Final da década de 1940 à década de 1960)

O final da década de 1940 marcou uma virada fundamental, o momento em que a relação da comunidade com a terra mudou de forma irrevogável. Incentivada por grandes empresas como a Souza Cruz, a agricultura local transitou de um modelo de auto-suficiência para um de dependência comercial com a introdução do cultivo de fumo. Essa mudança acelerou drasticamente o desmatamento. Eram necessárias novas áreas para o plantio e, crucialmente, uma grande quantidade de lenha para alimentar as estufas utilizadas na secagem das folhas. O preço pago pela floresta aumentou exponencialmente. Nesse mesmo período, a chegada dos primeiros caminhões à região modernizou o transporte, encerrando a era do escoamento fluvial de madeira.

Fase 3: Auge da fumicultura e os agrotóxicos (Década de 1960 a 1990)

Este período representa o auge da fumicultura, impulsionado pela implementação dos padrões tecnológicos da "Revolução Verde". O cultivo do fumo era um processo trabalhoso, como descreve o agricultor Fachini (2008), detalhando desde o preparo dos canteiros e o plantio até a complexa etapa de secagem nas estufas, que durava dias. A introdução da moto serra (chainsaw) nesse período também permitiu a aceleração da extração comercial de madeira, ampliando as consequências para a mata nativa.
Junto com as novas técnicas, vieram os insumos químicos. Esta fase foi marcada pelo uso intensivo de agrotóxicos, frequentemente aplicados sem qualquer equipamento de proteção. A memória dos agricultores guarda a lembrança dos riscos. Gianesini (2008) relata o perigo de um produto específico: "Até aquele Furadan, aquele que mata qualquer bicho [...] Ali no fumo tu botava sem nada nas mãos [...] que coisa né esse Furadan, nós não morremos porque foi milagre".

O sistema econômico se revelou uma armadilha. As empresas forneciam os insumos, e os agricultores pagavam a dívida com a colheita. Conforme o relato de Gianesini (2008), se a safra fosse ruim, o agricultor não só ficava devendo, como era obrigado a plantar no ano seguinte para quitar o débito. A falha em pagar significava que "a tua terra esta penhorada", criando um ciclo de dívida que forçava a continuidade da produção.

Fase 4: O declínio do fumo e as novas paisagens (1990 aos dias atuais)

A partir da década de 1990, a fumicultura entrou em declínio. Os principais fatores foram a queda do valor comercial do produto, o êxodo da população mais jovem, a inserção de indústrias na comunidade que ofereciam empregos alternativos e, de forma decisiva, a implementação de uma legislação ambiental mais restritiva (Decreto n° 99.547 de 1990 e Decreto n° 750 de 1993), que proibiu o corte de vegetação nativa da Mata Atlântica.

Com o fim do ciclo do fumo, uma nova paisagem começou a se formar, ativamente incentivada por políticas públicas. Muitas propriedades passaram a destinar suas terras ao plantio de eucalipto. A Prefeitura Municipal de Botuverá apoiou essa transição, fornecendo mudas a preços acessíveis através de seu horto florestal e disponibilizando um serviço de "serra fita móvel" (serraria móvel) para processar a madeira nas próprias propriedades. Ao mesmo tempo, as novas leis ambientais geraram conflitos, pois alteraram hábitos tradicionais, como a extração de madeira para uso próprio e a caça.

O processo histórico de ocupação e desenvolvimento econômico deixou marcas profundas no meio ambiente de Salto de Águas Negras. O estudo sintetiza as principais consequências:
• Perda de grande parte da cobertura vegetal original da Mata Atlântica, resultado de mais de um século de desmatamento para agricultura, extração madeireira e obtenção de lenha.
• Diminuição de espécies animais e vegetais, causada pela destruição de habitats e pela caça, muitas vezes predatória, que esgotou a fauna local.
• Contaminação do solo e dos recursos hídricos, uma herança direta do uso intensivo de agrotóxicos durante o auge da fumicultura.

A percepção dessas mudanças está viva na memória dos moradores. Fachini (2008) lamenta a perda da vida aquática: "sumiu muito peixe do rio. [...] Hoje em dia ninguém mais pesca está muito poluído." Sobre a caça, Gianesini (2008) recorda a abundância de animais e as severas penalidades impostas atualmente pela Polícia Ambiental: "Se por acaso é dedado [...] vai lá a Polícia Ambiental ele tem direito a ir no freezer [...] Fiança não tem, é gaiola e tem que responder processo a vida toda".

O artigo demonstra que a profunda transformação da paisagem em Salto de Águas Negras é o resultado direto de uma concepção de natureza, herdada dos colonizadores europeus, que via o ambiente como algo que deveria se tornar "civilizado" a partir do trabalho humano. A lógica era clara: era preciso retirar a mata, cultivar e construir para transformar o selvagem em civilização. Cada fase econômica — do desbravamento inicial à fumicultura e ao atual ciclo do eucalipto — imprimiu essa visão sobre a terra, com consequências ambientais e sociais duradouras.

A comunidade enfrenta os desafios de um novo tempo. O estudo aponta para a necessidade de encontrar caminhos que consigam aliar o desenvolvimento sustentável, a preservação dos ecossistemas e o fortalecimento da agricultura familiar. Mais do que uma mudança de políticas, essa jornada exige uma mudança de percepção, algo que já ecoa na memória dos próprios agricultores. Refletindo sobre o uso de agrotóxicos no passado, o agricultor Fachini (2008) oferece uma poderosa síntese dessa transformação pessoal e coletiva: "Nós íamos até sem camisa. [...] É que na época eles não mandavam cuidar como hoje, se tu vai passar um veneno no capim tem que usar máscara. A gente se cuida mais."
Essa sabedoria adquirida, nascida da experiência direta com a terra, nos lembra que estudos de História Ambiental são fundamentais. Eles nos permitem olhar para o passado não para julgar, mas para compreender as raízes dos nossos desafios presentes e, assim, planejar um futuro onde a relação entre a sociedade e a natureza seja mais equilibrada e consciente.

quinta-feira, 8 de janeiro de 2026

O Brasil nasceu da derrubada de uma árvore, e isso explica muita coisa!

Quando os navios portugueses aportaram na costa do Brasil em 22 de abril de 1500, encontraram um continente coberto por uma floresta imponente e densa. Um dos primeiros atos dos recém-chegados foi simbólico e premonitório: derrubaram uma árvore para confeccionar uma cruz. Esse gesto inaugurou a história de uma civilização imposta por homens "movidos por cobiça e virtude, sem se deixarem levar por compaixão ou mesmo por curiosidade". A história da devastação que se seguiu é também a história da formação do Brasil. Ao olharmos para a destruição desta floresta, não vemos apenas uma tragédia ambiental, mas um espelho que reflete verdades contraintuitivas e impactantes sobre como nossa sociedade, economia e mentalidade foram moldadas. Evidentemente, não se trata de uma explicação totalizante da formação do Brasil, mas de uma chave interpretativa que evidencia como a exploração da natureza estruturou, desde o início, relações sociais, econômicas e culturais.

