"Eu sou o que me cerca. Se eu não preservar o que me cerca, eu não me preservo".
José Ortega y Gasset

terça-feira, 28 de julho de 2026

Tatus, as Tifas e a invenção da Tatutiba em Blumenau

Imagem da resvista
A toponímia atua como um repositório de camadas históricas, revelando processos de ocupação territorial e a percepção humana sobre o meio ambiente. Em Blumenau, o termo Tatutiba exemplifica uma tensão linguística que mascara a realidade da fronteira colonial. À primeira vista, a sonoridade sugere uma raiz estritamente indígena, mas neste documento temos uma origem distinta, vinculada à técnica de agrimensura germânica e à interação com a fauna local. Esse fenômeno demonstra como nomes de lugares frequentemente escondem processos de nacionalização administrativa e a transformação da paisagem.

Nossa análise fundamenta-se na crônica intitulada As Três Tatutibas (Na imagem), publicada em 1957 no Tomo I, nº 1 da revista Blumenau em Cadernos, página 8. Trata-se de uma crônica etimológica e histórica de autor não identificado, que compõe o acervo documental sobre a ocupação do Vale do Itajaí. Este documento pode ser examinado como um registro de História Ambiental, no qual a natureza e a técnica humana se fundem. Quero convidar você a analisar este texto não como uma curiosidade linguística, mas como a documentação de uma grade geométrica imposta ao território biológico, onde a agência da fauna e o rigor da medição de terras organizaram o espaço habitado. E caso o leitor tenha registro de uma outra versão, coloque nos comentários para ampliarmos o conhecimento sobre esse topônimo.

Esse termo na Geografia aparece com Yi-Fu Tuan, que diz que o topônimo é muito mais que um rótulo, ou marcador linguístico, ele é um elemento que transforma o espaço abstrato em um lugar carregado de valores humanos. Quando um ser humano batiza um lugar geográfico ele expressa sua bagagem cultural, carregado nas memórias construídas na vivência, construindo um elo, uma topofilia, um nome de um ugar que funciona como um centro de significados. E parece que com essa fonte temos isso sendo produzido a partir do olhar do colonizador. 

Imagem gerada com IA

Na região de Itoupava Central temos a presença do tatu (Dasypodidae), e esse fator foi determinante para a nomeação original das três linhas coloniais que partiam da estrada principal. Sob a ótica de Donald Worster, a natureza é percebida através de filtros culturais e técnicos, e nesse caso, a abundância do animal, descrito na fonte pelo termo zoológico de época como o conhecido desdentado, determinou o primeiro elemento do nome. O documento esclarece a confusão etimológica: Os que não conhecem certas particularidades da vida de Blumenau, julgarão que TATUTIBA [...] seja de origem indígena. Viria de "tatu", o conhecido desdentado e "tiba" que, em tupi, significa "muito", "grande quantidade". Assim, Tatutiba seria "lugar de muitos tatus". Mas não é nada disso. A agência do tatu manifestou-se na interação cotidiana dos colonos que, ao abrirem clareiras para sua sobrevivência física e econômica, encontraram no animal um marco biológico tão onipresente que ele se tornou indissociável da identificação geográfica do território em expansão.

Também, ao desbravar as matas, os antigos frequentemente se orientavam seguindo os caminhos naturalmente abertos por animais como os tatus. Este conhecimento empírico específico sobre o uso de rastros e trajetórias faunísticas para a abertura de picadas em vegetação densa integra o Conhecimento Ecológico Local (CEL) e o Conhecimento Tradicional de povos ameríndios, sertanejos e caiçaras. Comumente registrada em relatos etnográficos e estudos de etnozoologia sobre técnicas de caça e locomoção florestal, essa prática reflete o modo como grupos humanos decodificam o comportamento animal para circular pelo território. Esse processo de orientação e territorialidade é academicamente respaldado por Matta (2016), em sua tese Modos ameríndios de conhecer as florestas: produção de relações e percepções, defendida na Universidade de São Paulo sob orientação de Dominique Tilkin Gallois, onde a autora investiga justamente as formas de circulação, saberes vegetais e a produção de relações espaciais que moldam o entendimento indígena sobre o ambiente florestal.

