"Eu sou o que me cerca. Se eu não preservar o que me cerca, eu não me preservo".
José Ortega y Gasset

quarta-feira, 7 de outubro de 2026

Botuverá: uma trajetória de pesquisas em História Ambiental no Vale do Itajaí-Mirim

Bolsistas Vanessa N. e Ana. C. M com entrevistas
Acervo GPHAVI 2008. 

Existe uma relação intensa entre as pesquisas do Grupo de Pesquisa em História Ambiental do Vale do Itajaí (GPHAVI) e a região de Botuverá. Essa aproximação começou ainda nos primeiros anos de consolidação do grupo e acabou produzindo, ao longo do tempo, um conjunto de pesquisas que permite observar diferentes dimensões da relação entre sociedade e natureza no município e, particularmente, nas comunidades localizadas no entorno do Parque Nacional da Serra do Itajaí (PNSI).

Entorno do PNSI. Acervo GPHAVI

Lembro da primeira vez em que nos aventuramos pela região em uma espécie de missão científica. Eu ainda não conhecia Botuverá. Junto com Gilberto, percorremos o entorno do PNSI tendo em mãos o mapa das comunidades do parque. Passamos por Salto de Águas Negras, pelos Lageados, até Ribeirão do Ouro e Areias. O relevo impressionava: vales estreitos, encostas, diferentes níveis de conservação da floresta e, entre eles, elementos do mundo rural, pequenas áreas de ocupação e sinais da presença urbana. A paisagem já apresentava, naquele momento, aquilo que posteriormente se tornaria uma das características das pesquisas realizadas pelo GPHAVI na região: a possibilidade de observar a história ambiental a partir das relações entre ocupação humana, floresta, agricultura, mineração, produção artesanal, fauna e diferentes formas de apropriação dos recursos naturais.

Botuverá - SC. Acero do GPHAVI

O ano de 2008 ocupa um lugar especial nessa trajetória. Naquele período, ainda estávamos estreitando nossos laços de trabalho. Eu estava bastante entusiasmado com as possibilidades de pesquisa e insistia com Gilberto para que avançássemos na apresentação de projetos de iniciação científica. Naquele momento, os critérios do PIBIC/CNPq consideravam, entre outros aspectos, a titulação e o currículo do pesquisador, além da qualidade e dos critérios específicos de avaliação do projeto. Insisti para que elaborássemos as propostas e tive a autorização de Gilberto para escrever e inserir os projetos no sistema. Como a pesquisa abrangia diversas comunidades do entorno do parque, a estratégia foi dividir o recorte territorial em dois projetos.

Assim nasceram nossas duas primeiras pesquisas de PIBIC relacionadas a Botuverá: “História ambiental das comunidades do entorno do Parque Nacional da Serra do Itajaí: comunidades do Lageado Baixo, Lageado Alto e Ribeirão do Ouro, município de Botuverá - Vale do Itajaí - SC”, desenvolvida com bolsa PIBIC/CNPq, tendo como bolsista Vanessa N., estudante de História. E: “História ambiental das comunidades do entorno do Parque Nacional da Serra do Itajaí: comunidades do Salto de Águas Negras, Beira Rio e Lageado Central, município de Botuverá - Vale do Itajaí - SC”, desenvolvida com bolsa PIBIC/FURB, tendo como bolsista Ana C. M., estudante de Ciências Sociais.

Foram, portanto, duas pesquisas de iniciação científica desenvolvidas simultaneamente em 2008, abrangendo seis comunidades: Lageado Baixo, Lageado Alto, Ribeirão do Ouro, Salto de Águas Negras, Beira Rio e Lageado Central. Foi um momento importante para o grupo. Lembro da emoção de Gilberto com a aprovação daqueles projetos. Eram nossas primeiras pesquisas em nível de PIBIC e, olhando retrospectivamente, é possível perceber que aquela experiência estabeleceu uma linha de investigação que continuaria nos anos seguintes. 

Essa história do final rendeu seis pesquisas de iniciação científica entre  2008 e 2018. São eles:

História ambiental das comunidades do entorno do Parque Nacional da Serra do Itajaí: comunidades do Lageado Baixo, Lageado Alto e Ribeirão do Ouro, município de Botuverá - Vale do Itajaí - SC — 2008, PIBIC/CNPq, bolsista Vanessa N.

História ambiental das comunidades do entorno do Parque Nacional da Serra do Itajaí: comunidades do Salto de Águas Negras, Beira Rio e Lageado Central, município de Botuverá - Vale do Itajaí - SC — 2008, PIBIC/FURB, bolsista Ana C. M.

História da Produção Artesanal de Cal no Município de Botuverá (Médio Vale do Itajaí-Mirim) — 2011-2012, PIPe/Art. 170, bolsista José R. S. História.

Comunidades de Ribeirão do Ouro e Lageado Central (Botuverá - SC - Zona de Amortecimento do Parque Nacional Serra do Itajaí): uma História Ambiental baseada no ouro e calcário — 2011, PIPe/Art. 170, bolsista Vitória d. A.

Estudos sobre a História Ambiental dos usos da avifauna do Parque Nacional Serra do Itajaí (SC), nos municípios de Blumenau, Botuverá e Guabiruba — 2013. A pesquisa contou com três bolsistas: Guilherme B. S. do curso de Ciências Biológicas, posteriormente substituído por Mariane P. S. do curso de biomedicina e Francisco J. M. do curso de história.

História, Desenvolvimento e Sustentabilidade no entorno do Parque Nacional da Serra do Itajaí em Botuverá e Guabiruba-SC — 2018, PIPe/Art. 170. O projeto contou com dois bolsistas, sendo João H. T., da Arquitetura, que permaneceu até o final, e outro estudante de Ciências Sociais que posteriormente deixou a pesquisa. 

Os títulos das pesquisas mostram também como o olhar do grupo foi se ampliando. As primeiras investigações estavam concentradas na história ambiental das comunidades do entorno do PNSI, buscando compreender a ocupação humana e as relações estabelecidas com a Floresta Atlântica. Posteriormente, surgiram pesquisas mais específicas. 

A produção de cal passou a ser investigada em História da Produção Artesanal de Cal no Município de Botuverá. A exploração mineral apareceu novamente no estudo sobre ouro e calcário nas comunidades de Ribeirão do Ouro e Lageado Central. A avifauna constituiu outro eixo de investigação, especialmente na pesquisa desenvolvida em 2013, que articulou Botuverá a Blumenau e Guabiruba. 

Já a pesquisa de 2018 incorporou a discussão sobre desenvolvimento e sustentabilidade, ampliando novamente o campo de observação para as relações entre sociedade, território e conservação ambiental.

Não se trata, portanto, de uma única história de Botuverá, mas de diferentes histórias ambientais que se cruzam no mesmo território. E o resultado desse percurso também pode ser observado nas publicações. Temos 18 trabalhos publicados ou apresentados em eventos e revistas, distribuídos entre artigos científicos, trabalhos completos em eventos, resumos expandidos e resumos.

Entre os artigos publicados em revistas científicas, aparecem três trabalhos diretamente relacionados a Botuverá:“História Ambiental dos Fumicultores em Botuverá (SC)”, publicado na Revista Brasileira de Agroecologia, em 2009.

“Lageado Alto e Lageado Baixo (Botuverá, Santa Catarina): história da ocupação humana e uso da biodiversidade da Mata Atlântica de comunidades localizadas na zona de amortecimento do Parque Nacional da Serra do Itajaí”, publicado na Revista GeoNorte, em 2012.

“Apontamentos para uma História Ambiental do uso dos recursos naturais em Botuverá - Vale do Itajaí-Mirim - SC”, publicado na Geosul, volume 39, em 2024.

Há aqui uma trajetória particularmente interessante: o primeiro artigo identificado é de 2009, enquanto o mais recente é de 2024. São, portanto, 15 anos de produção publicada, permitindo observar a permanência do município como espaço de investigação do GPHAVI.

A produção não ficou restrita às revistas científicas. Foram identificados cinco trabalhos completos publicados em anais de eventos, entre eles:

“História Ambiental da Mineração em Botuverá (SC)”, apresentado no Simpósio Internacional de História Ambiental e Migrações, em 2010.

“Os processos de uso dos recursos naturais no município de Botuverá (Santa Catarina)”, apresentado no X Encontro Nacional da Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Geografia, em 2013.

