"Eu sou o que me cerca. Se eu não preservar o que me cerca, eu não me preservo".
José Ortega y Gasset

sexta-feira, 30 de outubro de 2026

Entre os rios, matas e a memória ambiental de Elisabeth Germer sobre a Mulde de Timbó

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O presente estudo analisa a transcrição do depoimento oral de Elisabeth Germer. A gravação original foi conduzida pelos pesquisadores Martin e Vanessa, e contou com o apoio dos bolsistas Tanise K. Oliveira do curso de História e Irving F. Gomes da Silva, do curso de Engenharia Florestal da FURB. A entrevista integra o acervo do Grupo de Pesquisas de História Ambiental do Vale do Itajaí. A entrevista também compôs fonte para a pesquisa histórica e social da elaboração do Plano de Manejo do Parque Natural Municipal Freimund Germer, realizada pela FURB sob coordenação geral de Julio Cesar Refosco e coordenação socioeconômica de Vanessa Dambrowski e Shimene Feuser, sendo estas últimas integrantes do grupo.

A transcrição reveste-se de valor documental para a historiografia do Vale do Itajaí ao registrar as memórias de uma moradora e ex-coordenadora de Meio Ambiente e de Cultura da região. O relato abrange desde a trajetória de seus antepassados, como seu avô Freidemund Germer, reconhecido no texto como admirador e discípulo do naturalista Fritz Müller, até as dinâmicas de povoamento pioneiro e as transformações ecológicas verificadas ao longo do século XX. Sob o olhar da História Ambiental os elementos naturais como os rios, relevo, vegetação nativa e fauna, não são pano de fundo inerte na construção da Historia, são processos de sua dinâmica. A natureza é agente histórico ativo, e suas características físicas e ecológicas impõem limites, oferecem recursos e reagem continuadamente às intervenções das sociedades locais. 

A ocupação colonial da localidade da Mulde e do Morro Azul insere-se no processo de expansão do povoamento a partir do núcleo de Blumenau. Os imigrantes de origem alemã e pomerana, representados por famílias como Westphal, Piske, Weikman, Kopsch, Kriser e Gessner, estabeleceram-se acompanhando os cursos d'água, em especial o Ribeirão Mulde. O avanço pioneiro foi liderado por Johan Westphal, que adentrou a região margeando o ribeirão para a construção dos primeiros ranchos de palmito com cobertura de folhas de guaricana (Germer, 2015).

A percepção cultural da paisagem pelos imigrantes refletiu-se na atribuição de nomes aos acidentes geográficos. A topografia do Morro Azul evocou na comunidade a memória de suas regiões de origem, sendo denominada por eles como "Unsere Schweiz" ("Nossa Suíça"). O próprio termo Mulde, segundo Germer (2015), remete geograficamente à conformação de um vale circundado por elevações. O processo de apropriação territorial deu-se sobre espaços previamente habitados por populações indígenas. A relação entre os colonos europeus e os povos nativos foi marcada por ambivalências, primeiro pela apropriação do território e dos saberes técnicos.  Os imigrantes incorporaram saberes indígenas cruciais para a sobrevivência local, tais como o uso do tipiti (prensa vegetal) para o processamento da mandioca e do aipim na fabricação de farinha, além do aprendizado de técnicas de artesanato tradicional. E também pelos conflitos sobre o território e os atos de violência. A ocupação das terras indígenas gerou tensões e confrontos armados violentos de ambos os lados. Em decorrência desse processo, as elites locais e o poder administrativo organizou, em Blumenau, os grupos de "bugreiros" encarregados de caçar as populações nativas, resultando no abatimento sistemático de grupos indígenas e no deslocamento forçado dos sobreviventes em direção ao planalto (Germer, 2015).

A colonização europeia no Vale da Mulde promoveu alterações estruturais na cobertura vegetal e no uso do solo. A abertura de clareiras para o assentamento e a implantação de roças baseou-se na derrubada da vegetação nativa. A madeira abatida não atendia imediatamente a um circuito mercantil de exportação, ao contrário, era queimada ou deixada para apodrecer no próprio local com o intuito de preparar o solo para a agricultura de subsistência. A subsistência e a economia local estruturaram-se a partir de uma diversidade de cultivos e técnicas de processamento agrícola

Ocorreram cultivos de subsistência e para comercialização, predominando plantio de mandioca/aipim, milho, cana-de-açúcar com uso de engenhos para a produção de açúcar mascavo e araruta. O processamento da araruta envolvia socar e ralar a raiz, lavar a massa em água para o assentamento da fécula, cortar os blocos com pás e secá-los ao sol sobre mesas de madeira. Entre os anos de 1940 e 1945, introduziu-se o cultivo de arroz irrigado nas áreas de baixada. Essa inovação técnica foi ensinada aos agricultores locais por agricultores de origem italiana vindos de Rio dos Cedros, entre os quais destaca-se a figura do agricultor Andreata (Germer, 2015).

A alimentação era complementada pela coleta e cultivo de frutas nativas, como araçá (vermelho e amarelo), goiaba, bacupari, cambucá e jabuticaba. Concomitantemente, espécies exóticas foram introduzidas nos pomares domésticos, tais como tangerina, laranja e carambola. Os cursos d'água exerceram múltiplas funções no cotidiano da comunidade: serviam como vias primárias de transporte e navegação na ausência de estradas consolidadas, fontes para pesca e dessedentação, e, simultaneamente, receptáculos para o descarte de efluentes e resíduos domésticos. 

A fauna nativa constituiu uma fonte proteica para os moradores da Mulde. A prática da pesca era realizada quinzenalmente ou durante períodos de chuva intensa e tempestades (torós), quando espécies como jundiá, traíra, cascudo, piava e cará subiam os riachos e eram capturadas com o auxílio de balaios. A caça integrou a rotina alimentar das famílias coloniais devido à escassez diária de carne de gado. O abate focava em aves e mamíferos de médio porte, como paca, cutia, cateto (porco-do-mato), jacu, macuco e jacutinga. Determinados animais, a exemplo do tatu, não eram consumidos pela comunidade de origem alemã, sendo essa prática associada exclusivamente aos costumes da população cabocla. A evolução temporal das práticas extrativas gerou conflitos de valores no interior da comunidade. Enquanto no período inicial da colonização a caça e a pesca fundamentavam-se estritamente na necessidade biológica de sobrevivência familiar, em momentos posteriores a caça assumiu um caráter esportivo e recreativo, sendo qualificada na fonte como uma prática de degradação ambiental desprovida de função alimentar (Germer, 2015).

As práticas culturais e comunitárias na Mulde mantinham profunda conexão com o uso dos recursos ambientais e a organização do espaço. O trabalho estruturava-se em mutirões para tarefas agrícolas e preparativos de festividades. Os rituais de casamento desdobravam-se ao longo de dias, envolvendo o abate comunitário de aves para o preparo da cabidela e a realização do ritual do "quebra-caco" (Polterabend), no qual louças eram quebradas para trazer sorte aos noivos, que deviam posteriormente varrer e recolher os fragmentos. Os hábitos de higiene dividiam-se entre o uso direto dos cursos d'água e o uso de banheiras de cimento alimentadas por água aquecida em tachos (Germer, 2015).

A flora nativa e cultivada possuía ampla aplicação ritual e religiosa. O cultivo da murta gigante nos jardins domésticos destinava-se à confecção de guirlandas fúnebres para os sepultamentos. Adicionalmente, cultivavam-se lírios especificamente programados para florescer no mês de novembro, abastecendo as homenagens prestadas aos mortos no Dia dos Finados. Essa dimensão sagrada estendia-se à disposição dos cemitérios luteranos da região. Esses locais, localizados em encostas de morros, apresentavam túmulos construídos no sentido inverso à inclinação do terreno, garantindo que os mortos ficassem voltados para o nascer do sol, conforme os preceitos teológicos e as tradições antigas da comunidade (Germer, 2015).

O ambiente natural atuou também como refúgio e espaço de salvaguarda frente às intervenções repressivas do Estado brasileiro, especialmente durante a Campanha de Nacionalização (1936–1945). O regime varguista estabeleceu a proibição do uso público e privado da língua alemã. A repressão policial resultou na prisão de lideranças locais, como Freidemund Germer, detido por possuir acervos bibliográficos em alemão e fotografias, e em episódios de violência física extrema, a exemplo do morador Wille, submetido a tortura mediante a ingestão forçada de óleo cru introduzido pelo cano de uma espingarda após ter seus dentes quebrados. Diante dessas perseguições estatais e de eventos geológicos de grande impacto, como a catástrofe de deslizamentos de 1911, os moradores utilizaram locais nas matas da região para ocultar livros, documentos, fotografias e bens de valor histórico e cultural (Germer, 2015).

As transformações de longa duração na paisagem da Mulde resultaram em alterações severas na dinâmica hidrológica e florestal do vale. O desmatamento contínuo das encostas e cabeceiras provocou a redução gradual da vazão dos riachos e o desaparecimento de nascentes, promovendo a migração das águas superficiais para o lençol freático (Germer, 2015). 

