Que imagens a Antiguidade Clássica te desperta? Templos de mármore, filósofos na ágora, legiões em marcha, Esparta, Atenas, Roma... Geralmente a narrativa é dominada por feitos políticos, filosóficos e militares como principais dimensões. Mas essa visão muitas vezes ignora uma arena de conflito e inovação ainda mais fundamental: a interação dessas civilizações com o seu ambiente. E se, em vez de olharmos apenas para os homens, olhássemos para o solo que eles cultivavam, as florestas que derrubavam e a poluição que suas cidades geravam? É esta a provocadora proposta do livro An Environmental History of Ancient Greece and Rome, de Lukas Thommen, uma obra que reposiciona o ambiente como um agente ativo, e não um mero pano de fundo, na história. Thommen, professor do Instituto Histórico da Universidade de Zurique e membro do Sosipolis – International Institute of Ancient Hellenic History (Grécia), é uma referência nos estudos de História Ambiental da Antiguidade, e seu livro é a ferramenta essencial para essa nova e necessária abordagem.
A obra de Thommen fundamenta-se em uma base teórica sólida para explicar a relação entre as sociedades clássicas e a natureza. Primeiramente, o autor aponta que nem o grego nem o latim possuíam palavras exatas para conceitos modernos como "meio ambiente", "ecologia" ou "sustentabilidade". O livro analisa os termos que eles usavam, como o conceito grego de physis (natureza) em oposição a nomos (cultura/lei), para revelar uma relação complexa. Embora essa distinção pareça clara, os gregos percebiam que uma simples dicotomia era uma premissa falsa, já que ambos os domínios eram, em certa medida, interdependentes. Essa percepção permitia tanto a veneração religiosa pela terra quanto a dominação de seus recursos em nome do progresso. O termo klima, por exemplo, não se referia ao clima como o entendemos hoje, mas a uma zona geográfica e sua suposta influência sobre os povos.
Situando seu estudo no campo mais amplo da História Ambiental, Thommen adota a definição clássica de J. D. Hughes para enquadrar sua análise, que segundo ele, possui três focos interligados: investigar a influência de fatores ambientais, como a geografia e os recursos, na história humana; analisar as mudanças ambientais causadas pelas ações humanas, como o desmatamento e a mineração; e, por fim, reconstruir a história do pensamento humano sobre o ambiente, revelada em textos filosóficos, poéticos e técnicos. Com base nesses pilares, o objetivo de Thommen é reconstruir a complexa interação entre as sociedades greco-romanas e seu ambiente natural. Utilizando principalmente fontes literárias, o livro demonstra como a geografia, a exploração de recursos e eventos extremos como secas e terremotos não foram um cenário passivo, mas agentes que moldaram ativamente a cultura, a economia, a sociedade e a política do mundo antigo.
A geografia fragmentada da Grécia, com suas cadeias de montanhas e baías profundas, influenciou diretamente o desenvolvimento de comunidades políticas autônomas, as póleis. Existia uma relação intrínseca entre o centro urbano (polis) e seu campo circundante (chora), onde se produzia o sustento da cidade. A cidadania estava intimamente ligada à terra, e muitos cidadãos eram, antes de tudo, agricultores. A necessidade de terras e recursos impulsionou um vasto processo de colonização pelo Mediterrâneo, levando Platão a usar a famosa metáfora de que os gregos viviam "como formigas ou rãs ao redor de um pântano". A fundação de cada nova cidade era uma intervenção fundamental na paisagem, planejada para garantir a autossuficiência da nova comunidade.
A agricultura, baseada na trilogia de cereais, uvas e azeitonas, era o pilar da economia, e a importância das terras cultivadas era tamanha que sua devastação se tornou uma tática de guerra comum, como visto nos ataques espartanos à Ática durante a Guerra do Peloponeso. O desmatamento também foi um problema significativo. No diálogo Crítias, Platão descreve a erosão do solo na Ática como resultado da perda de cobertura florestal, uma consequência direta da demanda por madeira, crucial para a construção naval, que forçou cidades como Atenas a importar grandes quantidades de regiões como a Macedônia. Nenhuma atividade, no entanto, revela a escala da intervenção grega de forma mais brutal do que a mineração. O exemplo mais notório são as minas de prata de Laureion, na Ática, que financiaram a frota ateniense. A extração, realizada por uma força de trabalho de 10.000 a 30.000 escravos em condições brutais, causou poluição severa do ar e da água por metais pesados. O desmatamento ao redor das minas para alimentar as fornalhas de fundição intensificou a erosão do solo, deixando cicatrizes permanentes na paisagem.
O ambiente estava profundamente entrelaçado na vida material e espiritual dos gregos. A água e o fogo possuíam grande importância mitológica e prática, e os gregos desenvolveram avanços notáveis em engenharia hidráulica, como o impressionante Túnel de Eupalinos em Samos. Desastres naturais, como os terremotos que destruíram Esparta (464 a.C.) e a cidade de Helike (373 a.C.), eram frequentemente interpretados como punições divinas. A dieta era simples, e alimentos como o peixe carregavam um forte simbolismo. A relação com os animais era ambivalente: eram vistos como encarnações da natureza e apareciam nos mitos, mas também eram classificados por Aristóteles, que afirmava a superioridade humana. Os jardins variavam desde os bosques sagrados (alsos), protegidos por tabus religiosos, até os jardins de filósofos, como a Academia de Platão, que serviam como espaços para a reflexão.