“Breve história do ambiente no Parque Nacional da Serra do Itajaí em Apiúna, Presidente Nereu, Vidal Ramos e Botuverá - Vale do Itajaí - SC”, apresentado no III Workshop Internacional de História do Ambiente, em 2013.

Também aparecem trabalhos dedicados especificamente a comunidades e processos locais, como “História e apropriação da natureza no entorno do Parque Nacional da Serra do Itajaí: o caso de Salto de Águas Negras em Botuverá - SC” e “Usos da natureza na História da comunidade de Lageado Alto em Botuverá - SC”, ambos apresentados em 2009.

A produção em eventos mostra como as pesquisas locais foram sendo incorporadas a discussões mais amplas da História Ambiental, da Geografia e da educação. Outro aspecto importante desse conjunto documental é a diversidade temática. Em 2008, os trabalhos estão relacionados à colonização italiana e à Floresta Atlântica, como Colonização italiana e sua história Ambiental na Floresta Atlântica do Lageado Alto e Baixo em Botuverá-SC.

Também em 2008 foi apresentado Construindo uma História Ambiental das comunidades Salto de Águas Negras, Beira Rio e Lageado Central do entorno do Parque Nacional Serra do Itajaí Botuverá SC. Em 2009, os trabalhos passaram a abordar diretamente os usos da natureza, as transformações da Floresta Atlântica, a mineração, a apropriação da natureza e o uso da história oral como instrumento de pesquisa.

Em 2012, a exploração do ouro aparece novamente, agora a partir das memórias das comunidades de Ribeirão do Ouro e Lageado Central. Em 2013 e 2014, a avifauna passou a integrar esse conjunto de investigações, com estudos sobre os usos históricos das aves do Parque Nacional da Serra do Itajaí.

Esse conjunto revela uma característica importante da trajetória: Botuverá foi sendo estudada a partir de diferentes elementos da paisagem e das relações humanas com a natureza. Quando organizamos os dados, podemos visualizar melhor a dimensão dessa trajetória:

2008–2018 → 6 pesquisas de iniciação científica

2008–2024 → 18 trabalhos identificados entre artigos, trabalhos completos, resumos expandidos e resumos

3 artigos em revistas científicas

5 trabalhos completos em eventos

2 resumos expandidos

8 resumos em eventos

2008 → início das pesquisas de iniciação científica relacionadas a Botuverá

2009 → primeiras publicações em revistas e forte produção em eventos

2010–2014 → ampliação das pesquisas para mineração, recursos naturais, história oral e avifauna

2018 → pesquisa sobre desenvolvimento e sustentabilidade

2024 → publicação de Apontamentos para uma História Ambiental do uso dos recursos naturais em Botuverá - Vale do Itajaí-Mirim - SC

Esses números ajudam a perceber que não estamos diante de uma pesquisa pontual sobre Botuverá. Existe uma trajetória de investigação que atravessa pelo menos 16 anos de produção publicada e uma década de projetos de iniciação científica. Quando reunimos os títulos, pesquisadores, estudantes, comunidades e temas, começa a aparecer um verdadeiro mapa das pesquisas do GPHAVI em Botuverá.

De um lado estão as comunidades: Lageado Alto, Lageado Baixo, Ribeirão do Ouro, Salto de Águas Negras, Beira Rio e Lageado Central. De outro, os processos históricos: colonização, ocupação humana, agricultura, fumicultura, mineração, exploração do ouro e do calcário, produção artesanal de cal, uso da biodiversidade, avifauna e sustentabilidade. E atravessando todos eles está a Floresta Atlântica, não apenas como cenário das ações humanas, mas como parte ativa da história dessas comunidades. É justamente nesse cruzamento que a perspectiva da História Ambiental permite observar Botuverá. O território deixa de ser apenas o local onde os acontecimentos ocorreram e passa a ser compreendido como resultado de relações históricas entre pessoas, comunidades, recursos naturais, técnicas, atividades econômicas, animais, florestas e diferentes formas de apropriação da natureza.

Retomar hoje esse conjunto de pesquisas permite perceber algo que talvez não estivesse tão evidente quando os primeiros projetos foram elaborados. Aquelas duas pesquisas de 2008 abriram uma frente de investigação que posteriormente recebeu novos estudantes, novos projetos, novos temas e novas formas de publicação. Ao longo desse percurso, Botuverá apareceu como território de pesquisa sobre a Floresta Atlântica, as comunidades rurais, a colonização, a agricultura, o fumo, o ouro, o calcário, a produção de cal, a fauna, a avifauna, os recursos naturais, o desenvolvimento e a sustentabilidade.

O levantamento também mostra que muitas dessas pesquisas foram realizadas por estudantes de diferentes áreas: História, Ciências Sociais, Ciências Biológicas e Arquitetura, revelando o caráter interdisciplinar que marcou a construção desse acervo. Talvez esse seja um dos aspectos mais interessantes dessa trajetória: cada pesquisa respondeu a uma pergunta específica, mas, juntas, elas começaram a construir uma história ambiental de Botuverá.

Hoje, ao olhar para os títulos produzidos desde 2008, é possível perceber que existe ali mais do que uma sequência de projetos acadêmicos. Existe um conjunto documental que permite reconstruir diferentes momentos da relação entre sociedade e natureza no município e no entorno do Parque Nacional da Serra do Itajaí. E talvez a próxima pergunta seja justamente essa: o que ainda não foi estudado nessa paisagem? Quais outras comunidades, atividades econômicas, espécies, conflitos, práticas agrícolas, transformações da floresta ou formas de apropriação da natureza ainda podem ser encontradas nos arquivos, nas memórias dos moradores e na própria paisagem de Botuverá? A história ambiental da região, ao que tudo indica, ainda está longe de terminar.

Fonte: levantamento da produção científica e dos projetos de iniciação científica do GPHAVI relacionados a Botuverá.

Nota: Este texto foi elaborado a partir do levantamento e organização dos dados de pesquisa apresentados pelo autor. A autoria intelectual e a responsabilidade pelo conteúdo são humanas; ferramentas de inteligência artificial foram utilizadas como apoio à organização e adequação textual.






terça-feira, 29 de setembro de 2026

As três matrizes da História Ambiental brasileira: uma análise do estudo de Roger Domenech Colacios


Na historiografia brasileira contemporânea, o termo "meio ambiente" frequentemente opera como uma engrenagem oculta, utilizada sem o devido escrutínio analítico. Roger Domenech Colacios propõe uma desconstrução dessa categoria por meio da metáfora da "caixa-preta", conceito apropriado da cibernética e transposto para os estudos sociais por Bruno Latour em suas análises da teoria ator rede. Formulada originalmente por Wilhelm Cauer em 1945, a caixa-preta designa um sistema de alta complexidade do qual se conhecem apenas as entradas (inputs) e saídas (outputs), enquanto seu funcionamento interno permanece opaco para o observador.

Segundo Colacios (2017), a História Ambiental no Brasil padece de uma "incipiência teórica" que transforma seus conceitos fundamentais em caixas-pretas. Nas ciências humanas, o autor identifica dois tipos de ocorrências para esse fenômeno: a primeira, em que há consonância entre a entrada da informação e sua saída interpretativa. A segunda, e para ele mais problemática, em que o conceito é inserido em argumentos sem que seu significado seja plenamente apreendido, resultando em distorções que servem apenas às intenções imediatas do autor (Colacios, 2017).

fonte

O artigo "Os meios ambientes da História Ambiental brasileira: pela abertura da caixa-preta", publicado por Roger Domenech Colacios (2017) na revista História e Revista (Goiânia), surge em um momento de paradoxo disciplinar. Se, por um lado, o campo apresenta vigor institucional,  visível na consolidação de Grupos de Trabalho na ANPUH, na criação de laboratórios e no aumento de teses defendidas, por outro, persiste um hiato em relação ao amadurecimento epistemológico. Desta forma, a obra convida o historiador a transcender a aplicação técnica de termos e a "abrir" as definições que alicerçam a área. O objetivo é superar o uso flutuante do vocabulário e buscar uma conformação rigorosa entre os objetos de estudo, as bases teóricas e os métodos de investigação. 