Com o avanço da urbanização e das obras de infraestrutura contemporâneas Germer (2015) aponta impactos diretos sobre o meio físico e biótico, como a prática recorrente de encanar e canalizar riachos em novos loteamentos imobiliários, impedindo a manutenção do fluxo hídrico natural na superfície e alterando a paisagem local. Depois o abate mecânico de espécimes vegetais da flora nativa protegida por lei, como a canela-preta, mediante o emprego de máquinas pesadas para a abertura de acessos e instalação de torres de comunicação no Morro Azul. Paralelamente, a estrutura agrária tradicional calcada nos lotes coloniais originais, que mediam 750 metros de largura por 1,5 a 2 quilômetros de extensão, sofreu intensa fragmentação devido às sucessões hereditárias e ao avanço urbano. Esse processo descaracterizou a divisão espacial histórica e acelerou a perda da identidade paisagística das antigas colônias rurais da Mulde (Germer, 2015).

A trajetória histórica do Vale da Mulde constitui um caso ilustrativo para a historiografia ambiental ao revelar as transformações nas relações entre sociedade, natureza, economia e cultura no sul do Brasil. A evidência documental preservada pelo depoimento de Elisabeth Germer registra com precisão as etapas de ocupação territorial, as técnicas de manejo da flora e da fauna, os processos de adaptação agrícola e as subsequentes rupturas ecológicas provocadas pela modernização contemporânea no município de Timbó (Germer, 2015).

A análise desse registro permite interpretar que o povoamento colonial inicial estabeleceu uma relação de dependência material direta em relação à matriz biológica local. Em um primeiro momento, as florestas e os rios atuaram simultaneamente como vias de circulação, fornecedores de alimento, fontes de matéria-prima construtiva e refúgios topográficos em períodos de conflito político e catástrofes naturais. A apropriação desses recursos ambientais não ocorreu no vazio, mas foi mediada por saberes locais europeus e por expressivas assimilações técnicas oriundas das populações indígenas nativas. Com o passar das décadas, esse modelo de subsistência e manejo comunitário cedeu espaço a um padrão de uso intensivo do solo, adensamento imobiliário e implantação de infraestruturas técnicas. A explicação histórica para a degradação observada reside na transição de uma economia colonial de subsistência para uma lógica de expansão urbana e tecnológica que desconsiderou os limites ecossistêmicos do vale. O represamento e a tubulação de riachos, a supressão mecânica de espécies florestais protegidas e a divisão sucessória dos lotes coloniais tradicionais resultaram na alteração do regime hídrico, no empobrecimento da biodiversidade e na perda da identidade socioespacial da comunidade (Germer, 2015).

Dessa forma, a história ambiental da Mulde demonstra que a natureza não desempenhou o papel de mero cenário estático, mas operou como restrição física, conjunto de recursos materiais e força ativa permanente, moldando e sendo profundamente moldada pelas dinâmicas econômicas, sociais e culturais dos grupos humanos no Vale do Itajaí. Se você chegou até aqui, pode consultar a transcrição desta entrevista clicando aqui. O plano de manejo da UC pode ser consultado clicando aqui.

Elisabeth Germer (1940–2021) foi professora, historiadora, escritora, poeta, fotógrafa e ambientalista de Timbó (SC). Dedicou sua vida à educação, à preservação ambiental e à valorização da memória, da cultura e das tradições do município. Foi uma das fundadoras da APAE de Timbó, atuou no Departamento de Meio Ambiente e participou de importantes iniciativas culturais, incluindo o Museu do Imigrante e o grupo de danças Volkstanzgruppe Blauer Berg. Também deixou um importante acervo fotográfico e diversos registros sobre a história e a cultura da região.



Referência:

GERMER, Elisabeth. Entrevista concedida a Martin Stabel Garrote em junho de 2015. Timbó, SC: Grupo de Pesquisas de História Ambiental do Vale do Itajaí, 2015. 20 p.

OBS.: Declaro que a autoria intelectual e a responsabilidade pelo conteúdo deste texto são humanas. O texto foi elaborado a partir de pesquisa, seleção, interpretação e análise realizadas pelo autor. Durante o processo de elaboração e revisão, foram utilizadas ferramentas de Inteligência Artificial, especificamente o NotebookLM e o ChatGPT, como instrumentos auxiliares na organização das informações, aprimoramento da redação, revisão e adaptação textual. A utilização dessas ferramentas não substituiu a autoria, a análise crítica ou a responsabilidade do autor pelo conteúdo apresentado. Todas as informações, argumentos, interpretações e referências foram revisados e validados pelo autor, que permanece integralmente responsável pela versão final do texto. 

sexta-feira, 23 de outubro de 2026

O Rio Itajaí-Mirim e a escrita da terra: uma biografia ambiental da paisagem

A compreensão das dinâmicas que moldam o território catarinense exige também um olhar sobre registros que extrapolam a documentação histórica tradicional. É nesse sentido que esta postagem retoma a dissertação de mestrado em Geografia de Gilberto Friedenreich dos Santos, defendida na UFSC em 1991, atual coordenador do nosso grupo de pesquisa. O trabalho realiza um estudo detalhado da geologia e da geomorfologia do Vale do Rio Itajaí-Mirim, com atenção à evolução das formas de relevo e dos depósitos sedimentares durante o período Quaternário.

É interessante observar esse trabalho hoje a partir da perspectiva da História Ambiental. Quando Gilberto desenvolveu essa pesquisa, no início dos anos 1990, a História Ambiental ainda estava em processo de consolidação no Brasil e, evidentemente, essa não era a perspectiva a partir da qual a dissertação foi construída. Em 1991, por exemplo, a Revista Estudos Históricos publicou um dossiê com trabalhos importantes para a constituição desse campo no país.

O documento, porém, permite outro olhar quando lido a partir da História Ambiental. Embora tenha sido produzido no campo da Geografia Física, seu estudo sobre o relevo, os sedimentos e as transformações do Vale do Itajaí-Mirim oferece informações importantes para pensar historicamente as relações entre os processos naturais e a ocupação humana do território. Por isso, ao reencontrar esse documento, resolvi voltar a ele com esse olhar: o que uma dissertação de Geografia produzida em 1991 pode nos dizer hoje quando lida a partir da História Ambiental? O resultado é uma leitura que procura aproximar uma pesquisa sobre a história natural do território das questões colocadas pela História Ambiental.

Sob a ótica da História Ambiental, este documento técnico deixa de ser apenas uma sucessão de dados estratigráficos para tornar-se o registro da "agência" da natureza. A terra não é o palco da história, ela é o seu manuscrito mais antigo, onde cada estrato sedimentar registra um capítulo da biografia planetária. Como demonstra Santos, a paisagem não é um cenário estático, mas o resultado de processos acumulados de erosão e sedimentação que condicionam, de forma absoluta, a trajetória humana no vale.

Os processos geológicos descritos revelam que o clima atuou como o arquiteto primordial da paisagem. A fonte detalha a transição entre ciclos de semi-aridez e períodos de umidade acentuada (Santos, p. xvii). Durante as fases de semi-aridez, predominou a "degradação lateral" do terreno, com o recuo das encostas e a formação de superfícies de aplainamento. Já nos períodos úmidos, a dinâmica alterou-se para a "dissecação vertical", processo no qual os rios ganharam energia cinética para entalhar profundamente os vales, esculpindo o palco onde se encenaria a história social. A evolução dessas formas é sintetizada pelo autor:

"A interpretação dos eventos ambientais baseou-se na evolução das formas de relevo e na sequência de processos de sedimentação atuantes durante o período Quaternário. [...] Na área do Itajaí-Mirim, o clima alterou-se para a semiaridez, com mudanças profundas nas condições hidrológicas e nos processos de erosão atuantes nas encostas" (Santos, p. xvii, 1991).


Essa "escultura" natural estabelece os limites físicos para a ocupação humana. A alternância entre a formação de rampas de colúvio-alúvio e o entalhamento fluvial criou os terraços onde, milênios depois, seriam estabelecidos os núcleos urbanos e as lavouras. A natureza, portanto, exerceu sua agência ao ditar a morfologia do substrato muito antes de qualquer intervenção antrópica.

A geologia regional, composta pelo Complexo Metamórfico Brusque e pela Formação Rio Bonito, fundamenta as possibilidades econômicas e sociais do vale. A relação entre a litologia e a vida social é direta e factual: 

  • Calcários de Botuverá: A presença dessas rochas carbonáticas permitiu a formação de sistemas cársticos e grutas, como a do Ribeirão do Ouro. Mais do que curiosidades geológicas, as estalactites e estalagmites em forma de "velas" (Santos, p. 19) são marcos geoculturais. Estes espeleotemas funcionam como arquivos de estabilidade climática milenar, permitindo o crescimento mineral lento que hoje atrai o interesse científico e turístico.
  • Quartzitos e Metaxistos: Estas rochas do Complexo Brusque apresentam elevada resistência mecânica à "erosão diferencial" (Maack, 1947, citado por Santos, p. 20). Por serem menos suscetíveis ao desgaste, sustentam as cristas e serras que formam a "espinha dorsal" da paisagem, impondo barreiras físicas que historicamente desafiaram a comunicação e a integração entre comunidades.
  • Sedimentos Fluviais e Várzeas: As planícies de inundação, compostas por depósitos recentes de areias e argilas, ofereceram solos de topografia plana e alta fertilidade potencial, cruciais para o desenvolvimento agrícola (Santos, p. 10).
  • Materiais para Construção: Intrusões como o Granitóide Itajaí-Faxinal fornecem o material rochoso essencial para a pavimentação e a infraestrutura urbana contemporânea.