Nesta postagem, analisamos dois capítulos centrais da obra A ferro e fogo: a história e a devastação da Mata Atlântica, de Warren Dean: o capítulo 3, “A segunda leva de invasores humanos”, e o capítulo 4, “Alheamento: despovoada, a floresta renasce”. A partir deles, discutimos alguns pontos sobre como a colonização europeia constituiu um processo profundamente ecológico, no qual despovoamento indígena, introdução de novas espécies e transformação da paisagem redefiniram a história da Mata Atlântica e a própria formação do Brasil. A interpretação proposta por Warren Dean dialoga com a História Ambiental, campo que analisa a colonização não apenas como um fenômeno social, mas como uma transformação ecológica profunda.

Para começar, esqueça a imagem de um encontro ingênuo entre europeus astutos e nativos inocentes. A interação inicial foi impulsionada por um pragmatismo de ambos os lados. Os Tupis não trocaram toras de pau-brasil por bugigangas por serem simplórios. Eles o fizeram porque desejavam obter ferramentas de metal que representavam uma revolução tecnológica, reduzindo o tempo para derrubar árvores em "cerca de oito vezes". Para os Tupis, no entanto, a troca era mais que um comércio, era um "sinal material de aliança", um pacto que incluía obrigações mútuas, como a ajuda em combate. Os europeus, operando sob uma lógica puramente transacional, jamais compreenderam essa dimensão relacional, estabelecendo um conflito de visões de mundo desde o primeiro contato. O que para muitos grupos indígenas era um sistema relacional de troca e uso compartilhado da natureza, para os colonizadores rapidamente se converteu em mercadoria, estoque e fonte de acumulação.

A exploração não se limitou à flora. O comércio de animais era vasto e ecologicamente significativo. Um único navio em 1532, o Pelerine, carregou "3 mil peles de 'leopardos etc.', trezentos macacos e seiscentos papagaios". Para os Tupis, isso tinha um custo espiritual profundo. Matar uma onça, por exemplo, era um ato perigoso que exigia uma cerimônia complexa para aplacar seu espírito vingativo. Apesar da parceria, as lógicas econômicas eram fundamentalmente distintas. Enquanto os europeus operavam sob um desejo insaciável de acumulação, os Tupis viam isso com perplexidade. Um Tupi, conversando com o feitor francês Jean de Lery, expressou essa diferença de forma eloquente:

Vocês franceses são uns grandes idiotas; precisam sofrer tanto para cruzar o mar, no qual (como você nos contou) suportaram tantas privações, apenas para acumular riquezas para seus filhos ou para aqueles que os sucederem? A terra que alimenta vocês não será suficiente para alimenta-los?.

Essa dinâmica, baseada em lógicas incompatíveis, estabeleceu as bases para uma exploração extrativista e predatória. A superioridade militar europeia é apenas uma parte da história. A verdadeira vantagem, como demonstrou o historiador Alfred Crosby com seu conceito de "imperialismo ecológico", foi biológica. Os invasores não vieram sozinhos; trouxeram consigo um "exército de plantas e animais domésticos". Gado, porcos, cana-de-açúcar e trigo, ao chegarem ao Novo Mundo, encontraram um ambiente livre de seus predadores e pragas originais, proliferando de forma avassaladora. 

Em contraste, a atitude dos portugueses em relação à flora e fauna nativas foi de desinteresse e desdém, num distanciamento que contrastava com a "curiosidade universal dos humanistas" da época. Os frutos locais não lhes pareciam "tão bons quanto os de casa", e apressaram-se em classificar a dieta nativa como inferior, apesar de o físico dos Tupis ser "visivelmente mais imponente que o seu". A conquista foi, em grande medida, a substituição de um ecossistema por outro. A hegemonia europeia foi garantida tanto por seus germes, que dizimaram as populações nativas, quanto por suas espécies domesticadas, que transformaram a paisagem para sempre.

Após a chegada dos europeus, a Mata Atlântica passou por um período de forte regeneração em vastas áreas. Trata-se de uma regeneração lenta, desigual e inseparável do colapso demográfico indígena e da reorganização forçada do território. A razão para isso foi uma tragédia humana de proporções continentais. As doenças do Velho Mundo, como varíola e sarampo, para as quais os povos nativos não tinham imunidade, causaram um colapso demográfico catastrófico. Estima-se um declínio de 95% entre os Tupis da costa em apenas um século. Esse despovoamento massivo, somado às guerras e à escravidão, criou um vácuo ecológico. A pressão humana sobre a floresta, exercida por milênios, diminuiu drasticamente. 

O resultado foi que a floresta avançou. Registros históricos mostram que a vila de São Paulo, em 1587, possuía "mais bosques que outra coisa", e ordens foram emitidas no Rio de Janeiro para que os moradores cortassem as árvores que ameaçavam suas paliçadas. Ironicamente, esse fenômeno ajudou a forjar o mito de uma "terra vazia". Por mais de 400 anos, uma "interminável cadeia de cumplicidade" negou a realidade de um continente densamente povoado, permitindo aos neo-europeus se verem como "herdeiros de uma terra vazia".

O machado de metal acelerou o corte da floresta, mas foi uma ferramenta aparentemente mais modesta que alterou fundamentalmente a paisagem de forma irreversível: a enxada. Na agricultura indígena de corte e queima, os campos eram cultivados por pouco tempo e depois deixados em pousio para a regeneração da floresta. A introdução da enxada permitiu o cultivo dos mesmos campos por períodos muito mais longos. A consequência foi desastrosa: a exposição prolongada do solo ao sol destruía os micorrizos,  que são fungos essenciais para as raízes que permitem a absorção de nutrientes. Sem eles, a floresta primária não conseguia mais renascer.

Essa mudança tecnológica servia a um propósito ideológico colonial: fixar a população em um lugar, em oposição à mobilidade sustentável da agricultura nativa. Essa necessidade constante por novas terras, pois as antigas se tornavam "cansadas", gerou uma forma peculiar de economia. Como observou o cronista Gabriel Soares de Souza, "acontece muitas vezes valer mais a novidade de uma fazenda que a propriedade". Nascia assim uma forma extrativa de capitalismo, um "capitalismo pelo avesso", no qual o estoque de capital era a própria natureza, que era rapidamente dissipada para gerar riqueza.

Mas a conquista não foi apenas física e biológica, ela foi também ideológica. Em seu esforço para converter os povos nativos, os jesuítas buscaram "afirmar a separação entre o divino e o natural". Uma de suas estratégias mais eficazes foi demonizar a cosmologia indígena. Os espíritos da floresta foram indiscriminadamente caracterizados como "diabos", e a Mata Atlântica, transformada na "morada do diabo", isso é uma "metáfora conveniente para aqueles que a receavam e pretendiam eliminá-la".

Mas a guerra ideológica foi dupla. Não bastava vilificar a floresta; era preciso glorificar sua destruição. A agricultura foi elevada a um ato sagrado, uma forma de cristianização da paisagem. O jesuíta Diogo Jacome exortou seus colegas com uma poderosa metáfora agrícola:

Este vinhedo carece de uvas porque não há ninguém aqui para derrubar as matas em volta e poda-lo; vocês são os podadores....