A tese central de Colacios postula que o meio ambiente não deve ser reduzido a um cenário passivo ou a um adorno para a ação humana. Ele é uma entidade dotada de agência e historicidade. Para organizar a produção historiográfica brasileira, o autor identifica três matrizes teóricas que operam conforme diferentes pressupostos sobre o que constitui o mundo natural:

  • Matriz Ecológica: Pautada na separação entre sociedade e natureza, com foco nos impactos biofísicos sobre o mundo selvagem.
  • Matriz Socioambiental: Baseada na simbiose e na construção recíproca entre as formações sociais e o mundo natural.
  • Matriz Geográfica: Centrada na categoria de espaço e paisagem como elementos de significação regional e política.
Influenciada pela historiografia dos Estados Unidos, especialmente por Donald Worster e Roderick Nash, a matriz ecológica fundamenta-se no conceito de wilderness. Para Nash (1976), o mundo selvagem é "essencialmente um estado de espírito", o sentimento de estar removido da civilização e do controle tecnológico. Nesta perspectiva, o meio ambiente é interpretado como uma natureza intocada, externa ao ser humano, e o foco analítico recai sobre o "impacto" degradante da sociedade sobre ecossistemas definidos. Essa vertente estabelece um diálogo contínuo com as ciências biológicas, incorporando conceitos como entropia e biodiversidade para mensurar as alterações físicas do ambiente. 

Em termos bem simples, portanto, a História Ambiental trata do papel e do lugar da natureza na vida humana. Há um consenso de que ‘natureza’ designa o mundo não-humano, o mundo que nós não críamos originalmente (Worster, 1991, p. 201).

A matriz socioambiental adota o "mundo natural" como categoria central, buscando dissolver fronteiras rígidas entre humanidade e biosfera. Autores como Warren Dean e Paulo H. Martinez integram o meio ambiente às estruturas econômicas e políticas. Martinez (2006) utiliza o Materialismo Histórico para inverter a lógica da matriz ecológica: em vez de partir da divisão, ele foca na construção recíproca entre sociedade e natureza. 

Uma das peculiaridades mais destacadas da História Ambiental seria, assim, o exame das relações entre os seres humanos e, dentro e a partir delas, a análise das relações que se estabelecem com o mundo natural (Martinez, 2006, p. 19). 

Nesta visão, o ambiente possui uma "face humana", sendo resultado de formações sociais que desencadeiam "agravos" ou interações simbióticas no mundo natural. A natureza é aqui entendida como parte indissociável dos processos de produção e poder.

A matriz geográfica utiliza o espaço e a paisagem como categorias sociais e políticas, recorrendo à historiografia clássica (Caio Prado Jr., Sérgio Buarque de Holanda) para compreender a ocupação do território. Para historiadores como Dora Shellard Corrêa e Janes Jorge, a paisagem é "dinâmica e humanizada". Corrêa (2013) propõe a análise do sentido político e jurídico da paisagem por meio da "sobreposição de paisagens" no Barão de Antonina (Mata de Itapeva). Esse conceito revela como as agendas do Estado ocultam representações anteriores do território para impor novos sentidos governamentais. De forma análoga, Janes Jorge demonstra como a degradação do Rio Tietê reflete a apropriação do espaço urbano e a acentuação das desigualdades sociais em São Paulo.

A despeito da diversidade de matrizes, persiste no campo uma dicotomia entre o humano e o não-humano. Colacios (2017) ressalta que mesmo na História Ambiental Urbana o meio ambiente é frequentemente reduzido a "nichos" (rios, parques), mantendo o ser humano no entorno da natureza, em vez de integrá-los. José Augusto Pádua (2010) caracteriza a posição do historiador nesse cenário como "flutuante", em que o pesquisador se coloca em um lugar privilegiado de observação externa. Essa separação impede o uso de categorias como "ambiente artificial", mantendo a caixa-preta selada e limitando a compreensão da totalidade da biosfera como parte da trajetória histórica.

A abertura da "caixa-preta" revela que o meio ambiente não é um conceito singular, mas plural: os "meios ambientes". Latour propõe que o termo possui duas significações complementares: é o "complementar de um conjunto" (o depósito de nossas ações) e a "união entre o conjunto e seu complemento" (aquilo que nos invade e nos diz respeito) (Latour et al., 1998). Essa transição teórica é acompanhada pela "inversão antropológica" observada na década de 1970, quando a natureza deixou de ser vista como uma força forte e dominável para ser compreendida como fraca e indefesa diante da ação globalizada. A robustez da História Ambiental depende, portanto, de sua capacidade de superar visões puramente técnicas e fragmentadas. O desafio futuro reside em questionar se a sociedade e a historiografia são capazes de se perceberem como parte integrante da biosfera ou se continuarão a tratar os meios ambientes apenas como recursos externos sob gestão flutuante.

Referência da fonte analisada: DOMENECH COLACIOS, Roger. Os meios ambientes da História Ambiental brasileira: pela abertura da caixa-preta. História Revista, Goiânia, v. 22, n. 2, p. 6–22, 2017. DOI: 10.5216/hr.v22i2.47142. Disponível em: https://revistas.ufg.br/historia/article/view/47142. Acesso em: 20 set. 2026.


Roger Domenech Colacios é um historiador com formação acadêmica voltada à História Social, História das Ciências e História Ambiental. Sua trajetória começou na graduação em História pela Universidade Estadual de Londrina (UEL), concluída em 2006. Na Universidade de São Paulo (USP), realizou o mestrado em História Social, concluído em 2009, e o doutorado na mesma área, em 2014. Em 2017, aprofundou sua formação com um pós-doutorado em História Ambiental pela Universidade Estadual Paulista (UNESP). Sua trajetória revela, portanto, uma aproximação progressiva entre a História Social, a História das Ciências e as questões ambientais. Essa combinação permite investigar não apenas os processos sociais e históricos, mas também as relações estabelecidas pelas sociedades com a natureza, os conhecimentos produzidos sobre o mundo natural e as transformações ambientais ocorridas ao longo do tempo. Atualmente, é docente do Curso de Comunicação e Multimeios (CMM), vinculado ao Departamento de Fundamentos da Educação (DFE), e professor do Programa de Pós-Graduação em História (PPH) da Universidade Estadual de Maringá (UEM). Na UEM, também coordena o Laboratório de Pesquisa em Educação e História Ambiental (LEHA), espaço dedicado à pesquisa e à reflexão sobre as relações entre educação, história e ambiente. Integra ainda o Laboratório do Tempo Presente (LabTempo) e o Laboratório de Pesquisa em História Agrária (LAPHA). Sua trajetória acadêmica permite situar sua produção em uma área interdisciplinar da História, na qual questões relacionadas às ciências, agricultura, sociedade, ambiente e produção do conhecimento podem ser analisadas historicamente. É justamente essa trajetória que torna sua produção relevante para quem procura compreender como a História Ambiental pode ser praticada, quais problemas históricos podem ser investigados e de que maneira diferentes tipos de fontes e campos do conhecimento podem ser articulados na pesquisa histórica. 
(Fonte: http://lattes.cnpq.br/0041482937454960)

OBS.: Declaro que a autoria intelectual e a responsabilidade pelo conteúdo deste texto são humanas. O texto foi elaborado a partir de pesquisa, seleção, interpretação e análise realizadas pelo autor. Durante o processo de elaboração e revisão, foram utilizadas ferramentas de Inteligência Artificial, especificamente o NotebookLM e o ChatGPT, como instrumentos auxiliares na organização das informações, aprimoramento da redação, revisão e adaptação textual. A utilização dessas ferramentas não substituiu a autoria, a análise crítica ou a responsabilidade do autor pelo conteúdo apresentado. Todas as informações, argumentos, interpretações e referências foram revisados e validados pelo autor, que permanece integralmente responsável pela versão final do texto. 

segunda-feira, 21 de setembro de 2026

Do FAIC à 20ª MIPE: o GPHAVI e a trajetória da História Ambiental na FURB

Foto Gabriell
Entre os dias 15 e 17 de setembro de 2026, a Universidade Regional de Blumenau – FURB realizou a 20ª Mostra Integrada de Ensino, Pesquisa, Extensão e Cultura – MIPE. Promovida pela Pró-Reitoria de Pesquisa, Pós-Graduação, Extensão e Cultura – PROPEX e pela Pró-Reitoria de Ensino de Graduação, Ensino Médio e Profissionalizante – PROEN, a mostra constitui um dos principais espaços institucionais de apresentação e divulgação da produção acadêmica realizada na Universidade.

