Ao alcançarmos o marco de 2026, o Grupo de Pesquisas de História Ambiental do Vale do Itajaí (GPHAVI) celebra 22 anos de uma jornada que ampliou o campo de produção historiográfica da região com a dimensão ambiental. Vinculado à base de grupos do CNPq e à Universidade Regional de Blumenau (FURB), o grupo consolidou-se como um núcleo interdisciplinar fundamental para a compreensão das dinâmicas entre sociedade e natureza na região. Pioneiros na universidade, inseriram a historiografia ambiental, uma perspectiva que rompe com o antropocentrismo tradicional ao reconhecer o meio biofísico não apenas como um cenário passivo, mas como um agente histórico ativo que molda e é moldado pelas ações humanas ao longo do tempo, e que interagem e influência outras dimensões como a econômica, política, religiosa etc.
A fundação do GPHAVI, em 2004, foi o resultado de uma convergência entre o rigor acadêmico e as demandas institucionais de fomento à pesquisa. O embrião do grupo surgiu nas discussões das aulas de "Concentrado de Geografia Física", ministradas pelo Prof. Dr. Gilberto Friedenreich dos Santos. Foi ali que o então acadêmico Martin Stabel Garrote, que já tinha sua bagagem, percebeu um hiato temático no curso de História da FURB, havia falta de estudos que articulassem a problemática ambiental à trajetória do Vale do Itajaí. Eles existiam, muitos focados nas enchentes, mas sem abordar outros temas importantes da região, como o da colonização. Haviam estudos sobre enchentes, mas não com essa abordagem proposta pelo grupo de historiadores que desde 1970 passaram a denominar esse olhar de História Ambiental. A formalização do grupo foi impulsionada pela necessidade de preencher esse "vazio" e atender aos requisitos de bolsas de Iniciação Científica (PIBIC/CNPq), que exigiam o vínculo a um grupo certificado. Ao mesmo tempo o interesse do acadêmico em desenvolver a partir de uma Iniciação Científica uma problemática de pesquisa de história ambiental local, assim como a necessidade econômica da própria bolsa, um recurso que auxilia a permanência dos estudantes nas instituições e remunera o trabalho acadêmico.
O GPHAVI foi pioneiro na institucionalização da História Ambiental na FURB. Em um momento em que a área era praticamente desconhecida no departamento, o grupo abriu um novo e relevante campo de investigação, demonstrando que as questões socioambientais são centrais para a compreensão histórica do Vale do Itajaí. Ele provou que é possível e necessário estudar a relação entre sociedade e natureza, ocupação territorial, impactos ambientais e a história das unidades de conservação, como o Parque Nacional da Serra do Itajaí. Talvez, depois do CEMOP, tenha sido a iniciativa mais duradoura do curso.
Ao longo dessas duas décadas, a Iniciação Científica firmou-se como o pilar central do GPHAVI. Até 2020, o grupo já havia contabilizado 65 projetos de IC, além de 14 artigos em revistas especializadas. Esse volume de produção foi viabilizado por uma rede robusta de fomento, incluindo programas como PIPe/Artigo 170, PIBIC e FUMDES/Artigo 171, que garantiram a permanência e a formação crítica de dezenas de graduandos. Com o GPHAVI mais estudantes do curso tiveram acesso a bolsas de ICs, gerando um suporte financeiro decisivo para a manutenção de estudantes na universidade através de programas estaduais e federais. Com o GPHAVI o curso passou a ter 2 espaços laboratoriais, que além do CEMOP, que ja tinha um espaço, ganhou o espaço laboratorial (Sala R109): A conquista de uma infraestrutura física própria permitiu o processamento de acervos e a criação de um ambiente de colaboração permanente. É graças a essa conquista que hoje o curso de História tem o CPH - Centro de Pesquisas Históricas, um espaço que passa a abarcar os demais grupos do curso. Mas não foi só espaço, mesas, cadeiras, computadores e demais tecnologias que no percurso o grupo adquiriu com fomentos e patrocínios. E algo muito importante, a integração entre graduação e pós-graduação no curso, algo inédito em sua história. Hoje ampliado com os trabalhos dos colegas historiadores que no departamento do curso de História da FURB vincularam novos grupos de pesquisa, e passaram a participar de programas de pós graduação, ampliando essa rede. Mas o estopim foi com o professor Gilberto, a partir dele ocorreu pela primeira vez no curso a vinculação de pesquisas integrando o Programa de Pós-Graduação em Desenvolvimento Regional (PPGDR), e o Departamento de História e Geografia, e isso possibilitou um diálogo constante entre diferentes níveis acadêmicos, elevando a densidade teórica das pesquisas. Começamos com ICs, TCCs, e partimos para Dissertações e Teses.