Essa separação psíquica entre a "civilização" (a vila) e a "barbárie" (a floresta) levou à desvalorização do imenso conhecimento que os povos nativos possuíam. A floresta, de um repositório de vida, foi reconfigurada no imaginário colonial como um inimigo a ser vencido.

Os capítulos analisados mostram a devastação da Mata Atlântica durante a formação do Brasil, mostrando aspectos ecológicos, sociais e econômicos. A mentalidade extrativista, a apropriação de terras vistas como "vazias" e o apagamento dos saberes tradicionais não são relíquias do passado. São ecos que ressoam nos desafios ambientais e sociais que o país enfrenta hoje. A prova mais duradoura e íntima dessa relação está em nosso próprio nome. Ler a história do Brasil a partir de suas árvores derrubadas é, acima de tudo, um convite a questionar as bases naturais e sociais sobre as quais se construiu nossa ideia de nação — não apenas como um passado esquecido, mas como um caminho que seguimos ainda hoje.

Os habitantes da nova terra passaram a ser chamados de brasileiros, uma identidade derivada do ofício de cortar pau-brasil. Como notou Warren Dean, é uma "designação peculiar e pungente", que nos amarra etimologicamente ao primeiro ato de extração em massa da floresta. Essa lógica inaugurada no período colonial não desapareceu, mas foi continuamente reatualizada em diferentes ciclos econômicos, tecnologias e discursos de progresso. Assim o que vemos hoje não é apenas um resíduo histórico, mas uma cadeia de práticas e mentalidades colonial-capitalistas que atravessam séculos e se adaptam às dinâmicas políticas e econômicas do presente.

Bem, este texto que analisamos, e que contem os dois capítulos mencionados pode ser baixado clicando aqui. O livro é uma leitura fundamental, e inclusive durante muitos anos foi uma das principais referencias do processo seletivo do mestrado/doutorado em História da UFSC. O texto descreve ao longo de cinco séculos, sucessivos ciclos econômicos, frequentemente apresentados como sinais inevitáveis de progresso, e que avançaram sobre a floresta, reduzindo um bioma de dimensões continentais a fragmentos isolados. É uma renovação no olhar da História do Brasil,  que é marcada por escolhas políticas, interesses econômicos e impactos ecológicos profundos, que Warren Dean muito bem. 

Mais sobre o autor e a obra...

Warren Dean (Passaic, 17 de outubro de 1932 – Santiago do Chile, 21 de maio de 1994) foi um historiador estadunidense de destaque, reconhecido principalmente como brasilianista e por suas contribuições pioneiras à história ambiental. Ele nasceu em Nova Jersey e, ainda na adolescência, mudou-se com sua família para Miami. Estudou na Universidade de Miami e serviu como oficial da Força Aérea dos EUA, atuando como controlador de tráfego aéreo durante a Guerra da Coreia. Após o serviço militar, dedicou-se à história latino-americana na Universidade da Flórida, onde defendeu em 1964 sua dissertação sobre a elite industrial de São Paulo. Além de historiador, Dean se engajou politicamente ao organizar o Comitê Americano para Informação sobre o Brasil durante o regime militar, documentando e criticando o uso de tortura no país. 

Como professor, lecionou primeiro na Universidade do Texas em Austin e, posteriormente, na Universidade de Nova York, onde permaneceu até sua morte. Sua carreira acadêmica produziu vários livros importantes sobre a história econômica e ambiental do Brasil, incluindo estudos sobre industrialização, monocultura e relações ambientais. Sua obra A Ferro e Fogo: a história e a devastação da Mata Atlântica Brasileira, representa um marco na história ambiental ao colocar o bioma da Mata Atlântica no centro da narrativa histórica sobre o Brasil. O livro recebeu o Bolton-Johnson Prize postumamente, reforçando a importância de sua contribuição acadêmica.  

Warren Dean morreu tragicamente em Santiago do Chile, vítima de asfixia por um vazamento de gás, pouco depois de concluir sua obra sobre a Mata Atlântica. (Fonte da biografia: Wikipédia). Este texto tem como fonte o anexo, e passou por revisão de IA.

domingo, 4 de janeiro de 2026

Relato das atividades do grupo durante o ano de 2025.

O ano de 2025 pode ser caracterizado como um período de relativa tranquilidade nas atividades do Grupo de Pesquisa de História Ambiental do Vale do Itajaí (GPHAVI), especialmente quando comparado a fases anteriores de maior intensidade, como o intervalo entre 2009 e 2019. Naquele período, o grupo chegou a contar com uma equipe ampliada, composta por até doze bolsistas anualmente de graduação, beneficiando-se de um cenário mais favorável ao fomento à pesquisa, com a existência de diversos programas institucionais e governamentais de incentivo, como o PIBIC CNPq, hoje o principal fomento de ICs, e o PBIC/FURB, o FUMDES e o PIPe, todos posteriormente extintos. A substituição desses programas pela política da Universidade Gratuita, embora relevante em outros aspectos, alterou significativamente a dinâmica de financiamento direto à pesquisa científica no estado de Santa Catarina. Ainda assim, mesmo diante desse contexto de retração estrutural do apoio à pesquisa no país e no estado, o GPHAVI manteve suas atividades de forma contínua.

No período posterior à pandemia de COVID-19, observam-se avanços importantes na retomada e manutenção das atividades de pesquisa, ensino e extensão em todo país. O grupo conseguiu assegurar a continuidade de projetos de Iniciação Científica, pesquisas com fomento externo e ações de divulgação científica. Em 2024, foram iniciadas duas pesquisas de Iniciação Científica. A primeira, vinculada à graduação, contou inicialmente com dois bolsistas e teve como objetivo investigar a História Ambiental da agropecuária no Vale do Itajaí, com foco na região de Blumenau entre os séculos XVIII e XIX. Essa pesquisa foi concluída em setembro de 2025 com a permanência de um bolsista, sendo seus resultados apresentados na Mostra Integrada de Ensino, Pesquisa, Extensão e Cultura (MIPE). A segunda Iniciação Científica, desenvolvida com dois bolsistas do Ensino Médio da ETEVI, teve início também em 2024 e se dedicou à análise dos grupos de pesquisa em História Ambiental e às estratégias utilizadas por esses coletivos para a divulgação científica por meio das redes sociais. Esse estudo foi igualmente finalizado em setembro de 2025 e apresentado na MIPE.

No decorrer de 2025, ambas as Iniciações Científicas foram renovadas. A pesquisa de graduação deu sequência à problemática anteriormente estabelecida, mantendo o mesmo bolsista durante boa parte do ano, embora tenha ocorrido sua substituição no final do período, encerrando-se o ano com um bolsista em atividade. Essa Iniciação Científica foi coordenada pelo pesquisador Gilberto, com apoio do pesquisador Martin. Já a Iniciação Científica do Ensino Médio foi renovada com dois bolsistas, mantendo a mesma linha de investigação, sob coordenação do pesquisador Martin, que também atua como professor dos estudantes na educação básica. Dessa forma, o ano de 2025 foi concluído com duas Iniciações Científicas em andamento, uma na graduação, com um bolsista, e outra no Ensino Médio, com dois bolsistas.

