"Eu sou o que me cerca. Se eu não preservar o que me cerca, eu não me preservo".
José Ortega y Gasset

terça-feira, 12 de maio de 2026

Mais do que terra: como a luta pelas florestas do Vale do Itajaí forjou uma identidade

Quando pensamos em Santa Catarina, e mais especificamente no Vale do Itajaí, a imagem que muitas vezes vem à mente é a de uma Europa brasileira. Festas como a Oktoberfest de Blumenau reforçam um imaginário de herança germânica, de cidades ordenadas e de uma paisagem domesticada pela agricultura familiar. Contudo, pulsa uma história muito mais antiga, complexa e violenta, uma história de disputa não apenas pela terra, mas pela própria alma da floresta.

Para desvendar essas camadas, nos aprofundamos no artigo "DE SELVAGEM A XOKLENG: NOMEAR PARA CONTROLAR", do historiador Rodrigo Wartha, publicado na Revista Horizontes Históricos em 2024. Este trabalho é uma chave fundamental para entender como a identidade da região foi construída sobre um campo de batalha simbólico e físico. Neste post, utilizaremos as lentes da História Ambiental para analisar o artigo de Wartha. Nosso objetivo é tratar a natureza, as matas, os rios, a fauna, não como um cenário passivo, mas como um agente central nos conflitos, na colonização e na construção das identidades que hoje definem o Vale do Itajaí. 

Antes da intensificação da colonização europeia no século XIX, o território que hoje conhecemos como Vale do Itajaí era um vasto espaço de vivência para o povo Laklãnõ. Como Wartha aponta, eles circulavam por uma ampla área que se estendia de Curitiba a Porto Alegre. Para eles, a terra não era uma propriedade a ser demarcada, mas um ecossistema integrado do qual faziam parte, um território de subsistência, cultura e espiritualidade. Essa paisagem, no entanto, já era uma fronteira de conflito muito antes da chegada dos alemães. Desde meados do século XVIII, os Laklãnõ enfrentavam a expansão de tropeiros e criadores de gado vindos de cidades como Lages e Curitibanos. Com a chegada dos projetos de colonização europeia, essa disputa se intensificou, opondo duas visões de mundo e dois metabolismos ecológicos incompatíveis. De um lado, um modo de vida baseado na mobilidade e nos ciclos da floresta. Do outro, um projeto baseado no sedentarismo, na propriedade privada e na conversão radical do ecossistema para a agricultura. A mata deixava de ser um lar para ser vista como um obstáculo a ser vencido. 

Bugreiros - caçadores de indígenas

Para que o projeto colonial de pequenas propriedades fosse viável, era preciso "limpar o terreno". Essa tarefa brutal deu origem a uma figura central e sombria: o bugreiro, o caçador de indígenas. O "ofício do bugreiro", como descreve Wartha, era uma ferramenta de engenharia socioambiental. Sua função ia além da violência: era uma estratégia para "sanitizar" a paisagem, praticando um verdadeiro ecocídio ao remover seus habitantes originários para que a terra pudesse ser redefinida, loteada e explorada. Essa prática era legitimada por um processo calculado: primeiro, os indígenas eram ideologicamente apagados pelo conceito de "Vazio Demográfico"; em seguida, à medida que a colonização se expandia, passavam a ser fisicamente combatidos.

A violência estava intrinsecamente ligada ao empreendimento colonial. O próprio fundador da Colônia Blumenau, Dr. Hermann Bruno Otto Blumenau, em 1850, solicitou proteção ao governo provincial contra os "assaltos dos índios bugres", evidenciando como a eliminação dos povos originários era vista como uma condição necessária para o progresso e a segurança dos colonos. 

O argumento central de Rodrigo Wartha é que a violência física foi acompanhada de uma poderosa violência simbólica: o ato de nomear. Termos pejorativos como "selvagem", "bugre" ou "botocudo" não eram meros xingamentos, eles eram ferramentas políticas para desumanizar e associar os Laklãnõ a uma natureza indomada, caótica e perigosa, que precisava ser controlada, retirada do território. Ao nomear o outro como "selvagem", o colonizador se posicionava como "civilizado" e legitimava suas ações. A dominação da floresta e a subjugação de seus povos tornavam-se, assim, parte da mesma missão "civilizatória". Esse processo de nomear, uma prática cultural, era o alicerce que sustentava a transformação ambiental e a expropriação territorial. O historiador Ronald Raminelli, citado por Wartha, sintetiza perfeitamente essa lógica:

No Brasil, o vocábulo fundamentou a conquista e os projetos coloniais: de um lado, os colonos e as tentativas de transformar o gentio em escravo; de outro, os jesuítas e a necessidade de convertê-los e submetê-los a uma tutela. As representações pictóricas do índio ressaltam os aspectos do barbarismo e reafirmam o estereótipo, servindo aos colonizadores como princípio moral para a intervenção na América. (RAMINELLI, 1996, p. 57).