Mas o relato proposto na fonte, apresenta como gênese real do termo a palavra germânica Tiefe, que designava as linhas de penetração situadas nos fundos dos lotes coloniais. O termo sofreu um processo de adaptação fonética, transformando-se no vocábulo regional tifa. As tifas operaram como o mecanismo de interiorização da fronteira móvel, representando uma intervenção física direta na cobertura florestal remanescente. A tifa era a materialização da técnica de agrimensura alemã sobre a mata fechada, transformando o caos biológico em eixos organizados de produção e moradia. A Tatu-tiefe era, portanto, uma unidade de planejamento territorial onde a descrição zoológica (tatu) se fundia à profundidade geométrica do lote (Tiefe), estabelecendo uma estrutura que permitia a fragmentação e ocupação sistemática do solo.

O processo de abrasileiramento transformou a denominação técnica Tatu-tiefe na forma oficial Tatutiba? Parece que sim. Essa versão em pesquisa rápida também foi encontrada no Blog da Angelina e no portal da Prefeitura de Blumenau, Tatutiba origina-se da expressão alemã "Tatu-Tiefe", adaptada foneticamente de caminhos abertos por imigrantes. O registro da Prefeitura de Blumenau também menciona uma interpretação popular em tupi-guarani, traduzindo o termo como "lugar de muitos tatus". Saiba mais no Blog da Angelina e na Prefeitura de Blumenau.

Este hibridismo cultural é revelador de um projeto político de ocupação. Ao adotar uma sonoridade que emula o Tupi, os órgãos oficiais realizavam uma forma de nacionalizar o território. Paradoxalmente, enquanto o nome soava indígena para conferir uma identidade brasileira administrativa aos mapas, a realidade técnica era alemã e a origem biológica local. A fonte apresenta uma versão dessa Historia, e ela prioriza a transição da herança alemã para a administração formal, tratando a raiz indígena apenas como uma possibilidade etimológica a ser descartada, o que apaga as camadas históricas das populações originárias que habitavam o Vale. A transição é descrita na fonte como um movimento em direção à oficialidade: Tifa do Tatu, ou Tatu-tiefe, como as chamam ainda os alemães e seus descendentes que povoam os seus lotes. Já nos mapas oficiais do município, elas figuram como brasileiríssimas Tatutibas.

A trajetória do nome Tatutiba funciona como um fóssil linguístico das interações entre humanos e o meio ambiente. Ela sintetiza o momento em que a agência de um animal silvestre e a necessidade de expansão da fronteira agrícola definiram o horizonte dos pioneiros. Para a História Ambiental, a fonte demonstra como a toponímia preserva a memória de ecossistemas transformados pela técnica de ocupação. As agências naturais continuam ocultas nos nomes das ruas e bairros contemporâneos, muitas vezes sob a aparência de termos naturais ou nacionais que silenciam conflitos e processos de colonização. Identificar se há tatus ou outras marcas biológicas e técnicas escondidas na geografia urbana atual é um exercício necessário para compreender a profundidade histórica das paisagens que habitamos.

Este texto foi corrigido, e adaptado com o uso de IA. A sua fonte original consta na imagem, mas pode ser acessada clicando aqui.

Referência:

AS TRÊS Tatutibas. Blumenau em Cadernos, Blumenau, tomo I, n. 1, p. 8, 1957


segunda-feira, 20 de julho de 2026

Israel Antigo e o meio ambiente no olhar de J. Donald Hughes

Diante da urgência da crise climática contemporânea, penso: de onde vem essa cultura de exploração desenfreada? Frequentemente me deparo com a tradição judaico-cristã. Seria "vilã" da natureza? Tendo fornecido o salvo-conduto teológico para a exploração desenfreada do planeta? Mas será que essa narrativa resiste a uma análise rigorosa das fontes? Seria o conceito de "domínio" uma licença para destruir ou um chamado à responsabilidade? 

Este tema já foi discutido no passado recente e convido você a mergulhar em uma postagem sobre as raízes do pensamento monoteísta e sua complexa relação com o mundo natural, tendo como base o trabalho de J. Donald Hughes, especificamente sua análise em Ecology in Ancient Civilizations (1975), capítulo 5 Ancient Israel and the environmental ancient. Para o autor, embora o Israel antigo fosse um território minúsculo, espremido entre colossos imperiais e constantemente devastado por guerras, seu sistema de pensamento gerou ondas de choque que ainda definem o comportamento global. Através do judaísmo, do cristianismo e do islamismo, a visão israelita sobre a terra tornou-se a lente pela qual grande parte da humanidade enxerga o meio ambiente. Entender esse povo é, portanto, entender a nossa própria conduta ética frente aos ecossistemas que nos sustentam.