Paralelamente às atividades de Iniciação Científica, o grupo deu continuidade a um projeto de pesquisa fomentado pela FAPESC, voltado ao mapeamento ambiental, ao incentivo ao desenvolvimento sustentável e à observação de aves no entorno do Parque Nacional da Serra do Itajaí. Esse projeto envolve diretamente os pesquisadores Gilberto, Carlos, Vanessa e Martin, e demandou a realização de diversas atividades de campo, incluindo trilhas, observação sistemática e registro de espécies de aves. Trata-se de uma pesquisa em andamento, com previsão de execução até o final de 2026, cujas informações e atualizações vêm sendo divulgadas regularmente nos canais do grupo.

No que se refere à produção e à difusão do conhecimento científico, as pesquisas de Iniciação Científica resultaram em relatórios finais, que servirão de base para a elaboração de artigos acadêmicos a serem submetidos a periódicos científicos, em coautoria com os bolsistas. A pesquisa financiada pela FAPESC conta atualmente com dois artigos em fase de desenvolvimento, além de outros estudos já submetidos, para os quais o grupo aguarda retorno de dois periódicos científicos. Em termos de publicações consolidadas em 2025, ainda não publicamos as pesquisas particulares realizadas pelo grupo, mas os pesquisadores marcaram presença, o pesquisador Gilberto participou da publicação de dois artigos científicos. O primeiro, intitulado Integração das políticas de planejamento urbano com obras de proteção costeira: estudo de caso no litoral de Itapema-SC, foi publicado na Revista Brasileira de Geografia Física. O segundo, Governança dos Recursos Hídricos e Desenvolvimento Regional Sustentável: o Caso do Comitê do Itajaí (SC), foi publicado na revista REDES. A pesquisadora Vanessa, em coautoria com Carlos, publicou o artigo Birds of the north coast of Santa Catarina na Revista CEPSUL: Biodiversidade e Conservação Marinha. Além disso, Carlos Eduardo Zimmermann publicou, em coautoria, o estudo Ficus cestrifolia Schott ex Spreng (Moraceae) como foco no recrutamento de espécies florestais em pastagens abandonadas, na Acta Biológica Catarinense.

Visualizações do blog

As atividades de extensão permaneceram como um dos eixos centrais do GPHAVI ao longo de 2025, especialmente por meio da divulgação científica realizada nas redes sociais e, de forma destacada, pelo blog do grupo. Criado em 2009, o blog consolidou-se como a principal ferramenta extensionista do GPHAVI, alcançando ao longo de sua trajetória mais de 331 mil visualizações. Somente em 2025, o blog registrou mais de 81 mil visualizações, evidenciando seu alcance e relevância junto a diferentes públicos. 

Mapa de visualização





Durante o ano, foram publicadas diversas postagens, abordando temas variados da História Ambiental, com destaque para aquelas que obtiveram maior número de acessos. Entre as dez postagens mais acessadas de 2025 destacam-se textos como A jornada da pesquisa acadêmica: da IC ao TCC no GPHAVI, Aves, conservação e a relação com a História Ambiental, Colonização alemã no Vale do Itajaí: uma análise ambiental, Trabalho, natureza e História, O espectro do capitalismo assola um Parque Nacional, A História Ambiental e o 01 de maio, Chamada para seleção de Projetos de Iniciação Científica – PIBIC-CNPq 2025, Dia Mundial do Meio Ambiente e aniversário de 21 anos do GPHAVI, Desvendar a História Ambiental: um ensaio sobre abordagens e fontes e O papel da História Ambiental na educação contemporânea. Essas postagens refletem tanto a diversidade temática quanto o compromisso do grupo com a divulgação científica crítica e acessível.

Em síntese, embora 2025 tenha sido um ano marcado por limitações estruturais no fomento à pesquisa, o Grupo de Pesquisa de História Ambiental do Vale do Itajaí manteve-se ativo e produtivo, assegurando a continuidade de suas pesquisas, a formação de estudantes, a produção acadêmica e a divulgação do conhecimento. O conjunto das atividades desenvolvidas reafirma o compromisso do GPHAVI com a pesquisa científica, a formação crítica e a extensão universitária, ao mesmo tempo em que expressa a expectativa de que, em um futuro próximo, o cenário institucional e político possa novamente favorecer de forma mais ampla o desenvolvimento da pesquisa no país e no estado de Santa Catarina.

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quinta-feira, 1 de janeiro de 2026

Cinco apontamentos sobre a colonização do Vale do Itajaí que a história oficial não conta!

A imagem que temos da colonização do Vale do Itajaí é, muitas vezes, a de um épico. Retrata pioneiros heroicos que, com coragem e trabalho duro, dominaram uma natureza selvagem para fundar cidades prósperas. No entanto, relatos da época, quando lidos com um olhar crítico, revelam uma realidade muito mais crua, complexa e, por vezes, contraditória. O texto Flagrantes da História de Rio do Sul, escrito por Victor Lucas em 1959, é uma janela rara para esse passado.

Mais do que uma simples crônica, o relato de Lucas nos convida a explorar como uma cidade nasce da violenta interação entre a ambição humana e um ambiente ativo e resistente. Baseando-nos em seu testemunho e em análises modernas sobre ele, vamos revelar cinco fatos que desconstroem a narrativa tradicional e expõem o complexo "metabolismo socioambiental" da colonização: o processo pelo qual florestas foram convertidas em fazendas, rios em estradas e perigos, e territórios indígenas em propriedade colonial.

Apontamento 1 
A vida dos primeiros colonos no Alto Vale do Itajaí era um paradoxo. Eles viviam sob a ameaça constante da malária, de acidentes nas derrubadas da mata, de ataques de animais peçonhentos e de um violento conflito territorial. Contudo, em meio a tantos perigos, uma coisa era praticamente inexistente: a fome. Victor Lucas descreve uma natureza de riqueza e fauna impressionantes, um ecossistema que ainda não havia sido esgotado pela ocupação intensiva. A caça (macuco, jacutinga) e a pesca (traíras de 3 a 7 quilos) eram tão abundantes que garantiam a subsistência de forma quase imediata.

Um pioneiro entrevistado por Lucas ilustra essa fartura de maneira vívida, contrastando a facilidade de obter alimento com as outras dificuldades da vida no sertão: 

Não, disse êste honrado e velho pioneiro, pois, os sertões eram virgens em todos os sentidos e as suas extensões intermináveis, e a carne que formava a base de nossa alimentação, era abundante e boa. Era só receber o aviso da cozinha que a carne acabara, quando empunhava meu pau de fogo, aliás uma belíssima espingarda alemã, de 2 canos, bala e chumbo e, o mais tardar uma hora após ter recebido o recado, eu jogava sôbre a mesa, tôsca mas farta, ou um belo exemplar de macuco ou de jacutinga, ou ambos, conforme a sorte.

