"Eu sou o que me cerca. Se eu não preservar o que me cerca, eu não me preservo".
José Ortega y Gasset

quinta-feira, 15 de outubro de 2026

Notas sobre a presença indígena no território do Parque Nacional da Serra do Itajaí

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Em 2004, dei início a uma pesquisa sobre a história da ocupação humana e sua interação com a natureza na comunidade da Nova Rússia, localizada no sul do município de Blumenau, em Santa Catarina. A região integra a planície aluvial do alto rio Garcia, cuja paisagem foi transformada por processos naturais e, posteriormente, pelas atividades econômicas associadas à colonização, especialmente a exploração madeireira e a agricultura. Essas atividades contribuíram para a formação de comunidades rurais que, apesar das transformações ocorridas ao longo do tempo, permanecem na região. Mas o território tem um longa história, momento onde a paisagem se configura com seus elementos bióticos e abióticos até a chegada humana e suas diversas levas e formas de uso do meio, até hoje. A partir da década de 1970 o movimento social ambientalista iniciou defesa da conservação ecológica da serra, isso culminou em praques privados como o Parque Ecológico Artex em 1988, embrião do Parque Natural Municipal Nascentes do Garcia, criado em 1998, iniciativas que motivaram a criação do Parque Nacional da Serra do Itajaí (PNSI), em 2004. 

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Atualmente, segundo o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), o parque nacional possui 57.528,97 hectares de Mata Atlântica, distribuídos por oito municípios catarinenses: Apiúna, Blumenau, Botuverá, Gaspar, Guabiruba, Indaial, Presidente Nereu e Vidal Ramos. Essa configuração territorial considera as alterações introduzidas pela Lei nº 15.090, de 7 de janeiro de 2025 (BRASIL, 2025; ICMBIO, 2026).

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A pesquisa sobre a Nova Rússia contribuiu para a formação do Grupo de Pesquisas de História Ambiental do Vale do Itajaí - GPHAVI. A partir das investigações iniciais, o trabalho passou a abranger outras localidades situadas no entorno do PNSI, considerando as comunidades identificadas no plano de manejo da unidade de conservação. Ao longo de mais de dez anos de pesquisas, reuni informações sobre a ocupação regional, as atividades econômicas, os modos de vida e as transformações ambientais que marcaram a história dessas localidades.


Uma das experiências mais significativas desse percurso foi ouvir os relatos das pessoas mais idosas das comunidades. Em geral, eram filhos ou netos dos primeiros moradores, com mais de cinquenta anos, que compartilhavam suas próprias lembranças e as histórias transmitidas por pais e avós. Esses depoimentos permitiam reconstruir aspectos da antiga paisagem, dos caminhos, das propriedades, do trabalho rural, da exploração madeireira e das mudanças ambientais ocorridas nas áreas que atualmente integram o parque e seu entorno. Entre as perguntas que eu costumava fazer aos entrevistados, uma dizia respeito à presença indígena na região. Perguntava se tinham conhecimento dessa presença, se haviam recebido informações de seus familiares ou se conheciam histórias e lendas relacionadas aos povos indígenas. 

Recebi diversas respostas afirmativas. Alguns moradores relatavam que seus pais ou avós mencionavam a passagem de grupos indígenas pelas áreas próximas às propriedades rurais, algumas delas estabelecidas desde o final do século XIX. Outros contavam que colonos encontravam artefatos, como pontas de flechas, durante o preparo da terra para o cultivo ou nas proximidades de caminhos utilizados para o transporte de madeira e da produção agrícola. Também ouvi relatos sobre encontros, conflitos e situações de contato pacífico.

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Essas narrativas constituem parte da memória social das comunidades e ajudam a compreender como as lembranças da presença indígena foram transmitidas entre gerações. Entretanto, é necessário distinguir os testemunhos dos moradores, as histórias que ouviram de seus antepassados e aquilo que pode ser demonstrado por documentação histórica ou investigação arqueológica. Não realizei levantamentos arqueológicos nas propriedades mencionadas, de modo que os relatos recolhidos não permitem determinar, por si sós, a identidade dos grupos associados aos vestígios, a cronologia dos contatos ou a natureza da ocupação dos lugares.

Em um trabalho de evento, publicado em seus anais, procurei sistematizar parte dessas memórias e interações. Clique aqui para acessar Como historiador, considero importante incorporar a história dos povos indígenas à interpretação da ocupação regional, sem limitar a narrativa histórica à colonização europeia e à formação das comunidades que conhecemos atualmente. A literatura histórica, arqueológica e antropológica demonstra que o Vale do Itajaí possui uma história indígena anterior à colonização europeia, associada, entre outros povos, aos Laklãnõ-Xokleng, aos Kaingang e aos Guarani. A presença e a circulação desses povos, entretanto, não podem ser compreendidas como um processo único, homogêneo ou restrito às fronteiras administrativas estabelecidas posteriormente.

No caso da Serra do Itajaí, minhas pesquisas não identificaram documentação suficiente para estabelecer, de maneira conclusiva, quais grupos indígenas ocuparam determinados pontos da área atualmente protegida pelo PNSI, em quais períodos isso ocorreu ou como se organizavam suas relações com a paisagem. A ausência de um registro localizado nas fontes consultadas não deve ser interpretada como prova de que não houve ocupação indígena. Tampouco é possível converter relatos de passagem em comprovação automática de ocupação territorial tradicional nos termos jurídicos atuais. Essa distinção é importante porque as regiões de montanhas e vales profundos não precisam ser compreendidas apenas em função de sua aptidão para a agricultura, a construção de aldeias permanentes ou a instalação de serrarias. Caminhos, áreas de circulação, lugares de coleta, caça, abrigo e significação cultural também podem integrar as relações de um povo com o território. A identificação dessas relações depende de pesquisas específicas, que articulem diferentes tipos de fontes e conhecimentos. E a região carece de pesquisas aprofundando essas questões.

O que as pesquisas realizadas na região permitem compreender é que a paisagem foi sucessivamente utilizada, transformada e interpretada por diferentes grupos humanos. No final do século XIX, a exploração madeireira e a ocupação colonial ganharam importância econômica, favorecidas pela presença de espécies valorizadas comercialmente, como canelas e perobas. Nas áreas de várzea do rio Garcia, onde se desenvolveram comunidades como a Nova Rússia, a proximidade dos cursos d'água favoreceu determinadas atividades produtivas e a instalação de serrarias.

Esse processo não ocorreu em um território socialmente vazio. A expansão colonial no Vale do Itajaí esteve associada a disputas territoriais, deslocamentos indígenas e episódios de violência. A atuação dos chamados bugreiros, responsáveis por expedições armadas contra populações indígenas, integra a história dos mecanismos empregados para abrir territórios à colonização e à apropriação econômica. As políticas indigenistas e a criação de áreas de confinamento também modificaram as possibilidades de circulação e permanência desses povos. A história ambiental da região, portanto, não pode ser compreendida apenas como uma sucessão de atividades econômicas e alterações da cobertura vegetal. Ela envolve relações de poder, diferentes formas de apropriação da terra e experiências históricas que nem sempre foram registradas pelos mesmos agentes ou preservadas nos arquivos oficiais.

A própria criação do Parque Nacional da Serra do Itajaí representa uma nova etapa dessa história. Em 2004, uma extensa área passou a ser delimitada pelo Estado como unidade de conservação de proteção integral. A floresta, antes associada a diferentes formas de circulação, exploração econômica e ocupação, passou a ser submetida a objetivos e regras específicos de proteção ambiental. O parque foi criado pelo Decreto de 4 de junho de 2004 e teve seus limites alterados posteriormente, inclusive pela Lei nº 15.090/2025 (BRASIL, 2004, 2025). Sua finalidade é proteger ecossistemas naturais de relevância ecológica e beleza cênica, além de permitir atividades compatíveis com seus objetivos, como pesquisa científica, educação ambiental e visitação regulamentada (ICMBIO, 2026).

Pesquisas realizadas pelo GPHAVI em Blumenau e Indaial demonstram como a exploração madeireira, a agricultura e outras atividades econômicas contribuíram para transformar os ambientes regionais antes da consolidação das políticas contemporâneas de conservação (GARROTE; SANTOS, 2019; SANTOS; GARROTE, 2020). A passagem de uma paisagem explorada economicamente para uma área submetida a um regime de proteção ambiental não eliminou, entretanto, as relações sociais e os problemas fundiários constituídos nos períodos anteriores.

A existência de propriedades particulares dentro dos limites do parque é um exemplo dessa situação. O Sistema Nacional de Unidades de Conservação da Natureza estabelece que os parques nacionais são de posse e domínio públicos e que as áreas particulares incluídas em seus limites devem ser desapropriadas, conforme a legislação aplicável (BRASIL, 2000). A regularização fundiária, portanto, constitui uma questão própria da implantação da unidade de conservação, independentemente da reivindicação territorial indígena. É nesse contexto que a questão contemporânea envolvendo os Laklãnõ-Xokleng e a comunidade Goj Konã na sub-sede do Parque Natural Municipal Nascentes do garcia, com sobreposição do Parque Nacional e com terras a indenizar, adquire relevância para a História Ambiental. A floresta protegida pelo Estado não é uma paisagem sem história. Ela é parte de um território que passou por diferentes formas de ocupação, uso, representação e administração. E neste momento a história do espaço integra as história do passado e presente.