Para o Grupo de Pesquisas de História Ambiental do Vale do Itajaí – GPHAVI,  participar desse espaço significa também revisitar uma trajetória que começou antes mesmo da existência da MIPE. A presença de pesquisadores vinculados à trajetória do grupo nos eventos de iniciação científica da FURB pode ser localizada, pelo menos, desde o antigo Fórum Anual de Iniciação Científica – FAIC. Um registro particularmente significativo encontra-se na 5ª edição do FAIC, realizada em 2006, cuja solenidade de abertura ocorreu em 20 de outubro daquele ano. Naquele evento foi apresentado o trabalho “Histórico Ambiental da Mata Atlântica na região do Parque Natural Municipal Nascentes do Garcia e entorno no século XX”, de Martin Stabel Garrote, sob orientação de Gilberto Friedenreich dos Santos. O registro é anterior à consolidação de muitas das pesquisas que posteriormente marcariam a trajetória do GPHAVI e permite observar um momento em que a História Ambiental começava a ocupar um espaço específico na produção de iniciação científica da FURB. A pesquisa tinha como foco a história da Mata Atlântica na região das Nascentes do Garcia, em Blumenau, investigando as transformações ocorridas no território e as relações estabelecidas entre sociedade e natureza ao longo do século XX.

A antiga experiência do FAIC antecede a criação da MIPE, que passou a reunir em um mesmo espaço diferentes modalidades de produção acadêmica da Universidade. Ao longo dos anos, os registros das mostras permitem acompanhar a presença de pesquisas relacionadas ao GPHAVI e à História Ambiental. Na 9ª MIPE, em 2015, por exemplo, aparece o trabalho “História da ocupação e uso do solo e suas relações com os desastres socioambientais na comunidade da Rua Araranguá, Blumenau/SC”, de Nicollas Voss Reis, Gilberto Friedenreich dos Santos e Martin Stabel Garrote. Em 2019, na 13ª MIPE, um dos trabalhos apresentados voltou-se para o próprio patrimônio documental produzido pelo grupo: “O acervo do Grupo de Pesquisas de História Ambiental do Vale do Itajaí e sua contribuição para análise do desenvolvimento regional no entorno do Parque Nacional Serra do Itajaí-SC”. Já na 15ª MIPE, em 2021, a própria trajetória do GPHAVI tornou-se objeto de pesquisa, com o trabalho “O surgimento de um grupo de pesquisa de História Ambiental na FURB”, dedicado a reconstruir o processo de formação do grupo e analisar sua produção acadêmica. 

Esses registros mostram uma característica importante da trajetória do GPHAVI: a pesquisa não ficou concentrada em um único objeto. Ao longo do tempo, os estudos passaram por diferentes questões relacionadas às relações entre sociedade, natureza e território: Mata Atlântica, ocupação do território, uso do solo, recursos naturais, desenvolvimento regional, comunidades, desastres socioambientais, unidades de conservação, agropecuária e, mais recentemente, as próprias formas de circulação e divulgação do conhecimento produzido pela História Ambiental.

Em 2026, na 20ª edição da MIPE, o GPHAVI voltou a participar do evento com a apresentação de resultados de duas pesquisas desenvolvidas no âmbito da iniciação científica. Os trabalhos representam frentes diferentes, mas relacionadas, da atuação atual do grupo. De um lado, uma pesquisa voltada para a história da agropecuária e do desenvolvimento regional no Vale do Itajaí. De outro, uma investigação sobre a divulgação científica da História Ambiental nas redes sociais.

O primeiro trabalho apresentado foi: “Estado, Mercado e Natureza: As articulações na Modernização Agropecuária do Vale do Itajaí”. O estudo é resultado da pesquisa “História Ambiental e Desenvolvimento Regional da Agropecuária no Vale do Itajaí (SC) na primeira metade do século XX”, desenvolvida no âmbito do PIBIC-CNPq. A pesquisa passou por mudanças ao longo de sua execução, inclusive em razão da substituição do bolsista. Na metade do processo, o estudante Bryan S. L. assumiu a bolsa e deu continuidade às atividades de investigação. O resultado apresentado na MIPE procurou analisar a modernização da agropecuária regional a partir da articulação entre Estado, mercado e natureza.



Bryan S. L

Bryan S. L apresentando



Bryan S. L e Martin S. G.

A perspectiva da História Ambiental permite observar a modernização não apenas como transformação econômica ou tecnológica, mas como um processo que também envolveu mudanças na utilização dos recursos naturais, nas formas de ocupação do território, nas práticas produtivas e nas relações estabelecidas entre diferentes agentes sociais. A agropecuária, nesse sentido, aparece inserida em uma rede de relações que envolve políticas públicas, interesses econômicos, mercados, técnicas e condições ambientais. O projeto tem coordenação de Gilberto Friedenreich dos Santos e orientação de Martin Stabel Garrote.

O segundo trabalho apresentado na 20ª MIPE foi: “A divulgação científica de História Ambiental nas redes sociais: investigando a produção dos grupos de pesquisa do Sul e Sudeste – Ano 2”. O estudo dá continuidade a uma pesquisa iniciada anteriormente pelo GPHAVI, voltada à análise das formas pelas quais grupos de pesquisa de História Ambiental utilizam as redes sociais para comunicar suas pesquisas e estabelecer relações com públicos que estão além do ambiente acadêmico. 


Gabriell e Ana apresentando


Gabriell G. A. e Ana C. A. F

Em 2026, essa investigação contou com a participação de estudantes do Ensino Médio da Escola Técnica do Vale do Itajaí – ETEVI: Gabriell G. A. e Ana C. A. F. A participação de estudantes do Ensino Médio acrescenta outra dimensão ao projeto. A pesquisa passa a envolver não apenas a análise da divulgação científica, mas também a formação de novos pesquisadores e a experimentação de diferentes formas de comunicação do conhecimento. O projeto é coordenado por Gilberto Friedenreich dos Santos e orientado por Martin Stabel Garrote. A investigação também dialoga diretamente com uma atividade que o próprio GPHAVI vem desenvolvendo há anos: utilizar diferentes meios digitais para disponibilizar pesquisas, documentos, resultados de iniciação científica e conteúdos relacionados à História Ambiental. Nesse sentido, o blog do grupo e suas redes sociais constituem também parte de uma trajetória de preservação e circulação da produção científica.

Observar a participação do GPHAVI nos espaços de divulgação científica da FURB permite compreender uma dimensão importante da trajetória do grupo. Mais do que contabilizar trabalhos apresentados, esses registros revelam diferentes momentos da produção científica, das perguntas formuladas e dos estudantes envolvidos nas pesquisas. Em 2006, no 5º FAIC, uma pesquisa abordava a história da Mata Atlântica e as transformações ambientais nas Nascentes do Garcia. Ao longo dos anos, os temas se ampliaram para questões como ocupação do território, desastres socioambientais, desenvolvimento regional, Parque Nacional da Serra do Itajaí e o próprio acervo produzido pelo grupo. Em 2026, a agropecuária do Vale do Itajaí e a divulgação científica nas redes sociais aparecem entre os objetos de investigação. Há, portanto, continuidade e transformação. Mudam os pesquisadores, os estudantes, as tecnologias e os objetos de pesquisa, mas permanece uma questão que atravessa essa trajetória: como compreender historicamente as relações estabelecidas entre sociedade e natureza no Vale do Itajaí?

A 20ª MIPE marca duas décadas de um espaço institucional dedicado à apresentação da produção acadêmica da FURB e oferece ao GPHAVI a oportunidade de reconhecer uma trajetória construída por diferentes gerações. Entre o antigo FAIC e a atual MIPE, passaram-se duas décadas de mudanças na Universidade, nas pesquisas e nas formas de comunicação científica. A comparação entre 2006 e 2026 evidencia esse percurso: de uma investigação sobre a história ambiental da Mata Atlântica nas Nascentes do Garcia a estudos sobre a modernização da agropecuária e sobre as possibilidades de comunicação da História Ambiental nas redes sociais. Esses registros também mostram que a pesquisa não se encerra com a conclusão de um estudo. Seus resultados continuam circulando quando são apresentados, discutidos, registrados e publicados, passando a integrar a memória da própria instituição. Para o GPHAVI, essa memória já reúne mais de duas décadas de pesquisas, estudantes e pesquisadores. Do FAIC à 20ª MIPE, a História Ambiental continua encontrando espaço na FURB e incorporando novos temas, perguntas e formas de divulgação.