A rede de drenagem do Rio Itajaí-Mirim é um sistema em constante ajuste. Com uma precipitação média anual de 1.748,4 mm (Santos, p. 10), o vale é submetido a um regime hídrico que potencializa movimentos de massa e processos erosivos. A violência das cheias na região possui uma explicação geológica estrutural. A orientação geral dos rios e serras, alinhada na direção SW-NE, é condicionada por falhas e dobras. A erosão diferencial, mencionada por Santos, atua com maior intensidade sobre as "rochas tenras" (menos resistentes), criando vales profundos que funcionam como funis topográficos. É precisamente nesses "vales tenros" que os centros urbanos foram estabelecidos, resultando em um estrangulamento do fluxo hídrico que agrava a magnitude dos desastres naturais. Santos (p. 20) destaca:

"As influências estruturais (falhas e dobras) determinaram a orientação geral dos rios e serras, alinhando-as paralelamente na direção SW - NE. [...] A abertura do Vale do Rio Itajaí-Mirim deve-se à erosão diferencial que atua mais intensamente em rochas tenras."

Essa realidade geológica impõe limites severos à gestão urbana. A ocupação das várzeas não é apenas um problema de planejamento contemporâneo, mas uma tentativa de negociar com uma dinâmica fluvial cujas regras foram estabelecidas por processos de dissecação vertical ativos há milênios.

O trabalho de Gilberto F. dos Santos fornece a base física indispensável para qualquer historiador que deseje compreender o Vale do Itajaí-Mirim além da superfície humana. Ao detalhar a evolução quaternária e os níveis de pediplanação (Tpm, Tpi e Tpm) ele demonstra que a superfície sobre a qual a sociedade atua é o subproduto de uma história natural de longuíssima duração. A indissociabilidade entre sociedade e natureza é factual: as crises de inundação e a instabilidade das encostas são ecos de processos de modelagem que o rio executa incansavelmente. Compreender o solo como agente histórico é uma lição de alteridade ambiental necessária para a mitigação de conflitos no presente. O estudo de Gilberto pode ser acessado clicando aqui.

OBS.: Declaro que a autoria intelectual e a responsabilidade pelo conteúdo deste texto são humanas. O texto foi elaborado a partir de pesquisa, seleção, interpretação e análise realizadas pelo autor. Durante o processo de elaboração e revisão, foram utilizadas ferramentas de Inteligência Artificial, especificamente o NotebookLM e o ChatGPT, como instrumentos auxiliares na organização das informações, aprimoramento da redação, revisão e adaptação textual. A utilização dessas ferramentas não substituiu a autoria, a análise crítica ou a responsabilidade do autor pelo conteúdo apresentado. Todas as informações, argumentos, interpretações e referências foram revisados e validados pelo autor, que permanece integralmente responsável pela versão final do texto. 


quinta-feira, 15 de outubro de 2026

Notas sobre a presença indígena no território do Parque Nacional da Serra do Itajaí

Fonte
Em 2004, dei início a uma pesquisa sobre a história da ocupação humana e sua interação com a natureza na comunidade da Nova Rússia, localizada no sul do município de Blumenau, em Santa Catarina. A região integra a planície aluvial do alto rio Garcia, cuja paisagem foi transformada por processos naturais e, posteriormente, pelas atividades econômicas associadas à colonização, especialmente a exploração madeireira e a agricultura. Essas atividades contribuíram para a formação de comunidades rurais que, apesar das transformações ocorridas ao longo do tempo, permanecem na região. Mas o território tem um longa história, momento onde a paisagem se configura com seus elementos bióticos e abióticos até a chegada humana e suas diversas levas e formas de uso do meio, até hoje. A partir da década de 1970 o movimento social ambientalista iniciou defesa da conservação ecológica da serra, isso culminou em parques privados como o Parque Ecológico Artex em 1988, embrião do Parque Natural Municipal Nascentes do Garcia, criado em 1998, iniciativas que motivaram a criação do Parque Nacional da Serra do Itajaí (PNSI), em 2004. 

Fonte

Atualmente, segundo o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), o parque nacional possui 57.528,97 hectares de Mata Atlântica, distribuídos por oito municípios catarinenses: Apiúna, Blumenau, Botuverá, Gaspar, Guabiruba, Indaial, Presidente Nereu e Vidal Ramos. Essa configuração territorial considera as alterações introduzidas pela Lei nº 15.090, de 7 de janeiro de 2025 (BRASIL, 2025; ICMBIO, 2026).

Fonte
A pesquisa sobre a Nova Rússia contribuiu para a formação do Grupo de Pesquisas de História Ambiental do Vale do Itajaí - GPHAVI. A partir das investigações iniciais, o trabalho passou a abranger outras localidades situadas no entorno do PNSI, considerando as comunidades identificadas no plano de manejo da unidade de conservação. Ao longo de mais de dez anos de pesquisas, reuni informações sobre a ocupação regional, as atividades econômicas, os modos de vida e as transformações ambientais que marcaram a história dessas localidades.


Uma das experiências mais significativas desse percurso foi ouvir os relatos das pessoas mais idosas das comunidades. Em geral, eram filhos ou netos dos primeiros moradores, com mais de cinquenta anos, que compartilhavam suas próprias lembranças e as histórias transmitidas por pais e avós. Esses depoimentos permitiam reconstruir aspectos da antiga paisagem, dos caminhos, das propriedades, do trabalho rural, da exploração madeireira e das mudanças ambientais ocorridas nas áreas que atualmente integram o parque e seu entorno. Entre as perguntas que eu costumava fazer aos entrevistados, uma dizia respeito à presença indígena na região. Perguntava se tinham conhecimento dessa presença, se haviam recebido informações de seus familiares ou se conheciam histórias e lendas relacionadas aos povos indígenas. 

Recebi diversas respostas afirmativas. Alguns moradores relatavam que seus pais ou avós mencionavam a passagem de grupos indígenas pelas áreas próximas às propriedades rurais, algumas delas estabelecidas desde o final do século XIX. Outros contavam que colonos encontravam artefatos, como pontas de flechas, durante o preparo da terra para o cultivo ou nas proximidades de caminhos utilizados para o transporte de madeira e da produção agrícola. Também ouvi relatos sobre encontros, conflitos e situações de contato pacífico.

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Essas narrativas constituem parte da memória social das comunidades e ajudam a compreender como as lembranças da presença indígena foram transmitidas entre gerações. Entretanto, é necessário distinguir os testemunhos dos moradores, as histórias que ouviram de seus antepassados e aquilo que pode ser demonstrado por documentação histórica ou investigação arqueológica. Não realizei levantamentos arqueológicos nas propriedades mencionadas, de modo que os relatos recolhidos não permitem determinar, por si sós, a identidade dos grupos associados aos vestígios, a cronologia dos contatos ou a natureza da ocupação dos lugares.

Em um trabalho de evento, publicado em seus anais, procurei sistematizar parte dessas memórias e interações. Clique aqui para acessar Como historiador e cientista social, considero importante incorporar a história dos povos indígenas à interpretação da ocupação regional, sem limitar a narrativa histórica à colonização europeia e à formação das comunidades que conhecemos atualmente. A literatura histórica, arqueológica e antropológica demonstra que o Vale do Itajaí possui uma história indígena anterior à colonização europeia, associada, entre outros povos, aos Laklãnõ-Xokleng, aos Kaingang e aos Guarani. A presença e a circulação desses povos, entretanto, não podem ser compreendidas como um processo único, homogêneo ou restrito às fronteiras administrativas estabelecidas posteriormente.

No caso da Serra do Itajaí, minhas pesquisas não identificaram documentação suficiente para estabelecer, de maneira conclusiva, quais grupos indígenas ocuparam determinados pontos da área atualmente protegida pelo PNSI e entorno, como em quais períodos isso ocorreu ou como se organizavam suas relações com a paisagem. A ausência de um registro localizado nas fontes consultadas não deve ser interpretada como prova de que não houve ocupação indígena. Tampouco é possível converter relatos de passagem em comprovação automática de ocupação territorial tradicional nos termos jurídicos atuais. Essa distinção é importante porque as regiões de montanhas e vales profundos não precisam ser compreendidas apenas em função de sua aptidão para a agricultura, a construção de aldeias permanentes ou a instalação de serrarias. Caminhos, áreas de circulação, lugares de coleta, caça, abrigo e significação cultural também podem integrar as relações de um povo com o território. A identificação dessas relações depende de pesquisas específicas, que articulem diferentes tipos de fontes e conhecimentos. E a região carece de pesquisas aprofundando essas questões.

O que as pesquisas realizadas na região permitem compreender é que a paisagem foi sucessivamente utilizada, transformada e interpretada por diferentes grupos humanos. No final do século XIX, a exploração madeireira e a ocupação colonial ganharam importância econômica, favorecidas pela presença de espécies valorizadas comercialmente, como canelas e perobas. Nas áreas de várzea do rio Garcia, onde se desenvolveram comunidades como a Nova Rússia, a proximidade dos cursos d'água favoreceu determinadas atividades produtivas e a instalação de serrarias.

Esse processo não ocorreu em um território socialmente vazio. A expansão colonial no Vale do Itajaí esteve associada a disputas territoriais, deslocamentos indígenas e episódios de violência. A atuação dos chamados bugreiros, responsáveis por expedições armadas contra populações indígenas, integra a história dos mecanismos empregados para abrir territórios à colonização e à apropriação econômica. As políticas indigenistas e a criação de áreas de confinamento também modificaram as possibilidades de circulação e permanência desses povos. A história ambiental da região, portanto, não pode ser compreendida apenas como uma sucessão de atividades econômicas e alterações da cobertura vegetal. Ela envolve relações de poder, diferentes formas de apropriação da terra e experiências históricas que nem sempre foram registradas pelos mesmos agentes ou preservadas nos arquivos oficiais.