A reivindicação contemporânea associada a Goj Konã acrescenta uma dimensão indígena a essa sobreposição de territorialidades. Segundo o Tribunal Regional Federal da 4ª Região (TRF4), a comunidade Laklãnõ-Xokleng-Goj Konã encontra-se em uma área do município de Indaial, objeto de uma ação de reintegração de posse proposta pela empresa Kuala S/A em 6 de setembro de 2023. A área em disputa se sobrepõe ao Parque Nacional da Serra do Itajaí e ao Parque Natural Municipal das Nascentes. A empresa sustenta ser proprietária dos imóveis abrangidos pela ação, compostos por 14 matrículas imobiliárias, cuja titularidade teria sido reconhecida em processo judicial anterior. Os indígenas, por sua vez, defendem a legitimidade de sua permanência com base em direitos originários e históricos sobre as terras tradicionalmente ocupadas. Para a comunidade, Goj Konã é um lugar sagrado relacionado ao seu território tradicional (TRF4, 2026).

Essas posições expressam interpretações distintas do mesmo espaço. Na perspectiva da propriedade privada, a disputa envolve matrículas, posse e direitos reconhecidos judicialmente. Na perspectiva indígena, a permanência é apresentada como parte de uma relação territorial anterior e de uma memória de perda e retomada. 

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Mas ainda existem outros atores envolvidos nos conflitos de interesses nessa área. Entre eles, estão os ambientalistas, pessoas que construíram uma história de envolvimento com a proteção desse território, marcada por lutas, perdas e conquistas. Essa trajetória está associada à defesa da conservação integral da área e à manutenção de um Parque Nacional administrado de acordo com as normas que regem essa categoria de unidade de conservação. Assim como os ambientalistas, os pesquisadores científicos também possuem interesses relacionados à conservação desse território. Desde 1988, a área conta com estruturas que dão suporte à realização de pesquisas científicas. Sua expressiva biodiversidade e suas características ecológicas fazem dela um espaço relevante para a produção de conhecimento. Sob essa perspectiva, parte dos pesquisadores também pode defender a restrição da presença humana permanente na área, considerando os possíveis impactos da ocupação sobre os ecossistemas e as condições necessárias à continuidade das pesquisas. Essa posição, entretanto, não deve ser atribuída indistintamente a toda a comunidade científica, cujos integrantes podem apresentar diferentes perspectivas sobre a conservação e a presença humana no território.

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Podemos, porém, ir mais a fundo nessa reflexão. Existe também a perspectiva da biodiversidade, dos elementos bióticos e abióticos que não reconhecem os limites das propriedades humanas, mas cuja existência naquele espaço é muito anterior ao momento em que seres humanos, indígenas ou não indígenas, passaram a concebê-lo como território próprio. Isso não significa, entretanto, que os animais não humanos desconheçam os perigos que os cercam. Basta observar o comportamento da fauna nas proximidades do parque: quando nos deparamos com uma ave, um réptil, um anfíbio ou um mamífero, é comum que o animal fuja diante da nossa presença. Suas reações podem indicar que nos reconhece como uma ameaça, ainda que não possamos atribuir a elas uma interpretação consciente equivalente à humana. Sob essa perspectiva, nós também podemos representar uma ameaça à integridade dos demais seres vivos e às relações ecológicas das quais dependem.

Caça no Faxinal do Bepe, 1960 - Acervo GPHAVI

Na imagem acima, vemos um registro do que os seres humanos fizeram com as jacutingas. Animais como essas aves (que podem ser observadas na fotografia anterior, junto à anta) foram vítimas da caça na Serra do Itajaí. A anta também sofreu com essa pressão. Refiro-me aqui ao animal não humano, parte da fauna nativa, e não ao caçador humano. A caça contribuiu historicamente para a redução de populações de animais silvestres na região, embora seja necessário verificar, com fontes específicas, se essas espécies foram efetivamente extintas localmente. Seres humanos indígenas também praticam a caça, assim como outros grupos humanos. No entanto, é importante não generalizar práticas distintas, que variam conforme os contextos culturais, históricos e territoriais. Mas existe um padrão universal em ambas as práticas, o abate de um animal não humano para suprir necessidades humanas. Ainda hoje, a caça constitui um dos problemas apontados para a conservação da fauna no interior do Parque Nacional da Serra do Itajaí.

Agora, proponho um exercício de reflexão: se você fosse uma anta e precisasse sobreviver em um território onde a presença humana pudesse representar uma ameaça, não buscaria áreas nas quais tivesse maior possibilidade de escapar dos caçadores? O animal não precisa conhecer o conceito jurídico de parque nacional, nem compreender os limites traçados nos mapas. Seu comportamento é orientado por respostas ao ambiente, pela disponibilidade de abrigo e alimento e pela possibilidade de evitar ameaças. Assim, determinados espaços podem funcionar como refúgios para a fauna, mesmo que os animais não reconheçam as fronteiras administrativas que os seres humanos estabeleceram. Essa perspectiva nos convida a pensar o território para além da propriedade e dos interesses exclusivamente humanos, pois creio que também precisamos considerar as condições necessárias à sobrevivência das demais espécies que habitam a Serra do Itajaí. Deixo essa reflexão como um convite a considerar uma perspectiva mais ecocêntrica e menos antropocêntrica, que não tome os interesses humanos como único critério para compreender e decidir sobre o território.

Assim, a compreensão dos conflitos exige considerar todas essas posições. Acredito que a defesa dos direitos dos animais e da integridade ecológica pode encontrar pontos de convergência com a atuação dos ambientalistas e pesquisadores que defendem a conservação da área e a restrição da presença humana permanente, independentemente da etnia a que pertençam as pessoas envolvidas. Isso não significa, contudo, que a conservação ambiental deva ser automaticamente interpretada como incompatível com a presença e os direitos territoriais dos povos indígenas. É necessário considerar o que estabelece a legislação. O ordenamento jurídico brasileiro reconhece os direitos originários dos povos indígenas sobre as terras que tradicionalmente ocupam e prevê mecanismos para sua proteção e efetivação, em resposta a processos históricos de expropriação e violência. Nesse contexto, a análise deve considerar tanto os objetivos de conservação ambiental quanto os direitos territoriais indígenas, sem confundir a existência de um título imobiliário com a resolução automática de todas as questões relativas aos direitos originários. O desafio está justamente em compreender essas dimensões sem apagar a complexidade histórica, social e ecológica do território.

A Constituição Federal de 1988 reconhece aos povos indígenas direitos originários sobre as terras tradicionalmente ocupadas e atribui à União o dever de demarcá-las, protegê-las e fazer respeitar seus bens. A definição constitucional envolve áreas relacionadas à habitação permanente, às atividades produtivas, à preservação dos recursos ambientais necessários ao bem-estar e à reprodução física e cultural dos povos, segundo seus usos, costumes e tradições (BRASIL, 1988). Territorialidade histórica, território antropológico e Terra Indígena formalmente reconhecida não são categorias idênticas, embora estejam relacionadas. A identificação de uma Terra Indígena exige estudos específicos, entre eles os de natureza antropológica, histórica, territorial e ambiental, de acordo com o procedimento administrativo aplicável (BRASIL, 1996).

O trabalho de Machado (2016) demonstra a importância da memória, dos caminhos e das experiências históricas para compreender a territorialidade Laklãnõ. Pinheiro (2024), por sua vez, aborda o território Goj Konã a partir dos processos de perda territorial e da reivindicação contemporânea. Essas perspectivas ajudam a compreender por que a relação indígena com um lugar não pode ser reduzida à existência de cercas, títulos imobiliários ou limites cartográficos. Ao mesmo tempo, é necessário evitar uma conclusão inversa. O reconhecimento de que povos indígenas circularam historicamente pelo Vale do Itajaí não significa que qualquer área regional possa ser automaticamente reconhecida como Terra Indígena contemporânea. A definição de direitos territoriais específicos depende de critérios constitucionais, estudos adequados e procedimentos próprios, com participação dos povos interessados. A questão central consiste em compreender quais relações históricas e territoriais fundamentam a reivindicação atual e como elas devem ser examinadas à luz do ordenamento jurídico brasileiro.

O debate jurídico nacional também é relevante. Em dezembro de 2025, o Supremo Tribunal Federal declarou inconstitucional o trecho da Lei nº 14.701/2023 que vinculava o reconhecimento das terras tradicionalmente ocupadas à data da promulgação da Constituição Federal, em 5 de outubro de 1988. A decisão integrou o julgamento das ações que discutiam a constitucionalidade da lei do marco temporal (BRASIL, 2023; STF, 2025). Isso não determina, por si só, o resultado da reivindicação de Goj Konã, que depende da análise das evidências e dos procedimentos aplicáveis ao caso concreto.