OBS.: Declaro que a autoria intelectual e a responsabilidade pelo conteúdo deste texto são humanas. O texto foi elaborado a partir de pesquisa, seleção, interpretação e análise realizadas pelo autor. Durante o processo de elaboração e revisão, foram utilizadas ferramentas de Inteligência Artificial, especificamente o NotebookLM e o ChatGPT, como instrumentos auxiliares na organização das informações, aprimoramento da redação, revisão e adaptação textual. A utilização dessas ferramentas não substituiu a autoria, a análise crítica ou a responsabilidade do autor pelo conteúdo apresentado. Todas as informações, argumentos, interpretações e referências foram revisados e validados pelo autor, que permanece integralmente responsável pela versão final do texto. 


quinta-feira, 17 de setembro de 2026

Rio Esperança: quando a pesquisa termina, a história continua

Banner apresentado na MIPE
Vamos contar a história de uma de nossas ICs. Em abril de 2010, os meios de comunicação anunciaram a construção de uma usina hidrelétrica na comunidade de Rio Esperança, município de Rio dos Cedros, na sub-bacia hidrográfica do rio Benedito. O empreendimento seria realizado pela empresa canadense Brookfield Energia Renovável, com investimento previsto de R$ 120 milhões, e a Pequena Central Hidrelétrica (PCH) Arrozeira Meyer teria capacidade de geração de 27 megawatts, suficiente, segundo as informações divulgadas na época, para atender a uma população de até 100 mil habitantes.

Mas havia uma outra dimensão nessa notícia que nos chamou a atenção: a comunidade de Rio Esperança era formada por 46 famílias, parte das quais seria indenizada para deixar suas propriedades em razão da implantação do empreendimento. Ainda não havia, naquele momento, um prazo definido para a saída das famílias. Essas informações chegaram até nós, foram filtradas pelo nosso grupo e despertaram o interesse em conhecer esse processo de perto. Afinal, mais do que uma obra de engenharia e um investimento de milhões de reais, a construção de uma hidrelétrica significava uma transformação profunda no território, envolvendo propriedades, famílias, relações sociais, paisagem, rio e formas de apropriação da natureza.

A partir daí, iniciamos um pequeno levantamento para tentar entender melhor a situação. Foi nesse movimento que surgiu a ideia de transformar aquela inquietação em uma pesquisa de Iniciação Científica. Gilberto trouxe a ideia e a vontade de desenvolver o estudo, além dos primeiros rascunhos do projeto. Analisamos o material, discutimos juntos e fomos dando forma à proposta. Assim nasceu o projeto “A construção de hidroelétrica a ser realizada na comunidade de Rio Esperança (Rio dos Cedros, Santa Catarina): um estudo sob enfoque da História Ambiental”, executado pelo estudante pesquisador bolsista Douglas Ricardo Grubel sob orientações de Gilberto Friedenreich dos Santos. Submetemos a proposta ao Programa Institucional de Bolsas de Iniciação Científica (PIBIC), na tentativa de conseguir uma bolsa e contratar um estudante de História para assumir essa missão de pesquisa.

Conseguimos o recurso por meio do programa de Iniciações Científicas PIBIC-FURB, uma modalidade contrapartida institucional ao PIBIC/CNPq. Para nós, naquele momento, a conquista da bolsa significava mais do que financiamento: significava a possibilidade concreta de transformar uma notícia que havia despertado nossa curiosidade em uma investigação histórica.

A pesquisa foi desenvolvida ao longo de 2010, chegando até o final de outubro daquele ano. O estudo procurou compreender o processo de construção da hidrelétrica e, sobretudo, as transformações que ele poderia provocar na comunidade de Rio Esperança. Vista pela perspectiva da História Ambiental, a questão deixava de ser apenas a construção de uma infraestrutura energética. Tratava-se de observar as relações entre sociedade, território e natureza e perceber como diferentes interesses se encontravam, e entravam em tensão, diante da transformação de um rio, de uma paisagem e do espaço vivido por uma comunidade.

O nome do município, Rio dos Cedros, é em si um registro histórico: deriva da antiga abundância do cedro, preciosa madeira de lei que outrora dominava a paisagem (Santos; Grubel, 2011). Sob esta lente, o relevo e o rio não são cenários passivos, mas protagonistas que condicionaram desde a colonização trentina até o interesse contemporâneo do capital energético. O conflito em Rio Esperança coloca em xeque a convivência entre a herança biofísica do território e o imperativo técnico-industrial da geração de energia.

A sub-bacia do Rio Benedito e do Rio Esperança não é um alvo fortuito para a exploração hidrelétrica; sua geologia atua como um agente que dita o destino econômico da região. O território situa-se em uma zona de transição entre o planalto sedimentar da Bacia do Paraná e as rochas gnáissicas do Complexo Granulítico de Santa Catarina. Essa "discordância litológica" cria fortes rupturas de declive e um elevado gradiente nos canais de drenagem, fatores naturais que definem o potencial para o barramento das águas (Santos; Grubel, 2011).

A paisagem, caracterizada pelo domínio das serras litorâneas e um leito rochoso acentuado, é banhada por um regime climático mesotérmico e superúmido, garantindo um escoamento superficial concentrado. O fato de o município ser cercado por serras atua como um facilitador geográfico para a inundação necessária à barragem. Assim, a configuração abiótica do Rio Esperança, suas quedas e seu encaixe nas montanhas, é o legado natural que atrai o projeto de 27 megawatts, capaz de atender 100 mil habitantes, mas que exige a submersão de ecossistemas locais.

A ocupação humana, iniciada em 1875, foi impulsionada por fatores externos como a Revolução Industrial e a Guerra Franco-Prussiana, que trouxeram imigrantes trentinos ao Vale do Itajaí. A relação inicial com a Mata Atlântica foi de enfrentamento e transformação para garantir a sobrevivência. Na década de 1940, o ciclo do tabaco consolidou a integração da comunidade ao mercado, convivendo com uma economia de subsistência rigorosa. O depoimento de Egídio Pedrelli detalha o ritmo e a agressividade desse processo:

Era um capoeirão e aí a gente derrubava tudo... Queimava, fazia montes, botava fogo sempre mais de noitinha, botávamos fogo aqui embaixo e o fogo ia embora. (Egídio Pedrelli, 2011 apud Santos; Grubel, 2011).


A autossuficiência da época é reforçada por Romilda Gaulke, que descreve como a natureza era processada internamente:


Era muito difícil o trabalho antigamente, só que eles diziam para mim que eles gastavam menos do que nós agora por que eles tinham tudo em casa, só precisam comprar o trigo no mercado por que nós tínhamos o açúcar vermelho da cana, tinha o fubá de milho, a polenta era moída, também tinha sozinho, então era pouca coisa que nós comprávamos né. (Romilda Gaulke, 2011 apud Santos; Grubel, 2011).


A Madeireira Beyer, que operava na comunidade explorando lenha e madeira de lei, funcionava como o nó central entre o trabalho agrícola e a extração florestal. Seu fechamento na década de 1980 marcou a transição para uma vida urbana e operária, alterando novamente a fisionomia da paisagem (Santos; Grubel, 2011).

A exploração das águas de Rio dos Cedros segue um ciclo histórico de rupturas. A construção da Usina Palmeiras, na década de 1950, foi o primeiro grande marco de transformação, desviando a mão de obra da agricultura para as obras de infraestrutura e iniciando a desvalorização do modo de vida agropastoril. O projeto atual da PCH Arrozeira Meyer insere-se na mesma lógica, agora amparada pelo discurso do "desenvolvimento sustentável" e da "energia limpa".

Entretanto, o relatório de Grubel e Santos destaca que tais conceitos camuflam impactos bióticos severos, como a submersão de espécies e alteração de habitats. O processo administrativo, segundo o prefeito Fernando Tomaselli, indicava uma probabilidade de 90% para a construção da usina, com o Estudo de Impacto Ambiental (EIA) sob análise da FATMA (Santos; Grubel, 2011). A "angústia da falta de resposta" relatada por moradores como Jordana Agostini revela que o discurso do desenvolvimento raramente contempla o cronograma de vida das populações afetadas, gerando um estado de suspensão e incerteza sobre o futuro das terras e das indenizações.