A própria criação do Parque Nacional da Serra do Itajaí representa uma nova etapa dessa história. Em 2004, uma extensa área passou a ser delimitada pelo Estado como unidade de conservação de proteção integral. A floresta, antes associada a diferentes formas de circulação, exploração econômica e ocupação, passou a ser submetida a objetivos e regras específicos de proteção ambiental. O parque foi criado pelo Decreto de 4 de junho de 2004 e teve seus limites alterados posteriormente, inclusive pela Lei nº 15.090/2025 (BRASIL, 2004, 2025). Sua finalidade é proteger ecossistemas naturais de relevância ecológica e beleza cênica, além de permitir atividades compatíveis com seus objetivos, como pesquisa científica, educação ambiental e visitação regulamentada (ICMBIO, 2026).

Pesquisas realizadas pelo GPHAVI em Blumenau e Indaial demonstram como a exploração madeireira, a agricultura e outras atividades econômicas contribuíram para transformar os ambientes regionais antes da consolidação das políticas contemporâneas de conservação (GARROTE; SANTOS, 2019; SANTOS; GARROTE, 2020). A passagem de uma paisagem explorada economicamente para uma área submetida a um regime de proteção ambiental não eliminou, entretanto, as relações sociais e os problemas fundiários constituídos nos períodos anteriores.

A existência de propriedades particulares dentro dos limites do parque é um exemplo dessa situação. O Sistema Nacional de Unidades de Conservação da Natureza estabelece que os parques nacionais são de posse e domínio públicos e que as áreas particulares incluídas em seus limites devem ser desapropriadas, conforme a legislação aplicável (BRASIL, 2000). A regularização fundiária, portanto, constitui uma questão própria da implantação da unidade de conservação, independentemente da reivindicação territorial indígena. É nesse contexto que a questão contemporânea envolvendo os Laklãnõ-Xokleng e a comunidade Goj Konã na sub-sede do Parque Natural Municipal Nascentes do Garcia, com sobreposição do Parque Nacional e com terras a indenizar, adquire relevância. A floresta protegida pelo Estado não é uma paisagem sem história. Ela é parte de um território que passou por diferentes formas de ocupação, uso, representação e administração. E neste momento a história do espaço integra as história do passado e presente.

A reivindicação contemporânea associada a Goj Konã acrescenta uma dimensão indígena a essa sobreposição de territorialidades. Segundo o Tribunal Regional Federal da 4ª Região (TRF4), a comunidade Laklãnõ-Xokleng-Goj Konã encontra-se em uma área do município de Indaial, objeto de uma ação de reintegração de posse proposta pela empresa Kuala S/A em 6 de setembro de 2023. A área em disputa se sobrepõe ao Parque Nacional da Serra do Itajaí e ao Parque Natural Municipal das Nascentes. A empresa sustenta ser proprietária dos imóveis abrangidos pela ação, compostos por 14 matrículas imobiliárias, cuja titularidade teria sido reconhecida em processo judicial anterior. Os indígenas, por sua vez, defendem a legitimidade de sua permanência com base em direitos originários e históricos sobre as terras tradicionalmente ocupadas. Para a comunidade, Goj Konã é um lugar sagrado relacionado ao seu território tradicional (TRF4, 2026).

Essas posições expressam interpretações distintas do mesmo espaço. Na perspectiva da propriedade privada, a disputa envolve matrículas, posse e direitos reconhecidos judicialmente. Na perspectiva indígena, a permanência é apresentada como parte de uma relação territorial anterior e de uma memória de perda e retomada. 

Fonte
Mas ainda existem outros atores envolvidos nos conflitos de interesses nessa área. Entre eles, estão os ambientalistas, pessoas que construíram uma história de envolvimento com a proteção desse território, marcada por lutas, perdas e conquistas. Essa trajetória está associada à defesa da conservação integral da área e à manutenção de um Parque Nacional administrado de acordo com as normas que regem essa categoria de unidade de conservação. Assim como os ambientalistas, os pesquisadores também possuem interesses relacionados à conservação desse território. Desde 1988, a área conta com estruturas que dão suporte à realização de pesquisas científicas. Sua expressiva biodiversidade e suas características ecológicas fazem dela um espaço relevante para a produção de conhecimento. Sob essa perspectiva, parte dos pesquisadores também pode defender a restrição da presença humana permanente na área, considerando os possíveis impactos da ocupação sobre os ecossistemas e as condições necessárias à continuidade das pesquisas. Essa posição, entretanto, não deve ser atribuída indistintamente a toda a comunidade científica, cujos integrantes podem apresentar diferentes perspectivas sobre a conservação e a presença humana no território.

Fonte

Podemos, porém, ir mais a fundo nessa reflexão. Existe também a perspectiva da biodiversidade, dos elementos bióticos e abióticos que não reconhecem os limites das propriedades humanas, mas cuja existência naquele espaço é muito anterior ao momento em que seres humanos, indígenas ou não indígenas, passaram a concebê-lo como território próprio. Isso não significa, entretanto, que os animais não humanos desconheçam os perigos que os cercam. Basta observar o comportamento da fauna nas proximidades do parque: quando nos deparamos com uma ave, um réptil, um anfíbio ou um mamífero, é comum que o animal fuja diante da nossa presença. Suas reações podem indicar que nos reconhece como uma ameaça, ainda que não possamos atribuir a elas uma interpretação consciente equivalente à humana. Sob essa perspectiva, nós também podemos representar uma ameaça à integridade dos demais seres vivos e às relações ecológicas das quais dependem.

Caça no Faxinal do Bepe, 1960 - Acervo GPHAVI

Na imagem acima, vemos um registro do que os seres humanos fizeram com as jacutingas. Animais como essas aves (que podem ser observadas na fotografia anterior, junto à anta) foram vítimas da caça na Serra do Itajaí. A anta também sofreu com essa pressão. Refiro-me aqui ao animal não humano, parte da fauna nativa, e não ao caçador humano. A caça contribuiu historicamente para a redução de populações de animais silvestres na região, embora seja necessário verificar, com fontes específicas, se essas espécies foram efetivamente extintas localmente. Seres humanos indígenas também praticam a caça, assim como outros grupos humanos. No entanto, é importante não generalizar práticas distintas, que variam conforme os contextos culturais, históricos e territoriais. Mas existe um padrão universal em ambas as práticas, o abate de um animal não humano para suprir necessidades humanas. Ainda hoje, a caça constitui um dos problemas apontados para a conservação da fauna no interior do Parque Nacional da Serra do Itajaí. O ideal seria que não existisse caça de forma alguma.

Agora, proponho um exercício de reflexão: se você fosse uma anta, ou qualquer outro animal presente aqui na Mata Atlântica, e precisasse sobreviver em um território onde a presença humana pudesse representar uma ameaça, não buscaria áreas nas quais tivesse maior possibilidade de escapar dos caçadores? O animal não precisa conhecer o conceito jurídico de parque nacional, nem compreender os limites traçados nos mapas. Seu comportamento é orientado por respostas ao ambiente, pela disponibilidade de abrigo e alimento e pela possibilidade de evitar ameaças. Assim, determinados espaços podem funcionar como refúgios para a fauna, mesmo que os animais não reconheçam as fronteiras administrativas que os seres humanos estabeleceram. Eles sabe os locais que podem se proteger de uma ameaça, humana ou não. Essa perspectiva nos convida a pensar o território para além da propriedade e dos interesses exclusivamente humanos, pois creio que também precisamos considerar as condições necessárias à sobrevivência das demais espécies que habitam a Serra do Itajaí, e de sua participação na ecologia que mantem o ambiente e resiliência da natureza, favorecendo constantemente a região de serviços ecossistêmicos. Deixo essa reflexão como um convite a considerar uma perspectiva mais ecocêntrica e menos antropocêntrica, que não tome os interesses humanos como único critério para compreender e decidir sobre o território.

Assim, a compreensão dos conflitos exige considerar todas essas posições, e outros que aqui não levantai. Acredito que a defesa dos direitos dos animais e da integridade ecológica pode encontrar pontos de convergência com a atuação dos ambientalistas e pesquisadores que defendem a conservação da área e a restrição da presença humana permanente, independentemente da etnia a que pertençam as pessoas envolvidas. Isso não significa, contudo, que a conservação ambiental deva ser automaticamente interpretada como incompatível com a presença e os direitos territoriais dos povos indígenas. É necessário considerar o que estabelece a legislação nesses casos específicos. O ordenamento jurídico brasileiro reconhece os direitos originários dos povos indígenas sobre as terras que tradicionalmente ocupam e prevê mecanismos para sua proteção e efetivação, em resposta a processos históricos de expropriação e violência. Nesse contexto, a análise deve considerar tanto os objetivos de conservação ambiental quanto os direitos territoriais indígenas, sem confundir a existência de um título imobiliário com a resolução automática de todas as questões relativas aos direitos originários. O desafio está justamente em compreender essas dimensões sem apagar a complexidade histórica, social e ecológica do território.