A situação territorial também não deve ser reduzida à oposição entre a comunidade indígena e a unidade de conservação. O ICMBio possui a responsabilidade legal pela gestão do parque. A Funai tem atribuições relacionadas à proteção dos direitos indígenas e aos procedimentos de reconhecimento territorial. E a Justiça Federal examina a ação possessória e as questões jurídicas apresentadas pelas partes. Tanto que em 1º de julho de 2026, a 2ª Vara Federal de Blumenau realizou uma inspeção judicial na área ocupada pela comunidade. Conforme a notícia publicada pelo TRF4, viviam no local sete famílias, totalizando 26 pessoas. Participaram da inspeção representantes de instituições como a Defensoria Pública da União, a Funai e o ICMBio. O procedimento buscou conhecer as condições concretas da área e ouvir os envolvidos. Na ocasião, a comunidade reiterou a necessidade de continuidade do procedimento de reconhecimento territorial (TRF4, 2026).

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A notícia também informa que a comunidade apresentou ao ICMBio uma proposta de Acordo de Convivência, buscando compatibilizar sua permanência com os objetivos de conservação do parque. A proposta ainda aguardava análise pelo Instituto na data da publicação. Os indígenas argumentam que sua presença não causa a degradação ambiental apontada por seus opositores e afirmam que a permanência no local contribui para coibir práticas como a caça predatória e a extração ilegal de palmito por terceiros (TRF4, 2026). Essas alegações merecem ser consideradas e avaliadas por meio de evidências, monitoramento ambiental e diálogo institucional. Não é adequado presumir que toda presença humana seja necessariamente prejudicial à floresta, assim como não se deve pressupor que qualquer forma de ocupação seja automaticamente compatível com os objetivos de conservação.

A questão Goj Konã permite examinar criticamente a relação entre conservação ambiental e presença humana. Historicamente, determinadas políticas de proteção da natureza foram orientadas pela ideia de que a preservação exigiria afastar as pessoas dos ambientes protegidos. Essa concepção contribuiu para estabelecer uma separação rígida entre sociedade e natureza. A História Ambiental permite questionar essa separação. A floresta pode ser, simultaneamente, patrimônio natural, espaço de vida, território ancestral, recurso econômico e objeto de conservação. Essas formas de relação não são necessariamente equivalentes, mas tampouco são sempre incompatíveis.

A literatura sobre conflitos entre unidades de conservação e territórios tradicionais demonstra que a sobreposição de regimes territoriais pode produzir divergências entre instituições e grupos sociais (ZANATTO, 2018; COSTA; ANDRADE; GONÇALVES, 2022). Pesquisas sobre gestão compartilhada também indicam que existem experiências nas quais os direitos territoriais indígenas e os objetivos de conservação podem ser discutidos conjuntamente, sem que isso elimine as dificuldades jurídicas e institucionais (FANZERES; CARVALHO, 2025). No caso do PNSI, a questão precisa ser examinada a partir das características ecológicas da área, dos objetivos legais da unidade de conservação, dos direitos indígenas e das condições concretas de ocupação. A conservação não pode ser tratada como uma abstração desvinculada da história do território, mas também não deve ser reduzida a um argumento secundário diante de qualquer reivindicação territorial. Um aliado a isso é a própria Universidade Regional de Blumenau, que a aparti de seu corpo científico poderia prestar serviços a essa questão, aprofundando estudos para que ocorra uma negociação justa a todas as partes.

Os estudos do colega Klanovicz (2009), ao discutir as relações dos Kaingang e dos Xokleng com a floresta, contribue para pensarmos a importância dos conhecimentos indígenas na História Ambiental. O conhecimento ecológico associado à experiência histórica de um povo pode ampliar a compreensão sobre espécies, paisagens e processos ambientais. Isso não dispensa a investigação científica, mas abre possibilidades de diálogo entre diferentes formas de conhecimento. O problema, portanto, não precisa ser formulado como uma escolha inevitável entre indígenas e meio ambiente. É necessário investigar quais formas de ocupação, manejo e gestão são compatíveis com a proteção da floresta e com os direitos reconhecidos constitucionalmente.

História Ambiental da Serra do Itajaí - segundo o autor - Feito com IA

A história ambiental da Serra do Itajaí permite compreender que os conflitos territoriais contemporâneos não resultam de uma única disputa pela terra. Eles expressam a sobreposição de diferentes formas de produzir, utilizar, significar e juridicamente definir o território. No espaço abrangido pelo PNSI e em suas áreas de contato com outros regimes territoriais, encontram-se propriedades privadas, áreas de conservação, atividades rurais e reivindicações indígenas constituídas em momentos históricos distintos. O conflito contemporâneo não pode ser reduzido à pergunta sobre quem é o dono da terra. É necessário compreender quais regimes territoriais incidem sobre determinado espaço e como podem, ou não, coexistir.

Essa distinção é importante também para o Vale do Itajaí como um todo. As cidades, as propriedades rurais, as estradas e as áreas industriais foram estabelecidas sobre paisagens que possuem histórias anteriores. Reconhecer essa história, contudo, não significa transformar automaticamente toda relação histórica com um espaço em propriedade contemporânea. O desafio consiste em compreender quais territorialidades fundamentam direitos específicos no presente e como esses direitos devem ser reconhecidos conforme a legislação.

No caso Goj Konã, uma possível solução precisa considerar tanto os direitos territoriais reivindicados pelos Laklãnõ-Xokleng quanto os objetivos de conservação do PNSI. Em vez de pressupor que um regime territorial deva necessariamente eliminar o outro, é possível investigar alternativas institucionais que reduzam a oposição entre conservação ambiental, reconhecimento territorial indígena e segurança jurídica. 

O caminho para a resolução dessa situação deve envolver a realização de estudos técnicos e interdisciplinares que avaliem a possibilidade de reconhecimento e demarcação de uma Terra Indígena, considerando a história da ocupação do território, a territorialidade e os direitos do povo indígena envolvido, os aspectos antropológicos, históricos, ambientais, cartográficos e fundiários, bem como as condições necessárias à sua reprodução física e cultural. Esses estudos devem subsidiar os procedimentos administrativos conduzidos pela Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai), em conformidade com o artigo 231 da Constituição Federal de 1988 e o Decreto nº 1.775/1996, assegurando a participação dos indígenas envolvidos e o respeito aos direitos de todos os interessados, conforme a legislação vigente.

Defendo o direito do povo Laklãnõ-Xokleng a ter seu território reconhecido na região da Serra do Itajaí. Com base nas pesquisas que realizei ao longo dos anos, compreendo que sua presença integra a História Ambiental desse território e que o reconhecimento de seus direitos territoriais pode representar uma possibilidade importante tanto para a comunidade indígena quanto para a construção de alternativas de desenvolvimento regional mais sustentáveis.

Defendo, ainda, a possibilidade de reconhecimento de uma área indígena juridicamente delimitada e territorialmente contígua ao Parque Nacional da Serra do Itajaí (PNSI), caso estudos específicos demonstrem que essa configuração corresponde à territorialidade tradicional reivindicada pelos Laklãnõ-Xokleng e seja considerada adequada pela própria comunidade, respeitando-se seus direitos e os procedimentos legais aplicáveis. Cá entre nós, qualquer área, no interior, no entorno do parque, e a 100 Km dele, vamos ter a história dos indígenas no território.

A compreensão territorial que construí ao longo dos anos de pesquisa leva-me a considerar que a ampliação e a articulação de 2 territórios protegidos na Serra do Itajaí podem contribuir para a conservação da biodiversidade e para a construção de relações mais sustentáveis entre sociedade e natureza. Essa perspectiva, entretanto, precisa considerar também os direitos, os projetos de vida e os anseios do povo indígena, incluindo as condições materiais, sociais e culturais necessárias para que a comunidade possa viver em seu território conforme suas próprias formas de organização e suas concepções de mundo, respeitando sua diversidade cultural e sua autonomia.

Para que essa possibilidade seja avaliada de maneira responsável, são necessários estudos interdisciplinares que articulem as dimensões antropológica, histórica, ambiental, cartográfica, fundiária e jurídica, com participação efetiva da comunidade Laklãnõ-Xokleng. Esses estudos devem contribuir para compreender a territorialidade tradicional, avaliar as alternativas de delimitação territorial e identificar as condições necessárias à garantia dos direitos indígenas e à conservação ambiental. Mais do que estabelecer previamente uma solução, trata-se de construir, com a participação dos próprios indígenas e em conformidade com a legislação brasileira, caminhos que conciliem o reconhecimento dos direitos territoriais, a proteção da natureza e as possibilidades de um desenvolvimento regional socialmente justo e ambientalmente sustentável.

Essa proposta não deve ser entendida como uma simples transferência dos indígenas para outra terra, tampouco como uma compensação pela eventual perda da área atualmente ocupada. Uma solução dessa natureza somente poderia ser considerada legítima se fundamentada em estudos antropológicos, etno-históricos, ambientais, cartográficos e fundiários, além da participação efetiva do povo interessado. A questão seria investigar se existe, dentro da territorialidade histórica Laklãnõ-Xokleng, uma configuração territorial capaz de receber reconhecimento jurídico e, ao mesmo tempo, estabelecer continuidade espacial com o parque. Não se trata de antecipar o resultado de um procedimento de identificação ou demarcação, mas de formular uma hipótese para análise institucional e científica. Um vez que coloque aqui o meu perspectivismo sobre a questão, e ele é construído om mais de 40 pesquisas realizadas na região ao longo de 22 anos, parte delas condensadas em minha tese de doutorado, e por outras pesquisas que ainda realizamos no entorno da UC. 

