"Eu sou o que me cerca. Se eu não preservar o que me cerca, eu não me preservo".
José Ortega y Gasset

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2026

Em 1930, um jornal refletiu sobre o futuro da exportação de madeira e o reflorestamento em Blumenau

Nesta postagem analisamos o texto “O futuro da nossa exportação de madeira e a preocupação com o reflorestamento”, reproduzido na revista Blumenau em Cadernos, n. 02, Tomo XXXI, de 1990. O texto original foi retirado do periódico O Mercado de Madeiras, órgão da Liga das Serrarias de Blumenau, em seu número 3, ano 1, publicado em 1930. Trata-se de um fragmento de texto assinado apenas pelas iniciais “E. G.”, cuja autoria permanece indefinida (faltou a pesquisa para identificar - se alguém souber coloca nos comentários), mas que oferece pistas valiosas para enriquecer uma história ambiental da exploração madeireira no Vale do Itajaí e, em particular, do passado de Blumenau. À primeira vista, o relato parece concentrar-se quase exclusivamente nas questões do desenvolvimento econômico regional, descrevendo a dinâmica da exportação de madeira, os desafios logísticos do transporte e a competição entre diferentes modais e regiões produtoras. Essa ênfase reforça a centralidade da madeira como base material da economia local nas primeiras décadas do século XX. No entanto, é justamente nas linhas finais do texto que emerge um elemento surpreendente: uma preocupação explícita com o futuro das florestas e com a necessidade do reflorestamento. Essa observação, aparentemente marginal, revela que a noção de finitude dos recursos naturais já fazia parte do debate público, mesmo em um contexto fortemente marcado pela ideologia do progresso e pela expansão da exploração florestal.

Ao analisar esse breve relato, esta postagem propõe demonstrar como fontes oriundas da imprensa econômica e industrial podem ser mobilizadas como documentos relevantes para a História Ambiental, evidenciando que a consciência dos limites ecológicos não é uma invenção recente, mas já estava presente — ainda que de forma contraditória — nos discursos que sustentaram o avanço econômico regional.

Na fonte, o autor "E. G." descreve um cenário econômico pulsante, centrado na exportação de tábuas e marcado por uma "concorrência viva" em sua logística. Duas rotas principais disputavam o escoamento da produção: A rota ferroviária, transporte direto por trem de Blumenau até o porto de Itajaí. E a rota híbrida ferro-fluvial, um trajeto mais curto de trem da estação de Itoupava Seca até Gaspar, onde ocorria a baldeação (transferência) da carga para barcos que seguiam pelo rio.

A madeira, proveniente das "extensas florestas de pinheiros no planalto", era a mola propulsora dessa atividade. O autor previa o sucesso da rota híbrida, pois a navegação fluvial a partir de Gaspar era mais barata, em grande parte pela "distância muito reduzida" de apenas 15 quilômetros. Diante da competição, "E. G." não hesita em projetar: "Penso que sairá vitoriosa a navegação fluvial."

O otimismo com o futuro de Blumenau é palpável no texto. "E. G." antecipa que, com o prolongamento da estrada de ferro em direção ao planalto, a cidade se tornaria "uma das principais praças do Estado". É exatamente nesse ponto, no auge da expectativa de progresso, que o autor introduz um ponto de virada: um alerta que soa quase profético para os leitores de hoje. Com um parágrafo que rompe com o tom puramente econômico, ele adverte: 

Mas não nos esqueçamos da fonte da nossa riqueza, das extensas florestas de pinheiros no planalto não nos esqueçamos de protegê-las por uma lei que regulamente e determine o reflorestamento. Do contrário, a magnificência do nosso desenvolvimento econômico será efêmera.

O significado desta advertência é claro e poderoso. O autor estabelece uma conexão direta entre a continuidade da prosperidade econômica e a sustentabilidade ambiental. A escolha da palavra "efêmera" é particularmente reveladora, o desenvolvimento sem a proteção da "fonte da riqueza" não seria apenas interrompido, mas sua grandiosidade seria fugaz e ilusória. O que você acha?

Um pequeno trecho como este é uma fonte de imenso valor para a pesquisas em história ambiental, pois revela as complexas raízes do pensamento socioecológico no Brasil.  O texto demonstra uma percepção precoce da finitude dos recursos. No entanto, não se trata de um apelo à preservação da natureza por seu valor intrínseco, mas sim de um exemplo clássico de conservacionismo utilitário: a ideia de que os recursos devem ser geridos de forma racional para garantir sua exploração econômica contínua. A floresta deveria ser protegida para que a "fonte da nossa riqueza" não se esgotasse. Para um historiador, é crucial quando uma fonte identifica a base material da economia. O autor aponta sem rodeios para as "extensas florestas de pinheiros" como o alicerce da riqueza em uma fronteira de recursos. Isso nos permite compreender qual elemento natural moldou a sociedade, a economia e a própria paisagem da região. 

"E. G." propõe uma solução institucional: uma "lei que regulamente e determine o reflorestamento". Este chamado por intervenção estatal é um vislumbre notável do pensamento sobre governança ambiental, especialmente no contexto da Primeira República, período em que o Estado brasileiro começava a consolidar seu controle sobre o território e seus recursos naturais. O autor apela ao orgulho cívico para justificar sua proposta. Ele menciona que Blumenau, como "primeiro município modelo, do Brasil", teria a "obrigação moral" de agir de forma exemplar na gestão florestal. A ação não seria apenas para o bem local, mas também "em prol da grandeza da nossa pátria Brasil", conectando a responsabilidade ambiental a um projeto de identidade e orgulho nacional.

O pequeno trecho assinado por "E. G." pode ser muito mais explorado, e esse tema, a história ambiental da exploração da madeira, é fundamental para compreender a História Ambiental local. Assim o texto é uma fonte valiosa para verificarmos a mentalidade de uma época, revelando que a euforia do desenvolvimento econômico caminhava lado a lado com uma nascente consciência sobre seus limites ecológicos. Mais de um século depois, o alerta de "E. G." sobre uma riqueza "efêmera" ecoa com uma urgência renovada. Fontes históricas como esta são essenciais, pois nos mostram que os debates atuais sobre a sustentabilidade do agronegócio, o desmatamento na Amazônia e a finitude da riqueza natural do Brasil não são novos. Eles são a continuação de um diálogo antigo, lembrando-nos que os avisos sobre a necessidade de proteger nossos recursos ecoam há muito tempo em nossa história, aguardando para serem, finalmente, ouvidos.

Se quiser conhecer a fonte analisada, clique aqui para acessar. Este texto passou por revisão e adaptações realizadas por IA

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