"Eu sou o que me cerca. Se eu não preservar o que me cerca, eu não me preservo".
José Ortega y Gasset

quarta-feira, 17 de junho de 2026

A agência ambiental no destino das Antigas Civilizações: 4 exemplos

Imagem feita com IA
Ao contemplarmos as silhuetas de templos e palácios que hoje jazem sob as areias do Oriente Médio, somos frequentemente tentados a ler a história como uma crônica linear de glórias militares e sucessões dinásticas. No entanto, essas pedras silenciosas contam uma narrativa distinta: a de que o progresso humano não é um vetor ascendente e inevitável. Como observa o historiador J. Donald Hughes em sua obra seminal Ecology in Ancient Civilizations de 1975, especificamente no capítulo 4 "Civilizações Antigas e o Meio Ambiente Natural", a ascensão e queda das sociedades do passado foram ditadas pela sua capacidade, ou trágica incapacidade de manter a homeostase com os ecossistemas que habitavam.

Nesta análise que fazemos no post, propomos uma mudança de paradigma. Deixamos de ver o meio ambiente como um cenário passivo para adotá-lo como um agente histórico ativo. Através da lente da História Ambiental, exploraremos como a interatividade com a biosfera definiu o destino de potências como a Mesopotâmia, o Egito e a Pérsia, revelando que os colapsos do passado foram, em grande medida, subprodutos de escolhas técnicas e éticas humanas diante da natureza.

A Mesopotâmia, situada na planície entre os rios Tigre e Eufrates, representa o primeiro grande laboratório da urbanização e, simultaneamente, do desastre ecológico autogerado. Geologicamente, a região é um depósito aluvial de areia e silte. Embora o sedimento continue a ser depositado, a área terrestre não se expandiu proporcionalmente devido a processos de subsidência geológica. Nesse ambiente de aridez extrema e inundações imprevisíveis, a cultura mesopotâmica floresceu sob o signo da "conquista".

A mitologia reflete essa tensão, o herói deus Marduk estabelece a ordem cósmica ao despedaçar o corpo de Tiamat, o monstro do caos primordial associado às águas salgadas. Essa mentalidade de dominação manifestou-se na invenção do arado e da irrigação sistemática, tecnologias que permitiram o surgimento de especialistas não agrícolas e cidades densas. Contudo, o ambiente urbano mesopotâmico era marcado por microecossistemas insalubres, ruas estreitas, poluição sonora e atmosférica — com fumaça e poeira que raramente se dissipavam, e o uso precoce de recursos fósseis, como o betume, para impermeabilização. A relação com o "selvagem" era de oposição binária, como ilustra a literatura épica:

"Enkidu foi apresentado como um homem do ermo, um amigo e protetor das feras. Mas quando ele foi domado pelos ardilos femininos, seus antigos amigos animais temeram e fugiram dele. Uma das grandes façanhas de Gilgamesh e seu agora domado companheiro foi a matança de Humbaba, o protetor selvagem das florestas de cedro a oeste, e o selo colocado sobre a derrota de Humbaba foi a subjugação do ermo; as árvores foram derrubadas para uso humano." (Epopeia de Gilgamesh, conforme citado por Hughes).

O custo dessa vitória foi a salinização do solo. A irrigação extensiva, sem drenagem adequada em um terreno de baixa umidade, fez com que o sal se acumulasse na superfície. O problema mecânico era agravado pelo silte, a dragagem constante criava barreiras de lama de até dez metros de altura nas margens dos canais, impedindo a drenagem natural. Com o tempo, o leito dos rios elevou-se acima das terras circundantes, tornando as cheias catastróficas e forçando o abandono de cidades inteiras.

Em contrapartida à instabilidade mesopotâmica, o Egito antigo estabeleceu uma simbiose mais resiliente com o Nilo. A regularidade das cheias, previsíveis e rítmicas, fomentou uma visão de mundo onde a natureza era animada, cíclica e essencialmente amigável. A distinção geográfica entre a "Terra Negra" (Kemet), o vale fértil, e a "Terra Vermelha" (Deshret), o deserto hostil, informava uma cosmologia de equilíbrio sob a égide de divindades como Rá e Osíris.

Diferente da Mesopotâmia, o Egito evitou a salinização crônica porque o ritmo do Nilo fornecia uma drenagem anual natural. Essa eficiência ecológica permitiu que a região se tornasse o "celeiro" do mundo antigo. A integração entre o ambiente e a psique egípcia é visível em sua expressão material e artística:

• Papiro e lótus: Mais do que matérias-primas para escrita e ritos, estas plantas moldaram a arquitetura, servindo de inspiração direta para os capitéis das colunas dos templos, que mimetizavam a flora das margens do rio.

• Fauna sagrada: O culto a gatos (Bubastis), íbis (Thoth) e crocodilos (Sebak) não era apenas superstição, mas uma forma de integração ética que protegia e sacralizava a biodiversidade local.

• Gestão de recursos: O uso do shadoof para elevar a água e a manutenção rigorosa de bacias de retenção demonstravam um conhecimento prático que respeitava o ciclo solar de 365 dias, minimizando o impacto ambiental.

A Pérsia oferece uma lição contundente sobre os limites da ética ambiental. Sob o dualismo zoroastriano, os persas desenvolveram uma reverência ritualística pela pureza dos elementos: terra, água e fogo. A poluição era um pecado, cadáveres não podiam ser enterrados ou queimados para não contaminar a sacralidade do solo e das chamas, sendo expostos em "torres do silêncio". Tecnicamente, inovaram com os qanats, que eram canais subterrâneos que transportavam água por longas distâncias, minimizando a evaporação em climas áridos. No entanto, mesmo com uma religião que pregava a responsabilidade humana, a Pérsia sofreu desmatamento e erosão severos. A explicação de Hughes é precisa: "uma boa atitude em relação à natureza não é suficiente" sem o controle científico do impacto acumulado. O dualismo religioso também levava à matança meritória de animais "malignos" (lobos, serpentes), desequilibrando cadeias tróficas.

Essa lacuna entre intenção e consequência é ainda mais drástica no Vale do Indo. O colapso dessa civilização não foi apenas político, mas derivado de um feedback climático: a necessidade massiva de madeira para queimar os tijolos cozidos de suas cidades levou ao desmatamento total. Segundo Hughes, a poeira da terra despida gerou uma camada permanente de névoa particulada na atmosfera, que alterou o gradiente térmico e deslocou as chuvas de monção para fora da região, selando o destino de Harappa e Mohenjo-Daro por dessecação.

A obra de Hughes nos convida a preencher os "silêncios" da historiografia tradicional. Ao analisarmos as listas sumérias de animais e minerais, percebemos que elas eram intensamente antropocêntricas: as pedras eram classificadas não por sua biologia ou geologia, mas por sua utilidade, as pedras "boas" viravam joias, pedras "más" viravam pavimentação. Esse utilitarismo ainda ecoa em nossa ciência contemporânea, que muitas vezes ignora a "voz" intrínseca dos ecossistemas em favor da gestão de recursos. A síntese dessas quatro experiências históricas demonstra que a agência ambiental intersecta todas as esferas da vida humana. O fracasso mesopotâmico foi tecnológico; o egípcio, uma resiliência geográfica; o persa, uma limitação ética; e o do Indo, um erro de escala energética.

Se você chegou até aqui, clique e acesse o capítulo 4 para ler o original. Este texto foi corrigido e adaptado por IA.

Referência:

HUGHES, J. Donald. Capítulo 4 - Civilizações Antigas e o Meio Ambiente Natural. In: HUGHES, J. Donald. Ecology in ancient civilizations. Albuquerque: University of New Mexico Press, 1975. p. 29-42

terça-feira, 9 de junho de 2026

A natureza como testemunha e vítima da Era do Petróleo na Venezuela

Para compreender a trajetória da Venezuela no último século, é preciso olhar além das flutuações do PIB e dos palácios governamentais. É necessário mergulhar nas águas turvas de seus rios e lagos. O estudo "Petróleo, derecho e impacto socio-ambiental: análisis histórico-legal de los derrames petroleros en Venezuela (1922–2002)", de autoria de Geraldine Sánchez e Deibys Martínez, publicado em 2026 na revista PetroRenova Indexed, oferece a cartografia dessa jornada. Através de uma metodologia documental histórica, os autores analisam a tensão perpétua entre a sede por hidrocarbonetos e a integridade ecológica. Como historiadores ambientais, somos convidados a ler o petróleo não apenas como mercadoria, mas como um agente disruptivo que, ao vazar, reescreve a geografia, altera o comportamento das espécies e silencia comunidades. Aqui, o Lago de Maracaibo e o Rio Guarapiche não são meros cenários, pois foram os protagonistas que reagem, sangram e clamam por justiça sob o peso de uma "maré negra" centenária.

O mito de origem da Venezuela moderna reside no poço Barroso II, no Estado Zulia. Em 14 de dezembro de 1922, o evento conhecido como "El Reventón" marcou o início da era das grandes concessões, mas também inaugurou um legado de catástrofes. Durante nove dias, um fluxo descontrolado de petróleo bruto jorrou sobre a terra, expondo a fragilidade de uma legislação (Lei de Minas de 1905/1909) que enxergava o subsolo apenas como riqueza e ignorava a superfície como vida. A ausência de controle técnico permitiu que a abundância econômica se traduzisse, imediatamente, em miséria ecológica.