Caso essa possibilidade fosse confirmada pelos estudos e aceita pela comunidade, poderia surgir uma configuração territorial na qual o PNSI permanecesse integralmente protegido e uma área indígena contígua fosse reconhecida sob seu próprio regime constitucional. Em vez de tratar os dois territórios como necessariamente adversários, seria possível investigar formas de complementaridade entre eles. Essa hipótese, porém, não pode ser apresentada como uma alternativa já autorizada pela legislação ou como substituta do processo de reconhecimento territorial da área atualmente reivindicada. A eventual identificação de uma Terra Indígena deve seguir os procedimentos próprios e considerar os direitos originários, não podendo ser condicionada apenas à conveniência de preservar os limites do parque.

O Sistema Nacional de Unidades de Conservação prevê instrumentos de articulação e gestão integrada entre unidades de conservação próximas, justapostas ou sobrepostas. A Convenção nº 169 da Organização Internacional do Trabalho também estabelece garantias de participação e consulta aos povos indígenas em medidas que os afetem diretamente, nos termos de sua aplicação jurídica (BRASIL, 2000; OIT, 1989). Esses instrumentos não resolvem automaticamente a situação de Goj Konã, mas ajudam a pensar caminhos institucionais que considerem os diferentes direitos e interesses envolvidos.

Uma área indígena contígua ao PNSI poderia, assim, constituir uma possibilidade de governança territorial, desde que a configuração proposta fosse fundamentada nos estudos pertinentes e construída com participação indígena. A contiguidade, por si só, não garantiria a conservação ambiental nem resolveria as questões fundiárias. Seria necessário estabelecer responsabilidades, mecanismos de diálogo e formas de acompanhamento das condições ambientais. Essa alternativa também permitiria distinguir problemas que hoje se encontram espacialmente sobrepostos. A questão do reconhecimento territorial indígena poderia ser examinada no âmbito dos direitos originários e dos procedimentos próprios; a conservação, no âmbito da gestão do PNSI; e as propriedades particulares, no âmbito da regularização fundiária da unidade de conservação. Os problemas continuariam relacionados, mas não dependeriam necessariamente de uma única solução.

A proposta não pressupõe que a territorialidade indígena seja idêntica à conservação estatal, nem que todos os interesses possam ser conciliados sem divergências. O que se propõe é investigar se diferentes regimes territoriais podem coexistir de maneira juridicamente adequada, preservando os direitos envolvidos e principalmente a integridade ambiental da Serra do Itajaí. Essa possibilidade depende de estudos e decisões que não cabem exclusivamente aos resultados das minhas pesquisas, e sim das pesquisas que deverão ser realizadas. E isso envolve a comunidade Laklãnõ-Xokleng, a Funai, o ICMBio, os órgãos fundiários, o Poder Judiciário e os demais atores cujos direitos possam ser afetados. A participação indígena não pode ser substituída por uma proposta formulada externamente, mesmo quando apresentada com a intenção de conciliar interesses. Essa hipótese que apresento  não tem como objetivo dar uma solução pronta, mas apontar uma alternativa que merece ser investigada: a construção de uma configuração territorial capaz de reconhecer os direitos indígenas e preservar integralmente o PNSI, sem transformar a questão em uma disputa na qual a existência de um território dependa necessariamente da eliminação de outro.

A questão da Serra do Itajaí permite retomar uma reflexão que acompanha minhas pesquisas desde 2004. A paisagem que hoje reconhecemos como parque nacional foi transformada ao longo do tempo por diferentes processos naturais, atividades econômicas, formas de ocupação e políticas públicas. Sua história não começou com a colonização europeia, tampouco com a criação da unidade de conservação. Os relatos dos moradores que entrevistei constituem uma parte dessa história. Eles ajudam a compreender as memórias da ocupação regional, a exploração madeireira, os modos de vida rurais e as lembranças transmitidas sobre a presença indígena. Entretanto, essas memórias precisam ser examinadas em diálogo com outras fontes, especialmente quando se pretende compreender reivindicações territoriais contemporâneas.

A pesquisa histórica não deve transformar a ausência de documentação em prova definitiva de ausência de ocupação, nem converter qualquer relato em comprovação de um direito territorial específico. Seu papel é identificar as evidências disponíveis, reconhecer suas limitações e contribuir para que diferentes temporalidades sejam consideradas na interpretação do presente. A criação do PNSI representou uma importante iniciativa de conservação da Mata Atlântica. O reconhecimento dos direitos indígenas, por sua vez, exige que a história territorial dos povos envolvidos seja considerada segundo os critérios constitucionais e os procedimentos legais pertinentes. A regularização das propriedades particulares também integra a implantação da unidade de conservação. São processos distintos, embora incidam sobre espaços relacionados. A questão de fundo passa a ser: 

Qual configuração territorial pode assegurar, simultaneamente, os direitos reconhecidos, a proteção dos ecossistemas, a reprodução cultural indígena e a segurança jurídica dos demais envolvidos?

Talvez a contribuição mais importante da História Ambiental seja mostrar que os territórios não são apenas superfícies delimitadas em mapas, mas resultados de relações históricas, conflitos, conhecimentos, atividades econômicas, políticas públicas e diferentes formas de pertencimento. A instituição da propriedade privada não apagou as territorialidades anteriores, assim como a criação de um parque nacional não eliminou automaticamente os direitos e as propriedades preexistentes. Da mesma forma, o reconhecimento de uma Terra Indígena não deve ser considerado, de antemão, incompatível com todas as formas de conservação ambiental. Essa relação precisa ser compreendida a partir das características de cada território, dos direitos envolvidos e das possibilidades de articulação entre diferentes formas de ocupação, proteção e manejo da natureza.

Nessa história, porém, a fauna e a flora também foram profundamente atingidas pelas transformações territoriais, muitas vezes com perdas expressivas de habitats e biodiversidade. Diferentemente dos grupos humanos envolvidos nas disputas, os demais seres vivos não possuem representantes diretos nas negociações políticas e jurídicas que definem os usos do território. Sua proteção depende, portanto, do reconhecimento de seu valor ecológico, da produção de conhecimento científico e da incorporação efetiva dos interesses da conservação nas decisões humanas. A História Ambiental permite ampliar esse debate ao evidenciar que as decisões sobre o território não afetam apenas os diferentes grupos sociais, mas também as demais formas de vida que o constituem.

O caso Goj Konã demonstra que a sobreposição territorial pode ser entendida não apenas como um problema a eliminar, mas como uma questão a ser investigada e administrada. A hipótese de uma área indígena contígua ao PNSI, se confirmada pelos estudos necessários e construída com participação da comunidade, poderia contribuir para essa discussão. Não seria uma fórmula universal, mas uma possibilidade a ser examinada no contexto histórico, ambiental e jurídico da Serra do Itajaí.

Ao longo de minhas pesquisas, aprendi que compreender uma paisagem exige escutar aqueles que viveram suas transformações e investigar os processos que deram origem às formas atuais de ocupação. No caso da Serra do Itajaí, isso significa considerar tanto as memórias das comunidades rurais quanto a história dos povos indígenas e as mudanças produzidas pelas políticas de conservação. A floresta não é apenas um recurso econômico, uma propriedade, uma unidade de conservação ou um território ancestral. Ela constitui um ambiente vivo, atravessado por relações ecológicas e históricas que não podem ser compreendidas a partir de uma única perspectiva.

Talvez seja justamente esse o desafio colocado pelo encontro entre o parque e o território: construir uma solução que reconheça a complexidade histórica da paisagem, respeite os direitos envolvidos e preserve as condições de continuidade dos ecossistemas. A questão não é simplesmente decidir quem deve vencer a disputa. É investigar quais formas de organização territorial podem permitir que a floresta continue existindo, que os direitos indígenas sejam respeitados e que a conservação ambiental não dependa da negação da história.

Essa é uma possibilidade que ainda precisa ser examinada e construída. Mas é também uma oportunidade para que a História Ambiental contribua para um debate que ultrapassa os limites do parque e alcança a própria maneira como a sociedade brasileira compreende, reconhece e administra seus territórios.

Algumas referências consultadas:

BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil de 1988. Brasília, DF: Presidência da República, 1988. Disponível em: https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/constituicao.htm.

BRASIL. Decreto nº 1.775, de 8 de janeiro de 1996. Dispõe sobre o procedimento administrativo de demarcação das terras indígenas e dá outras providências. Brasília, DF, 1996. Disponível em: https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/decreto/d1775.htm.

BRASIL. Lei nº 9.985, de 18 de julho de 2000. Regulamenta o art. 225, § 1º, incisos I, II, III e VII da Constituição Federal, institui o Sistema Nacional de Unidades de Conservação da Natureza e dá outras providências. Brasília, DF, 2000. Disponível em: https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l9985.htm.