Sob a lente da História Ambiental, essa abundância alimentou o "mito da natureza inesgotável". Mais do que uma simples percepção, este mito funcionou como uma poderosa ferramenta ideológica: justificava a mentalidade extrativista dos colonos e obscurecia as consequências ecológicas de longo prazo de suas ações, que levariam muitas espécies à rarefação nas décadas seguintes.

Apontamento 2
Diferentemente de Blumenau e Brusque, cujas fundações foram projetos coloniais planejados e financiados pelo governo, Rio do Sul nasceu de forma orgânica, quase acidental. Victor Lucas é enfático ao afirmar que a cidade não teve um "ato solene", com discursos e registros oficiais. A ocupação começou com "movimentos isolados, tentativas heroicas e temerárias" de sertanistas e descendentes de imigrantes que avançavam pelo território por conta própria.

Essa origem não planejada é perfeitamente ilustrada pela controvérsia sobre a "primeira casa". O relato aponta que a moradia de Basílio Corrêa de Negredo, erguida por volta de 1895, era uma "simples palhoça", uma estrutura provisória. Já a de José Vicente, construída em 1897, é considerada a "primeira casa - verdadeira", com os requisitos mínimos de uma moradia. Essa distinção revela que a fundação não foi um evento único, mas um processo gradual, feito de tentativas, avanços e recuos.

Essa narrativa de uma origem "acidental" também reforça o "sertão" como uma construção cultural: uma ideia que apresenta o território como vazio, desorganizado e à espera de ordem. Ao enfatizar o caráter não planejado da ocupação, essa visão, mesmo baseada em fatos, serviu para apagar a presença indígena anterior e justificar a apropriação como uma expansão natural, quase biológica, em vez de uma invasão planejada. A cidade, portanto, não foi "fundada" em um único ato; ela emergiu de um processo caótico e adaptativo de interação entre seus habitantes e o ambiente.

Apontamento 3
A narrativa heroica do pioneiro frequentemente omite um fato crucial: o abandono completo por parte do Estado. Enquanto os colonos de Blumenau e Brusque receberam apoio governamental com financiamento, terras, ferramentas, escolas e até proteção armada, os que se aventuraram no Alto Vale do Itajaí foram deixados à própria sorte. Não havia assistência médica para combater a malária, auxílio durante as enchentes devastadoras ou qualquer tipo de proteção.

O ponto mais contraintuitivo, no entanto, é que a ação do governo em outras regiões não apenas não ajudou, como agravou a situação em Rio do Sul. Ao destacar pelotões armados para "proteger" os colonos do litoral, o Estado empurrou os povos indígenas para o interior. Como explica Lucas, isso intensificou a tensão no território que se tornaria Rio do Sul:

...êstes ainda sofriam o agravamento da situação, provocado pelo deslocamento dos índios ou bugres, empurrados para o planalto pelos citados pelotões armados, e que aqui se moviam livremente, vingando ataques recebidos na zona do litoral...

Dessa forma, o Estado deixou de ser uma figura meramente ausente para se tornar um agente indireto do conflito, transformando a região em uma zona de refúgio forçado e, consequentemente, em um campo de batalha ainda mais intenso.

Apontamento 4
A ideia de uma "floresta virgem" ou de uma "selva vazia" que aguardava a chegada dos colonizadores é um dos mitos mais persistentes e problemáticos da história regional. A análise do texto de Victor Lucas mostra que esse território, longe de ser vazio, era um espaço de vida e domínio ancestral dos povos indígenas. A "natureza intocada" era, na verdade, um ambiente profundamente conhecido, manejado e habitado.

O próprio Lucas, mesmo escrevendo sob a ótica do colonizador, reconhece que o conflito não era um ataque unilateral a invasores indefesos, mas uma reação legítima à expropriação territorial. Ele descreve a resistência indígena como uma defesa de seu espaço de vida:

...defendendo, heroicamente, aquilo que, durante milênios, fôra do seu domínio absoluto e indisputado.

O que ocorreu no Alto Vale do Itajaí foi um clássico "conflito ambiental", o choque violento entre dois metabolismos socioambientais irreconciliáveis. De um lado, o sistema indígena, baseado na territorialidade, na mobilidade e na coexistência dentro do ecossistema. Do outro, o sistema colonial, predicado na conversão da terra em propriedade privada e da natureza em mercadoria. A colonização não apenas ocupou um espaço, mas impôs à força um novo modelo de relação com o ambiente, destruindo o sistema ecológico e social que existia anteriormente.

Apontamento 5
Para o colono de Rio do Sul, a natureza tinha uma dupla face. Por um lado, era a aliada generosa que garantia a sobrevivência. Como vimos no primeiro ponto, sua abundância de fauna e a fertilidade dos solos ribeirinhos impediram a fome e viabilizaram a ocupação inicial. A natureza era a despensa e o alicerce da vida.

Por outro lado, era uma inimiga implacável e uma fonte constante de perigo. O mesmo ambiente que alimentava também matava. Lucas detalha as múltiplas ameaças: os ataques de ofídios, com suas "mordidas, geralmente de conseqüências terríveis e, às vêzes, fatais"; as doenças, como a malária, "que tantas resistências quebrara"; e os fenômenos climáticos. O poder dos rios era especialmente ambíguo: as mesmas vias que serviam de transporte e cujas margens eram estratégicas para as moradias se transformavam em forças devastadoras durante as cheias, que isolavam famílias por semanas, deixando-as "encurraladas, sem meios de buscar socorro".

A história da colonização é, portanto, a história de uma negociação violenta com uma natureza de dupla face: a aliada generosa que garantia a vida e a inimiga implacável que impunha limites brutais à ambição humana.

Concluindo, a história da fundação de Rio do Sul, vista através de relatos como o de Victor Lucas, é muito mais do que um conto de heroísmo pioneiro. Ela é um estudo de caso sobre o metabolismo socioambiental da colonização: um processo violento de abandono, conflito e adaptação, no qual a natureza era, simultaneamente, provedora e aniquiladora. Desvendar essas camadas não diminui a resiliência dos que aqui chegaram, mas nos oferece uma visão mais honesta e completa do nosso passado, reconhecendo os custos ecológicos e humanos dessa transformação. Ao olharmos para nossas próprias cidades, que outras histórias – sobre a natureza, os conflitos e os povos silenciados – ainda estão escondidas sob o asfalto e as narrativas oficiais? A história regional é um prato cheio para estudos de História e História Ambiental. 

A propósito, se olharmos para a própria história do curso de História da Universidade Regional de Blumenau, ela  surge com esse propósito, inclusive afirma ter sido criado para compreender a geohistória do Vale do Itajaí, ou seja, a sua História Ambiental.... mas essa é uma outra discussão. Se gostou do texto, comenta aí. Se quer ter acesso ao documento que analisamos clique aqui.

Referência 
LUCAS, Victor. Flagrantes da história de Rio do Sul. Blumenau em Cadernos, Blumenau, n. 11, tomo II, p. 201–205, nov. 1959.