"O Reventón de 1922 não apenas marcou o início da exploração petrolífera em larga escala no país, mas também o começo de um legado de contaminação e conflitos socioambientais que persistem até hoje... causando um impacto ambiental e danos ao ecossistema lacustre, alterando os costumes e a história dos povos pesqueiros e assentamentos próximos."

Na perspectiva da história ambiental, os elementos naturais não são passivos. O Lago de Maracaibo e o Rio Guarapiche reagiram às agressões industriais de formas devastadoras. Em 1939, a natureza e o petróleo colidiram em Lagunillas de Agua, quando um incêndio alimentado por uma mancha de óleo na superfície do lago incinerou o povoado, ceifando a vida de centenas de pessoas. Décadas depois, em 1977, as águas do Rio Guarapiche, no leste do país, sentiram o veneno de novos derrames, provando que a mancha era nacional.

A história se repetiu com o navio Nissos Amorgos em 1997, que despejou 25 mil barris de cru no Golfo de Venezuela, mas o dano vai além dos eventos agudos. A exploração contínua deixou passivos ambientais crônicos, como a contaminação de aquíferos, pois a infiltração de hidrocarbonetos comprometeu o consumo humano e a irrigação agrícola. A infertilidade de solos, pois o acúmulo de metais pesados e lamas com tetraetilo de chumbo transformou terras produtivas em zonas de sacrifício. E degradação benta e costeira, fazendo a fauna marinha sucumbir, destruindo a subsistência de pescadores e alterando a biodiversidade das fossas de petróleo a céu aberto.

A trajetória jurídica da Venezuela é uma lição sobre a distância entre a norma e o fato. Por décadas, o Estado operou sob uma "gestão reativa": a lei só agia para tentar remediar o que já estava destruído. Enquanto o marco legal evoluía para incluir termos modernos, a infraestrutura envelhecia sem manutenção.


O petróleo criou uma cultura de opacidade. A dependência do "ouro negro" gerou uma cegueira institucional onde a negligência operativa era o preço do progresso. O deslocamento de comunidades indígenas e camponesas não foi um acidente, mas uma consequência direta de um modelo que priorizava o fluxo do óleo sobre o fluxo dos rios. Em 1999, o Desastre de Vargas ofereceu um exemplo trágico da "natureza como agente": inundações massivas e deslizamentos de terra arrastaram tanques de armazenamento de petróleo nas costas, provando que a falta de planejamento ambiental torna os desastres naturais exponencialmente mais tóxicos. Três anos depois, o Paro Petrolero (2002) demonstrou como a crise política se traduz em catástrofe ecológica; a interrupção súbita das operações e a falta de manutenção da infraestrutura obsoleta resultaram em derrames que agravaram passivos ambientais ainda hoje sem saneamento.

A obra de Sánchez e Martínez é um espelho desconfortável para a historiografia latino-americana. Ela revela que o desenvolvimento venezuelano foi subsidiado por um "empréstimo" ambiental que nunca foi pago. Entender que mais de 15 mil derrames documentados não são apenas estatísticas, mas cicatrizes na pele da terra, é fundamental para qualquer projeto de sustentabilidade futura. 

Se você se interessou sobre este tema o estudo completo pode ser acessado clicando aqui. Este texto da postagem foi corrigido e adaptado com o uso de IA. A referência da fonte analisada é:


SÁNCHEZ, Geraldine; MARTÍNEZ, Deibys. Petróleo, derecho e impacto socio-ambiental: análisis histórico-legal de los derrames petroleros en Venezuela (1922–2002). PetroRenova Indexed: Revista Científica de la Energía, Venezuela, v. 2, n. 1, p. 26-50, jan./mar. 2026. DOI: https://doi.org/10.5281/zenodo.18148918. Disponível em: https://doi.org/10.5281/zenodo.18148918.

sexta-feira, 5 de junho de 2026

GPHAVI: 22 anos tecendo a História Ambiental do Vale do Itajaí

Ao alcançarmos o marco de 2026, o Grupo de Pesquisas de História Ambiental do Vale do Itajaí (GPHAVI) celebra 22 anos de uma jornada que ampliou o campo de produção historiográfica  da região com a dimensão ambiental. Vinculado à base de grupos do CNPq e à Universidade Regional de Blumenau (FURB), o grupo consolidou-se como um núcleo interdisciplinar fundamental para a compreensão das dinâmicas entre sociedade e natureza na região. Pioneiros na universidade, inseriram a historiografia ambiental, uma perspectiva que rompe com o antropocentrismo tradicional ao reconhecer o meio biofísico não apenas como um cenário passivo, mas como um agente histórico ativo que molda e é moldado pelas ações humanas ao longo do tempo, e que interagem e influência outras dimensões como a econômica, política, religiosa etc.

A fundação do GPHAVI, em 2004, foi o resultado de uma convergência entre o rigor acadêmico e as demandas institucionais de fomento à pesquisa. O embrião do grupo surgiu nas discussões das aulas de "Concentrado de Geografia Física", ministradas pelo Prof. Dr. Gilberto Friedenreich dos Santos. Foi ali que o então acadêmico Martin Stabel Garrote, que já tinha sua bagagem, percebeu um hiato temático no curso de História da FURB, havia falta de estudos que articulassem a problemática ambiental à trajetória do Vale do Itajaí. Eles existiam, muitos focados nas enchentes, mas sem abordar outros temas importantes da região, como o da colonização. Haviam estudos sobre enchentes, mas não com essa abordagem proposta pelo grupo de historiadores que desde 1970 passaram a denominar esse olhar de História Ambiental. A formalização do grupo foi impulsionada pela necessidade de preencher esse "vazio" e atender aos requisitos de bolsas de Iniciação Científica (PIBIC/CNPq), que exigiam o vínculo a um grupo certificado. Ao mesmo tempo o interesse do acadêmico em desenvolver a partir de uma Iniciação Científica uma problemática de pesquisa de história ambiental local, assim como a necessidade econômica da própria bolsa, um recurso que auxilia a permanência dos estudantes nas instituições e remunera o trabalho acadêmico.

O GPHAVI foi pioneiro na institucionalização da História Ambiental na FURB. Em um momento em que a área era praticamente desconhecida no departamento, o grupo abriu um novo e relevante campo de investigação, demonstrando que as questões socioambientais são centrais para a compreensão histórica do Vale do Itajaí. Ele provou que é possível e necessário estudar a relação entre sociedade e natureza, ocupação territorial, impactos ambientais e a história das unidades de conservação, como o Parque Nacional da Serra do Itajaí. Talvez, depois do CEMOP, tenha sido a iniciativa mais duradoura do curso. 

Ao longo dessas duas décadas, a Iniciação Científica firmou-se como o pilar central do GPHAVI. Até 2020, o grupo já havia contabilizado 65 projetos de IC, além de 14 artigos em revistas especializadas. Esse volume de produção foi viabilizado por uma rede robusta de fomento, incluindo programas como PIPe/Artigo 170, PIBIC e FUMDES/Artigo 171, que garantiram a permanência e a formação crítica de dezenas de graduandos. Com o GPHAVI mais estudantes do curso tiveram acesso a bolsas de ICs, gerando um suporte financeiro decisivo para a manutenção de estudantes na universidade através de programas estaduais e federais. Com o GPHAVI o curso passou a ter 2 espaços laboratoriais, que além do CEMOP, que ja tinha um espaço, ganhou o espaço laboratorial (Sala R109): A conquista de uma infraestrutura física própria permitiu o processamento de acervos e a criação de um ambiente de colaboração permanente. É graças a essa conquista que hoje o curso de História tem o CPH - Centro de Pesquisas Históricas, um espaço que passa a abarcar os demais grupos do curso. Mas não foi só espaço, mesas, cadeiras, computadores e demais tecnologias que no percurso o grupo adquiriu com fomentos e patrocínios. E algo muito importante, a integração entre graduação e pós-graduação no curso, algo inédito em sua história. Hoje ampliado com os trabalhos dos colegas historiadores que no departamento do curso de História da FURB vincularam novos grupos de pesquisa, e passaram a participar de programas de pós graduação, ampliando essa rede. Mas o estopim foi com o professor Gilberto, a partir dele ocorreu pela primeira vez no curso a vinculação de pesquisas integrando o Programa de Pós-Graduação em Desenvolvimento Regional (PPGDR), e o Departamento de História e Geografia, e isso possibilitou um diálogo constante entre diferentes níveis acadêmicos, elevando a densidade teórica das pesquisas. Começamos com ICs, TCCs, e partimos para Dissertações e Teses.

A experiência do GPHAVI reside na aplicação de quadros teóricos fundamentais da História Ambiental global. O grupo articula as "três variações" de John Robert McNeill (Material, Cultural-Intelectual e Política) com as "três dimensões" de Donald Worster (organização da natureza, interação socioeconômica e planos mentais/valores). A tabela abaixo demonstra como esses conceitos são aplicados na prática das pesquisas do grupo:



O GPHAVI materializa o princípio da indissociabilidade universitária, conectando a pesquisa acadêmica a demandas sociais concretas da região. Alguns exemplos podem ser citados:

• Extensão e cidadania: A parceria com o Instituto Parque das Nascentes (IPAN) e a empresa Preserve Ambiental Ltda na campanha "Água e Óleo não Combinam" exemplifica essa atuação. O projeto transformou resíduos em biodiesel para frotas institucionais de biodiesel e apoiou diretamente a Escola Margarida Freygang.