A Constituição Federal de 1988 reconhece aos povos indígenas direitos originários sobre as terras tradicionalmente ocupadas e atribui à União o dever de demarcá-las, protegê-las e fazer respeitar seus bens. A definição constitucional envolve áreas relacionadas à habitação permanente, às atividades produtivas, à preservação dos recursos ambientais necessários ao bem-estar e à reprodução física e cultural dos povos, segundo seus usos, costumes e tradições (BRASIL, 1988). Territorialidade histórica, território antropológico e Terra Indígena formalmente reconhecida não são categorias idênticas, embora estejam relacionadas. A identificação de uma Terra Indígena exige estudos específicos, entre eles os de natureza antropológica, histórica, territorial e ambiental, de acordo com o procedimento administrativo aplicável (BRASIL, 1996). Isso ainda não vem sendo feito na área, assim como são necessárias mais conversas entre os atores para definir ações.

O trabalho de Machado (2016) demonstra a importância da memória, dos caminhos e das experiências históricas para compreender a territorialidade Laklãnõ. Pinheiro (2024), por sua vez, aborda o território Goj Konã a partir dos processos de perda territorial e da reivindicação contemporânea. Essas perspectivas ajudam a compreender por que a relação indígena com um lugar não pode ser reduzida à existência de cercas, títulos imobiliários ou limites cartográficos. Ao mesmo tempo, é necessário evitar uma conclusão inversa. O reconhecimento de que povos indígenas circularam historicamente pelo Vale do Itajaí não significa que qualquer área regional possa ser automaticamente reconhecida como Terra Indígena contemporânea. A definição de direitos territoriais específicos depende de critérios constitucionais, estudos adequados e procedimentos próprios, com participação dos povos interessados. A questão central consiste em compreender quais relações históricas e territoriais fundamentam a reivindicação atual e como elas devem ser examinadas à luz do ordenamento jurídico brasileiro.

O debate jurídico nacional também é relevante. Em dezembro de 2025, o Supremo Tribunal Federal declarou inconstitucional o trecho da Lei nº 14.701/2023 que vinculava o reconhecimento das terras tradicionalmente ocupadas à data da promulgação da Constituição Federal, em 5 de outubro de 1988. A decisão integrou o julgamento das ações que discutiam a constitucionalidade da lei do marco temporal (BRASIL, 2023; STF, 2025). Isso não determina, por si só, o resultado da reivindicação de Goj Konã, que depende da análise das evidências e dos procedimentos aplicáveis ao caso concreto.

A situação territorial também não deve ser reduzida à oposição entre a comunidade indígena e a unidade de conservação. O ICMBio possui a responsabilidade legal pela gestão do parque. A Funai tem atribuições relacionadas à proteção dos direitos indígenas e aos procedimentos de reconhecimento territorial. E a Justiça Federal examina a ação possessória e as questões jurídicas apresentadas pelas partes. Tanto que em 1º de julho de 2026, a 2ª Vara Federal de Blumenau realizou uma inspeção judicial na área ocupada pela comunidade. Conforme a notícia publicada pelo TRF4, viviam no local sete famílias, totalizando 26 pessoas. Participaram da inspeção representantes de instituições como a Defensoria Pública da União, a Funai e o ICMBio. O procedimento buscou conhecer as condições concretas da área e ouvir os envolvidos. Na ocasião, a comunidade reiterou a necessidade de continuidade do procedimento de reconhecimento territorial (TRF4, 2026).

Fonte

A notícia também informa que a comunidade apresentou ao ICMBio uma proposta de Acordo de Convivência, buscando compatibilizar sua permanência com os objetivos de conservação do parque. A proposta ainda aguardava análise pelo Instituto na data da publicação. Os indígenas argumentam que sua presença não causa a degradação ambiental apontada por seus opositores e afirmam que a permanência no local contribui para coibir práticas como a caça predatória e a extração ilegal de palmito por terceiros (TRF4, 2026). Essas alegações merecem ser consideradas e avaliadas por meio de evidências, monitoramento ambiental e diálogo institucional. Não é adequado presumir que toda presença humana seja necessariamente prejudicial à floresta, assim como não se deve pressupor que qualquer forma de ocupação seja automaticamente compatível com os objetivos de conservação. Assim vejo que temos um longo caminho pela frente.

Historicamente, determinadas políticas de proteção da natureza foram orientadas pela ideia de que a preservação exigiria afastar as pessoas dos ambientes protegidos. Essa concepção contribuiu para estabelecer uma separação rígida entre sociedade e natureza. A História Ambiental permite questionar essa separação. A floresta pode ser, simultaneamente, patrimônio natural, espaço de vida, território ancestral, recurso econômico e objeto de conservação. Essas formas de relação não são necessariamente equivalentes, mas tampouco são sempre incompatíveis. A literatura sobre conflitos entre unidades de conservação e territórios tradicionais demonstra que a sobreposição de regimes territoriais pode produzir divergências entre instituições e grupos sociais (ZANATTO, 2018; COSTA; ANDRADE; GONÇALVES, 2022). 

Pesquisas sobre gestão compartilhada também indicam que existem experiências nas quais os direitos territoriais indígenas e os objetivos de conservação podem ser discutidos conjuntamente, sem que isso elimine as dificuldades jurídicas e institucionais (FANZERES; CARVALHO, 2025). No caso do PNSI, a questão precisa ser examinada a partir das características ecológicas da área, dos objetivos legais da unidade de conservação, dos direitos indígenas e das condições concretas de ocupação. A conservação não pode ser tratada como uma abstração desvinculada da história do território, mas também não deve ser reduzida a um argumento secundário diante de qualquer reivindicação territorial. Um aliado a isso é a própria Universidade Regional de Blumenau, que a apartir de seu corpo científico poderia prestar serviços a essa questão, aprofundando estudos para que ocorra uma negociação justa a todas as partes.

Na História Ambiental o estudos do colega Klanovicz (2009), discute as relações dos Kaingang e dos Xokleng com a floresta, e contribui para pensarmos a importância dos conhecimentos indígenas na História Ambiental. O conhecimento ecológico associado à experiência histórica de um povo pode ampliar a compreensão sobre espécies, paisagens e processos ambientais. Isso não dispensa a investigação científica, mas abre possibilidades de diálogo entre diferentes formas de conhecimento. O problema, portanto, não precisa ser formulado como uma escolha inevitável entre indígenas e meio ambiente. É necessário investigar quais formas de ocupação, manejo e gestão são compatíveis com a proteção da floresta e com os direitos reconhecidos constitucionalmente.

História Ambiental da Serra do Itajaí - segundo o autor - Feito com IA

A história ambiental da Serra do Itajaí permite compreender que os conflitos territoriais contemporâneos não resultam de uma única disputa pela terra. Eles expressam a sobreposição de diferentes formas de produzir, utilizar, significar e juridicamente definir o território. No espaço abrangido pelo PNSI e em suas áreas de contato com outros regimes territoriais, encontram-se propriedades privadas, áreas de conservação, atividades rurais e reivindicações indígenas constituídas em momentos históricos distintos. O conflito contemporâneo não pode ser reduzido à pergunta sobre quem é o dono da terra. É necessário compreender quais regimes territoriais incidem sobre determinado espaço e como podem, ou não, coexistir.

Essa distinção é importante também para o Vale do Itajaí como um todo. As cidades, as propriedades rurais, as estradas e as áreas industriais foram estabelecidas sobre paisagens que possuem histórias anteriores. Reconhecer essa história, contudo, não significa transformar automaticamente toda relação histórica com um espaço em propriedade contemporânea. O desafio consiste em compreender quais territorialidades fundamentam direitos específicos no presente e como esses direitos devem ser reconhecidos conforme a legislação.

No caso Goj Konã, uma possível solução precisa considerar tanto os direitos territoriais reivindicados pelos Laklãnõ-Xokleng quanto os objetivos de conservação do PNSI. Em vez de pressupor que um regime territorial deva necessariamente eliminar o outro, é possível investigar alternativas institucionais que reduzam a oposição entre conservação ambiental, reconhecimento territorial indígena e segurança jurídica. O caminho para a resolução dessa situação deve envolver a realização de estudos técnicos e interdisciplinares que avaliem a possibilidade de reconhecimento e demarcação de uma Terra Indígena, considerando a história da ocupação do território, a territorialidade e os direitos do povo indígena envolvido, os aspectos antropológicos, históricos, ambientais, cartográficos e fundiários, bem como as condições necessárias à sua reprodução física e cultural. Esses estudos devem subsidiar os procedimentos administrativos conduzidos pela Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai), em conformidade com o artigo 231 da Constituição Federal de 1988 e o Decreto nº 1.775/1996, assegurando a participação dos indígenas envolvidos e o respeito aos direitos de todos os interessados, conforme a legislação vigente.

Defendo o direito do povo Laklãnõ-Xokleng a ter seu território reconhecido na região da Serra do Itajaí. Com base nas pesquisas que realizei ao longo dos anos, compreendo que sua presença integra a História Ambiental desse território e que o reconhecimento de seus direitos territoriais pode representar uma possibilidade importante tanto para a comunidade indígena quanto para a construção de alternativas de desenvolvimento regional mais sustentáveis.