Se os gregos intervieram em seu ambiente em escala local, os romanos ampliaram essa transformação para uma dimensão imperial. A construção de uma vasta rede de estradas, com cerca de 80.000 a 100.000 km de extensão, foi um instrumento fundamental de controle militar e econômico, um feito de engenharia monumental alcançado com trabalho manual. Essas vias permitiram uma exploração muito mais intensa e sistemática dos recursos naturais das províncias, conectando centros de extração, como as florestas ao norte dos Alpes e as minas na Espanha, aos centros de consumo.
Os romanos organizaram a exploração dos recursos com uma eficiência pragmática, e sua mentalidade é revelada de forma contundente na literatura agrícola. Autores como Catão, Varrão e Columela não demonstram amor pela natureza, mas sim um interesse focado na utilidade e no lucro. Essa abordagem orientou o sistema das villae rusticae, centros de produção agrícola voltados para o mercado. Na engenharia da água, a sofisticação dos aquedutos de Roma, gerenciados por figuras como Agripa e Frontino, não apenas abastecia a cidade, mas era fundamental para a higiene urbana, ao lavar o sistema de esgotos como a Cloaca Maxima. A mineração superou em muito a escala grega, expandindo-se para províncias como a Península Ibérica, onde o complexo de Las Medulas utilizou engenharia hidráulica para extrair ouro em massa. Essa exploração agressiva foi criticada por autores como Plínio, o Velho, que a viam como uma violação da "Mãe Terra", motivada pela ganância.
A capital do Império contrastava os desafios ambientais de uma metrópole com o ideal de natureza domesticada pela elite. Roma enfrentava problemas surpreendentemente modernos: o barulho constante (strepitus Romae), a poluição do ar pela fumaça de lareiras e termas, e graves problemas de saneamento nas superpovoadas insulae (prédios de apartamentos). O tráfego era caótico; como descreveu Horácio, "funerais lúgubres disputam espaço com carroças enormes; por aqui corre um cão raivoso; por ali se apressa uma porca coberta de lama". O Grande Incêndio de 64 d.C. foi um exemplo catastrófico desses riscos. Para escapar, as elites se refugiavam em suas luxuosas vilas rurais. Com jardins ornamentais e lagos artificiais, essas propriedades representavam uma tentativa de dominar e "melhorar" a natureza. Essa ostentação gerou críticas de autores como Horácio e Sêneca, que denunciavam a construção de vilas que bloqueavam as margens de rios e lagos.
A Bretanha serve como um excelente estudo de caso do impacto ambiental do Império. A construção da Muralha de Adriano exigiu desmatamento em larga escala e a exploração de pedreiras locais. Os romanos introduziram novas plantas e animais, expandiram a agricultura e intensificaram a mineração de ferro, chumbo e até carvão. Embora uvas fossem ocasionalmente plantadas no sul da ilha, a vinicultura não se tornou uma prática disseminada como a de outras culturas. Mesmo assim, essas atividades, embora tenham trazido novas tecnologias, deixaram marcas duradouras na paisagem britânica.
Para finalizarmos, faço um convite, um chamado para um Novo Olhar sobre a Antiguidade, ou seja, a utilização da dimensão ambiental, além das tradicionais que usamos na História. Entender como gregos e romanos gerenciavam suas florestas, lidavam com a poluição de suas metrópoles ou enfrentavam uma seca revela novas e fascinantes dimensões de suas sociedades, que vão muito além das batalhas e dos discursos. Essa abordagem não diminui seus grandes feitos, mas os humaniza, mostrando-os como povos que, assim como nós, dependiam do seu ambiente e o transformavam.
A obra de Lukas Thommen não apenas apresenta respostas, mas também inspira novas perguntas sobre a complexa e dinâmica relação entre cultura e natureza no mundo antigo. Ela nos encoraja a enxergar o vasto potencial de pesquisa que essa área oferece, conectando o passado a questões profundamente relevantes para o nosso presente. Por isso, An Environmental History of Ancient Greece and Rome é uma referência fundamental e um excelente ponto de partida para estudantes de graduação em História, Ciências Sociais e áreas afins. Para aqueles que buscam temas inovadores para projetos de Iniciação Científica (IC) e Trabalhos de Conclusão de Curso (TCC), este livro é uma ferramenta indispensável. Ele é um exemplo primoroso de como a análise crítica do passado não é apenas um exercício acadêmico, mas um instrumento vital para refletirmos sobre os desafios ambientais que definem a nossa própria época. Pois bem, se você gostou do texto, clique aqui para baixar o livro. Esta postagem foi revisada e sofreu alterações realizadas por IA.
Referência
THOMMEN, Lukas. An environmental history of ancient Greece and Rome. Translated by Philip Hill. Revised English edition. Cambridge: Cambridge University Press, 2012.





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