• Regularização e direitos: Um dos marcos do grupo foi a pesquisa para o Quilombo do Morro do Boi. Utilizando a metodologia da História Oral, o grupo forneceu evidências histórico-territoriais fundamentais para o processo de regularização fundiária, unindo o ofício do historiador ao exercício da cidadania.

• Subsídios de conhecimentos em publicações que foram utilizados em movimentos sociais na luta pela conquista de terras indígenas na região do Vale do Itajaí pelo povo Laklano, região da Serra do Itajaí.

• Divulgação científica: O documentário "Memórias do Parque" e diversas exposições públicas levam o conhecimento científico para além dos muros acadêmicos, sensibilizando a comunidade sobre a importância do bioma.

O GPHAVI consolidou-se como o guardião da memória socioambiental do Vale do Itajaí. Seu acervo, físico e digital, conta com mais de 131 entrevistas transcritas, além de mapas e fotografias históricas. Este patrimônio institucional é vital para que a FURB se mantenha como referência nos estudos sobre a Mata Atlântica e a ocupação humana. Ao organizar e preservar relatos de comunidades como a Nova Rússia e o Faxinal do Bepe, entre outras comunidades e localidades da Serra do Itajaí o grupo assegura que a identidade regional seja compreendida através de suas raízes ecológicas. 

Ao completar 22 anos em 2026, o GPHAVI reafirma seu legado como agente de transformação. Partindo da superação do "vazio" inicial em 2004, o grupo provou que a história não se limita aos feitos humanos isolados, mas abrange o que André Martinello define como a história da "morada dos seres vivos". O compromisso do GPHAVI para os próximos anos é continuar formando historiadores com consciência crítica e sensibilidade ambiental, garantindo que o passado do Vale do Itajaí sirva de bússola para um futuro regional mais sustentável e socialmente justo. A trajetória do grupo até aqui é a prova de que investigar a relação entre sociedade e natureza é, acima de tudo, uma vitória sobre o esquecimento.

Mas! Nada, contudo, é para sempre. O GPHAVI nasce do incentivo, do engajamento voluntário e da forte atuação intelectual dos pesquisadores como Martin e Vanessa, consolidando-se ao longo dos anos a partir do vínculo institucional do professor Gilberto, responsável por assegurar a permanência formal do grupo no interior da FURB. Ao longo dessa trajetória, o grupo contou ainda com a colaboração dos professores Nelson e Carlos, docentes do quadro efetivo da universidade, cujas trajetórias também integram essa construção coletiva.

É significativo observar que a imensa maioria das Iniciações Científicas vinculadas ao GPHAVI foi submetida formalmente em nome do professor Gilberto, embora grande parte dos projetos tenha sido concebida, redigida e acompanhada diretamente pelos pesquisadores Martin e Vanessa. Com a proximidade da aposentadoria do professor Gilberto, e considerando que os pesquisadores Martin e Vanessa não integram o quadro efetivo da FURB, colocam-se desafios concretos para a continuidade institucional do grupo. Ainda assim, abre-se a possibilidade de manutenção formal do GPHAVI por meio da atuação dos professores Nelson ou Carlos, garantindo a permanência do grupo no âmbito da universidade, ou não! Pois as principais agencias do grupo são as ICs e a Divulgação Científica de História Ambiental. 

Independentemente do arranjo institucional que venha a se estabelecer, o pesquisador Martin continuará com a manutenção e atualização do blog do GPHAVI, que se consolida como o principal registro online de suas atividades, e uma das principais páginas de História Ambiental do país (Divulgação Científica e História Pública). Esse espaço virtual assume, a partir de agora, um papel estratégico, que além de divulgar pesquisas, eventos e reflexões, o blog será, gradualmente, o local de organização e disponibilização da base de dados produzida ao longo de mais de duas décadas de atuação do grupo, disponibilizando acesso a áudios e transcrições, e dos estudos produzidos, desde relatórios de IC, pesquisa com e sem fomento, e publicações diversas. Trata-se de um esforço consciente de preservação da memória acadêmica e de abertura do acervo à comunidade científica. Ao tornar públicos seus registros, fontes e resultados de pesquisa, o GPHAVI reafirma seu compromisso com a produção coletiva do conhecimento histórico, permitindo que outros pesquisadores possam dar continuidade, ou mesmo reinterpretar essa trajetória. 

Assim, independentemente dos desafios e das incertezas que se colocam para o futuro, permanece o registro de mais de vinte anos de atuação contínua de um grupo que contribuiu de forma decisiva para o estímulo à produção historiográfica em História Ambiental, articulando pesquisas de forte enraizamento regional com debates de alcance nacional e mantendo viva a reflexão sobre as relações entre sociedade e natureza no Vale do Itajaí e para além dele.

Linha do tempo do GPHAVI – 22 anos de História Ambiental

2003–2004 | Gênese e fundação
No início dos anos 2000, em meio às inquietações de estudantes e pesquisadores do curso de História da FURB, especialmente nas disciplinas de Geografia Física e Geo-História, surge a proposta de criação do Grupo de Pesquisa em História Ambiental do Vale do Itajaí (GPHAVI). Formalizado em 2004, o grupo nasce como resposta a um vazio formativo: a ausência de uma abordagem histórica que tratasse a natureza como agente ativo dos processos históricos. Inspirado por autores como Warren Dean, o GPHAVI introduz de forma sistemática a História Ambiental no debate historiográfico local.

2004–2007 | Consolidação institucional inicial
Nos primeiros anos, o GPHAVI se estrutura a partir do engajamento voluntário de seus integrantes e do vínculo institucional garantido por docentes do quadro da FURB, especialmente o professor Gilberto. O grupo passa a funcionar como espaço regular de discussão, leitura e produção acadêmica, consolidando suas primeiras linhas de pesquisa no interior do Departamento de História e Geografia.

2005–2010 | Formação de pesquisadores e Iniciações Científicas
A partir de meados da década de 2000, o GPHAVI se consolida como núcleo formador de pesquisadores. Iniciações Científicas vinculadas ao grupo passam a ser desenvolvidas e submetidas a programas como PIBIC, Artigos 170 e 171 e editais internos da FURB. O grupo assume papel central na formação do estudante-pesquisador, articulando ensino e pesquisa de forma contínua.

2010–2015 | Expansão temática e territorial
Nesse período, as pesquisas do GPHAVI se expandem para além do espaço universitário, com forte enraizamento no Vale do Itajaí. Temas como florestas, rios, agricultura, unidades de conservação e o Parque Nacional da Serra do Itajaí passam a ocupar o centro das investigações. O grupo intensifica sua atuação extensionista, promovendo exposições, cine-debates, documentários e atividades abertas à comunidade, além de ampliar sua presença em eventos científicos regionais e nacionais.

2015–2020 | Articulação com a pós-graduação e redes de pesquisa
O GPHAVI aprofunda seu diálogo interdisciplinar ao se articular com o Programa de Pós-Graduação em Desenvolvimento Regional da FURB e com redes de pesquisa em História Ambiental no Brasil. Esse movimento amplia o alcance acadêmico do grupo, fortalecendo a interlocução entre História, Geografia, Ciências Ambientais e estudos sobre desenvolvimento.

2013–2021 | Inserção da História Ambiental no currículo
Ao longo da década de 2010, a atuação contínua do GPHAVI contribui de forma decisiva para a consolidação da História Ambiental como dimensão formativa no curso de História da FURB. Essa perspectiva passa a dialogar diretamente com os princípios do Projeto Pedagógico do Curso (PPC), como a Educação Ambiental, a formação crítica e a indissociabilidade entre ensino, pesquisa e extensão.

2020–presente | Memória, acervo e divulgação científica
Nos últimos anos, o grupo passa a investir de maneira sistemática na organização de sua memória institucional. O blog do GPHAVI se consolida como espaço central de registro, divulgação científica e preservação do acervo produzido ao longo de mais de duas décadas. Gradualmente, bases de dados, fontes e resultados de pesquisa passam a ser organizados e disponibilizados ao público. As iniciações científicas são o ponto forte, e a captação de recursos com fomentos públicos como FAPESC mantem vivas as pesquisas. Após a COVID-19, o Departamento de História acresceu em professores e grupos de pesquisa, e a sala R-109 que abrigava o grupo, mais o NEAB e NEPEMOS, deu espaço ao desenvolvimento do Centro de Pesquisas Históricas - CPH, integrando ao espaço além demais grupos dos professores do departamento, e formando um local de pesquisa para os estudantes do curso.

2024–2030 | Desafios de continuidade e legado
Com a proximidade da aposentadoria de docentes que garantiram a sustentação institucional do grupo, o GPHAVI entra em um momento de reflexão sobre sua continuidade formal. Ao mesmo tempo, reafirma-se o compromisso com a preservação de seu legado acadêmico, entendendo o grupo não apenas como uma estrutura institucional, mas como uma herança intelectual aberta, passível de continuidade, releitura e apropriação por novas gerações de pesquisadores.