Defendo, ainda, a possibilidade de reconhecimento de uma área indígena juridicamente delimitada e territorialmente contígua ao Parque Nacional da Serra do Itajaí (PNSI), caso estudos específicos demonstrem que essa configuração corresponde à territorialidade tradicional reivindicada pelos Laklãnõ-Xokleng e seja considerada adequada pela própria comunidade, respeitando-se seus direitos e os procedimentos legais aplicáveis. Cá entre nós, qualquer área, no interior, no entorno do parque, e a 100 Km dele, vamos ter a história dos indígenas no território. Mas, levando em conta o papel da conservação, a compreensão territorial que construí ao longo dos anos de pesquisa, leva-me a considerar que, 2 territórios protegidos na Serra do Itajaí podem contribuir para a conservação da biodiversidade e para a construção de relações mais sustentáveis entre sociedade e natureza. Essa perspectiva, entretanto, precisa considerar também os direitos, os projetos de vida e os anseios do povo indígena, incluindo as condições materiais, sociais e culturais necessárias para que a comunidade possa viver em seu território conforme suas próprias formas de organização e suas concepções de mundo, respeitando sua diversidade cultural e sua autonomia.

Essa ideia-proposta não deve ser entendida como uma simples transferência dos indígenas para outra terra, tampouco como uma compensação pela eventual perda da área atualmente ocupada. Uma solução dessa natureza somente poderia ser considerada legítima se fundamentada em estudos antropológicos, etno-históricos, ambientais, cartográficos e fundiários, além da participação efetiva do povo interessado. A questão seria investigar se existe, dentro da territorialidade histórica Laklãnõ-Xokleng, uma configuração territorial capaz de receber reconhecimento jurídico e, ao mesmo tempo, estabelecer continuidade espacial com o parque. Não se trata de antecipar o resultado de um procedimento de identificação ou demarcação, mas de formular uma hipótese para análise institucional e científica. Um vez que coloquei aqui o meu perspectivismo sobre a questão, e ele é construído com mais de 40 pesquisas realizadas na região ao longo de 22 anos, parte delas condensadas em minha tese de doutorado, e por outras pesquisas que ainda realizamos no entorno da UC. 

Caso essa possibilidade fosse confirmada pelos estudos e aceita pela comunidade, poderia surgir uma configuração territorial na qual o PNSI permanecesse integralmente protegido e uma área indígena contígua fosse reconhecida sob seu próprio regime constitucional. Em vez de tratar os dois territórios como necessariamente adversários, seria possível investigar formas de complementaridade entre eles. Essa hipótese, porém, não pode ser apresentada como uma alternativa já autorizada pela legislação ou como substituta do processo de reconhecimento territorial da área atualmente reivindicada. A eventual identificação de uma Terra Indígena deve seguir os procedimentos próprios e considerar os direitos originários, não podendo ser condicionada apenas à conveniência de preservar os limites do parque.

Uma área indígena contígua ao PNSI poderia, assim, constituir uma possibilidade de governança territorial, desde que a configuração proposta fosse fundamentada nos estudos pertinentes e construída com participação indígena. A contiguidade, por si só, não garantiria a conservação ambiental nem resolveria as questões fundiárias. Seria necessário estabelecer responsabilidades, mecanismos de diálogo e formas de acompanhamento das condições ambientais. Essa alternativa também permitiria distinguir problemas que hoje se encontram espacialmente sobrepostos. A questão do reconhecimento territorial indígena poderia ser examinada no âmbito dos direitos originários e dos procedimentos próprios; a conservação, no âmbito da gestão do PNSI; e as propriedades particulares, no âmbito da regularização fundiária da unidade de conservação. Os problemas continuariam relacionados, mas não dependeriam necessariamente de uma única solução.

Essa possibilidade depende de estudos e decisões que não cabem exclusivamente aos resultados das minhas pesquisas, e sim das pesquisas que deverão ser realizadas. E isso envolve a comunidade Laklãnõ-Xokleng, a Funai, o ICMBio, os órgãos fundiários, o Poder Judiciário e os demais atores cujos direitos possam ser afetados. A participação indígena não pode ser substituída por uma proposta formulada externamente, mesmo quando apresentada com a intenção de conciliar interesses. Essa hipótese que apresento  não tem como objetivo dar uma solução pronta, mas apontar uma alternativa que merece ser investigada: a construção de uma configuração territorial capaz de reconhecer os direitos indígenas e preservar integralmente o PNSI, sem transformar a questão em uma disputa na qual a existência de um território dependa necessariamente da eliminação de outro.

A questão da Serra do Itajaí permite retomar uma reflexão que acompanha minhas pesquisas desde 2004. A paisagem que hoje reconhecemos como parque nacional foi transformada ao longo do tempo por diferentes processos naturais, atividades econômicas, formas de ocupação e políticas públicas. Sua história não começou com a colonização europeia, tampouco com a criação da unidade de conservação. Os relatos dos moradores que entrevistei constituem uma parte dessa história. Eles ajudam a compreender as memórias da ocupação regional, a exploração madeireira, os modos de vida rurais e as lembranças transmitidas sobre a presença indígena. Entretanto, essas memórias precisam ser examinadas em diálogo com outras fontes, especialmente quando se pretende compreender reivindicações territoriais contemporâneas.

A pesquisa histórica não deve transformar a ausência de documentação em prova definitiva de ausência de ocupação, nem converter qualquer relato em comprovação de um direito territorial específico. Seu papel é identificar as evidências disponíveis, reconhecer suas limitações e contribuir para que diferentes temporalidades sejam consideradas na interpretação do presente. A criação do PNSI representou uma importante iniciativa de conservação da Mata Atlântica. O reconhecimento dos direitos indígenas, por sua vez, exige que a história territorial dos povos envolvidos seja considerada segundo os critérios constitucionais e os procedimentos legais pertinentes. A regularização das propriedades particulares também integra a implantação da unidade de conservação. São processos distintos, embora incidam sobre espaços relacionados. A questão de fundo passa a ser: 

Qual configuração territorial pode assegurar, simultaneamente, os direitos reconhecidos, a proteção dos ecossistemas, a reprodução cultural indígena e a segurança jurídica dos demais envolvidos?

Talvez a contribuição mais importante da História Ambiental seja mostrar que os territórios não são apenas superfícies delimitadas em mapas, mas resultados de relações históricas, conflitos, conhecimentos, atividades econômicas, políticas públicas e diferentes formas de pertencimento. A instituição da propriedade privada não apagou as territorialidades anteriores, assim como a criação de um parque nacional não eliminou automaticamente os direitos e as propriedades preexistentes. Da mesma forma, o reconhecimento de uma Terra Indígena não deve ser considerado, de antemão, incompatível com todas as formas de conservação ambiental. Essa relação precisa ser compreendida a partir das características de cada território, dos direitos envolvidos e das possibilidades de articulação entre diferentes formas de ocupação, proteção e manejo da natureza.

Nessa história, porém, a fauna e a flora também foram profundamente atingidas pelas transformações territoriais, muitas vezes com perdas expressivas de habitats e biodiversidade. Diferentemente dos grupos humanos envolvidos nas disputas, os demais seres vivos não possuem representantes diretos nas negociações políticas e jurídicas que definem os usos do território. Sua proteção depende, portanto, do reconhecimento de seu valor ecológico, da produção de conhecimento científico e da incorporação efetiva dos interesses da conservação nas decisões humanas. A História Ambiental permite ampliar esse debate ao evidenciar que as decisões sobre o território não afetam apenas os diferentes grupos sociais, mas também as demais formas de vida que o constituem.

O caso Goj Konã demonstra que a sobreposição territorial pode ser entendida não apenas como um problema a eliminar, mas como uma questão a ser investigada e administrada. A hipótese de uma área indígena contígua ao PNSI, se confirmada pelos estudos necessários e construída com participação da comunidade, poderia contribuir para essa discussão. Não seria uma fórmula universal, mas uma possibilidade a ser examinada no contexto histórico, ambiental e jurídico da Serra do Itajaí.

Ao longo de minhas pesquisas, aprendi que compreender uma paisagem exige escutar aqueles que viveram suas transformações e investigar os processos que deram origem às formas atuais de ocupação. No caso da Serra do Itajaí, isso significa considerar tanto as memórias das comunidades rurais quanto a história dos povos indígenas e as mudanças produzidas pelas políticas de conservação. A floresta não é apenas um recurso econômico, uma propriedade, uma unidade de conservação ou um território ancestral. Ela constitui um ambiente vivo, atravessado por relações ecológicas e históricas que não podem ser compreendidas a partir de uma única perspectiva.

Talvez seja justamente esse o desafio colocado pelo encontro entre o parque e o território: construir uma solução que reconheça a complexidade histórica da paisagem, respeite os direitos envolvidos e preserve as condições de continuidade dos ecossistemas. A questão não é simplesmente decidir quem deve vencer a disputa. É investigar quais formas de organização territorial podem permitir que a floresta continue existindo, que os direitos indígenas sejam respeitados e que a conservação ambiental não dependa da negação da história.

Essa é uma possibilidade que ainda precisa ser examinada e construída. Mas é também uma oportunidade para que a História Ambiental contribua para um debate que ultrapassa os limites do parque e alcança a própria maneira como a sociedade brasileira compreende, reconhece e administra seus territórios.

Algumas referências consultadas:

BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil de 1988. Brasília, DF: Presidência da República, 1988. Disponível em: https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/constituicao.htm.

BRASIL. Decreto nº 1.775, de 8 de janeiro de 1996. Dispõe sobre o procedimento administrativo de demarcação das terras indígenas e dá outras providências. Brasília, DF, 1996. Disponível em: https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/decreto/d1775.htm.

BRASIL. Lei nº 9.985, de 18 de julho de 2000. Regulamenta o art. 225, § 1º, incisos I, II, III e VII da Constituição Federal, institui o Sistema Nacional de Unidades de Conservação da Natureza e dá outras providências. Brasília, DF, 2000. Disponível em: https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l9985.htm.