BRASIL. Decreto de 4 de junho de 2004. Cria o Parque Nacional da Serra do Itajaí, no Estado de Santa Catarina, e dá outras providências. Brasília, DF, 2004. Disponível em: https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2004-2006/2004/dnn/dnn10203.htm.

BRASIL. Lei nº 14.701, de 20 de outubro de 2023. Regulamenta o art. 231 da Constituição Federal, para dispor sobre o reconhecimento, a demarcação, o uso e a gestão de terras indígenas. Brasília, DF, 2023. Disponível em: https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2023-2026/2023/lei/l14701.htm.

BRASIL. Lei nº 15.090, de 7 de janeiro de 2025. Altera os limites do Parque Nacional da Serra do Itajaí, localizado no Estado de Santa Catarina. Brasília, DF, 2025. Disponível em: https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2023-2026/2025/lei/l15090.htm.

COSTA, Ivys Medeiros da; ANDRADE, Maristela Oliveira de; GONÇALVES, Alicia Ferreira. Conflictos socioambientales en áreas de conservación y tierras indígenas en el Nordeste brasileño: racionalidades confrontadas. Desacatos, Ciudad de México, n. 70, p. 60-75, 2022.

FANZERES, Andreia de Matos Peixoto; CARVALHO, Ricardo da Costa. The Apiaká and the Juruena National Park: an experience of shared territorial management. Ambiente & Sociedade, São Paulo, v. 28, e00127, 2025. DOI: https://doi.org/10.1590/1809-4422asoc01271vu28L1FT.

GARROTE, Martin Stabel; SANTOS, Gilberto Friedenreich dos. História, meio ambiente e desenvolvimento regional do território do Parque Nacional da Serra do Itajaí no município de Blumenau (Vale do Itajaí, Santa Catarina). Geosul, Florianópolis, v. 34, n. 70, p. 446-469, 2019. DOI: https://doi.org/10.5007/2177-5230.2019v34n70p446.

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ZANATTO, Vinicius Galvão. Conflitos em territórios indígenas: as sobreposições entre terras indígenas e unidades de conservação. Revista Eletrônica: Tempo - Técnica - Território, v. 6, n. 1, p. 25-48, 2018. DOI: https://doi.org/10.26512/ciga.v6i1.20911.

Declaro que a autoria intelectual e a responsabilidade pelo conteúdo deste texto são humanas. O texto foi elaborado a partir de pesquisa, seleção, interpretação e análise realizadas pelo autor. Durante o processo de elaboração e revisão, foram utilizadas ferramentas de Inteligência Artificial, especificamente o NotebookLM e o ChatGPT, como instrumentos auxiliares na organização das informações, aprimoramento da redação, revisão e adaptação textual. A utilização dessas ferramentas não substituiu a autoria, a análise crítica ou a responsabilidade do autor pelo conteúdo apresentado. Todas as informações, argumentos, interpretações e referências foram revisados e validados pelo autor, que permanece integralmente responsável pela versão final do texto. 

quarta-feira, 7 de outubro de 2026

Botuverá: uma trajetória de pesquisas em História Ambiental no Vale do Itajaí-Mirim

Bolsistas Vanessa N. e Ana. C. M com entrevistas
Acervo GPHAVI 2008. 

Existe uma relação intensa entre as pesquisas do Grupo de Pesquisa em História Ambiental do Vale do Itajaí (GPHAVI) e a região de Botuverá. Essa aproximação começou ainda nos primeiros anos de consolidação do grupo e acabou produzindo, ao longo do tempo, um conjunto de pesquisas que permite observar diferentes dimensões da relação entre sociedade e natureza no município e, particularmente, nas comunidades localizadas no entorno do Parque Nacional da Serra do Itajaí (PNSI).

Entorno do PNSI. Acervo GPHAVI

Lembro da primeira vez em que nos aventuramos pela região em uma espécie de missão científica. Eu ainda não conhecia Botuverá. Junto com Gilberto, percorremos o entorno do PNSI tendo em mãos o mapa das comunidades do parque. Passamos por Salto de Águas Negras, pelos Lageados, até Ribeirão do Ouro e Areias. O relevo impressionava: vales estreitos, encostas, diferentes níveis de conservação da floresta e, entre eles, elementos do mundo rural, pequenas áreas de ocupação e sinais da presença urbana. A paisagem já apresentava, naquele momento, aquilo que posteriormente se tornaria uma das características das pesquisas realizadas pelo GPHAVI na região: a possibilidade de observar a história ambiental a partir das relações entre ocupação humana, floresta, agricultura, mineração, produção artesanal, fauna e diferentes formas de apropriação dos recursos naturais.

Botuverá - SC. Acero do GPHAVI

O ano de 2008 ocupa um lugar especial nessa trajetória. Naquele período, ainda estávamos estreitando nossos laços de trabalho. Eu estava bastante entusiasmado com as possibilidades de pesquisa e insistia com Gilberto para que avançássemos na apresentação de projetos de iniciação científica. Naquele momento, os critérios do PIBIC/CNPq consideravam, entre outros aspectos, a titulação e o currículo do pesquisador, além da qualidade e dos critérios específicos de avaliação do projeto. Insisti para que elaborássemos as propostas e tive a autorização de Gilberto para escrever e inserir os projetos no sistema. Como a pesquisa abrangia diversas comunidades do entorno do parque, a estratégia foi dividir o recorte territorial em dois projetos.

Assim nasceram nossas duas primeiras pesquisas de PIBIC relacionadas a Botuverá: “História ambiental das comunidades do entorno do Parque Nacional da Serra do Itajaí: comunidades do Lageado Baixo, Lageado Alto e Ribeirão do Ouro, município de Botuverá - Vale do Itajaí - SC”, desenvolvida com bolsa PIBIC/CNPq, tendo como bolsista Vanessa N., estudante de História. E: “História ambiental das comunidades do entorno do Parque Nacional da Serra do Itajaí: comunidades do Salto de Águas Negras, Beira Rio e Lageado Central, município de Botuverá - Vale do Itajaí - SC”, desenvolvida com bolsa PIBIC/FURB, tendo como bolsista Ana C. M., estudante de Ciências Sociais.

Foram, portanto, duas pesquisas de iniciação científica desenvolvidas simultaneamente em 2008, abrangendo seis comunidades: Lageado Baixo, Lageado Alto, Ribeirão do Ouro, Salto de Águas Negras, Beira Rio e Lageado Central. Foi um momento importante para o grupo. Lembro da emoção de Gilberto com a aprovação daqueles projetos. Eram nossas primeiras pesquisas em nível de PIBIC e, olhando retrospectivamente, é possível perceber que aquela experiência estabeleceu uma linha de investigação que continuaria nos anos seguintes. 

Essa história do final rendeu seis pesquisas de iniciação científica entre  2008 e 2018. São eles:

História ambiental das comunidades do entorno do Parque Nacional da Serra do Itajaí: comunidades do Lageado Baixo, Lageado Alto e Ribeirão do Ouro, município de Botuverá - Vale do Itajaí - SC — 2008, PIBIC/CNPq, bolsista Vanessa N.

História ambiental das comunidades do entorno do Parque Nacional da Serra do Itajaí: comunidades do Salto de Águas Negras, Beira Rio e Lageado Central, município de Botuverá - Vale do Itajaí - SC — 2008, PIBIC/FURB, bolsista Ana C. M.

História da Produção Artesanal de Cal no Município de Botuverá (Médio Vale do Itajaí-Mirim) — 2011-2012, PIPe/Art. 170, bolsista José R. S. História.

Comunidades de Ribeirão do Ouro e Lageado Central (Botuverá - SC - Zona de Amortecimento do Parque Nacional Serra do Itajaí): uma História Ambiental baseada no ouro e calcário — 2011, PIPe/Art. 170, bolsista Vitória d. A.

Estudos sobre a História Ambiental dos usos da avifauna do Parque Nacional Serra do Itajaí (SC), nos municípios de Blumenau, Botuverá e Guabiruba — 2013. A pesquisa contou com três bolsistas: Guilherme B. S. do curso de Ciências Biológicas, posteriormente substituído por Mariane P. S. do curso de biomedicina e Francisco J. M. do curso de história.

História, Desenvolvimento e Sustentabilidade no entorno do Parque Nacional da Serra do Itajaí em Botuverá e Guabiruba-SC — 2018, PIPe/Art. 170. O projeto contou com dois bolsistas, sendo João H. T., da Arquitetura, que permaneceu até o final, e outro estudante de Ciências Sociais que posteriormente deixou a pesquisa. 

Os títulos das pesquisas mostram também como o olhar do grupo foi se ampliando. As primeiras investigações estavam concentradas na história ambiental das comunidades do entorno do PNSI, buscando compreender a ocupação humana e as relações estabelecidas com a Floresta Atlântica. Posteriormente, surgiram pesquisas mais específicas. 