Referências

GRUPO DE PESQUISAS DE HISTÓRIA AMBIENTAL DO VALE DO ITAJAÍ. Dia do Meio Ambiente e 12 anos de Grupo de Pesquisas de História Ambiental do Vale do Itajaí na FURB. GPHAVI, 5 jun. 2016. Disponível em: https://gphavi.blogspot.com/2016/06/dia-do-meio-ambiente-e-12-anos-de-grupo.html

NAZÁRIO, Juliano João. GPHAVI: A contribuição de um grupo de pesquisa para a História Ambiental. Blumenau: FURB, 2021

UNIVERSIDADE REGIONAL DE BLUMENAU (FURB). Projeto Político-Pedagógico – PPC: Curso de História. Blumenau: FURB, 2021

UNIVERSIDADE REGIONAL DE BLUMENAU (FURB). Curso de História: apresentação. Disponível em: https://www.furb.br/web/1787/cursos/graduacao/cursos/historia/apresentacao

Texto elaborado por Martin, e que passou por correções e melhorias ortográficas com o uso de IA (ChatGPT).

segunda-feira, 1 de junho de 2026

Lendo a Pré-História com a História Ambiental de J. Donald Hughes

Muitas vezes, a historiografia tradicional reduz a natureza a um mero cenário estático onde se desenrola o drama das conquistas tecnológicas e políticas. No entanto, ao abrirmos as páginas do capítulo "Ecologia e Sociedades Pré-históricas", de J. Donald Hughes, extraído de sua obra Ecology in Ancient Civilizations (1975), somos confrontados com uma tensão fundamental, a de que o ser humano não é um observador externo, mas um componente biológico intrínseco do ecossistema terrestre. Hughes, escrevendo em um momento de crescente consciência ambiental na década de 1970, convida-nos a olhar para a pré-história não apenas como uma sucessão de ferramentas de pedra, mas como um mapa das primeiras grandes transformações ecológicas da biosfera. Sob a lente da História Ambiental, a natureza assume o papel de agente ativo, moldando as sociedades enquanto é, simultaneamente, moldada por elas.

No Paleolítico, a relação humana com o ambiente era marcada por uma dependência absoluta e imediata. O ser humano operava sob os mesmos controles biológicos que qualquer outro predador onívoro. O tamanho dos grupos era rigidamente limitado pela capacidade de suporte do ambiente; o esgotamento local de recursos ditava o nomadismo. Mais do que meros caçadores, os humanos eram competidores em um nicho ecológico feroz, enfrentando rivais perigosos como o urso das cavernas e a hiena das cavernas. A sobrevivência não era garantida pela técnica, mas por um equilíbrio frágil entre a população e os recursos disponíveis. Sobre esta profunda integração biológica, Hughes reflete:

"Parece razoável sustentar que as habilidades humanas se desenvolveram por meio da seleção natural a partir de habilidades rudimentares, mas essencialmente semelhantes, possuídas por outros animais. [...] As semelhanças do homem com outros animais são básicas, abrangentes e importantes. As verdadeiras afinidades dos seres humanos são com outros seres vivos. O homem não está sozinho no mundo."

Ainda que em escala reduzida, o homem paleolítico começou a imprimir marcas profundas no planeta. O uso do fogo não foi apenas um avanço doméstico, mas uma ferramenta de gestão ambiental: ao queimar deliberadamente extensões de terra, os humanos impediam a sucessão ecológica natural, transformando florestas em pastagens para atrair animais de caça. Essa agência humana manifestou-se de forma mais dramática na extinção da megafauna do Pleistoceno. Embora as mudanças climáticas do final da Idade do Gelo tenham sido um fator determinante, Hughes argumenta que a pressão da caça impediu que espécies como o mamute e o rinoceronte encontrassem novos refúgios. O homem agiu como um predador que "caçou alegremente até a extinção" seus rivais e fontes de alimento.

Neste cenário, surge o elo de transição, a domesticação. O cão, descendente de lobos do Oriente Próximo, e a rena, esta última através de um processo de proteção de manadas que levou povos da Lapônia e Sibéria a um controle semi-doméstico, representam os primeiros passos para uma mudança de paradigma ecológico, onde a cooperação e o controle começam a substituir a simples extração.

Para o historiador ambiental, as pinturas rupestres e os rituais de caça não são apenas "arte" ou "superstição", mas funções genuínas de um relacionamento delicado com o ecossistema. Na ausência de controle tecnológico, o ritual servia como uma ferramenta para manter o equilíbrio psicológico e garantir a cooperação da natureza. Essa necessidade de "apaziguar os espíritos" dos animais e plantas reflete uma consciência aguçada de que a destruição desnecessária traria sofrimento ao grupo. Curiosamente, essa dedicação ao sagrado não diminuiu com o progresso e Hughes estabelece um paralelo fascinante ao notar que, assim como os povos neolíticos, os índios Hopi chegavam a dedicar um terço de seu tempo a cerimônias religiosas. A religiosidade era, portanto, um subproduto da experiência ecológica: uma tentativa de alinhar a vontade humana aos ciclos da biosfera.

A transição para o Neolítico ocorreu prioritariamente em regiões ecotonais, que são zonas de transição onde pastagens, arbustos e florestas se encontram, como as colinas do Oriente Próximo. Foi nesse ambiente de diversidade biológica que o homem passou de coletor a produtor, alterando drasticamente a face da Terra. 

No entanto, essa "revolução" trouxe consigo impactos ecológicos cumulativos e severos. Um pastoralismo nômade, e esse foco em ovelhas e cabras introduziu o sobrepastoreio. As cabras, capazes de escalar árvores para comer folhagem e consumir mudas, impediam a regeneração florestal. Os porcos, ao fuçarem as raízes na floresta, desestruturavam o solo e a vegetação rasteira. Uma agricultura sedentária, que ao cultivar trigo e cevada exigiu o desmatamento em larga escala. A remoção da cobertura vegetal para o plantio e o uso intensivo de madeira para lenha e construção resultaram na erosão severa e na dessecação de distritos montanhosos, transformando paisagens férteis em terrenos rochosos e áridos.

A sedentarização em aldeias como Çatal Hüyük consolidou uma nova mentalidade social. A religião passou a focar na fertilidade, simbolizada pela Deusa Mãe e pelo Culto ao Touro. Contudo, a visão neolítica da natureza não era meramente romântica; ela reconhecia a dualidade inerente ao ecossistema. Nos santuários, a imagem da deusa que dá a vida coexistia com cenas sombrias de abutres pretos bicando homens decapitados, representando o poder da natureza de tirar a vida e reciclar a matéria. Apesar da destruição ambiental, surgiram as primeiras tentativas de conservação, como o terraceamento de encostas para evitar a perda de solo. A observação dos ciclos astronômicos tornou-se vital para a gestão dos recursos, reforçando a ideia de que o homem é parte de uma unidade natural indissociável. Hughes sintetiza essa percepção:

"Perceberam que os seres humanos têm um lugar na unidade da natureza. Como tinham que cultivar a terra, plantar a semente e guardar o suficiente para o ano seguinte [...] suas orações, eles acreditavam sinceramente, ajudavam as chuvas a virem, o grão a crescer e as ovelhas a darem cria."

A análise de J. Donald Hughes demonstra que a pré-história é, em sua essência, uma história ecológica. Os problemas contemporâneos que enfrentamos — a erosão galopante, a extinção em massa de espécies e a gestão precária de recursos naturais, não são subprodutos exclusivos da modernidade industrial, eles têm raízes milenares, originadas no momento em que a humanidade começou a intervir ativamente nos equilíbrios biológicos. Ao encerrarmos esta jornada pelas transformações do Paleolítico e Neolítico, somos forçados a uma reflexão provocativa: em nossa era de tecnologia avançada, ainda somos capazes de nos reconhecer como componentes biológicos do ecossistema terrestre? Ou a nossa atual ilusão de controle absoluto sobre a natureza nos distanciou de tal forma que perdemos a capacidade de ouvir o "silêncio" dos nichos ecológicos que estamos, sistematicamente, destruindo? Comenta ai a sua resposta.
E se você chegou até aqui, quer olhar o original que analisamos, clique aqui. Este texto foi corrigido e adaptado por IA, segue a referência:

HUGHES, J. Donald. Ecology and prehistoric societies. In: HUGHES, J. Donald. Ecology in ancient civilizations. Albuquerque: University of New Mexico Press, 1975. p. 20-28

quinta-feira, 28 de maio de 2026

Entre machados e memórias: como a floresta atlântica moldou a identidade do imigrante no Vale do Itajaí

Para o imigrante europeu do século XIX, o desembarque no Vale do Itajaí representou mais do que uma mudança geográfica, foi um verdadeiro "choque ontológico". Habituado à "ordem" das paisagens cultivadas e aos bosques domesticados de sua terra natal, o colono encontrou um ambiente onde a natureza não era um cenário passivo, mas uma força exuberante e, muitas vezes, declaradamente inimiga. A transição da Europa para os trópicos exigiu o abandono de certezas e a reconstrução de identidades frente a uma "geografia de resistência" que impunha seus próprios termos.

Esta reflexão fundamenta-se na tese de doutorado “O imigrante e a floresta: transformações ambientais, das práticas e da produção rural nas colônias do Vale do Itajaí-SC”, de Manoel P. R. Teixeira dos Santos (UFSC, 2011). Este estudo é o guia essencial para compreendermos a natureza como um agente ativo na história. Ao contrário da historiografia tradicional, que frequentemente silencia o mundo natural ou o reduz a um obstáculo superado pelo "heroísmo" humano, Teixeira dos Santos propõe uma análise onde a ecologia, a cultura e a economia se fundem em um diálogo tenso e transformador.