BRASIL. Decreto de 4 de junho de 2004. Cria o Parque Nacional da Serra do Itajaí, no Estado de Santa Catarina, e dá outras providências. Brasília, DF, 2004. Disponível em: https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2004-2006/2004/dnn/dnn10203.htm.

BRASIL. Lei nº 14.701, de 20 de outubro de 2023. Regulamenta o art. 231 da Constituição Federal, para dispor sobre o reconhecimento, a demarcação, o uso e a gestão de terras indígenas. Brasília, DF, 2023. Disponível em: https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2023-2026/2023/lei/l14701.htm.

BRASIL. Lei nº 15.090, de 7 de janeiro de 2025. Altera os limites do Parque Nacional da Serra do Itajaí, localizado no Estado de Santa Catarina. Brasília, DF, 2025. Disponível em: https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2023-2026/2025/lei/l15090.htm.

COSTA, Ivys Medeiros da; ANDRADE, Maristela Oliveira de; GONÇALVES, Alicia Ferreira. Conflictos socioambientales en áreas de conservación y tierras indígenas en el Nordeste brasileño: racionalidades confrontadas. Desacatos, Ciudad de México, n. 70, p. 60-75, 2022.

FANZERES, Andreia de Matos Peixoto; CARVALHO, Ricardo da Costa. The Apiaká and the Juruena National Park: an experience of shared territorial management. Ambiente & Sociedade, São Paulo, v. 28, e00127, 2025. DOI: https://doi.org/10.1590/1809-4422asoc01271vu28L1FT.

GARROTE, Martin Stabel; SANTOS, Gilberto Friedenreich dos. História, meio ambiente e desenvolvimento regional do território do Parque Nacional da Serra do Itajaí no município de Blumenau (Vale do Itajaí, Santa Catarina). Geosul, Florianópolis, v. 34, n. 70, p. 446-469, 2019. DOI: https://doi.org/10.5007/2177-5230.2019v34n70p446.

ICMBIO. Parque Nacional da Serra do Itajaí. Brasília, DF: Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade, 2026. Disponível em: https://www.gov.br/icmbio/pt-br/assuntos/unidade-de-conservacao/unidades-de-biomas/mata-atlantica/lista-de-ucs/parna-da-serra-do-itajai.

KLANOVICZ, Jó. Kaingáng e Xokléng do sul do Brasil e a floresta: discutindo etno-história e História Ambiental. Cadernos de Agroecologia, v. 4, n. 1, 2009.

MACHADO, Juliana Salles. Caminhos e Paradas: perspectivas sobre o território Laklãnõ (Xokleng). Revista do Museu de Arqueologia e Etnologia, São Paulo, n. 27, p. 179-196, 2016. DOI: https://doi.org/10.11606/issn.2448-1750.revmae.2016.137298.

ORGANIZAÇÃO INTERNACIONAL DO TRABALHO (OIT). Convenção nº 169 sobre Povos Indígenas e Tribais. Genebra: OIT, 1989.

PINHEIRO, Milton Felipe. Território Goj Konã: do esbulho à retomada de um território ancestral. Florianópolis: Universidade Federal de Santa Catarina, 2024.

SANTOS, Gilberto Friedenreich dos; GARROTE, Martin Stabel. Usos exploratórios e sustentáveis da natureza no entorno do Parque Nacional da Serra do Itajaí em Indaial-SC. DRd: Desenvolvimento Regional em Debate, v. 10, p. 283-301, 2020. DOI: https://doi.org/10.24302/drd.v10i0.2563.

STF. Supremo Tribunal Federal considera inconstitucional trecho de lei que institui marco temporal para terras indígenas. Brasília, DF, 22 dez. 2025. Disponível em: https://noticias.stf.jus.br/postsnoticias/stf-considera-inconstitucional-trecho-de-lei-que-institui-marco-temporal-para-terras-indigenas/.

TRF4. Justiça Federal faz inspeção judicial em comunidade indígena em Indaial. Porto Alegre: Tribunal Regional Federal da 4ª Região, 6 jul. 2026. Disponível em: https://www.trf4.jus.br/trf4/controlador.php?acao=noticia_visualizar&id_noticia=30281.

ZANATTO, Vinicius Galvão. Conflitos em territórios indígenas: as sobreposições entre terras indígenas e unidades de conservação. Revista Eletrônica: Tempo - Técnica - Território, v. 6, n. 1, p. 25-48, 2018. DOI: https://doi.org/10.26512/ciga.v6i1.20911.

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quarta-feira, 7 de outubro de 2026

Botuverá: uma trajetória de pesquisas em História Ambiental no Vale do Itajaí-Mirim

Bolsistas Vanessa N. e Ana. C. M com entrevistas
Acervo GPHAVI 2008. 

Existe uma relação intensa entre as pesquisas do Grupo de Pesquisa em História Ambiental do Vale do Itajaí (GPHAVI) e a região de Botuverá. Essa aproximação começou ainda nos primeiros anos de consolidação do grupo e acabou produzindo, ao longo do tempo, um conjunto de pesquisas que permite observar diferentes dimensões da relação entre sociedade e natureza no município e, particularmente, nas comunidades localizadas no entorno do Parque Nacional da Serra do Itajaí (PNSI).

Entorno do PNSI. Acervo GPHAVI

Lembro da primeira vez em que nos aventuramos pela região em uma espécie de missão científica. Eu ainda não conhecia Botuverá. Junto com Gilberto, percorremos o entorno do PNSI tendo em mãos o mapa das comunidades do parque. Passamos por Salto de Águas Negras, pelos Lageados, até Ribeirão do Ouro e Areias. O relevo impressionava: vales estreitos, encostas, diferentes níveis de conservação da floresta e, entre eles, elementos do mundo rural, pequenas áreas de ocupação e sinais da presença urbana. A paisagem já apresentava, naquele momento, aquilo que posteriormente se tornaria uma das características das pesquisas realizadas pelo GPHAVI na região: a possibilidade de observar a história ambiental a partir das relações entre ocupação humana, floresta, agricultura, mineração, produção artesanal, fauna e diferentes formas de apropriação dos recursos naturais.

Botuverá - SC. Acero do GPHAVI

O ano de 2008 ocupa um lugar especial nessa trajetória. Naquele período, ainda estávamos estreitando nossos laços de trabalho. Eu estava bastante entusiasmado com as possibilidades de pesquisa e insistia com Gilberto para que avançássemos na apresentação de projetos de iniciação científica. Naquele momento, os critérios do PIBIC/CNPq consideravam, entre outros aspectos, a titulação e o currículo do pesquisador, além da qualidade e dos critérios específicos de avaliação do projeto. Insisti para que elaborássemos as propostas e tive a autorização de Gilberto para escrever e inserir os projetos no sistema. Como a pesquisa abrangia diversas comunidades do entorno do parque, a estratégia foi dividir o recorte territorial em dois projetos.

Assim nasceram nossas duas primeiras pesquisas de PIBIC relacionadas a Botuverá: “História ambiental das comunidades do entorno do Parque Nacional da Serra do Itajaí: comunidades do Lageado Baixo, Lageado Alto e Ribeirão do Ouro, município de Botuverá - Vale do Itajaí - SC”, desenvolvida com bolsa PIBIC/CNPq, tendo como bolsista Vanessa N., estudante de História. E: “História ambiental das comunidades do entorno do Parque Nacional da Serra do Itajaí: comunidades do Salto de Águas Negras, Beira Rio e Lageado Central, município de Botuverá - Vale do Itajaí - SC”, desenvolvida com bolsa PIBIC/FURB, tendo como bolsista Ana C. M., estudante de Ciências Sociais.

Foram, portanto, duas pesquisas de iniciação científica desenvolvidas simultaneamente em 2008, abrangendo seis comunidades: Lageado Baixo, Lageado Alto, Ribeirão do Ouro, Salto de Águas Negras, Beira Rio e Lageado Central. Foi um momento importante para o grupo. Lembro da emoção de Gilberto com a aprovação daqueles projetos. Eram nossas primeiras pesquisas em nível de PIBIC e, olhando retrospectivamente, é possível perceber que aquela experiência estabeleceu uma linha de investigação que continuaria nos anos seguintes. 

Essa história do final rendeu seis pesquisas de iniciação científica entre  2008 e 2018. São eles:

História ambiental das comunidades do entorno do Parque Nacional da Serra do Itajaí: comunidades do Lageado Baixo, Lageado Alto e Ribeirão do Ouro, município de Botuverá - Vale do Itajaí - SC — 2008, PIBIC/CNPq, bolsista Vanessa N.

História ambiental das comunidades do entorno do Parque Nacional da Serra do Itajaí: comunidades do Salto de Águas Negras, Beira Rio e Lageado Central, município de Botuverá - Vale do Itajaí - SC — 2008, PIBIC/FURB, bolsista Ana C. M.

História da Produção Artesanal de Cal no Município de Botuverá (Médio Vale do Itajaí-Mirim) — 2011-2012, PIPe/Art. 170, bolsista José R. S. História.

Comunidades de Ribeirão do Ouro e Lageado Central (Botuverá - SC - Zona de Amortecimento do Parque Nacional Serra do Itajaí): uma História Ambiental baseada no ouro e calcário — 2011, PIPe/Art. 170, bolsista Vitória d. A.