A produção de cal passou a ser investigada em História da Produção Artesanal de Cal no Município de Botuverá. A exploração mineral apareceu novamente no estudo sobre ouro e calcário nas comunidades de Ribeirão do Ouro e Lageado Central. A avifauna constituiu outro eixo de investigação, especialmente na pesquisa desenvolvida em 2013, que articulou Botuverá a Blumenau e Guabiruba. 

Já a pesquisa de 2018 incorporou a discussão sobre desenvolvimento e sustentabilidade, ampliando novamente o campo de observação para as relações entre sociedade, território e conservação ambiental.

Não se trata, portanto, de uma única história de Botuverá, mas de diferentes histórias ambientais que se cruzam no mesmo território. E o resultado desse percurso também pode ser observado nas publicações. Temos 18 trabalhos publicados ou apresentados em eventos e revistas, distribuídos entre artigos científicos, trabalhos completos em eventos, resumos expandidos e resumos.

Entre os artigos publicados em revistas científicas, aparecem três trabalhos diretamente relacionados a Botuverá:“História Ambiental dos Fumicultores em Botuverá (SC)”, publicado na Revista Brasileira de Agroecologia, em 2009.

“Lageado Alto e Lageado Baixo (Botuverá, Santa Catarina): história da ocupação humana e uso da biodiversidade da Mata Atlântica de comunidades localizadas na zona de amortecimento do Parque Nacional da Serra do Itajaí”, publicado na Revista GeoNorte, em 2012.

“Apontamentos para uma História Ambiental do uso dos recursos naturais em Botuverá - Vale do Itajaí-Mirim - SC”, publicado na Geosul, volume 39, em 2024.

Há aqui uma trajetória particularmente interessante: o primeiro artigo identificado é de 2009, enquanto o mais recente é de 2024. São, portanto, 15 anos de produção publicada, permitindo observar a permanência do município como espaço de investigação do GPHAVI.

A produção não ficou restrita às revistas científicas. Foram identificados cinco trabalhos completos publicados em anais de eventos, entre eles:

“História Ambiental da Mineração em Botuverá (SC)”, apresentado no Simpósio Internacional de História Ambiental e Migrações, em 2010.

“Os processos de uso dos recursos naturais no município de Botuverá (Santa Catarina)”, apresentado no X Encontro Nacional da Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Geografia, em 2013.

“Breve história do ambiente no Parque Nacional da Serra do Itajaí em Apiúna, Presidente Nereu, Vidal Ramos e Botuverá - Vale do Itajaí - SC”, apresentado no III Workshop Internacional de História do Ambiente, em 2013.

Também aparecem trabalhos dedicados especificamente a comunidades e processos locais, como “História e apropriação da natureza no entorno do Parque Nacional da Serra do Itajaí: o caso de Salto de Águas Negras em Botuverá - SC” e “Usos da natureza na História da comunidade de Lageado Alto em Botuverá - SC”, ambos apresentados em 2009.

A produção em eventos mostra como as pesquisas locais foram sendo incorporadas a discussões mais amplas da História Ambiental, da Geografia e da educação. Outro aspecto importante desse conjunto documental é a diversidade temática. Em 2008, os trabalhos estão relacionados à colonização italiana e à Floresta Atlântica, como Colonização italiana e sua história Ambiental na Floresta Atlântica do Lageado Alto e Baixo em Botuverá-SC.

Também em 2008 foi apresentado Construindo uma História Ambiental das comunidades Salto de Águas Negras, Beira Rio e Lageado Central do entorno do Parque Nacional Serra do Itajaí Botuverá SC. Em 2009, os trabalhos passaram a abordar diretamente os usos da natureza, as transformações da Floresta Atlântica, a mineração, a apropriação da natureza e o uso da história oral como instrumento de pesquisa.

Em 2012, a exploração do ouro aparece novamente, agora a partir das memórias das comunidades de Ribeirão do Ouro e Lageado Central. Em 2013 e 2014, a avifauna passou a integrar esse conjunto de investigações, com estudos sobre os usos históricos das aves do Parque Nacional da Serra do Itajaí.

Esse conjunto revela uma característica importante da trajetória: Botuverá foi sendo estudada a partir de diferentes elementos da paisagem e das relações humanas com a natureza. Quando organizamos os dados, podemos visualizar melhor a dimensão dessa trajetória:

2008–2018 → 6 pesquisas de iniciação científica

2008–2024 → 18 trabalhos identificados entre artigos, trabalhos completos, resumos expandidos e resumos

3 artigos em revistas científicas

5 trabalhos completos em eventos

2 resumos expandidos

8 resumos em eventos

2008 → início das pesquisas de iniciação científica relacionadas a Botuverá

2009 → primeiras publicações em revistas e forte produção em eventos

2010–2014 → ampliação das pesquisas para mineração, recursos naturais, história oral e avifauna

2018 → pesquisa sobre desenvolvimento e sustentabilidade

2024 → publicação de Apontamentos para uma História Ambiental do uso dos recursos naturais em Botuverá - Vale do Itajaí-Mirim - SC

Esses números ajudam a perceber que não estamos diante de uma pesquisa pontual sobre Botuverá. Existe uma trajetória de investigação que atravessa pelo menos 16 anos de produção publicada e uma década de projetos de iniciação científica. Quando reunimos os títulos, pesquisadores, estudantes, comunidades e temas, começa a aparecer um verdadeiro mapa das pesquisas do GPHAVI em Botuverá.

De um lado estão as comunidades: Lageado Alto, Lageado Baixo, Ribeirão do Ouro, Salto de Águas Negras, Beira Rio e Lageado Central. De outro, os processos históricos: colonização, ocupação humana, agricultura, fumicultura, mineração, exploração do ouro e do calcário, produção artesanal de cal, uso da biodiversidade, avifauna e sustentabilidade. E atravessando todos eles está a Floresta Atlântica, não apenas como cenário das ações humanas, mas como parte ativa da história dessas comunidades. É justamente nesse cruzamento que a perspectiva da História Ambiental permite observar Botuverá. O território deixa de ser apenas o local onde os acontecimentos ocorreram e passa a ser compreendido como resultado de relações históricas entre pessoas, comunidades, recursos naturais, técnicas, atividades econômicas, animais, florestas e diferentes formas de apropriação da natureza.

Retomar hoje esse conjunto de pesquisas permite perceber algo que talvez não estivesse tão evidente quando os primeiros projetos foram elaborados. Aquelas duas pesquisas de 2008 abriram uma frente de investigação que posteriormente recebeu novos estudantes, novos projetos, novos temas e novas formas de publicação. Ao longo desse percurso, Botuverá apareceu como território de pesquisa sobre a Floresta Atlântica, as comunidades rurais, a colonização, a agricultura, o fumo, o ouro, o calcário, a produção de cal, a fauna, a avifauna, os recursos naturais, o desenvolvimento e a sustentabilidade.

O levantamento também mostra que muitas dessas pesquisas foram realizadas por estudantes de diferentes áreas: História, Ciências Sociais, Ciências Biológicas e Arquitetura, revelando o caráter interdisciplinar que marcou a construção desse acervo. Talvez esse seja um dos aspectos mais interessantes dessa trajetória: cada pesquisa respondeu a uma pergunta específica, mas, juntas, elas começaram a construir uma história ambiental de Botuverá.

Hoje, ao olhar para os títulos produzidos desde 2008, é possível perceber que existe ali mais do que uma sequência de projetos acadêmicos. Existe um conjunto documental que permite reconstruir diferentes momentos da relação entre sociedade e natureza no município e no entorno do Parque Nacional da Serra do Itajaí. E talvez a próxima pergunta seja justamente essa: o que ainda não foi estudado nessa paisagem? Quais outras comunidades, atividades econômicas, espécies, conflitos, práticas agrícolas, transformações da floresta ou formas de apropriação da natureza ainda podem ser encontradas nos arquivos, nas memórias dos moradores e na própria paisagem de Botuverá? A história ambiental da região, ao que tudo indica, ainda está longe de terminar.

Fonte: levantamento da produção científica e dos projetos de iniciação científica do GPHAVI relacionados a Botuverá.

Nota: Este texto foi elaborado a partir do levantamento e organização dos dados de pesquisa apresentados pelo autor. A autoria intelectual e a responsabilidade pelo conteúdo são humanas; ferramentas de inteligência artificial foram utilizadas como apoio à organização e adequação textual.






terça-feira, 29 de setembro de 2026

As três matrizes da História Ambiental brasileira: uma análise do estudo de Roger Domenech Colacios


Na historiografia brasileira contemporânea, o termo "meio ambiente" frequentemente opera como uma engrenagem oculta, utilizada sem o devido escrutínio analítico. Roger Domenech Colacios propõe uma desconstrução dessa categoria por meio da metáfora da "caixa-preta", conceito apropriado da cibernética e transposto para os estudos sociais por Bruno Latour em suas análises da teoria ator rede. Formulada originalmente por Wilhelm Cauer em 1945, a caixa-preta designa um sistema de alta complexidade do qual se conhecem apenas as entradas (inputs) e saídas (outputs), enquanto seu funcionamento interno permanece opaco para o observador.