A narrativa da colonização foi construída sobre o "Mito da Natureza Selvagem". Como discutem Gomez-Pompa e Kaus, a ideia de uma "floresta virgem" e de um "vazio demográfico" é uma construção ideológica que ignora milênios de manejo humano. No Vale do Itajaí, a floresta já havia sido transformada pela presença dos povos indígenas Xokleng (Botocudos) e de lavradores nacionais (caboclos). O silenciamento desses grupos foi uma escolha deliberada para sustentar o mito do "desbravador" europeu como o único civilizador legítimo.

A colisão cultural ocorreu no encontro entre a mística germânica e a realidade biológica da Floresta Ombrófila Densa. O imigrante trazia consigo a "territorialização do romantismo alemão", uma herança descrita por Schama que via na floresta o fundamento do caráter nacional. Contudo, enquanto a floresta europeia era um "estoque florestal" ordenado, um laboratório de silvicultura ou um espaço de lazer da nobreza, a Mata Atlântica apresentava-se como um caos monumental. Para muitos, esse novo ambiente não era o bosque acolhedor de Tácito, mas um "sepulcro" de árvores gigantescas que isolava as famílias e desafiava as estruturas mentais trazidas do Velho Mundo.

Teixeira dos Santos propõe o conceito de ajustamento em oposição à adaptação passiva. O meio físico forçou mudanças drásticas na bagagem de significados do europeu. A floresta resistia não apenas ao machado, mas à psique do colono, gerando um impacto psicológico profundo, especialmente nas mulheres, que viam o isolamento da mata como uma barreira à civilização.

"O homem estava sofrivelmente satisfeito e animado. A senhora, porém, desalentada! A casa ainda aberta de todos os lados; entre os esbeltos troncos de palmeiras... o vento sopra com força; e o tapume onde vivem a senhora e as três filhas por muito tempo não será uma sala." — Robert Avé-Lallemant (1858).

Para mapear essa transformação, o autor define quatro fases de intervenção na paisagem. Uma intervenção indireta, causada por mudanças sistêmicas e biológicas que precederam a chegada física do colono, como a dispersão de sementes e patógenos. A ação de indígenas e caboclos, que conferia o manejo secular da floresta através da caça, coleta e agricultura de subsistência, criando clareiras e caminhos. A colonização Europeia, que marcou uma fase de criação de pequena propriedade policultora e pelo desmatamento sistemático para produção de excedentes. E por último a urbanização e industrialização, que gerou fragmentação dos lotes e o surgimento do colono-operário, consolidando a transição da paisagem rural para a urbana.

O maior símbolo da "missão civilizadora" europeia, o arado, sucumbiu diante da agência física da floresta. O relevo acidentado e a onipresença de "tocos e raízes" (stumps and roots) tornaram as ferramentas europeias inúteis e quebradiças. Adotar a enxada e a técnica da coivara (queimada) não foi apenas uma escolha técnica, mas uma rendição à lógica ambiental local. Para o imigrante, isso representava um doloroso "downgrade" de status social: o agricultor "moderno" europeu via-se forçado a adotar as práticas do "atrasado" caboclo.

Nesse processo de hibridismo cultural, o imigrante tornou-se aluno do lavrador nacional, cujos conhecimentos foram essenciais para a sobrevivência. Culturas como o trigo deram lugar ao milho, ao feijão e, primordialmente, à mandioca. O "ajustamento" incluiu até a percepção climática; Rudolph Kirschner observava que o "choque" do calor (até 20° Reaumur ou 25° C no inverno) exigia uma nova postura corporal e laboral.

"Preparamos o nosso pão com as nutritivas raízes de mandioca e eu o acho muito saboroso... Ao agricultor, pois, oferece a nossa terra tentadoras possibilidades." — Philipp Kirschner, colono (1856).

A onipresença da mata era tal que batizou o jornal Der Urwaldsbote ("O Correio da Selva"). No entanto, o discurso oficial era marcado pela ironia. No seu "Guia" de 1851, o Dr. Blumenau prometia que os tocos das árvores apodreceriam em meros três ou quatro anos, permitindo o uso do arado — uma promessa que a realidade geográfica desmentiu brutalmente.

Enquanto os guias promocionais vendiam uma fertilidade idílica, autores como Hugo Zoeller e Richard Hinsch já manifestavam, na virada do século XX, uma precoce consciência sobre a destruição ambiental. Eles percebiam que o "machado e o fogo" estavam desfigurando a paisagem de forma irreversível. Em 1900, Hinsch descreveu uma visão que desafiava o mito do progresso:

"Os troncos amontoados e enegrecidos pela fumaça oferecem uma visão desoladora. As árvores mais próximas às margens da mata, com suas folhas marrons, ressecadas e sapecadas pelo fogo, guardam luto pela devastação cometida."

A tese de Teixeira dos Santos entrega uma contribuição vital para a nova historiografia da imigração, integrando economia, cultura e ecologia. Ela nos mostra que o colono não apenas transformou a floresta; ele foi, em essência, reconfigurado por ela. A dieta, a organização espacial das propriedades e a própria identidade do Vale do Itajaí são subprodutos de uma simbiose forçada e tensa.

As cicatrizes deixadas na paisagem atual não são apenas marcas de degradação, mas registros de um diálogo inacabado entre a sociedade e o mundo natural. O "pioneirismo" não foi um ato isolado de bravura, mas um processo de aprendizagem dolorosa com os silenciados Xokleng e caboclos, sob a regência de uma floresta que impunha seus limites. Se você quer se aprofundar, baixe aqui a tese de Manoel clicando aqui. Este texto passou por correções e adaptações feitas com IA.

Sobre o autor:

Manoel P. R. Teixeira dos Santos é historiador brasileiro, com formação integral pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), onde concluiu a graduação em História, o mestrado e o doutorado. Atua como professor no Colégio de Aplicação da UFSC e desenvolve pesquisas na área de História, com ênfase em história agrária, história ambiental e imigração no sul do Brasil. Sua produção acadêmica dedica-se especialmente à análise das relações entre sociedade, trabalho rural e natureza, investigando os processos de ocupação, transformação da paisagem e construção de identidades nas colônias do Vale do Itajaí e em outras regiões de Santa Catarina. Seus trabalhos contribuem para a compreensão histórica das dinâmicas socioambientais associadas à colonização, à agricultura e às formas de apropriação do espaço rural, articulando história regional e debates mais amplos da historiografia social e ambiental brasileira.


Referência

SANTOS, Manoel Pereira Rego Teixeira dos. O imigrante e a floresta: transformações ambientais, das práticas e da produção rural nas colônias do Vale do Itajaí-SC. 2011. 218 p. Tese (Doutorado em História) – Centro de Filosofia e Ciências Humanas, Universidade Federal de Santa Catarina, Florianópolis, 2011.

quarta-feira, 20 de maio de 2026

O mar que moldou o ocidente: uma leitura da História Antiga através da historiografia ambiental

Em sua Odisseia, Homero descreve como os homens de Odisseu chegaram à "terra dos comedores de lótus", uma ilha mediterrânea tão abundante e sedutora que os fazia esquecer o caminho de casa. Essa imagem, evocada pelo historiador J. Donald Hughes, serve como um poderoso ponto de partida para compreender a relação íntima entre a natureza e as grandes civilizações do Ocidente. Contudo, Hughes adverte que "os muitos esplendores do ambiente natural mediterrâneo, como era antes de ser alterado pela humanidade civilizada, só podem ser imaginados". Este post explora as ideias apresentadas no Capítulo 2, "The Mediterranean Ecosystem", do livro Ecology in ancient civilizations, publicado por J. Donald Hughes em 1975. O trabalho de Hughes nos convida a uma releitura da história, na qual o ambiente mediterrâneo deixa de ser um mero cenário para se tornar um agente ativo, um protagonista que moldou a economia, a cultura e o destino dos povos que ali viveram. Ao longo deste post mergulharemos nessa perspectiva, desvendando como as características únicas desse ecossistema influenciaram a ascensão e, por vezes, a queda das civilizações antigas. Veja o mapa:




O Mar Mediterrâneo é uma entidade geográfica singular: o maior mar interior do mundo, quase inteiramente cercado pela Europa, Ásia e África. Sua única conexão com o oceano global é o estreito Estreito de Gibraltar, um canal de apenas 14 quilômetros de largura. Essa configuração resulta em uma hidrologia única. Com uma taxa de evaporação que supera o volume de água recebido de seus rios, sua salinidade é excepcionalmente elevada. A dinâmica do vizinho Mar Negro realça essa característica: recebendo mais água doce de rios como o Danúbio e sofrendo menos evaporação, o Mar Negro tem baixa salinidade e deságua uma corrente constante para dentro do Mediterrâneo, e não o contrário.

No entanto, a característica mais impactante para o desenvolvimento humano foi sua natureza "quase sem marés". Como explica Hughes, por ser uma bacia fechada, o Mediterrâneo não consegue refletir a atração gravitacional da Lua com nada mais do que "um pequeno chapinhar". Enquanto portos como Nova York ou Boston enfrentam variações de maré de 2 a 4 metros, na maior parte do Mediterrâneo essa oscilação é inferior a um metro. Essa estabilidade permitiu que as sociedades antigas construíssem portos, docas e cidades diretamente na linha da costa, com uma segurança impossível em outras partes do mundo, além de otimizar o cultivo até as bordas do mar.