Estudos sobre a História Ambiental dos usos da avifauna do Parque Nacional Serra do Itajaí (SC), nos municípios de Blumenau, Botuverá e Guabiruba — 2013. A pesquisa contou com três bolsistas: Guilherme B. S. do curso de Ciências Biológicas, posteriormente substituído por Mariane P. S. do curso de biomedicina e Francisco J. M. do curso de história.

História, Desenvolvimento e Sustentabilidade no entorno do Parque Nacional da Serra do Itajaí em Botuverá e Guabiruba-SC — 2018, PIPe/Art. 170. O projeto contou com dois bolsistas, sendo João H. T., da Arquitetura, que permaneceu até o final, e outro estudante de Ciências Sociais que posteriormente deixou a pesquisa. 

Os títulos das pesquisas mostram também como o olhar do grupo foi se ampliando. As primeiras investigações estavam concentradas na história ambiental das comunidades do entorno do PNSI, buscando compreender a ocupação humana e as relações estabelecidas com a Floresta Atlântica. Posteriormente, surgiram pesquisas mais específicas. 

A produção de cal passou a ser investigada em História da Produção Artesanal de Cal no Município de Botuverá. A exploração mineral apareceu novamente no estudo sobre ouro e calcário nas comunidades de Ribeirão do Ouro e Lageado Central. A avifauna constituiu outro eixo de investigação, especialmente na pesquisa desenvolvida em 2013, que articulou Botuverá a Blumenau e Guabiruba. 

Já a pesquisa de 2018 incorporou a discussão sobre desenvolvimento e sustentabilidade, ampliando novamente o campo de observação para as relações entre sociedade, território e conservação ambiental.

Não se trata, portanto, de uma única história de Botuverá, mas de diferentes histórias ambientais que se cruzam no mesmo território. E o resultado desse percurso também pode ser observado nas publicações. Temos 18 trabalhos publicados ou apresentados em eventos e revistas, distribuídos entre artigos científicos, trabalhos completos em eventos, resumos expandidos e resumos.

Entre os artigos publicados em revistas científicas, aparecem três trabalhos diretamente relacionados a Botuverá:“História Ambiental dos Fumicultores em Botuverá (SC)”, publicado na Revista Brasileira de Agroecologia, em 2009.

“Lageado Alto e Lageado Baixo (Botuverá, Santa Catarina): história da ocupação humana e uso da biodiversidade da Mata Atlântica de comunidades localizadas na zona de amortecimento do Parque Nacional da Serra do Itajaí”, publicado na Revista GeoNorte, em 2012.

“Apontamentos para uma História Ambiental do uso dos recursos naturais em Botuverá - Vale do Itajaí-Mirim - SC”, publicado na Geosul, volume 39, em 2024.

Há aqui uma trajetória particularmente interessante: o primeiro artigo identificado é de 2009, enquanto o mais recente é de 2024. São, portanto, 15 anos de produção publicada, permitindo observar a permanência do município como espaço de investigação do GPHAVI.

A produção não ficou restrita às revistas científicas. Foram identificados cinco trabalhos completos publicados em anais de eventos, entre eles:

“História Ambiental da Mineração em Botuverá (SC)”, apresentado no Simpósio Internacional de História Ambiental e Migrações, em 2010.

“Os processos de uso dos recursos naturais no município de Botuverá (Santa Catarina)”, apresentado no X Encontro Nacional da Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Geografia, em 2013.

“Breve história do ambiente no Parque Nacional da Serra do Itajaí em Apiúna, Presidente Nereu, Vidal Ramos e Botuverá - Vale do Itajaí - SC”, apresentado no III Workshop Internacional de História do Ambiente, em 2013.

Também aparecem trabalhos dedicados especificamente a comunidades e processos locais, como “História e apropriação da natureza no entorno do Parque Nacional da Serra do Itajaí: o caso de Salto de Águas Negras em Botuverá - SC” e “Usos da natureza na História da comunidade de Lageado Alto em Botuverá - SC”, ambos apresentados em 2009.

A produção em eventos mostra como as pesquisas locais foram sendo incorporadas a discussões mais amplas da História Ambiental, da Geografia e da educação. Outro aspecto importante desse conjunto documental é a diversidade temática. Em 2008, os trabalhos estão relacionados à colonização italiana e à Floresta Atlântica, como Colonização italiana e sua história Ambiental na Floresta Atlântica do Lageado Alto e Baixo em Botuverá-SC.

Também em 2008 foi apresentado Construindo uma História Ambiental das comunidades Salto de Águas Negras, Beira Rio e Lageado Central do entorno do Parque Nacional Serra do Itajaí Botuverá SC. Em 2009, os trabalhos passaram a abordar diretamente os usos da natureza, as transformações da Floresta Atlântica, a mineração, a apropriação da natureza e o uso da história oral como instrumento de pesquisa.

Em 2012, a exploração do ouro aparece novamente, agora a partir das memórias das comunidades de Ribeirão do Ouro e Lageado Central. Em 2013 e 2014, a avifauna passou a integrar esse conjunto de investigações, com estudos sobre os usos históricos das aves do Parque Nacional da Serra do Itajaí.

Esse conjunto revela uma característica importante da trajetória: Botuverá foi sendo estudada a partir de diferentes elementos da paisagem e das relações humanas com a natureza. Quando organizamos os dados, podemos visualizar melhor a dimensão dessa trajetória:

2008–2018 → 6 pesquisas de iniciação científica

2008–2024 → 18 trabalhos identificados entre artigos, trabalhos completos, resumos expandidos e resumos

3 artigos em revistas científicas

5 trabalhos completos em eventos

2 resumos expandidos

8 resumos em eventos

2008 → início das pesquisas de iniciação científica relacionadas a Botuverá

2009 → primeiras publicações em revistas e forte produção em eventos

2010–2014 → ampliação das pesquisas para mineração, recursos naturais, história oral e avifauna

2018 → pesquisa sobre desenvolvimento e sustentabilidade

2024 → publicação de Apontamentos para uma História Ambiental do uso dos recursos naturais em Botuverá - Vale do Itajaí-Mirim - SC

Esses números ajudam a perceber que não estamos diante de uma pesquisa pontual sobre Botuverá. Existe uma trajetória de investigação que atravessa pelo menos 16 anos de produção publicada e uma década de projetos de iniciação científica. Quando reunimos os títulos, pesquisadores, estudantes, comunidades e temas, começa a aparecer um verdadeiro mapa das pesquisas do GPHAVI em Botuverá.

De um lado estão as comunidades: Lageado Alto, Lageado Baixo, Ribeirão do Ouro, Salto de Águas Negras, Beira Rio e Lageado Central. De outro, os processos históricos: colonização, ocupação humana, agricultura, fumicultura, mineração, exploração do ouro e do calcário, produção artesanal de cal, uso da biodiversidade, avifauna e sustentabilidade. E atravessando todos eles está a Floresta Atlântica, não apenas como cenário das ações humanas, mas como parte ativa da história dessas comunidades. É justamente nesse cruzamento que a perspectiva da História Ambiental permite observar Botuverá. O território deixa de ser apenas o local onde os acontecimentos ocorreram e passa a ser compreendido como resultado de relações históricas entre pessoas, comunidades, recursos naturais, técnicas, atividades econômicas, animais, florestas e diferentes formas de apropriação da natureza.

Retomar hoje esse conjunto de pesquisas permite perceber algo que talvez não estivesse tão evidente quando os primeiros projetos foram elaborados. Aquelas duas pesquisas de 2008 abriram uma frente de investigação que posteriormente recebeu novos estudantes, novos projetos, novos temas e novas formas de publicação. Ao longo desse percurso, Botuverá apareceu como território de pesquisa sobre a Floresta Atlântica, as comunidades rurais, a colonização, a agricultura, o fumo, o ouro, o calcário, a produção de cal, a fauna, a avifauna, os recursos naturais, o desenvolvimento e a sustentabilidade.

O levantamento também mostra que muitas dessas pesquisas foram realizadas por estudantes de diferentes áreas: História, Ciências Sociais, Ciências Biológicas e Arquitetura, revelando o caráter interdisciplinar que marcou a construção desse acervo. Talvez esse seja um dos aspectos mais interessantes dessa trajetória: cada pesquisa respondeu a uma pergunta específica, mas, juntas, elas começaram a construir uma história ambiental de Botuverá.

Hoje, ao olhar para os títulos produzidos desde 2008, é possível perceber que existe ali mais do que uma sequência de projetos acadêmicos. Existe um conjunto documental que permite reconstruir diferentes momentos da relação entre sociedade e natureza no município e no entorno do Parque Nacional da Serra do Itajaí. E talvez a próxima pergunta seja justamente essa: o que ainda não foi estudado nessa paisagem? Quais outras comunidades, atividades econômicas, espécies, conflitos, práticas agrícolas, transformações da floresta ou formas de apropriação da natureza ainda podem ser encontradas nos arquivos, nas memórias dos moradores e na própria paisagem de Botuverá? A história ambiental da região, ao que tudo indica, ainda está longe de terminar.

Fonte: levantamento da produção científica e dos projetos de iniciação científica do GPHAVI relacionados a Botuverá.

Nota: Este texto foi elaborado a partir do levantamento e organização dos dados de pesquisa apresentados pelo autor. A autoria intelectual e a responsabilidade pelo conteúdo são humanas; ferramentas de inteligência artificial foram utilizadas como apoio à organização e adequação textual.