Este texto foi revisado, corrigido e sofreu alterações  realizadas com o IA.

segunda-feira, 29 de dezembro de 2025

Pequeno retrato agrícola do Brasil oitocentista: analisando as culturas de Brusque e Nova Trento

O documento que analisamos é um fragmento com o título NOTÍCIAS de BRUSQUE E NOVA TRENTO, escrita por D. Arcângelo Ganarini em 1880 e traduzida do italiano por Lucas Alexandre Boiteux. Publicado na Revista Blumenau em Cadernos, n.09 em setembro de 1959, o texto é muito mais do que um mero catálogo agrícola, mas um documento de profunda tradução ecológica e econômica. Através do olhar de Ganarini, observamos a mentalité de um observador oitocentista, testemunhando a constante tensão entre a memória agrícola europeia e a nova e desafiadora ecologia do sul do Brasil. Esta postagem analisa o relato como uma fonte, que olhamos com a história ambiental, explorando como as aspirações europeias foram mapeadas, e frequentemente redefinidas, por uma paisagem brasileira repleta de promessas e perigos. Ganarini dedica parte significativa de seu relato às culturas que representavam oportunidades de lucro e desenvolvimento econômico para os colonos. Sua análise não é apenas descritiva, mas também prática, avaliando a viabilidade, os riscos e o potencial de retorno de cada planta. É isso que achamos interessante, pois essas informações dialogam com nossas ações de pesquisas de História Ambiental da agropecuária do Vale do Itajaí, projeto desenvolvido dentro da linha de pesquisa História Ambiental e Desenvolvimento Regional (2024-2026).

O autor descreve o café como uma cultura que "vinga também nestas colônias", exceto quando prejudicado pela geada. Ele apresenta dados precisos sobre o apelo econômico da planta: uma densidade de 900 pés por hectare poderia render de 600 a 2.000 quilos, vendidos a 40 ou 50 vinténs o quilo. Contudo, a análise de Ganarini revela que a escolha de cultivar café era mais do que um cálculo econômico; era uma decisão de vida ou morte. Ele relata a trágica experiência de outros imigrantes seduzidos por lucros vistosos: "muitos dos nossos compatriotas reunidos no Rio, combinaram procurar as colônias da província do Espírito Santo, aonde muitos sob aquêle clima ardente e sítios malsãos, adoeceram e não poucos lá deixaram a vida...". Neste contexto, a geada de Santa Catarina, um risco manejável com conselhos práticos como "plantá-la debaixo de outras árvores e cobri-la de folhas sêcas", parecia um mal menor em comparação com as doenças tropicais mortais. Mesmo assim, ele critica os colonos locais que não eram "mais solertes" para cultivar o grão para consumo próprio, pagando entre 70 e 90 vinténs por um produto que poderiam ter em seus quintais.

O cultivo de algodão na província limitava-se às "necessidades da família". Ganarini detalha o processo de manufatura caseira: os capulhos eram colhidos, as sementes retiradas com um torno, o fio era produzido no fuso, tingido com "ervas, raízes ou cascas" e, por fim, tecido. A sua frustração com os colonos por não adotarem essa prática revela uma profunda ansiedade cultural. O apelo para que as mulheres italianas imitassem as brasileiras — que "não deveriam ir dormir antes das galinhas e levantar-se antes do sol" — era menos sobre economia simples e mais sobre prevenir um percebido declínio civilizacional, ou seja, um discurso etnocêntrico. A urgência era material e simbólica, pois "as roupas trazidas da Europa se acham esfarrapadas, e se não forem substituídas, será preciso andar muito breve em trajes de Adão."

O tabaco é descrito como uma planta que "consola sobremodo os nossos colonos". Ganarini ressalta o contraste com a Europa, onde cultivar a planta era um ato fiscalizado. No Brasil, havia a liberdade de "cultivá-la sem licença das finanças, poder colhê-la e prepará-la à luz do sol, sem temer os espiões e cair no contrabando". Ele descreve os métodos locais, como o cigarro enrolado em "folhas mais finas das espigas de milho" e o "fumo em corda", e nota a introdução de variedades europeias ("húngaro, brasil, valstanha") pelos colonos. Mais importante, porém, é o detalhe que Ganarini astutamente observa: o tabaco, junto ao café, foi "julgada digna de figurar como ornamento no brazão do pais". Essa elevação a símbolo nacional, comparável ao carvalho e à oliveira na Áustria, transforma a planta de um simples conforto para colonos em um pilar da ambição econômica e do projeto de construção estatal do Império Brasileiro.

O cultivo da videira é apresentado como um caso exemplar de transferência de conhecimento e adaptação. A esperança era grande, com uvas "marzemina" locais rivalizando com as do Adige. A narrativa, porém, vai além da luta contra as formigas. Ganarini revela uma história de experimentação: inicialmente, os brasileiros "deixavam crescer a videira sem a menor cultura" e acreditavam ser impossível fabricar vinho devido à maturação desigual. Foram os colonos italianos que, aplicando técnicas europeias, "podaram as videiras e assim foi corrigida em parte a maturação desigual", provando que a vinicultura era viável. Ameaçados pelas formigas que deixavam a planta "nua e êscas", os colonos mais "pacientes e ativos" desenvolveram uma solução local engenhosa: "cercar o terreno destinado às vinhas com um valo cheio d'água". O sucesso, com colonos já esperando ganhar "mais de 150 florins", era incentivado por notícias de safras prósperas em outras províncias como Rio Grande do Sul e São Paulo, demonstrando a existência de redes de conhecimento agrícola em desenvolvimento.

O documento também é rico em descrições de plantas que formavam a base da dieta dos colonos, revelando um intenso processo de adaptação aos alimentos nativos e a introdução de culturas europeias. O Aipim, descrito como uma das mais importantes raízes alimentares, de farinha "muito mais gostosa do que a da mandioca". Seu uso comum era cozido, com sabor comparado à "castanha". Por ser "muito lactifero", era dado aos animais no inverno. Ganarini destaca sua boa aceitação entre os "trentinos". 

A batata doce de sabor "pronunciado adocicado" e o tamanho, com tubérculos de até três quilos, era usada principalmente na "alimentação de porcos e galináceos", o autor sugere que poderia servir às pessoas se o sabor fosse corrigido com "ingredientes picantes e vinagre e limão". Também são tratados dos Mangaritos e Taiá (Caladium). O texto os diferencia pelo sabor, sendo o mangarito descrito como picante, enquanto o taiá se parece com o aipim. Sua grande vantagem era poderem ser conservados "durante muito tempo depois de arrancadas da terra", substituindo as batatas europeias.

O Cará (Dioscorea), é mencionado duas espécies, sendo uma, com um grande tubérculo usado para fazer pão, e outra, uma trepadeira que produz frutos nos nódulos. A planta, contudo, era vulnerável às formigas, que "as despojam até às vêzes, deixá -las sêcas".

Sobre a Araruta o autor descreve o detalhado processo de extração da farinha (ralar, moer, lavar, decantar) para fazer uma "espécie de gelatina". Embora exportada para o Desterro e Rio de Janeiro, era "pouco ou quasi desconhecida" entre os colonos italianos.