Curiosamente, Hughes aponta que a maioria desses portos antigos hoje se encontra parcialmente submersa. Essa evidência transformou o Mediterrâneo em algo mais: por ser tão estável, ele se tornou um "bom indicador da temperatura geral da Terra", registrando em suas ruínas submersas a elevação do nível do mar ligada ao derretimento de gelo polar desde a antiguidade.

O clima mediterrâneo é definido por um ritmo de duas estações bem marcadas, com um verão quente e seco e um inverno ameno e úmido. Esse padrão previsível ditou o compasso da vida antiga. A navegação, espinha dorsal do comércio e da comunicação, era uma atividade sazonal. O inverno, com suas tempestades repentinas e violentas, tornava as viagens perigosas. O verão, por outro lado, trazia os ventos "Etesianos", que eram ventos constantes do nordeste que garantiam uma navegação segura e previsível.

A chuva, concentrada no inverno, era o elemento mais imprevisível. Em um ano pode fornecer o dobro da média, outro menos da metade. Sua distribuição era desigual, criando microclimas drásticos devido ao efeito de sombra de chuva, com isso a ilha de Corfu, a oeste da Grécia, recebe 1220 mm de chuva anuais, enquanto Atenas, a leste das montanhas, recebe apenas 400 mm.

Mais do que apenas regular a economia, o clima influenciou profundamente a cultura. Hughes argumenta que o ambiente ameno e ensolarado incentivou uma vida voltada para o exterior. A praça pública, o teatro ao ar livre e as discussões filosóficas sob o pórtico não surgiram por acaso, mas como uma resposta natural a um clima que convidava à congregação.

A luz do Mediterrâneo, particularmente durante o verão, é notável por sua clareza e brilho. Alguns estudiosos chegaram a sugerir que a qualidade especial dessa luz teve muito a ver com o desenvolvimento da arquitetura grega, com suas colunas caneladas e atenção às linhas e sombras, e eles podem estar parcialmente certos. Mas parece inegável que o clima mediterrâneo encorajou atividades ao ar livre de todos os tipos, e ajuda muito a explicar o sentimento dos povos mediterrâneos pela natureza.

A Bacia do Mediterrâneo é uma terra onde montanhas e mar estão "intimamente associados". A topografia é caracteristicamente acidentada, uma região geologicamente ativa onde três placas tectônicas se encontram. Terremotos eram eventos esperados, e vulcões como o Etna e o Thera (Santorini) demonstravam o poder transformador da natureza. Uma erupção não era apenas um desastre; suas cinzas, carregadas pelos ventos, podiam fertilizar o solo de distritos inteiros.

A vegetação, perfeitamente adaptada a esse cenário, organiza-se em uma clara zonação por altitude. Nas elevações mais baixas, encontra-se a zona de floresta perene, dominada por duas comunidades vegetais principais: Os maquis, uma densa vegetação de arbustos com folhas cobertas por uma "camada espessa, brilhante, cerosa ou coriácea" para evitar a perda de água. Fonte vital de lenha, carvão e pasto para cabras. E a garigue, uma comunidade mais baixa e esparsa, com plantas de "folhas muito pequenas e coriáceas, muitas vezes cobertas por uma penugem de pelos esbranquiçados" e "espinhos para desencorajar os animais de pasto". Seu nome grego, phrygana ("gravetos"), revela seu uso como combustível, mas também é a origem de ervas como tomilho e orégano. Hughes nos deixa uma imagem sensorial poderosa, a de que "marinheiros que retornam muitas vezes sentem o cheiro agradável de sua terra natal enquanto ainda estão longe no mar".

Acima desta zona, onde a umidade aumenta, surge a zona de floresta decídua, com carvalhos, faias e castanheiros. E ainda mais alto, na zona conífera subalpina, dominam abetos, pinheiros e os famosos cedros. Essa diversidade de vegetação sustentava uma fauna primeva igualmente rica. Grandes herbívoros como o bisão-europeu, veados, ovelhas e burros selvagens eram abundantes. Eles, por sua vez, serviam de presa para predadores formidáveis como leões, leopardos, linces, ursos, lobos e hienas, que habitavam a Europa mediterrânea em tempos históricos.

O ecossistema não se limitava à terra. As águas do Mediterrâneo, embora não tão ricas quanto outros mares, abrigavam atuns, tubarões, polvos, lulas, focas, golfinhos e até baleias. Os rios e lagos completavam o quadro com enguias, esturjões e, no Egito, crocodilos e hipopótamos. Aqui, Hughes apresenta seu argumento central, que a ação humana alterou drasticamente esse equilíbrio. A caça implacável e a destruição de habitats levaram à extinção regional de grandes predadores e transformaram paisagens inteiras. A remoção de uma única espécie não é um ato isolado. Hughes utiliza a metáfora da "teia da vida" para explicar que o ecossistema é um tecido interconectado. Cortar um fio afeta a tensão e a integridade de toda a estrutura. A teia da vida da natureza é um vasto tecido de muitos fios e tensões, e o rompimento de qualquer fio pela remoção de uma espécie pode afetar o todo.

A análise de J. Donald Hughes oferece uma perspectiva fundamental: as civilizações da antiguidade não apenas se adaptaram brilhantemente ao ecossistema mediterrâneo, mas também o dominaram, exploraram e, em muitos casos, o danificaram de forma irreversível. O desmatamento que causou a erosão do solo, a superexploração de recursos e a extinção de espécies não foram consequências triviais, mas fatores que enfraqueceram a base natural sobre a qual essas mesmas sociedades se sustentavam.

A história está gravada na paisagem ferida do Mediterrâneo, em suas colinas áridas que um dia foram florestas e em seus portos silenciosos sob o mar. O estudo desse passado não é um mero exercício acadêmico; ele revela uma verdade atemporal que ecoa com urgência em nosso presente. Como conclui Hughes, a lição é clara: "a existência e o bem-estar das sociedades humanas dependem da manutenção de um equilíbrio com a natureza."

Acompanhe o blog e as publicações de História Ambiental da Antiguidade. Se você chegou com a leitura até aqui, separei este trecho do livro para que o público tenha acesso, clique aqui. Este texto passou por revisão e modificações a partir do uso de IA. Segue a referencia completa: 

HUGHES, J. Donald. The Mediterranean Ecosystem. In: HUGHES, J. Donald. Ecology in ancient civilizations. Albuquerque: University of New Mexico Press, 1975. p. 7-19.




terça-feira, 12 de maio de 2026

Mais do que terra: como a luta pelas florestas do Vale do Itajaí forjou uma identidade

Quando pensamos em Santa Catarina, e mais especificamente no Vale do Itajaí, a imagem que muitas vezes vem à mente é a de uma Europa brasileira. Festas como a Oktoberfest de Blumenau reforçam um imaginário de herança germânica, de cidades ordenadas e de uma paisagem domesticada pela agricultura familiar. Contudo, pulsa uma história muito mais antiga, complexa e violenta, uma história de disputa não apenas pela terra, mas pela própria alma da floresta.

Para desvendar essas camadas, nos aprofundamos no artigo "DE SELVAGEM A XOKLENG: NOMEAR PARA CONTROLAR", do historiador Rodrigo Wartha, publicado na Revista Horizontes Históricos em 2024. Este trabalho é uma chave fundamental para entender como a identidade da região foi construída sobre um campo de batalha simbólico e físico. Neste post, utilizaremos as lentes da História Ambiental para analisar o artigo de Wartha. Nosso objetivo é tratar a natureza, as matas, os rios, a fauna, não como um cenário passivo, mas como um agente central nos conflitos, na colonização e na construção das identidades que hoje definem o Vale do Itajaí. 

Antes da intensificação da colonização europeia no século XIX, o território que hoje conhecemos como Vale do Itajaí era um vasto espaço de vivência para o povo Laklãnõ. Como Wartha aponta, eles circulavam por uma ampla área que se estendia de Curitiba a Porto Alegre. Para eles, a terra não era uma propriedade a ser demarcada, mas um ecossistema integrado do qual faziam parte, um território de subsistência, cultura e espiritualidade. Essa paisagem, no entanto, já era uma fronteira de conflito muito antes da chegada dos alemães. Desde meados do século XVIII, os Laklãnõ enfrentavam a expansão de tropeiros e criadores de gado vindos de cidades como Lages e Curitibanos. Com a chegada dos projetos de colonização europeia, essa disputa se intensificou, opondo duas visões de mundo e dois metabolismos ecológicos incompatíveis. De um lado, um modo de vida baseado na mobilidade e nos ciclos da floresta. Do outro, um projeto baseado no sedentarismo, na propriedade privada e na conversão radical do ecossistema para a agricultura. A mata deixava de ser um lar para ser vista como um obstáculo a ser vencido. 



Para que o projeto colonial de pequenas propriedades fosse viável, era preciso "limpar o terreno". Essa tarefa brutal deu origem a uma figura central e sombria: o bugreiro, o caçador de indígenas. O "ofício do bugreiro", como descreve Wartha, era uma ferramenta de engenharia socioambiental. Sua função ia além da violência: era uma estratégia para "sanitizar" a paisagem, praticando um verdadeiro ecocídio ao remover seus habitantes originários para que a terra pudesse ser redefinida, loteada e explorada. Essa prática era legitimada por um processo calculado: primeiro, os indígenas eram ideologicamente apagados pelo conceito de "Vazio Demográfico"; em seguida, à medida que a colonização se expandia, passavam a ser fisicamente combatidos.