O ápice desse processo de controle ocorreu com o chamado "Contato" de 1914, que deu início à sedentarização forçada do povo Laklãnõ. Sob a ótica da História Ambiental, este evento representa mais do que uma mudança social, ele representa uma profunda ruptura da condição sustentável e ecológica do indígena. A passagem de uma existência móvel, sazonal e integrada a um ecossistema vasto e diverso, para uma vida confinada em uma área demarcada, naquele momento chamada de reserva, alterou drasticamente tudo. Práticas de caça, coleta, rituais e a própria relação com o mundo natural foram irremediavelmente transformadas. Confinar os Laklãnõ em uma reserva não era apenas controlá-los socialmente, mas quebrar sua conexão milenar e metabólica com o território que lhes dava sustento e sentido. 

O artigo de Rodrigo Wartha, lido a partir de uma perspectiva ambiental, revela que a história do Vale do Itajaí é, em sua essência, a história de uma luta pela própria natureza da paisagem. Mostra que o projeto colonial não separava as pessoas do ambiente: nomear povos, controlar terras e transformar ecossistemas eram facetas de um mesmo processo de dominação. A história não termina, contudo, na subjugação. Hoje, a autoidentificação do povo como Laklãnõ é um poderoso ato de resistência. É a reafirmação de uma identidade e de uma conexão cósmica e ambiental que a colonização tentou apagar. O nome, segundo Nanblá Gakran, significa "gente do sol" ou "povo que vive onde nasce o sol", e, em uma definição complementar de Walderes Coctá Priprá, é o "povo que caminha em direção ao Sol ou povo do Sol". Fica aqui uma pergunta: ao olharmos para as paisagens que nos cercam hoje, que outras histórias de conflito, resistência e ressignificação estão escondidas sob os nomes de nossas cidades, rios e matas?

Foto facebook

Rodrigo Wartha é um historiador de destaque na pesquisa histórica, cultura e educação no Alto Vale do Itajaí, especialmente em Rio do Sul (SC). Graduado em História pela Fundação Universidade Regional de Blumenau (FURB), possui especialização em Educação, Diversidade e Cultura Indígena pela Escola Superior de Teologia (RS), mestrado em Desenvolvimento Regional pela FURB e doutorado em História pela Universidade do Estado de Santa Catarina (UDESC). Sua trajetória acadêmica é marcada por investigações sobre História Indígena, identidades, memória e imigração europeia, com ênfase nas relações históricas entre populações indígenas, especialmente o povo Laklãnõ/Xokleng, e os processos de colonização no Vale do Itajaí. Além da produção acadêmica, Wartha atua de forma consistente no campo da cultura e da preservação da memória histórica regional, atuando em espaços como ao Museu Histórico e Cultural e ao Arquivo Público Histórico do município de Rio do Sul, exercendo funções de pesquisa, organização de acervos e coordenação institucional. Participa de grupos de pesquisa e conselhos editoriais, colaborando com revistas e publicações voltadas à história regional. Também desenvolve e integra projetos culturais e educativos, muitos deles contemplados por editais públicos, voltados à difusão da história indígena e à implementação de políticas educacionais como a Lei nº 11.645/2008. Sua produção inclui artigos, livros e materiais didáticos que dialogam com o público acadêmico e não acadêmico, contribuindo para a democratização do conhecimento histórico. Ao articular pesquisa, atuação institucional e divulgação cultural, Rodrigo Wartha se afirma como um pesquisador comprometido com a construção de narrativas históricas críticas, sensíveis às disputas de memória e às múltiplas experiências sociais que moldaram a história do Vale do Itajaí e de Santa Catarina.

O texto desta postagem foi realizado a partir do estudo de Wartha, uma leitura fundamental para compreender histórica e antropologicamente a questão indígena no Vale do Itajaí. Acesse o estudo completo clicando aqui. Foram realizadas correções e adaptações do texto com uso de IA.

Referência:

WARTHA, Rodrigo. De selvagem a Xokleng: nomear para controlar. Revista Horizontes Históricos, [online], v. 8, n. 1, p. 72-86, jan./jun. 2024

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