A fonte trata das Batatas "inglesas". As batatas europeias produziam duas vezes ao ano, mas não tão bem quanto nos "países alpinos". Para manter a produtividade, as sementes precisavam ser renovadas da Europa a cada três ou quatro anos.

Ganarini via a sericicultura (criação de bichos-da-seda) como um potencial "bom negócio". Contudo, ele aponta uma significativa barreira cultural: "os brasileiros e alemães têm uma espécie de horror" pelo inseto, não suportando sequer tocá-lo. Ele finaliza com uma crítica às tentativas governamentais de introduzir a cultura, que, em sua visão, resultaram em muito dinheiro gasto com "resultado problemático", pois o país não dispunha "de conhecimentos nem os meios para superá-las".

O relato de D. Arcângelo Ganarini é muito mais que uma lista de plantas, podemos dizer que é um documento que sintetiza a complexa experiência dos imigrantes no sul do Brasil. Ao aprofundar a análise, extraímos conclusões fundamentais sobre este processo histórico. A fonte apresenta uma intensa negociação entre técnicas agrícolas europeias importadas e as realidades ecológicas locais. A busca por adaptação e viabilidade econômica era um processo contínuo de tentativa, erro e inovação. A descrição de cada planta é quase sempre acompanhada de uma análise de seu valor econômico, uso prático ou potencial de lucro, refletindo a mentalidade, o ponto de vista ideológico do narrador, que se apresenta pragmático à sobrevivência e prosperidade na fronteira agrícola. O documento revela as distintas atitudes dos grupos de colonos. Vemos isso na ação italiana de poda nas videiras, em contraste com a prática local, por exemplo. Os desafios iam além de "geadas" e "formigas". O relato situa os problemas locais em um contexto ambiental mais amplo, contrastando os riscos manejáveis de Santa Catarina com o "clima ardente e sítios malsãos" de outras províncias, que representavam uma ameaça mortal.

Relatos como o de Ganarini são fontes primárias indispensáveis. Eles nos permitem compreender a interação dinâmica e, por vezes, conflituosa entre imigrantes, agricultura e o ambiente brasileiro, pintando um retrato vívido da formação do espaço rural no Brasil oitocentista. E se você quer conhecer o material clique aqui para acessar a nossa fonte de análise, e faça você mesmo as suas colocações. Comenta aí!

Referência:

GANARINI, D. Arcângelo. Brusque e Nova Trento: isto é, das colônias Itajaí e Príncipe Dom Pedro na Província de Santa Catarina, Império do Brasil. Tradução de Lucas Alexandre Boiteux. Revista Blumenau em Cadernos, Blumenau, n. 9, tomo II, 1959. p.177-180.

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quarta-feira, 24 de dezembro de 2025

Uma reflexão sobre a escolha da árvore de natal! Feliz Natal!

Olá, leitores, e um feliz final de ano de 2025. 

Com as festas de Natal e Ano Novo se aproximando, nossos lares começam a se encher de luzes, decorações e daquele espírito único que marca esta época. Em meio a tudo isso, um símbolo se destaca: a árvore de Natal. Enquanto montamos nossas árvores, seja um pinheiro fresco com seu aroma de floresta ou uma artificial guardada com carinho, já paramos para pensar em sua história ambiental? A escolha que fazemos, aparentemente simples, está no centro de um debate de mais de um século sobre natureza, tecnologia, consumo e nossa relação com o planeta.

Esta reflexão é inspirada por discussões globais sobre o tema, como as encontradas em blogs acadêmicos como o "Völkerrechtsblog", que questionam as tradições natalinas sob uma ótica ambiental. No entanto, para desvendar esta história, vamos nos apoiar fortemente na pesquisa exaustiva do historiador Aaron Thomas. Seu trabalho de doutorado de 2020, "Controlling Christmas: an environmental history of natural and artificial trees", é uma verdadeira expedição aos arquivos da cultura natalina, revelando como a simples árvore se tornou um campo de batalha para as ideias americanas sobre natureza, lar e progresso. Ela nos ajuda a entender o dilema que enfrentamos hoje.

A árvore que chamamos de "real" ou "natural" tem uma trajetória que está longe de ser simples. Aqui vemos um padrão clássico na história ambiental: uma solução para um problema (desmatamento) gera um novo conjunto de complexidades ecológicas (monocultura, uso de pesticidas). Sua evolução revela como nossas ideias sobre a natureza foram moldadas e, por sua vez, como moldamos a própria natureza para atender às nossas expectativas.

No final do século XIX e início do século XX, as árvores de Natal eram cortadas diretamente de florestas selvagens. Essa prática rapidamente gerou um alarme sobre o desmatamento. A preocupação se tornou tão proeminente que deu origem a uma das lendas mais duradouras da Casa Branca: a de que o presidente Theodore Roosevelt, um fervoroso conservacionista, teria banido as árvores de Natal de sua residência para proteger as florestas. Embora a história seja provavelmente apócrifa, ela captura perfeitamente o espírito da época. O movimento conservacionista da Era Progressista estava em pleno andamento, dividido entre preservacionistas como John Muir, que defendiam a proteção da natureza intocada por seu valor intrínseco, e conservacionistas de "uso racional", como Gifford Pinchot, que acreditavam no manejo científico dos recursos naturais para o bem humano. A árvore de Natal estava bem no centro desse debate: era um desperdício sentimental ou um uso legítimo e alegre de um recurso florestal?

A solução para a extração predatória das florestas parecia óbvia: cultivar árvores de Natal em fazendas. Essa ideia ganhou força, e até mesmo o presidente Franklin D. Roosevelt se tornou um produtor de árvores em sua propriedade em Hyde Park. No entanto, o que começou como uma solução conservacionista evoluiu para um processo agrícola altamente industrializado, impulsionado em parte pela crise agrícola dos anos 1980, que levou muitos agricultores tradicionais a cultivar coníferas como um último esforço para permanecer em suas terras, resultando em um mercado saturado.

Aqui reside a ironia central da nossa história: na busca pela "autenticidade" para competir com sua rival de plástico, a indústria da árvore natural tornou seu produto cada vez mais artificial. A dissertação de Thomas revela como a "árvore real" de hoje é, em muitos aspectos, um produto fabricado, moldado por intensa intervenção humana e química.

Para alcançar a forma cônica e densa que os consumidores consideram "perfeita", as árvores são podadas anualmente. Esse processo, que os próprios produtores chamavam de "modelagem artificial", garante que as árvores não cresçam de forma irregular, como fariam na natureza. O ideal de "perfeição" não era apenas hortícola, mas um ideal cultural e de gênero. Festivais realizavam concursos de "Rainha Evergreen" e anúncios da época equiparavam explicitamente a estética de uma mulher "bem-vestida" à de uma árvore "bem-vestida", mostrando que a árvore perfeita era uma construção social.

As fazendas de árvores são, em sua maioria, monoculturas, o que as torna vulneráveis a pragas e ervas daninhas. Consequentemente, a indústria passou a depender fortemente de regimes químicos para proteger a colheita, com preocupações crescentes sobre a contaminação do solo e da água.