A violência estava intrinsecamente ligada ao empreendimento colonial. O próprio fundador da Colônia Blumenau, Dr. Hermann Bruno Otto Blumenau, em 1850, solicitou proteção ao governo provincial contra os "assaltos dos índios bugres", evidenciando como a eliminação dos povos originários era vista como uma condição necessária para o progresso e a segurança dos colonos. 

O argumento central de Rodrigo Wartha é que a violência física foi acompanhada de uma poderosa violência simbólica: o ato de nomear. Termos pejorativos como "selvagem", "bugre" ou "botocudo" não eram meros xingamentos, eles eram ferramentas políticas para desumanizar e associar os Laklãnõ a uma natureza indomada, caótica e perigosa, que precisava ser controlada, retirada do território. Ao nomear o outro como "selvagem", o colonizador se posicionava como "civilizado" e legitimava suas ações. A dominação da floresta e a subjugação de seus povos tornavam-se, assim, parte da mesma missão "civilizatória". Esse processo de nomear, uma prática cultural, era o alicerce que sustentava a transformação ambiental e a expropriação territorial. O historiador Ronald Raminelli, citado por Wartha, sintetiza perfeitamente essa lógica:

No Brasil, o vocábulo fundamentou a conquista e os projetos coloniais: de um lado, os colonos e as tentativas de transformar o gentio em escravo; de outro, os jesuítas e a necessidade de convertê-los e submetê-los a uma tutela. As representações pictóricas do índio ressaltam os aspectos do barbarismo e reafirmam o estereótipo, servindo aos colonizadores como princípio moral para a intervenção na América. (RAMINELLI, 1996, p. 57).

O ápice desse processo de controle ocorreu com o chamado "Contato" de 1914, que deu início à sedentarização forçada do povo Laklãnõ. Sob a ótica da História Ambiental, este evento representa mais do que uma mudança social, ele representa uma profunda ruptura da condição sustentável e ecológica do indígena. A passagem de uma existência móvel, sazonal e integrada a um ecossistema vasto e diverso, para uma vida confinada em uma área demarcada, naquele momento chamada de reserva, alterou drasticamente tudo. Práticas de caça, coleta, rituais e a própria relação com o mundo natural foram irremediavelmente transformadas. Confinar os Laklãnõ em uma reserva não era apenas controlá-los socialmente, mas quebrar sua conexão milenar e metabólica com o território que lhes dava sustento e sentido. 

O artigo de Rodrigo Wartha, lido a partir de uma perspectiva ambiental, revela que a história do Vale do Itajaí é, em sua essência, a história de uma luta pela própria natureza da paisagem. Mostra que o projeto colonial não separava as pessoas do ambiente: nomear povos, controlar terras e transformar ecossistemas eram facetas de um mesmo processo de dominação. A história não termina, contudo, na subjugação. Hoje, a autoidentificação do povo como Laklãnõ é um poderoso ato de resistência. É a reafirmação de uma identidade e de uma conexão cósmica e ambiental que a colonização tentou apagar. O nome, segundo Nanblá Gakran, significa "gente do sol" ou "povo que vive onde nasce o sol", e, em uma definição complementar de Walderes Coctá Priprá, é o "povo que caminha em direção ao Sol ou povo do Sol". Fica aqui uma pergunta: ao olharmos para as paisagens que nos cercam hoje, que outras histórias de conflito, resistência e ressignificação estão escondidas sob os nomes de nossas cidades, rios e matas?

Foto facebook

Rodrigo Wartha é um historiador de destaque na pesquisa histórica, cultura e educação no Alto Vale do Itajaí, especialmente em Rio do Sul (SC). Graduado em História pela Fundação Universidade Regional de Blumenau (FURB), possui especialização em Educação, Diversidade e Cultura Indígena pela Escola Superior de Teologia (RS), mestrado em Desenvolvimento Regional pela FURB e doutorado em História pela Universidade do Estado de Santa Catarina (UDESC). Sua trajetória acadêmica é marcada por investigações sobre História Indígena, identidades, memória e imigração europeia, com ênfase nas relações históricas entre populações indígenas, especialmente o povo Laklãnõ/Xokleng, e os processos de colonização no Vale do Itajaí. Além da produção acadêmica, Wartha atua de forma consistente no campo da cultura e da preservação da memória histórica regional, atuando em espaços como ao Museu Histórico e Cultural e ao Arquivo Público Histórico do município de Rio do Sul, exercendo funções de pesquisa, organização de acervos e coordenação institucional. Participa de grupos de pesquisa e conselhos editoriais, colaborando com revistas e publicações voltadas à história regional. Também desenvolve e integra projetos culturais e educativos, muitos deles contemplados por editais públicos, voltados à difusão da história indígena e à implementação de políticas educacionais como a Lei nº 11.645/2008. Sua produção inclui artigos, livros e materiais didáticos que dialogam com o público acadêmico e não acadêmico, contribuindo para a democratização do conhecimento histórico. Ao articular pesquisa, atuação institucional e divulgação cultural, Rodrigo Wartha se afirma como um pesquisador comprometido com a construção de narrativas históricas críticas, sensíveis às disputas de memória e às múltiplas experiências sociais que moldaram a história do Vale do Itajaí e de Santa Catarina.

O texto desta postagem foi realizado a partir do estudo de Wartha, uma leitura fundamental para compreender histórica e antropologicamente a questão indígena no Vale do Itajaí. Acesse o estudo completo clicando aqui. Foram realizadas correções e adaptações do texto com uso de IA.

Referência:

WARTHA, Rodrigo. De selvagem a Xokleng: nomear para controlar. Revista Horizontes Históricos, [online], v. 8, n. 1, p. 72-86, jan./jun. 2024





segunda-feira, 4 de maio de 2026

História Ambiental das civilizações antigas segundo J. Donald Hughes


Quando observamos o Partenon, símbolo incomparável da civilização grega, nossa atenção é capturada por sua majestade arquitetônica. No entanto, o historiador J. Donald Hughes nos convida a ampliar o foco e observar seu cenário. Atrás da Acrópole, as montanhas da Ática exibem seus ossos rochosos contra o céu. As ruínas do templo mais sublime dos antigos gregos estão, na verdade, cercadas pelas ruínas muito maiores de um ambiente que eles próprios devastaram. Onde hoje vemos aridez, existiram florestas densas, irrigadas por nascentes que há muito secaram. O próprio Platão notou essa transformação, observando que os tetos de alguns edifícios atenienses eram sustentados por vigas de árvores cortadas em encostas que, em seu tempo, já eram estéreis.

É neste embalo que começa o Capítulo 1 "Environment and civilization", do livro Ecology in ancient civilizations, publicado por Hughes em 1975. Partindo desta fonte, este post propõe uma análise de suas ideias fundamentais, utilizando as lentes da História Ambiental para tratar a natureza não como um mero pano de fundo para as ações humanas, mas como uma força ativa e reativa na ascensão e queda das civilizações.

Segue com esta questão: Mas o que é História Ambiental? A História Ambiental, na formulação de Hughes, é "uma tentativa de aplicar os conhecimentos da ecologia à história humana". Para desvendar o poder dessa abordagem, é crucial primeiro entender a própria ecologia. A palavra deriva das raízes gregas oikos, que significa "casa" ou "lar", e logos, que se traduz como "estudo" ou "razão". Em um sentido mais amplo, oikos deu origem à oikoumene, a terra habitada, o lar de toda a humanidade. A ecologia, portanto, é o estudo racional de como a humanidade se inter-relaciona com seu lar, a Terra, e todos os seus sistemas vivos e não vivos. Nessa análise da relação entre civilizações e ambiente, Hughes propõe três temas centrais de estudo: (1) A influência do ambiente nas civilizações. (2) As atitudes humanas perante a natureza. (3) O impacto das civilizações sobre o ambiente natural. Seguindo a ênfase do próprio autor, nosso foco se concentrará nos dois últimos temas, que exploram a ação humana e suas consequências.

O primeiro tema de Hughes, ainda que não seja o foco principal, estabelece uma premissa fundamental: o ambiente natural exerceu uma "influência constante e formativa" sobre as civilizações antigas. A História Ambiental se cruza aqui com a história social, econômica e cultural, revelando como a paisagem moldou o destino dos povos.

• Geografia e vocação: povos com fácil acesso ao mar, como os gregos e fenícios, desenvolveram habilidades navais e mercantis, em contraste com povos sem litoral, como os assírios e persas.
• Solo e economia: o solo montanhoso e fino da Ática era mais adequado para o cultivo de oliveiras e videiras do que para cereais, definindo a base de sua agricultura e comércio.
• Recursos e arquitetura: a disponibilidade de materiais ditava as técnicas construtivas. Os egípcios ergueram seus monumentos com pedra abundante, enquanto os mesopotâmios, em seu vale aluvial, construíam com tijolos de argila.
• Cultura e natureza: o mundo natural permeou todas as formas de expressão cultural. Ele está presente nos afrescos minoicos de polvos e golfinhos saltitantes, na descrição homérica de uma floresta na Odisseia e até na religião, como o uso do pão e do vinho no cristianismo, alimentos básicos da terra onde a religião se originou.