Segundo Colacios (2017), a História Ambiental no Brasil padece de uma "incipiência teórica" que transforma seus conceitos fundamentais em caixas-pretas. Nas ciências humanas, o autor identifica dois tipos de ocorrências para esse fenômeno: a primeira, em que há consonância entre a entrada da informação e sua saída interpretativa. A segunda, e para ele mais problemática, em que o conceito é inserido em argumentos sem que seu significado seja plenamente apreendido, resultando em distorções que servem apenas às intenções imediatas do autor (Colacios, 2017).

fonte

O artigo "Os meios ambientes da História Ambiental brasileira: pela abertura da caixa-preta", publicado por Roger Domenech Colacios (2017) na revista História e Revista (Goiânia), surge em um momento de paradoxo disciplinar. Se, por um lado, o campo apresenta vigor institucional,  visível na consolidação de Grupos de Trabalho na ANPUH, na criação de laboratórios e no aumento de teses defendidas, por outro, persiste um hiato em relação ao amadurecimento epistemológico. Desta forma, a obra convida o historiador a transcender a aplicação técnica de termos e a "abrir" as definições que alicerçam a área. O objetivo é superar o uso flutuante do vocabulário e buscar uma conformação rigorosa entre os objetos de estudo, as bases teóricas e os métodos de investigação. 

A tese central de Colacios postula que o meio ambiente não deve ser reduzido a um cenário passivo ou a um adorno para a ação humana. Ele é uma entidade dotada de agência e historicidade. Para organizar a produção historiográfica brasileira, o autor identifica três matrizes teóricas que operam conforme diferentes pressupostos sobre o que constitui o mundo natural:

  • Matriz Ecológica: Pautada na separação entre sociedade e natureza, com foco nos impactos biofísicos sobre o mundo selvagem.
  • Matriz Socioambiental: Baseada na simbiose e na construção recíproca entre as formações sociais e o mundo natural.
  • Matriz Geográfica: Centrada na categoria de espaço e paisagem como elementos de significação regional e política.
Influenciada pela historiografia dos Estados Unidos, especialmente por Donald Worster e Roderick Nash, a matriz ecológica fundamenta-se no conceito de wilderness. Para Nash (1976), o mundo selvagem é "essencialmente um estado de espírito", o sentimento de estar removido da civilização e do controle tecnológico. Nesta perspectiva, o meio ambiente é interpretado como uma natureza intocada, externa ao ser humano, e o foco analítico recai sobre o "impacto" degradante da sociedade sobre ecossistemas definidos. Essa vertente estabelece um diálogo contínuo com as ciências biológicas, incorporando conceitos como entropia e biodiversidade para mensurar as alterações físicas do ambiente. 

Em termos bem simples, portanto, a História Ambiental trata do papel e do lugar da natureza na vida humana. Há um consenso de que ‘natureza’ designa o mundo não-humano, o mundo que nós não críamos originalmente (Worster, 1991, p. 201).

A matriz socioambiental adota o "mundo natural" como categoria central, buscando dissolver fronteiras rígidas entre humanidade e biosfera. Autores como Warren Dean e Paulo H. Martinez integram o meio ambiente às estruturas econômicas e políticas. Martinez (2006) utiliza o Materialismo Histórico para inverter a lógica da matriz ecológica: em vez de partir da divisão, ele foca na construção recíproca entre sociedade e natureza. 

Uma das peculiaridades mais destacadas da História Ambiental seria, assim, o exame das relações entre os seres humanos e, dentro e a partir delas, a análise das relações que se estabelecem com o mundo natural (Martinez, 2006, p. 19). 

Nesta visão, o ambiente possui uma "face humana", sendo resultado de formações sociais que desencadeiam "agravos" ou interações simbióticas no mundo natural. A natureza é aqui entendida como parte indissociável dos processos de produção e poder.

A matriz geográfica utiliza o espaço e a paisagem como categorias sociais e políticas, recorrendo à historiografia clássica (Caio Prado Jr., Sérgio Buarque de Holanda) para compreender a ocupação do território. Para historiadores como Dora Shellard Corrêa e Janes Jorge, a paisagem é "dinâmica e humanizada". Corrêa (2013) propõe a análise do sentido político e jurídico da paisagem por meio da "sobreposição de paisagens" no Barão de Antonina (Mata de Itapeva). Esse conceito revela como as agendas do Estado ocultam representações anteriores do território para impor novos sentidos governamentais. De forma análoga, Janes Jorge demonstra como a degradação do Rio Tietê reflete a apropriação do espaço urbano e a acentuação das desigualdades sociais em São Paulo.

A despeito da diversidade de matrizes, persiste no campo uma dicotomia entre o humano e o não-humano. Colacios (2017) ressalta que mesmo na História Ambiental Urbana o meio ambiente é frequentemente reduzido a "nichos" (rios, parques), mantendo o ser humano no entorno da natureza, em vez de integrá-los. José Augusto Pádua (2010) caracteriza a posição do historiador nesse cenário como "flutuante", em que o pesquisador se coloca em um lugar privilegiado de observação externa. Essa separação impede o uso de categorias como "ambiente artificial", mantendo a caixa-preta selada e limitando a compreensão da totalidade da biosfera como parte da trajetória histórica.

A abertura da "caixa-preta" revela que o meio ambiente não é um conceito singular, mas plural: os "meios ambientes". Latour propõe que o termo possui duas significações complementares: é o "complementar de um conjunto" (o depósito de nossas ações) e a "união entre o conjunto e seu complemento" (aquilo que nos invade e nos diz respeito) (Latour et al., 1998). Essa transição teórica é acompanhada pela "inversão antropológica" observada na década de 1970, quando a natureza deixou de ser vista como uma força forte e dominável para ser compreendida como fraca e indefesa diante da ação globalizada. A robustez da História Ambiental depende, portanto, de sua capacidade de superar visões puramente técnicas e fragmentadas. O desafio futuro reside em questionar se a sociedade e a historiografia são capazes de se perceberem como parte integrante da biosfera ou se continuarão a tratar os meios ambientes apenas como recursos externos sob gestão flutuante.

Referência da fonte analisada: DOMENECH COLACIOS, Roger. Os meios ambientes da História Ambiental brasileira: pela abertura da caixa-preta. História Revista, Goiânia, v. 22, n. 2, p. 6–22, 2017. DOI: 10.5216/hr.v22i2.47142. Disponível em: https://revistas.ufg.br/historia/article/view/47142. Acesso em: 20 set. 2026.


Roger Domenech Colacios é um historiador com formação acadêmica voltada à História Social, História das Ciências e História Ambiental. Sua trajetória começou na graduação em História pela Universidade Estadual de Londrina (UEL), concluída em 2006. Na Universidade de São Paulo (USP), realizou o mestrado em História Social, concluído em 2009, e o doutorado na mesma área, em 2014. Em 2017, aprofundou sua formação com um pós-doutorado em História Ambiental pela Universidade Estadual Paulista (UNESP). Sua trajetória revela, portanto, uma aproximação progressiva entre a História Social, a História das Ciências e as questões ambientais. Essa combinação permite investigar não apenas os processos sociais e históricos, mas também as relações estabelecidas pelas sociedades com a natureza, os conhecimentos produzidos sobre o mundo natural e as transformações ambientais ocorridas ao longo do tempo. Atualmente, é docente do Curso de Comunicação e Multimeios (CMM), vinculado ao Departamento de Fundamentos da Educação (DFE), e professor do Programa de Pós-Graduação em História (PPH) da Universidade Estadual de Maringá (UEM). Na UEM, também coordena o Laboratório de Pesquisa em Educação e História Ambiental (LEHA), espaço dedicado à pesquisa e à reflexão sobre as relações entre educação, história e ambiente. Integra ainda o Laboratório do Tempo Presente (LabTempo) e o Laboratório de Pesquisa em História Agrária (LAPHA). Sua trajetória acadêmica permite situar sua produção em uma área interdisciplinar da História, na qual questões relacionadas às ciências, agricultura, sociedade, ambiente e produção do conhecimento podem ser analisadas historicamente. É justamente essa trajetória que torna sua produção relevante para quem procura compreender como a História Ambiental pode ser praticada, quais problemas históricos podem ser investigados e de que maneira diferentes tipos de fontes e campos do conhecimento podem ser articulados na pesquisa histórica. 
(Fonte: http://lattes.cnpq.br/0041482937454960)

OBS.: Declaro que a autoria intelectual e a responsabilidade pelo conteúdo deste texto são humanas. O texto foi elaborado a partir de pesquisa, seleção, interpretação e análise realizadas pelo autor. Durante o processo de elaboração e revisão, foram utilizadas ferramentas de Inteligência Artificial, especificamente o NotebookLM e o ChatGPT, como instrumentos auxiliares na organização das informações, aprimoramento da redação, revisão e adaptação textual. A utilização dessas ferramentas não substituiu a autoria, a análise crítica ou a responsabilidade do autor pelo conteúdo apresentado. Todas as informações, argumentos, interpretações e referências foram revisados e validados pelo autor, que permanece integralmente responsável pela versão final do texto. 

segunda-feira, 21 de setembro de 2026

Do FAIC à 20ª MIPE: o GPHAVI e a trajetória da História Ambiental na FURB

Foto Gabriell
Entre os dias 15 e 17 de setembro de 2026, a Universidade Regional de Blumenau – FURB realizou a 20ª Mostra Integrada de Ensino, Pesquisa, Extensão e Cultura – MIPE. Promovida pela Pró-Reitoria de Pesquisa, Pós-Graduação, Extensão e Cultura – PROPEX e pela Pró-Reitoria de Ensino de Graduação, Ensino Médio e Profissionalizante – PROEN, a mostra constitui um dos principais espaços institucionais de apresentação e divulgação da produção acadêmica realizada na Universidade.