O impacto social sobre as 46 famílias de Rio Esperança era mediado por uma distância corporativa acentuada. A Brookfield utilizava a Empresa Tecnologia do Solo e Serviços (ETS) como intermediária para as medições e avaliações de propriedades, o que aprofunda a sensação de isolamento da comunidade. Para os moradores idosos, a perda da terra não representa apenas um prejuízo financeiro, mas a desintegração de uma identidade cultural construída sobre o manejo secular do solo.

A falha na comunicação institucional é um dos pontos mais críticos do conflito. José Braulio Pires descreve a precariedade do diálogo estabelecido pela empresa e pelo poder público:

Foi no grito, três ou quatro dias antes a Celesc passou nas casas com um convite para a reunião, eu nem estava aqui, eu estava lá para Volta Grande... Cada um escutou ali e aí nós ficamos esperando a contra proposta deles, mas não teve uma contra proposta outra reunião. (José Braulio Pires, 2011 apud Santos; Grubel, 2011).


A ausência de uma "contraproposta" ou de um canal contínuo de informação transformou a legítima busca por energia renovável em um processo de desarticulação social, onde o direito à estabilidade cultural dos remanescentes da colonização é negligenciado em favor da urgência energética. 

A contribuição desta IC de Grubel e Santos para a História Ambiental do Vale do Itajaí reside em demonstrar que a trajetória da comunidade de Rio Esperança é indissociável de suas características físicas. O potencial hídrico, gerado pela discordância litológica e pelas serras que outrora abrigavam os cedros, tornou-se o elemento de vulnerabilidade da comunidade frente ao avanço industrial.

Douglas na 5 MIPE

O caso de Rio Esperança sintetiza o dilema contemporâneo: até que ponto a busca por matrizes energéticas renováveis justifica a desarticulação de modos de vida tradicionais e a transformação irreversível de ecossistemas locais? A história dessa comunidade revela que, enquanto o capital busca a fluidez das águas, os moradores lutam pela solidez de suas raízes e pela resposta que o "silêncio" dos projetos de desenvolvimento teima em não fornecer.

É assim que algumas de nossas ICs começam: às vezes, com uma notícia de jornal, uma inquietação e a vontade de entender melhor o que está acontecendo no território. A partir daí, vem a pesquisa, a discussão coletiva, a elaboração do projeto, a busca por financiamento e, finalmente, o trabalho de um estudante que transforma aquela primeira pergunta em investigação histórica. Esse é um recorte, agora se tiver um tempo, acesse o relatório da IC:

GRUBEL, Douglas Ricardo. SANTOS, Gilberto Friedenreich dos. A construção de hidroelétrica a ser realizada na comunidade de Rio Esperança (Rio dos Cedros, Santa Catarina): um estudo sob enfoque da história ambiental. Relatório final de Iniciação Científica PIBIC/FURB. Blumenau: Grupo de Pesquisas de História Ambiental do Vale do Itajaí (GPHAVI). 2011.


Essa é uma dessas histórias. Mas depois não fizemos avanços na pesquisa, e não conseguimos mais acompanhar. E o que será que aconteceu, passado todo esse tempo? Quinze anos depois daquela pesquisa, o cenário é outro. A PCH Arrozeira Meyer, que em 2011 ainda era um projeto cercado de incertezas e cuja construção sequer havia começado, avançou no processo de licenciamento e implantação. A autorização do empreendimento passou posteriormente para a Arrozeira Meyer Energia S.A., o projeto foi atualizado para 24 MW e, em 2025, o IMA concedeu a Licença Ambiental de Implantação. Em 2026, as obras já estão em andamento na região de Rio Esperança, e o cronograma oficial prevê o enchimento do reservatório em setembro e o início da operação comercial das unidades geradoras no final deste ano. Mas ainda fica a pergunta: e aquelas pessoas? E quais impactos sua implantação está proporcionando neste exato momento? 

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Aquela IC de 2011 registrou um território antes da transformação. O que em 2011 era uma possibilidade e motivo de apreensão entre as famílias entrevistadas, de lá para cá, tornou-se uma obra em implantação. A história, que parecia terminar com o relatório de pesquisa, continuou acontecendo mas no território. E talvez seja justamente aí que a pesquisa histórica encontre uma de suas maiores forças: perceber que o objeto pesquisado não permanece parado depois que o pesquisador encerra seu trabalho. Quinze anos depois, aquele território é outro, as condições são outras e as perguntas também podem ser outras. Será que, diante dessas novas transformações, aquela pesquisa voltará a ser feita?

OBS.: Declaro que a autoria intelectual e a responsabilidade pelo conteúdo deste texto são humanas. O texto foi elaborado a partir de pesquisa, seleção, interpretação e análise realizadas pelo autor. Durante o processo de elaboração e revisão, foram utilizadas ferramentas de Inteligência Artificial, especificamente o NotebookLM e o ChatGPT, como instrumentos auxiliares na organização das informações, aprimoramento da redação, revisão e adaptação textual. A utilização dessas ferramentas não substituiu a autoria, a análise crítica ou a responsabilidade do autor pelo conteúdo apresentado. Todas as informações, argumentos, interpretações e referências foram revisados e validados pelo autor, que permanece integralmente responsável pela versão final do texto.

sexta-feira, 11 de setembro de 2026

Quando um edifício vira poeira: o que o 11 de Setembro pode ensinar à História Ambiental?

Fonte

Em 11 de setembro de 2001, o mundo acompanhou a destruição das Torres Gêmeas do World Trade Center, em Nova York. As imagens daquele dia foram registradas principalmente como imagens de um atentado terrorista: aviões atingindo edifícios, torres em chamas, pessoas fugindo e, depois, uma enorme nuvem cobrindo as ruas de Manhattan. Mas existe outra dimensão daquele acontecimento que merece ser observada naquela história.

O que aconteceu com o ambiente quando dois dos maiores edifícios de Nova York deixaram de existir?

Essa pergunta desloca o olhar, pois lá, naquele momento, o que era concreto tornou-se poeira. Vidro, aço, gesso, fibras, madeira, papel, materiais sintéticos e outros componentes do ambiente construído foram fragmentados, queimados, misturados e dispersos. Parte desse material foi carregada pela atmosfera, a outra parte depositou-se nas ruas, nos edifícios e nas residências. Trabalhadores, moradores, bombeiros e equipes de resgate passaram a respirar um ambiente que havia sido produzido pela própria cidade. É nesse ponto que o 11 de Setembro pode ser aproximado da História Ambiental.

Fonte:


Não se trata, nesta postagem, de propor uma história ambiental do atentado, de seus antecedentes ou de suas consequências. A intenção é mais especulativa, partiu de uma curiosidade minha após este último dia 11, e de algumas reportagens que assisti em minhas redes sociais sobre os efeitos da poeira. Assim achei algumas fontes para compreender aquele acontecimento com um olhar da história ambiental. 

Entre os trabalhos que permitem fazer essa aproximação está o artigo “Environments of Terror: 9/11, World Trade Center Dust, and the Global Nature of New York’s Toxic Bodies”, publicado pelo historiador Brett L. Walker, em 2015, na revista Environmental History. O texto faz parte de um fórum da revista dedicado às relações entre tecnologia, ecologia e saúde humana no contexto do Antropoceno. Walker parte de uma questão que ultrapassa a narrativa convencional do atentado: o que aconteceu com os materiais que constituíam o World Trade Center quando as torres ruíram? O historiador chama atenção para o fato de que o World Trade Center não era apenas um conjunto de edifícios. Era um enorme sistema tecnológico composto por diferentes materiais, substâncias e tecnologias, muitos deles produzidos a partir de recursos extraídos, transformados e transportados de diferentes partes do mundo.

Fonte

Quando os edifícios desabaram, essa infraestrutura, que já carregava em sua materialidade uma história de extração, transformação industrial e circulação dos recursos que deram origem aos materiais utilizados em sua construção, foi convertida em uma mistura de poeira, fumaça e fragmentos. Walker sintetiza essa transformação ao afirmar que: “The WTC eventually became an agent of history itself”  (Walker, 2015). A formulação é provocativa porque modifica a posição ocupada pelo edifício na narrativa. O World Trade Center deixa de ser somente cenário de uma ação humana. Sua própria materialidade passa a participar da história. 

