"Eu sou o que me cerca. Se eu não preservar o que me cerca, eu não me preservo".
José Ortega y Gasset

quinta-feira, 9 de julho de 2026

Entre peraus e lajes: a memória ambiental de um morador de Braço Salão em Apiúna.

Braço Salão- Apiúna
A história ambiental de uma região não se encerra em tratados geográficos ou mapas estáticos, ela pulsa na voz daqueles que sentiram o frio da geada na pele e o peso do machado nos braços. No Braço do Salão, em Apiúna, em plena Serra do Itajaí a narrativa de Luís Berkenbrock atua como uma ponte sobre os peraus do tempo, conectando o presente do Parque Nacional da Serra do Itajaí (PNSI) a um passado de florestas densas e transformações profundas. Luís, nascido em 1946 e filho de migrantes de Tubarão, é mais do que um morador endêmico,  ele é um guardião de uma micro-história que revela as tensões entre o território vivido e as imposições do desenvolvimento e da conservação.  Para o historiador ambiental, a memória oral é a ferramenta que preenche os silêncios dos documentos oficiais. Enquanto o Estado registra decretos de criação de parques, Luís recorda o som do macuco e o cheiro pungente das antigas fábricas de óleo de sassafrás. Sua vivência permite acessar o cotidiano de uma comunidade que, isolada pela topografia, desenvolveu uma relação simbiótica e, por vezes, conflituosa com a Mata Atlântica. Ao ouvir Luís, compreendemos que a paisagem atual do Vale do Itajaí é um palimpsesto, onde as marcas da colonização e da exploração madeireira ainda são visíveis sob o verde da regeneração florestal.

A ocupação do Braço do Salão foi ditada por um equívoco geográfico e pela dureza da terra. Os pais de Luís chegaram à região atraídos pela promessa de "vargens" (terras planas), mas o que encontraram foram os "peraus" encostas íngremes e acidentadas. O próprio nome da localidade carrega a marca da geologia: uma grande laje de pedra servia de abrigo e ponto de referência para os caçadores da época.

Lage de pedra que dá o nome de Braço Salão - Apiúna - SC


"Antigamente nem sei como era. Era salão, apelidaram de salão porque tem uma laje de pedra aqui né. Os caçador vinha ai, dai era salão né, eles iam caçar lá no salão."


Observamos como a topografia acidentada moldou não apenas o assentamento, mas a própria identidade social da comunidade. O isolamento imposto pelos peraus forçou a adoção de uma economia de subsistência baseada na força animal, onde o "cargueiro" (animal de carga) era o único elo de transporte possível. A geografia não foi um mero cenário, mas um agente ativo que marginalizou os colonos tardios, empurrando-os para as terras de difícil manejo "debaixo do perau".

A sobrevivência no Salão exigia uma leitura precisa dos ciclos climáticos. Luís recorda que o trabalho começava aos oito anos, em um cotidiano marcado pela produção de farinha em tafonas e de açúcar mascavo em engenhos de cana. Contudo, a natureza impunha limites severos: as geadas intensas de outrora "azedavam" a cana até o chão, e tentativas de diversificação, como uma experiência com arrozeiras, fracassavam diante do frio, o arroz crescia alto, mas "não dava baga" (grão).

"Fazia aipim, plantava mais no morro porque se plantava na terra baixa ele apodrecia, a geada matava muito né, daí a gente tinha que planta mais nas lomba."


O que movia o desenvolvimento local era o "Regime Orgânico", onde a energia provinha exclusivamente da biomassa e da força animal/humana. O "Metabolismo Social" dessa comunidade era estreitamente vinculado aos limites ecológicos: o plantio em "lombas" (morros) não era uma escolha aleatória, mas uma tecnologia de sobrevivência para fugir da umidade das baixadas e da geada. A tafona e o cargueiro definiam uma temporalidade de vida lenta, pautada pela autossuficiência e pelo conhecimento profundo das microvariações climáticas locais.

O relato de Luís evoca uma biodiversidade outrora vibrante, onde antas, veados e o piar constante do macuco faziam parte do cenário. A pesca era generosa em piavas, jundiás, traíras e lambaris nos poços dos ribeirões. Entretanto, essa fauna sofreu o impacto de trocas biológicas e pressões externas: Luís recorda a transição das abelhas "mansas" nativas para as "africanas", cujo temperamento agressivo gerava medo, e o declínio dos peixes, possivelmente devido ao uso de "veneno" (agrotóxicos) ou à pesca predatória.

Percebemos como a interação sociedade-natureza foi alterada por vetores externos. A caça, antes um elemento de subsistência local, tornou-se predatória com a chegada de grupos vindos de Blumenau e Apiúna, que desequilibravam o ecossistema. A presença de "pedrinhas de flecha" encontradas por Luís serve como um vestígio silencioso de um metabolismo social anterior (indígena), cujas formas de manejo da floresta foram obliteradas pela colonização europeia e sua lógica de extração.