O terceiro tema de Hughes é o mais contundente, trata do impacto das atividades humanas sobre o ambiente. Se a natureza moldou as civilizações, estas, por sua vez, alteraram profundamente a natureza. Hughes argumenta de forma incisiva que, ao final, a "natureza teve sua vingança na queda das civilizações". As evidências dessa degradação são as ruínas silenciosas que mencionamos no início:
• O desmatamento das montanhas da Grécia, testemunhado e registrado pelo filósofo Platão, que viu as encostas de sua época já erodidas e estéreis.
• A desertificação que soterrou as outrora prósperas cidades romanas do norte da África e as capitais da Mesopotâmia, transformando centros urbanos em montes de argila sob a areia.
• O quase desaparecimento das lendárias florestas de cedro do Líbano, que forneceram madeira para templos e cidades por todo o Oriente Próximo, e das quais hoje restam apenas alguns bosques protegidos.
• A retração do Crescente Fértil, outrora o berço da agricultura, hoje visível do espaço como um "remanescente encolhido" de sua antiga glória.

A geógrafa Ellen Semple, citada por Hughes, reforça essa análise sobre as raízes ambientais do declínio civilizacional: As causas do declínio devem ser buscadas... no desnudamento do solo das encostas, no desmatamento com o desaparecimento das nascentes, na destruição das obras de irrigação por ataques bárbaros ou nômades, no colapso do governo ordenado sob repetidas invasões bárbaras e, possivelmente, no esgotamento do solo, causando o declínio agrícola.

Para Hughes, as ações destrutivas não ocorreram no vácuo. Elas foram guiadas pelo segundo tema central: as atitudes humanas em relação à natureza. A forma como um povo percebe o mundo natural determina como ele interage com ele. Essas percepções variavam amplamente, "da adoração e curiosidade à dominação e uso". A tese é clara, as ações de um povo refletem seus valores. Uma sociedade que vê a natureza como sagrada, povoada por espíritos e divindades, a trata de maneira muito diferente de uma sociedade que a enxerga apenas como um conjunto de recursos a serem explorados para ganho imediato.

Hughes estabelece aqui uma conexão direta com o presente, sugerindo que "alguns problemas ambientais modernos" podem ser resultado da "perpetuação de atitudes antigas". O estudo da mentalidade e dos valores do passado torna-se, assim, uma chave para compreender as raízes intelectuais da nossa crise contemporânea.

A principal contribuição do trabalho de J. Donald Hughes é demonstrar que a dicotomia entre história humana e história natural é falsa. A humanidade é parte da natureza; ela age sobre o mundo e, inevitavelmente, sofre as reações de suas próprias ações. As civilizações antigas não foram apenas moldadas por seus ambientes, mas também os alteraram de forma profunda e, muitas vezes, irreversível, selando com isso o próprio destino. As ruínas de templos e cidades são inseparáveis das ruínas das paisagens que as sustentavam.

O estudo de Hughes, portanto, não é apenas um exercício acadêmico sobre o passado. É um convite à reflexão, feito com a intenção explícita de nos ajudar a "compreender a nossa atual crise ambiental". Isso nos deixa com uma questão provocadora: ao olharmos para as ruínas do nosso próprio tempo, que histórias ambientais as paisagens que estamos criando contarão sobre nós?

Para ter acesso ao capítulo que analisamos clique aqui. Este texto foi adaptado/modificado com IA. Segue a sua referência:

HUGHES, J. Donald. Environment and civilization. In: ______. Ecology in ancient civilizations. Albuquerque: University of New Mexico Press, 1975. p. 1-6


quinta-feira, 30 de abril de 2026

A floresta como personagem: O que uma HQ revela sobre o encontro de mundos no Sul do Brasil

HQ
Uma história em quadrinhos pode servir como uma incrível fonte fonte para uma análise histórica profunda. A obra "Indígenas do Alto Vale do Itajaí: O Povo Laklãnõ/Xokleng e a Colonização de Rio do Sul", de 2016, nos prova o contrário. Organizada por Catia Dagnoni, Profa. Dra. Lilian Blanck de Oliveira e Rodrigo Wartha, ela é muito mais do que um simples reconto do passado regional. O detalhe mais revelador sobre sua natureza está em seus créditos, pois a obra é fruto de uma parceria entre a Fundação Cultural de Rio do Sul, o Museu Histórico e a Escola Indígena Vanhecú Patté. Este fato transforma a HQ de uma fonte sobre os Laklãnõ/Xokleng em um documento de diálogo histórico e auto-representação indígena contemporânea. Ela se torna, assim, um ato de retomada da própria narrativa daqueles que foram oprimidos e possuem suas representações. Sob a ótica da História Ambiental, vamos analisar como esta obra singular retrata a natureza não como um cenário passivo, mas como o agente central de um conflito de mundos.

A raiz do conflito no Alto Vale do Itajaí, conforme retratado nos quadrinhos, reside em duas ontologias conflitantes, em duas formas radicalmente distintas de ser e entender o mundo, e que são aplicadas a um mesmo território. Eram duas visões que criavam paisagens culturais completamente diferentes.

Para o povo Laklãnõ/Xokleng, o ambiente era uma extensão de sua própria existência. A obra ilustra uma relação de profundo pertencimento, onde a mata era a fonte de todo sustento, regendo seu modo de vida seminômade através da coleta de pinhão, da caça e da pesca. A floresta não era um recurso a ser extraído, mas um lar provedor, uma entidade com a qual se convivia em harmonia. A fala de um personagem indígena resume essa cosmovisão: "Veja a natureza, como é bela. Ela nos dá tudo o que precisamos".


Em absoluto contraste, os colonizadores europeus enxergavam a mesma paisagem através de uma lente utilitária. Para eles, a mata densa era um obstáculo a ser vencido e um recurso a ser explorado. A beleza que viam não era a da harmonia existente, mas a do potencial econômico que poderia ser desbloqueado através da domesticação. O diálogo entre os imigrantes recém-chegados é revelador: Vai ser um ótimo lugar para morar, fazer casas, comércio, roças. Essa divergência fundamental — de um lado, a natureza como lar; de outro, como capital — foi o catalisador inevitável para o confronto que redefiniria para sempre aquela paisagem.


A história em quadrinhos deixa claro que a supressão da floresta não foi um subproduto acidental da colonização, mas um projeto deliberado e articulado. A obra conecta brilhantemente a frieza da burocracia com a brutalidade da violência. Em uma cena, vemos o Dr. Blumenau em seu escritório, planejando calmamente a "retirada dos índios" e a abertura de "picadas" para facilitar o transporte de mercadorias.

Essa decisão, tomada em um gabinete, materializa-se em uma violência explícita nas páginas seguintes, com a contratação de "bugreiros" — mercenários encarregados de expulsar violentamente os indígenas de suas terras. A HQ demonstra que o desterro foi um projeto de Estado, metodicamente planejado, onde a caneta do administrador era tão letal quanto a faca do bugreiro. O resultado visual desse projeto é a ilustração da colônia "Bella Aliança" prosperando: a floresta original dá lugar a uma paisagem cultural europeia, com campos de cultivo, casas e animais domésticos. Como a narrativa aponta, o crescimento das famílias imigrantes demandava cada vez mais terras, intensificando a pressão sobre o território indígena e acelerando sua conversão.

As consequências desse processo para o povo Laklãnõ/Xokleng foram devastadoras. A introdução da obra informa que a perda do território tradicional, somada à violência dos conflitos e à disseminação de epidemias, levou os indígenas "quase ao completo extermínio". A resistência a essa desterritorialização é capturada de forma tocante em um dos quadros, onde um indígena, confrontado pela expedição de contato, afirma o desejo fundamental de seu povo: Queremos continuar na mata.

Contudo, a pressão colonizadora culminou na política de "pacificação" e "aldeamento" conduzida pelo recém-criado Serviço de Proteção ao Índio e Localização dos Trabalhadores Nacionais (SPILTN), em um processo que se intensificou a partir do "contato pacífico" de 1914. O próprio nome completo da agência revela sua ideologia colonialista: ao colocar a "proteção" indígena e a "localização" de trabalhadores sob o mesmo guarda-chuva, o Estado enquadrava ambos como recursos a serem gerenciados para seu projeto de expansão econômica. Essa política, embora buscasse "minimizar os conflitos", representou o fim do modo de vida seminômade e a fixação forçada do povo Xokleng em uma área delimitada, demarcada como reserva apenas em 1956.

A melancolia da cena final dos quadrinhos encapsula a profunda ruptura socioambiental imposta. Dois anciãos olham para o aldeamento, um cenário estranho ao seu modo de vida ancestral, e um deles pergunta, numa síntese dolorosa de toda a sua história: O que o futuro reserva para a nossa gente?

A história em quadrinhos "Indígenas do Alto Vale do Itajaí" revela-se uma fonte extraordinária para a História Ambiental, precisamente por ter sido construída em diálogo com os descendentes daqueles que viveram o conflito. Ela nos permite visualizar que a disputa no Vale do Itajaí foi, em sua essência, uma guerra pela própria natureza — por seus significados, seus usos e, finalmente, seu controle. A floresta não foi palco, mas protagonista, e sua transformação reflete a imposição de uma visão de mundo sobre outra.

Ao olharmos para as paisagens que nos cercam hoje, quantas histórias de encontros e desencontros, de poder e resistência, estão inscritas nas nossas florestas, rios e campos? O que a história do povo Laklãnõ/Xokleng, contada também por eles, nos ensina sobre os custos ambientais e humanos do "desenvolvimento"?

Para você ter acesso a HQ e conhecer essa incrível fonte/História clique aqui. Este texto foi adpatado, revisado e passou por alterações com o uso de IA