No caso do World Trade Center, entretanto, existe uma particularidade, a de estar diante de um ambiente construído. Concreto, aço, vidro, gesso, fibras e materiais sintéticos não são simplesmente “natureza”. Mas tampouco existem fora dela. São resultado de cadeias históricas de extração mineral, produção industrial, circulação de mercadorias, desenvolvimento tecnológico, trabalho e consumo. O edifício, portanto, condensava uma história ambiental anterior ao próprio 11 de Setembro. Quando as torres ruíram, essa história material foi reorganizada de maneira abrupta.

A pesquisa realizada pelo U.S. Geological Survey (USGS) logo após o desastre fornece uma documentação particularmente importante para perceber esse processo. A pedido da EPA e do Public Health Service, pesquisadores do USGS realizaram estudos de sensoriamento remoto e caracterização mineralógica da região de Lower Manhattan. Amostras foram coletadas em mais de 35 localidades dentro de um raio de aproximadamente um quilômetro do World Trade Center. Os pesquisadores identificaram na poeira materiais como vidro, gesso, concreto e outras substâncias relacionadas à construção dos edifícios. Também foram identificados vestígios de crisotila, uma forma de amianto, uma substância que danifica a saúde humana quando respirada.

A cidade havia produzido aquele ambiente durante décadas. Mas estava isolado e "em coma", mas em algumas horas, o ambiente produzido transformou-se em material disperso pelo ambiente urbano. Essa transformação pode ser tomada como um problema histórico. A poeira também tem uma história, e talvez nenhum elemento seja tão importante para essa discussão quanto a poeira.

Um dos primeiros estudos científicos detalhados foi realizado por Paul J. Lioy, Clifford P. Weisel, James R. Millette e outros pesquisadores, que analisaram amostras da poeira e da fumaça depositadas a leste do World Trade Center nos dias 16 e 17 de setembro de 2001. Os pesquisadores encontraram uma mistura complexa de materiais de construção e produtos da combustão, incluindo metais, fibras, amianto, hidrocarbonetos aromáticos policíclicos, PCBs, dioxinas, furanos, pesticidas e outros compostos. As amostras eram compostas principalmente por materiais provenientes da construção, fuligem, tintas e fibras de vidro.

O concreto, enquanto parte do edifício, possuía uma função. A partir do colapso, passou a integrar uma nuvem de partículas. O vidro deixou de cumprir sua função arquitetônica e tornou-se fragmento. Materiais utilizados para proteção contra incêndios foram pulverizados. Substâncias incorporadas ao ambiente construído passaram a circular pela atmosfera. A natureza, nesse caso, não aparece como simples cenário. O ar transporta partículas. O vento dispersa materiais. A chuva deposita e desloca substâncias. Os edifícios recebem a poeira. Os sistemas de ventilação podem redistribuí-la. Os corpos humanos tornam-se lugares de exposição. A atmosfera participa do acontecimento, uma catástrofe que continuou depois do colapso.

Outra contribuição importante vem do estudo de Philip J. Landrigan, Paul J. Lioy, George Thurston e colaboradores, publicado em 2004 em Environmental Health Perspectives. Os pesquisadores classificaram o episódio como uma grande catástrofe ambiental e analisaram diferentes formas de exposição: ar ambiente, poeira depositada em ambientes externos e internos, dispersão atmosférica e efeitos sobre diferentes grupos da população. O estudo mostrou que a concentração de partículas foi maior imediatamente depois do ataque e diminuiu com a distância do local do colapso. A poeira apresentava elevada alcalinidade e continha, entre outros componentes, cimento pulverizado, fibras de vidro, amianto, chumbo, PAHs, PCBs, dioxinas e furanos.

A poeira também atravessou uma fronteira que normalmente separa o ambiente público do privado. Pesquisas posteriores encontraram contaminantes em ambientes internos de Lower Manhattan. Um estudo publicado em Journal of Exposure Science & Environmental Epidemiology analisou poluentes orgânicos persistentes presentes na poeira depositada dentro de edifícios após o desastre. Isso significa que o problema ambiental não estava restrito ao espaço imediatamente próximo ao Ground Zero. A poeira podia entrar em apartamentos, escritórios e outros ambientes fechados.

Quem morava próximo ao World Trade Center? Quem trabalhava nos edifícios? Quem permaneceu na região? Quem participou da limpeza? Quem possuía condições de abandonar temporariamente sua residência? Quem teve acesso a informações sobre os riscos? A distribuição da exposição não era necessariamente igual. O ambiente, portanto, também pode revelar desigualdades sociais.

É possível avançar ainda mais nessa interpretação. Na narrativa tradicional de um desastre urbano, tendemos a imaginar uma sequência simples: ação humana → destruição → consequência ambiental. Mas com um olhar voltado para a A História Ambiental podemos experimentar outra perspectiva: sociedade + infraestrutura + materiais + atmosfera + fogo + água + corpos + trabalho + instituições → produção de um novo ambiente. Nesse modelo, o ambiente não aparece apenas depois da ação humana. Ele participa da própria transformação histórica. O fogo altera os materiais. O ar transporta partículas. O vento interfere na dispersão. A chuva modifica a deposição. Os sistemas de ventilação redistribuem a poeira. Os corpos humanos incorporam parte desse ambiente. A limpeza remove, desloca e reorganiza resíduos. A reconstrução modifica novamente o espaço. São processos físicos e químicos, mas também sociais, econômicos, políticos e culturais. É nesse cruzamento que a História Ambiental encontra outras áreas da historiografia. Uma história também do trabalho, da economia e do poder. A poeira não atingiu todos da mesma maneira. Bombeiros, policiais, equipes médicas, trabalhadores da construção, voluntários, moradores e trabalhadores de Lower Manhattan estabeleceram diferentes relações com aquele ambiente. 

A história da limpeza do Ground Zero, por exemplo, pode ser analisada como História do Trabalho: quais trabalhadores participaram da remoção? Quais equipamentos de proteção estavam disponíveis? Como os riscos eram conhecidos ou desconhecidos? Como o trabalho foi organizado? Pode também ser analisada como História Política: quais instituições produziram informações sobre a qualidade do ar? Como os riscos foram comunicados? Que decisões foram tomadas? E pode ser estudada como História Econômica: quais materiais foram utilizados na construção? De onde vieram? Que cadeias produtivas estavam envolvidas? Como foram organizados os processos de remoção dos escombros e reconstrução? 
Há ainda uma História Cultural: como a poeira foi representada nas fotografias, nos jornais, nos filmes, nos relatos dos sobreviventes e na memória do acontecimento? O ambiente permite conectar essas dimensões.

Existe outro aspecto particularmente interessante. Os estudos científicos realizados depois do atentado não servem apenas para descobrir “o que havia na poeira”. Eles próprios constituem documentos históricos. O relatório do USGS, por exemplo, registra uma ciência produzida em situação de emergência. O estudo começou poucos dias depois do ataque. Técnicas de sensoriamento remoto, espectroscopia, microscopia e análises químicas foram mobilizadas para responder a problemas concretos de uma cidade atingida por uma catástrofe. Isso permite ao historiador perguntar: Como uma sociedade produz conhecimento sobre um ambiente quando ainda não sabe exatamente quais são os riscos que está enfrentando? Essa pergunta desloca a pesquisa para a História da Ciência e da Tecnologia, por exemplo. O conhecimento sobre a poeira também possui uma história: coleta de amostras, escolha de métodos, elaboração de mapas, identificação de substâncias, interpretação dos resultados, comunicação pública e revisão posterior. A própria produção do conhecimento ambiental torna-se parte da história.

É importante não transformar essa perspectiva em uma explicação alternativa que substitua as demais. O que a História Ambiental pode fazer é acrescentar outra pergunta: o que aconteceu com o mundo material quando esse acontecimento atingiu uma das maiores estruturas urbanas do planeta? Essa pergunta revela uma história que estava presente desde antes da queda das torres.

O World Trade Center era resultado de mineração, indústria, engenharia, arquitetura, energia, trabalho, circulação internacional de materiais e expansão urbana. Sua destruição reorganizou temporariamente esses materiais em outra forma ambiental: uma nuvem de partículas, fumaça e resíduos. Nesse sentido, o artigo de Brett Walker oferece uma chave interpretativa particularmente interessante. O historiador relaciona os materiais presentes nos edifícios a redes globais de extração e circulação e argumenta que os corpos dos nova-iorquinos passaram a carregar materiais cuja história começava muito antes de 11 de setembro de 2001. A história de um mineral extraído em determinado lugar podia terminar, décadas depois, no corpo de uma pessoa que respirou a poeira do World Trade Center. Essa conexão entre extração, circulação, construção, destruição e exposição constitui uma das possibilidades mais interessantes para uma História Ambiental do episódio.