A experiência do GPHAVI reside na aplicação de quadros teóricos fundamentais da História Ambiental global. O grupo articula as "três variações" de John Robert McNeill (Material, Cultural-Intelectual e Política) com as "três dimensões" de Donald Worster (organização da natureza, interação socioeconômica e planos mentais/valores). A tabela abaixo demonstra como esses conceitos são aplicados na prática das pesquisas do grupo:
O GPHAVI materializa o princípio da indissociabilidade universitária, conectando a pesquisa acadêmica a demandas sociais concretas da região. Alguns exemplos podem ser citados:
• Extensão e cidadania: A parceria com o Instituto Parque das Nascentes (IPAN) e a empresa Preserve Ambiental Ltda na campanha "Água e Óleo não Combinam" exemplifica essa atuação. O projeto transformou resíduos em biodiesel para frotas institucionais de biodiesel e apoiou diretamente a Escola Margarida Freygang.
• Regularização e direitos: Um dos marcos do grupo foi a pesquisa para o Quilombo do Morro do Boi. Utilizando a metodologia da História Oral, o grupo forneceu evidências histórico-territoriais fundamentais para o processo de regularização fundiária, unindo o ofício do historiador ao exercício da cidadania.
• Subsídios de conhecimentos em publicações que foram utilizados em movimentos sociais na luta pela conquista de terras indígenas na região do Vale do Itajaí pelo povo Laklano, região da Serra do Itajaí.
• Divulgação científica: O documentário "Memórias do Parque" e diversas exposições públicas levam o conhecimento científico para além dos muros acadêmicos, sensibilizando a comunidade sobre a importância do bioma.
O GPHAVI consolidou-se como o guardião da memória socioambiental do Vale do Itajaí. Seu acervo, físico e digital, conta com mais de 131 entrevistas transcritas, além de mapas e fotografias históricas. Este patrimônio institucional é vital para que a FURB se mantenha como referência nos estudos sobre a Mata Atlântica e a ocupação humana. Ao organizar e preservar relatos de comunidades como a Nova Rússia e o Faxinal do Bepe, entre outras comunidades e localidades da Serra do Itajaí o grupo assegura que a identidade regional seja compreendida através de suas raízes ecológicas.
Ao completar 22 anos em 2026, o GPHAVI reafirma seu legado como agente de transformação. Partindo da superação do "vazio" inicial em 2004, o grupo provou que a história não se limita aos feitos humanos isolados, mas abrange o que André Martinello define como a história da "morada dos seres vivos". O compromisso do GPHAVI para os próximos anos é continuar formando historiadores com consciência crítica e sensibilidade ambiental, garantindo que o passado do Vale do Itajaí sirva de bússola para um futuro regional mais sustentável e socialmente justo. A trajetória do grupo até aqui é a prova de que investigar a relação entre sociedade e natureza é, acima de tudo, uma vitória sobre o esquecimento.
Mas! Nada, contudo, é para sempre. O GPHAVI nasce do incentivo, do engajamento voluntário e da forte atuação intelectual dos pesquisadores como Martin e Vanessa, consolidando-se ao longo dos anos a partir do vínculo institucional do professor Gilberto, responsável por assegurar a permanência formal do grupo no interior da FURB. Ao longo dessa trajetória, o grupo contou ainda com a colaboração dos professores Nelson e Carlos, docentes do quadro efetivo da universidade, cujas trajetórias também integram essa construção coletiva.