Para o Grupo de Pesquisas de História Ambiental do Vale do Itajaí – GPHAVI,  participar desse espaço significa também revisitar uma trajetória que começou antes mesmo da existência da MIPE. A presença de pesquisadores vinculados à trajetória do grupo nos eventos de iniciação científica da FURB pode ser localizada, pelo menos, desde o antigo Fórum Anual de Iniciação Científica – FAIC. Um registro particularmente significativo encontra-se na 5ª edição do FAIC, realizada em 2006, cuja solenidade de abertura ocorreu em 20 de outubro daquele ano. Naquele evento foi apresentado o trabalho “Histórico Ambiental da Mata Atlântica na região do Parque Natural Municipal Nascentes do Garcia e entorno no século XX”, de Martin Stabel Garrote, sob orientação de Gilberto Friedenreich dos Santos. O registro é anterior à consolidação de muitas das pesquisas que posteriormente marcariam a trajetória do GPHAVI e permite observar um momento em que a História Ambiental começava a ocupar um espaço específico na produção de iniciação científica da FURB. A pesquisa tinha como foco a história da Mata Atlântica na região das Nascentes do Garcia, em Blumenau, investigando as transformações ocorridas no território e as relações estabelecidas entre sociedade e natureza ao longo do século XX.

A antiga experiência do FAIC antecede a criação da MIPE, que passou a reunir em um mesmo espaço diferentes modalidades de produção acadêmica da Universidade. Ao longo dos anos, os registros das mostras permitem acompanhar a presença de pesquisas relacionadas ao GPHAVI e à História Ambiental. Na 9ª MIPE, em 2015, por exemplo, aparece o trabalho “História da ocupação e uso do solo e suas relações com os desastres socioambientais na comunidade da Rua Araranguá, Blumenau/SC”, de Nicollas Voss Reis, Gilberto Friedenreich dos Santos e Martin Stabel Garrote. Em 2019, na 13ª MIPE, um dos trabalhos apresentados voltou-se para o próprio patrimônio documental produzido pelo grupo: “O acervo do Grupo de Pesquisas de História Ambiental do Vale do Itajaí e sua contribuição para análise do desenvolvimento regional no entorno do Parque Nacional Serra do Itajaí-SC”. Já na 15ª MIPE, em 2021, a própria trajetória do GPHAVI tornou-se objeto de pesquisa, com o trabalho “O surgimento de um grupo de pesquisa de História Ambiental na FURB”, dedicado a reconstruir o processo de formação do grupo e analisar sua produção acadêmica. 

Esses registros mostram uma característica importante da trajetória do GPHAVI: a pesquisa não ficou concentrada em um único objeto. Ao longo do tempo, os estudos passaram por diferentes questões relacionadas às relações entre sociedade, natureza e território: Mata Atlântica, ocupação do território, uso do solo, recursos naturais, desenvolvimento regional, comunidades, desastres socioambientais, unidades de conservação, agropecuária e, mais recentemente, as próprias formas de circulação e divulgação do conhecimento produzido pela História Ambiental.

Em 2026, na 20ª edição da MIPE, o GPHAVI voltou a participar do evento com a apresentação de resultados de duas pesquisas desenvolvidas no âmbito da iniciação científica. Os trabalhos representam frentes diferentes, mas relacionadas, da atuação atual do grupo. De um lado, uma pesquisa voltada para a história da agropecuária e do desenvolvimento regional no Vale do Itajaí. De outro, uma investigação sobre a divulgação científica da História Ambiental nas redes sociais.

O primeiro trabalho apresentado foi: “Estado, Mercado e Natureza: As articulações na Modernização Agropecuária do Vale do Itajaí”. O estudo é resultado da pesquisa “História Ambiental e Desenvolvimento Regional da Agropecuária no Vale do Itajaí (SC) na primeira metade do século XX”, desenvolvida no âmbito do PIBIC-CNPq. A pesquisa passou por mudanças ao longo de sua execução, inclusive em razão da substituição do bolsista. Na metade do processo, o estudante Bryan S. L. assumiu a bolsa e deu continuidade às atividades de investigação. O resultado apresentado na MIPE procurou analisar a modernização da agropecuária regional a partir da articulação entre Estado, mercado e natureza.



Bryan S. L

Bryan S. L apresentando



Bryan S. L e Martin S. G.

A perspectiva da História Ambiental permite observar a modernização não apenas como transformação econômica ou tecnológica, mas como um processo que também envolveu mudanças na utilização dos recursos naturais, nas formas de ocupação do território, nas práticas produtivas e nas relações estabelecidas entre diferentes agentes sociais. A agropecuária, nesse sentido, aparece inserida em uma rede de relações que envolve políticas públicas, interesses econômicos, mercados, técnicas e condições ambientais. O projeto tem coordenação de Gilberto Friedenreich dos Santos e orientação de Martin Stabel Garrote.

O segundo trabalho apresentado na 20ª MIPE foi: “A divulgação científica de História Ambiental nas redes sociais: investigando a produção dos grupos de pesquisa do Sul e Sudeste – Ano 2”. O estudo dá continuidade a uma pesquisa iniciada anteriormente pelo GPHAVI, voltada à análise das formas pelas quais grupos de pesquisa de História Ambiental utilizam as redes sociais para comunicar suas pesquisas e estabelecer relações com públicos que estão além do ambiente acadêmico. 


Gabriell e Ana apresentando


Gabriell G. A. e Ana C. A. F

Em 2026, essa investigação contou com a participação de estudantes do Ensino Médio da Escola Técnica do Vale do Itajaí – ETEVI: Gabriell G. A. e Ana C. A. F. A participação de estudantes do Ensino Médio acrescenta outra dimensão ao projeto. A pesquisa passa a envolver não apenas a análise da divulgação científica, mas também a formação de novos pesquisadores e a experimentação de diferentes formas de comunicação do conhecimento. O projeto é coordenado por Gilberto Friedenreich dos Santos e orientado por Martin Stabel Garrote. A investigação também dialoga diretamente com uma atividade que o próprio GPHAVI vem desenvolvendo há anos: utilizar diferentes meios digitais para disponibilizar pesquisas, documentos, resultados de iniciação científica e conteúdos relacionados à História Ambiental. Nesse sentido, o blog do grupo e suas redes sociais constituem também parte de uma trajetória de preservação e circulação da produção científica.

Observar a participação do GPHAVI nos espaços de divulgação científica da FURB permite compreender uma dimensão importante da trajetória do grupo. Mais do que contabilizar trabalhos apresentados, esses registros revelam diferentes momentos da produção científica, das perguntas formuladas e dos estudantes envolvidos nas pesquisas. Em 2006, no 5º FAIC, uma pesquisa abordava a história da Mata Atlântica e as transformações ambientais nas Nascentes do Garcia. Ao longo dos anos, os temas se ampliaram para questões como ocupação do território, desastres socioambientais, desenvolvimento regional, Parque Nacional da Serra do Itajaí e o próprio acervo produzido pelo grupo. Em 2026, a agropecuária do Vale do Itajaí e a divulgação científica nas redes sociais aparecem entre os objetos de investigação. Há, portanto, continuidade e transformação. Mudam os pesquisadores, os estudantes, as tecnologias e os objetos de pesquisa, mas permanece uma questão que atravessa essa trajetória: como compreender historicamente as relações estabelecidas entre sociedade e natureza no Vale do Itajaí?

A 20ª MIPE marca duas décadas de um espaço institucional dedicado à apresentação da produção acadêmica da FURB e oferece ao GPHAVI a oportunidade de reconhecer uma trajetória construída por diferentes gerações. Entre o antigo FAIC e a atual MIPE, passaram-se duas décadas de mudanças na Universidade, nas pesquisas e nas formas de comunicação científica. A comparação entre 2006 e 2026 evidencia esse percurso: de uma investigação sobre a história ambiental da Mata Atlântica nas Nascentes do Garcia a estudos sobre a modernização da agropecuária e sobre as possibilidades de comunicação da História Ambiental nas redes sociais. Esses registros também mostram que a pesquisa não se encerra com a conclusão de um estudo. Seus resultados continuam circulando quando são apresentados, discutidos, registrados e publicados, passando a integrar a memória da própria instituição. Para o GPHAVI, essa memória já reúne mais de duas décadas de pesquisas, estudantes e pesquisadores. Do FAIC à 20ª MIPE, a História Ambiental continua encontrando espaço na FURB e incorporando novos temas, perguntas e formas de divulgação.


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