Nas décadas de 1950 e 1960, a floresta do Braço do Salão foi tratada como um estoque inesgotável. O Sassafrás e a Canela eram os alvos principais, alimentando fábricas de óleo no Rio Novo e no Jundiázinho. O relato de Luís expõe a face perversa dessa exploração: a empresa do "Velho Nenê Schulz" (futura Valima) utilizou a madeira dos colonos para abrir estradas, lesando-os sistematicamente. O pai de Luís, que cedeu 50 dúzias de toras, viu a empresa levar 64 dúzias e jamais recebeu o pagamento prometido.

"O falecido pai deu cinquenta dúzia pra abrir a estrada... foram desmatando tudo do falecido pai, deu sessenta e quatro dúzia e ainda nem recebeu depois."


A exploração madeireira industrial alterou permanentemente a estrutura da Mata Atlântica local. Luís observa uma mudança sensorial e ecológica: a floresta original era "mais limpa por baixo", com árvores de grande porte que impediam a entrada de luz; após o corte raso, o solo foi invadido por taquaras e cipós, criando uma mata secundária de difícil acesso. Este processo ilustra como o motor econômico da madeira gerou uma transferência de riqueza da biodiversidade local para o capital industrial, deixando para o colono apenas o prejuízo e uma paisagem degradada.

A década de 1960 trouxe a Souza Cruz e a introdução da monocultura do fumo. Com ela, chegou o eucalipto, incentivado para fornecer lenha rápida para as estufas, substituindo a madeira nativa que escasseava. Para Luís, o eucalipto nunca teve a nobreza da mata original, sendo descrito como "umas porcaria de pauzinho" que sequer servia para rachar como lenha de qualidade.

A chegada do eucalipto representa a modernização agrícola discutida por McNeill. Trata-se da simplificação da paisagem: a substituição de uma floresta diversa por uma monocultura exótica voltada a servir à indústria global do tabaco. Essa mudança alterou o uso do solo e a percepção estética da região, inserindo o Braço do Salão em uma lógica de mercado que priorizava a produtividade industrial em detrimento das qualidades ecológicas e culturais das espécies nativas.

A criação do Parque Nacional da Serra do Itajaí trouxe um novo paradigma. Luís observa o retorno de animais que haviam sumido e uma mudança na mentalidade comunitária. Se antes a mata era obstáculo ou recurso, hoje há uma consciência de que a preservação das "beiradas de rio" é vital. Embora crítico à falta de cuidados estatais e à exploração de palmito por terceiros dentro do parque, ele reconhece que a proteção da floresta é, em última análise, a proteção da água.

Na terceira dimensão de Worster (Cultura e Percepção), identificamos uma evolução ética. O valor atribuído à floresta transitou da extração imediata para a sustentabilidade hídrica. A prática de não mais derrubar mata ciliar demonstra que a comunidade, após décadas de exploração predatória, internalizou a floresta como um bem comum essencial para a manutenção da vida e da agricultura em um cenário de ribeirões cada vez mais rasos.

Juliano, Kayuã e Luiz no registro da entrevista
A narrativa de Luís Berkenbrock é um testemunho vital da História Ambiental do Vale do Itajaí. Ela preenche as lacunas que as estatísticas ignoram: a dor da exploração sofrida pelo pai, a frustração com o arroz que não floresce no frio e a percepção de uma floresta que mudou de textura. Através de sua memória, compreendemos que a conservação não é apenas um ato burocrático, mas uma resposta necessária a um século de cicatrizes. Sua história nos ensina que a paisagem é uma construção humana e natural em constante diálogo. O Braço do Salão, com suas lajes e peraus, continua a contar sua história através daqueles que, como Luís, escolheram cuidar do que restou.

A história apresentada neste texto tem como fonte uma entrevista de História Oral realizada em 2018 com Luís Berkenbrock, morador da comunidade de Braço do Salão, em Apiúna (SC). O relato integra o acervo produzido pelo projeto de Iniciação Científica História e Desenvolvimento no Entorno do Parque Nacional da Serra do Itajaí em Apiúna, Presidente Nereu e Vidal Ramos (SC). A pesquisa foi desenvolvida com o apoio de dois bolsistas e contou com financiamento do Programa UNIEDU/FUMDES, por meio dos recursos do Artigo 171 da Constituição do Estado de Santa Catarina.

A partir da transcrição da entrevista, foi elaborado um resumo do relato, que serviu de base para a construção desta narrativa. Para organizar as informações, identificar temas recorrentes e adaptar o conteúdo ao formato de divulgação científica, foram utilizadas as ferramentas NotebookLM e ChatGPT. O texto final foi revisado pelos pesquisadores, buscando preservar a fidelidade ao depoimento do entrevistado e, ao mesmo tempo, apresentar uma narrativa acessível ao público interessado na história ambiental da região.

Fonte: BERKENBROCK, Luís. (Depoimento oral, 21/06/2018). Local da Entrevista: Comunidade de Braço do Salão - Apiúna, Grupo de Pesquisa de História Ambiental do Vale do Itajaí - GPHAVI - FURB, 23/06/2018, 25p.

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