É significativo observar que a imensa maioria das Iniciações Científicas vinculadas ao GPHAVI foi submetida formalmente em nome do professor Gilberto, embora grande parte dos projetos tenha sido concebida, redigida e acompanhada diretamente pelos pesquisadores Martin e Vanessa. Com a proximidade da aposentadoria do professor Gilberto, e considerando que os pesquisadores Martin e Vanessa não integram o quadro efetivo da FURB, colocam-se desafios concretos para a continuidade institucional do grupo. Ainda assim, abre-se a possibilidade de manutenção formal do GPHAVI por meio da atuação dos professores Nelson ou Carlos, garantindo a permanência do grupo no âmbito da universidade, ou não! Pois as principais agencias do grupo são as ICs e a Divulgação Científica de História Ambiental.
Independentemente do arranjo institucional que venha a se estabelecer, o pesquisador Martin continuará com a manutenção e atualização do blog do GPHAVI, que se consolida como o principal registro online de suas atividades, e uma das principais páginas de História Ambiental do país (Divulgação Científica e História Pública). Esse espaço virtual assume, a partir de agora, um papel estratégico, que além de divulgar pesquisas, eventos e reflexões, o blog será, gradualmente, o local de organização e disponibilização da base de dados produzida ao longo de mais de duas décadas de atuação do grupo, disponibilizando acesso a áudios e transcrições, e dos estudos produzidos, desde relatórios de IC, pesquisa com e sem fomento, e publicações diversas. Trata-se de um esforço consciente de preservação da memória acadêmica e de abertura do acervo à comunidade científica. Ao tornar públicos seus registros, fontes e resultados de pesquisa, o GPHAVI reafirma seu compromisso com a produção coletiva do conhecimento histórico, permitindo que outros pesquisadores possam dar continuidade, ou mesmo reinterpretar essa trajetória.
Assim, independentemente dos desafios e das incertezas que se colocam para o futuro, permanece o registro de mais de vinte anos de atuação contínua de um grupo que contribuiu de forma decisiva para o estímulo à produção historiográfica em História Ambiental, articulando pesquisas de forte enraizamento regional com debates de alcance nacional e mantendo viva a reflexão sobre as relações entre sociedade e natureza no Vale do Itajaí e para além dele.
Linha do tempo do GPHAVI – 22 anos de História Ambiental
2003–2004 | Gênese e fundação
No início dos anos 2000, em meio às inquietações de estudantes e pesquisadores do curso de História da FURB, especialmente nas disciplinas de Geografia Física e Geo-História, surge a proposta de criação do Grupo de Pesquisa em História Ambiental do Vale do Itajaí (GPHAVI). Formalizado em 2004, o grupo nasce como resposta a um vazio formativo: a ausência de uma abordagem histórica que tratasse a natureza como agente ativo dos processos históricos. Inspirado por autores como Warren Dean, o GPHAVI introduz de forma sistemática a História Ambiental no debate historiográfico local.
2004–2007 | Consolidação institucional inicial
Nos primeiros anos, o GPHAVI se estrutura a partir do engajamento voluntário de seus integrantes e do vínculo institucional garantido por docentes do quadro da FURB, especialmente o professor Gilberto. O grupo passa a funcionar como espaço regular de discussão, leitura e produção acadêmica, consolidando suas primeiras linhas de pesquisa no interior do Departamento de História e Geografia.
2005–2010 | Formação de pesquisadores e Iniciações Científicas
A partir de meados da década de 2000, o GPHAVI se consolida como núcleo formador de pesquisadores. Iniciações Científicas vinculadas ao grupo passam a ser desenvolvidas e submetidas a programas como PIBIC, Artigos 170 e 171 e editais internos da FURB. O grupo assume papel central na formação do estudante-pesquisador, articulando ensino e pesquisa de forma contínua.