Para garantir uma cor verde vibrante e mascarar agulhas amareladas, muitos produtores pulverizam suas árvores com colorantes como o "Greenzit". Um anúncio de 1965 prometia que o produto transformava "árvores descoloridas, mas de resto perfeitas" em árvores "premium". O resultado é que a árvore "natural" que compramos hoje é um produto tão gerenciado e, em certo sentido, "artificial" quanto sua contraparte de plástico. Ela não vem de uma floresta idílica, mas de uma linha de produção agrícola que busca a perfeição estética em detrimento do processo natural.

A história da árvore artificial é igualmente complexa, refletindo as mudanças nas atitudes culturais em relação à conveniência, modernidade e autenticidade. As primeiras árvores artificiais surgiram com um apelo explicitamente conservacionista. Modelos feitos na Alemanha a partir de penas de ganso tingidas de verde foram comercializados como uma forma de "salvar as florestas". Além do apelo ecológico, a segurança era um grande argumento de venda. Numa época em que velas de cera reais eram usadas para iluminar as árvores, o risco de incêndio era uma ameaça constante. A conveniência e a reutilização também eram fatores atraentes para as famílias urbanas.

A árvore artificial atingiu seu auge cultural com o advento da árvore de alumínio nas décadas de 1950 e 1960. Brilhante, metálica e muitas vezes iluminada por uma roda de cores giratória, ela não era apenas um produto, mas o epítome da modernidade da Era Espacial, um símbolo de fé no progresso tecnológico e no otimismo americano. No entanto, seu reinado foi abruptamente interrompido por um ponto de virada cultural improvável. Em 1965, o especial de TV "A Charlie Brown Christmas" foi ao ar. O programa era uma crítica direta à crescente comercialização do feriado, simbolizada no desenho pelas coloridas e brilhantes árvores de alumínio. Em sua busca pelo "verdadeiro significado do Natal", Charlie Brown escolhe uma pequena, esparsa e imperfeita árvore de Natal natural. Ao ser cuidada e amada por seus amigos, a pequena árvore se transforma em um belo símbolo. 

O impacto foi imediato e profundo. A popularidade da árvore de alumínio despencou. O especial de Charlie Brown, como afirma a pesquisa de Thomas, efetivamente "matou" a árvore de alumínio, representando uma profunda reação cultural contra o comercialismo e a fé cega na tecnologia. Ele redefiniu o debate em torno da autenticidade versus a artificialidade e solidificou a imagem da árvore natural (mesmo que imperfeita) como a escolha "correta".

Hoje, o debate se concentra menos na autenticidade e mais no impacto ambiental. A escolha é complexa, influenciada não apenas pela ecologia, mas também por realidades socioeconômicas e culturais. O marketing da árvore "real", por exemplo, frequentemente se dirigia às mulheres como as principais tomadoras de decisão domésticas, apelando ao seu papel como guardiãs da tradição familiar e do ambiente do lar — uma preocupação como a "queda de agulhas para a dona de casa comum" era um ponto chave para a indústria. Ao mesmo tempo, a realidade econômica muitas vezes ditava a escolha, com famílias de baixa renda optando pela árvore artificial como um investimento de longo prazo para economizar dinheiro.

Mas nesta história existem pontos a favor e pontos contras. Por um lado ass fazendas de árvores podem ajudar a prevenir a erosão do solo e fornecer oxigênio. Como cultura, as árvores capturam carbono durante seu crescimento. No final de sua vida útil, a árvore é 100% biodegradável e, se reciclada corretamente, pode ser transformada em adubo ou mulch, devolvendo nutrientes ao solo. mas, por outro lado o modelo de monocultura intensiva é criticado por sua falta de biodiversidade. O uso de pesticidas e herbicidas pode contaminar o solo e os lençóis freáticos. Além disso, há a pegada de carbono associada ao transporte das árvores das fazendas rurais para os centros urbanos, muitas vezes por longas distâncias.

Sobre o uso da árvore artificial a literatura apontou pró e contras. Prós: O principal benefício é a reutilização. Uma árvore artificial pode ser usada por muitos anos, eliminando a necessidade de uma nova compra anual. Contras: A maioria é feita de PVC, um plástico derivado do petróleo, cujo processo de produção consome muita energia e libera poluentes. Muitas contêm chumbo como estabilizador, o que pode representar um risco à saúde. No final de sua vida útil (que pode ser mais curta do que se espera), elas acabam em aterros sanitários, onde levarão séculos para se decompor, se é que algum dia o farão.

Então o nosso natal deve ser reflexivo, a sustentabilidade dependerá de nossas escolhas, de nossa pegada ambiental. Como a história nos mostra, a escolha da árvore de Natal é muito mais complexa do que uma simples preferência entre "real" e "falsa". Este objeto único serve como um microcosmo para as lutas maiores e contínuas da nossa sociedade. O embate entre natureza e artificial, tradição e conveniência, agricultura local e manufatura global. Não há uma resposta única e fácil. Estamos experimentando e errando, aprendendo mas eu acho que fazendo pouco para consertar!

Estudos de ciclo de vida, como o da organização "Dovetail Partners", sugerem que uma árvore natural, especialmente se for de origem local e devidamente reciclada, geralmente tem um impacto ambiental menor. No entanto, uma árvore artificial, se usada por muitos e muitos anos (a recomendação varia, mas geralmente se fala em 10 a 20 anos), pode mitigar significativamente sua pegada de carbono inicial. Mas aí tem a decomposição, a dispersão de nanopartículas de plástico no ambiente, etc...

A escolha, portanto, é pessoal e depende de nossas circunstâncias e valores. Mas a história por trás de cada opção nos convida a uma reflexão mais profunda. Neste Natal, o que nossa árvore dirá sobre os valores que queremos cultivar? Como podemos alinhar nossas tradições mais queridas com o modelo de desenvolvimento sustentável que desejamos para o futuro?

Seja qual for a sua escolha, que ela seja consciente. Desejo a todos um Natal cheio de alegria e um Ano Novo de reflexão e esperança. Boas festas!


REFERÊNCIAS

CHRISTIANSEN, Liv. A Grinch-Like View on Environmentally Unfriendly Christmas Traditions: Christmas as an Accelerator of Climate Change and Plastic Pollution. Völkerrechtsblog, 23 dez. 2021. Disponível em: https://voelkerrechtsblog.org/. DOI: 10.17176/20211223-124035-0.

COX, Anthony. What is the environmental footprint of Christmas? OECD Blog, 24 dez. 2019., Disponível em: https://www.oecd.org/en/blogs/2019/12/what-is-the-environmental-footprint-of-christmas.html?utm_source=chatgpt.com

HAQ, Gary et al. The Carbon Cost of Christmas. Stockholm: Stockholm Environment Institute, 2007. Disponível em: https://www.researchgate.net/publication/263969440_The_Carbon_Cost_of_Christmas?utm_source=chatgpt.com

THOMAS, Aaron. Controlling Christmas: an environmental history of natural and artificial trees. 2020. 575 f. Tese (Doutorado em História dos Estados Unidos) – Mississippi State University, Mississippi, 2020. Disponível em: https://scholarsjunction.msstate.edu/td/1181.

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