Mas! O que ainda pode ser investigado? As fontes disponíveis permitem imaginar várias pesquisas. Uma delas poderia reconstruir a história ambiental dos materiais que compunham o World Trade Center: de onde vieram, como foram transformados, por que foram utilizados e o que aconteceu com eles após o colapso. Outra poderia acompanhar a história da poeira, desde sua formação até sua deposição, remoção e eventual ressuspensão. Também seria possível estudar a relação entre poeira, trabalho e desigualdade social, acompanhando trabalhadores, moradores e equipes de emergência, e as enfermidades e contaminações. Outra possibilidade seria investigar a história da produção científica sobre o desastre, observando como as instituições identificaram os riscos, produziram mapas, coletaram amostras e modificaram suas interpretações ao longo do tempo.

Fonte

E existe ainda uma dimensão pouco explorada pela historiografia ambiental, que é a transformação do próprio ambiente urbano de Lower Manhattan durante a limpeza e a reconstrução até o que é agora. Nesse sentido, o 11 de Setembro pode ser tomado menos como um objeto já fechado e mais como uma espécie de laboratório histórico para pensar as relações entre sociedade, tecnologia, materiais e ambiente.

Vinte e cinco anos depois, a pesquisa científica continua investigando os efeitos das exposições ocorridas em 2001. Isso também é historicamente significativo. Alguns acontecimentos possuem um momento claramente identificável. Outros continuam produzindo consequências durante décadas. O 11 de Setembro pertence às duas categorias. 

Existe o dia do acontecimento: 11 de setembro de 2001. Mas existe também uma sequência posterior de exposições, doenças, pesquisas, disputas, políticas públicas, reconstrução, memória e produção de conhecimento. E pelo olhar da História Ambiental essa continuidade mereça atenção. A queda das torres produziu uma paisagem que durou mais do que o instante do colapso. Produziu resíduos, alterou a atmosfera local, reorganizou espaços de trabalho e moradia e colocou em circulação materiais que antes estavam incorporados à infraestrutura urbana. 

O caso também mostra que aquilo que chamamos de “ambiente” pode estar dentro de uma parede, em uma coluna de aço, em uma janela, em um sistema de ventilação ou em uma camada de poeira acumulada sobre o chão. A História Ambiental pode, portanto, olhar para o 11 de Setembro não para substituir sua história política, social ou cultural, mas para acrescentar uma pergunta sobre a materialidade do acontecimento. Quando uma sociedade constrói uma cidade com materiais extraídos, transformados e distribuídos por redes globais, onde termina a história desses materiais quando o edifício desaba? Talvez a resposta esteja justamente na poeira.

Há, porém, uma outra história do 11 de Setembro que também merece ser explorada: a história das pessoas que viveram aquele momento, diretamente no local dos acontecimentos ou a milhares de quilômetros dali, enquanto seguiam suas vidas cotidianas e, de repente, foram atravessadas por uma notícia que parecia impossível. As imagens transmitidas pela imprensa, a apreensão, o silêncio, as informações desencontradas e a sucessão de acontecimentos transformaram aquele dia em uma experiência compartilhada mundialmente, mas vivida de maneiras muito diferentes.

E aqui entra também uma memória pessoal. Naquele 11 de setembro de 2001, eu estava em Madrid, na Espanha. Trabalhava como camarero no Restaurante Krüger, Cervecería Alemana, no centro da cidade. Estava servindo as mesas quando comecei a perceber o espanto dos clientes. Aos poucos, todos dirigiam a atenção para as televisões espalhadas pelo restaurante. Jornalistas visivelmente emocionados, imagens ainda fragmentadas, um clima de suspense e pessoas tentando compreender o que estava acontecendo.

As primeiras imagens da torre atingida ainda não permitiam compreender toda a dimensão do acontecimento. Lembro de ouvir algumas pessoas dizendo que poderia ter sido um míssil. Até que as imagens e as informações começaram a esclarecer o que estava acontecendo. E, naquele exato momento, aconteceu algo que tornou aquela lembrança ainda mais peculiar. O alarme de incêndio da cozinha disparou. Meus colegas, muitos deles cozinheiros filipinos, também estavam acompanhando as imagens pela televisão enquanto trabalhavam. A chapa havia pegado fogo. O problema foi rapidamente controlado, mas a cena ficou gravada na minha memória: as imagens das torres na televisão, o espanto dos clientes, o movimento do restaurante e, ao mesmo tempo, o alarme de incêndio soando na cozinha.

Eu estava havia algum tempo em Madrid, trabalhando e vivendo ali, e tinha minha passagem marcada para o dia 20 de setembro para retornar ao Brasil. Poucos dias antes de voltar, o mundo parecia outro. Nessa época não imagina o que era História Ambiental. Ao voltar para o Brasil retomei meus estudos na FURB, cursando História, aí depois chegamos aos dias de hoje.

Minha lembrança é esta. E a sua? O que você estava fazendo quando soube dos ataques de 11 de setembro de 2001? Onde estava? O que viu, ouviu ou sentiu naquele momento?

Se esta postagem despertou alguma lembrança, deixe seu comentário. Essas memórias também ajudam a construir a história de um acontecimento que, de diferentes maneiras, atravessou o ambiente, os corpos e o cotidiano de pessoas em todo o mundo. Caso tenha interesse pelo assunto, veja as seguintes fontes:


WALKER, Brett L. Environments of Terror: 9/11, World Trade Center Dust, and the Global Nature of New York’s Toxic Bodies. Environmental History, v. 20, 2015, p. 779–795. O artigo constitui a principal referência historiográfica utilizada nesta postagem, especialmente por discutir o 11 de Setembro a partir das relações entre ambiente construído, materialidade, poeira, toxicidade, corpos e História Ambiental. 

LIOY, Paul J.; WEISEL, Clifford P.; MILLETTE, James R. et al. Characterization of the dust/smoke aerosol that settled east of the World Trade Center (WTC) in lower Manhattan after the collapse of the WTC 11 September 2001. Environmental Health Perspectives, v. 110, n. 7, 2002, p. 703–714. O estudo é fundamental para compreender a composição da poeira e da fumaça depositadas após o colapso das torres, identificando diferentes materiais e contaminantes presentes no ambiente.

LANDRIGAN, Philip J.; LIOY, Paul J.; THURSTON, George et al. Health and environmental consequences of the World Trade Center disaster. Environmental Health Perspectives, v. 112, n. 6, 2004, p. 731–739. O artigo apresenta uma síntese das consequências ambientais e sanitárias do desastre, examinando a exposição à poeira, aos poluentes atmosféricos e aos materiais liberados após o colapso.

CLARK, Roger N.; GREEN, Robert O.; SWAYZE, Gregg A. et al. Environmental studies of the World Trade Center area after the September 11, 2001 attack. U.S. Geological Survey, Open-File Report 2001-429, 2001. O relatório registra uma das primeiras grandes investigações ambientais realizadas após o ataque, incluindo análises de materiais, poeira, partículas e áreas afetadas no entorno do World Trade Center.

CLARK, Roger N.; MEEKER, Greg; PLUMLEE, Geoffrey S.; SWAYZE, Gregg A. USGS environmental studies of the World Trade Center area, New York City, after September 11, 2001. U.S. Geological Survey, Fact Sheet 050-02, 2002. A publicação apresenta uma síntese das pesquisas ambientais realizadas pelo USGS, incluindo informações sobre os materiais encontrados, a distribuição dos resíduos e as condições ambientais observadas após o colapso.

OBS.: Declaro que a autoria intelectual e a responsabilidade pelo conteúdo deste texto são humanas. O texto foi elaborado a partir de pesquisa, seleção, interpretação e análise realizadas pelo autor. Durante o processo de elaboração e revisão, foram utilizadas ferramentas de Inteligência Artificial, especificamente o NotebookLM e o ChatGPT, como instrumentos auxiliares na organização das informações, aprimoramento da redação, revisão e adaptação textual. A utilização dessas ferramentas não substituiu a autoria, a análise crítica ou a responsabilidade do autor pelo conteúdo apresentado. Todas as informações, argumentos, interpretações e referências foram revisados e validados pelo autor, que permanece integralmente responsável pela versão final do texto.