2010–2015 | Expansão temática e territorial
Nesse período, as pesquisas do GPHAVI se expandem para além do espaço universitário, com forte enraizamento no Vale do Itajaí. Temas como florestas, rios, agricultura, unidades de conservação e o Parque Nacional da Serra do Itajaí passam a ocupar o centro das investigações. O grupo intensifica sua atuação extensionista, promovendo exposições, cine-debates, documentários e atividades abertas à comunidade, além de ampliar sua presença em eventos científicos regionais e nacionais.
2015–2020 | Articulação com a pós-graduação e redes de pesquisa
O GPHAVI aprofunda seu diálogo interdisciplinar ao se articular com o Programa de Pós-Graduação em Desenvolvimento Regional da FURB e com redes de pesquisa em História Ambiental no Brasil. Esse movimento amplia o alcance acadêmico do grupo, fortalecendo a interlocução entre História, Geografia, Ciências Ambientais e estudos sobre desenvolvimento.
2013–2021 | Inserção da História Ambiental no currículo
Ao longo da década de 2010, a atuação contínua do GPHAVI contribui de forma decisiva para a consolidação da História Ambiental como dimensão formativa no curso de História da FURB. Essa perspectiva passa a dialogar diretamente com os princípios do Projeto Pedagógico do Curso (PPC), como a Educação Ambiental, a formação crítica e a indissociabilidade entre ensino, pesquisa e extensão.
2020–presente | Memória, acervo e divulgação científica
Nos últimos anos, o grupo passa a investir de maneira sistemática na organização de sua memória institucional. O blog do GPHAVI se consolida como espaço central de registro, divulgação científica e preservação do acervo produzido ao longo de mais de duas décadas. Gradualmente, bases de dados, fontes e resultados de pesquisa passam a ser organizados e disponibilizados ao público. As iniciações científicas são o ponto forte, e a captação de recursos com fomentos públicos como FAPESC mantem vivas as pesquisas. Após a COVID-19, o Departamento de História acresceu em professores e grupos de pesquisa, e a sala R-109 que abrigava o grupo, mais o NEAB e NEPEMOS, deu espaço ao desenvolvimento do Centro de Pesquisas Históricas - CPH, integrando ao espaço além demais grupos dos professores do departamento, e formando um local de pesquisa para os estudantes do curso.
2024–2030 | Desafios de continuidade e legado
Com a proximidade da aposentadoria de docentes que garantiram a sustentação institucional do grupo, o GPHAVI entra em um momento de reflexão sobre sua continuidade formal. Ao mesmo tempo, reafirma-se o compromisso com a preservação de seu legado acadêmico, entendendo o grupo não apenas como uma estrutura institucional, mas como uma herança intelectual aberta, passível de continuidade, releitura e apropriação por novas gerações de pesquisadores.
Referências
GRUPO DE PESQUISAS DE HISTÓRIA AMBIENTAL DO VALE DO ITAJAÍ. Dia do Meio Ambiente e 12 anos de Grupo de Pesquisas de História Ambiental do Vale do Itajaí na FURB. GPHAVI, 5 jun. 2016. Disponível em:
https://gphavi.blogspot.com/2016/06/dia-do-meio-ambiente-e-12-anos-de-grupo.html
NAZÁRIO, Juliano João. GPHAVI: A contribuição de um grupo de pesquisa para a História Ambiental. Blumenau: FURB, 2021
UNIVERSIDADE REGIONAL DE BLUMENAU (FURB). Projeto Político-Pedagógico – PPC: Curso de História. Blumenau: FURB, 2021
UNIVERSIDADE REGIONAL DE BLUMENAU (FURB). Curso de História: apresentação. Disponível em: https://www.furb.br/web/1787/cursos/graduacao/cursos/historia/apresentacao
Texto elaborado por Martin, e que passou por correções e melhorias ortográficas com o uso de IA (ChatGPT).
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