A grande ruptura de Israel com seus vizinhos residiu no monoteísmo ético. Enquanto os povos ao redor divinizavam os elementos, adorando o sol, a tempestade ou a própria fertilidade do solo, os judeus conceberam um Deus transcendente. Ele era o Criador, mas não a criatura. Como descreve Hughes, Deus "podia cavalgar sobre a tempestade, mas não era a tempestade". Essa desmistificação alterou profundamente o que chamamos na ecologia histórica de metabolismo sociedade-natureza. Esse conceito descreve como uma sociedade organiza suas trocas de matéria e energia com o meio. Em Israel, esse metabolismo era mediado pela ética. A natureza não era um objeto de adoração cega, mas uma evidência da majestade divina, um palco onde a conduta humana era posta à prova.

Ao contrário do que sugerem certas críticas modernas, os judeus amavam a natureza e nela viam uma beleza arrebatadora. O "amor à natureza" não era estranho a eles e pode ser notado na lírica do Cântico dos Cânticos, onde a primavera é celebrada com doçura: "As flores aparecem na terra, chegou o tempo do canto... a figueira produz seus figos". No Salmo 104 e no livro de Jó, vemos um Criador que se deleita com Suas criaturas, dando-lhes alimento na estação própria. Para o israelita, o mundo era intrinsecamente "muito bom", uma visão que rejeitava qualquer dualismo que visse a matéria como maléfica.

Essa visão de bondade original nos leva ao polêmico conceito de "domínio" em Gênesis 1:28. Hughes é enfático ao afirmar que para os antigos judeus, esse termo jamais significou exploração predatória. O ser humano era visto como um "vice-rei" ou zelador (stewardship), ocupando uma posição subordinada à soberania final de Deus. A tarefa humana original, no Jardim do Éden, era "cultivar e guardar" um mundo ainda não deteriorado. A "Queda" do homem, inclusive, é narrada como tendo consequências ecológicas imediatas: a terra passa a produzir "espinhos e cardos", tornando-se um comentário moral sobre a falha humana.

Essa ética de zeladoria se traduzia em leis práticas e surpreendentemente avançadas para a época: 
- O descanso sabático: A pausa semanal obrigatória estendia-se aos animais domésticos, garantindo-lhes fôlego.
- O Ano Sabático: A cada sete anos, a terra deveria repousar de forma absoluta, e o que crescesse espontaneamente pertencia aos necessitados.
- Preservação de recursos: Hughes menciona que certas árvores eram preservadas do uso humano, e havia proibições estritas contra a crueldade animal — como a proibição de amordaçar o boi que trabalha ou colher uma ave junto de sua ninhada.
- Higiene e Pureza: Regras rígidas para a eliminação de resíduos e a proteção de nascentes contra a contaminação.

No plano econômico, Hughes identifica tensões fascinantes entre modos de vida. O conflito entre Abel (pastor) e Caim (agricultor) ilustra a transição de sociedades, mas revela também uma hostilidade latente entre as culturas urbanas e rurais. No entanto, o trabalho na terra era dignificado; de reis como Uzias dizia-se que "amava o solo". Como viviam em uma região sem os grandes sistemas fluviais do Egito ou da Mesopotâmia, os judeus dependiam inteiramente das chuvas sazonais — o que levava os egípcios a observar, com surpresa, que Israel tinha o seu "Nilo no céu". Isso exigiu o desenvolvimento de uma engenharia hidráulica meticulosa, com cisternas e barragens para conservar cada gota da bênção celeste.

É aqui que chegamos ao ponto mais crítico da análise de Hughes e onde o silêncio histórico costuma ser mais ruidoso. Frequentemente culpa-se a teologia bíblica pela degradação da "Terra Santa". Todavia, o registro histórico revela que a erosão, o desmatamento e o esgotamento do solo foram frutos de séculos de campanhas militares devastadoras e da exploração extrativista de impérios conquistadores, e não necessariamente das práticas agrícolas locais. A terra "pranteava" quando a justiça social e política falhava.

Concluo esta reflexão reforçando que o pensamento ocidental posterior distorceu o "domínio" bíblico, transformando-o em uma ferramenta do capitalismo extrativista que os antigos profetas dificilmente reconheceriam. A História Ambiental nos ensina que as relações entre sociedade e natureza são construções políticas e éticas. O legado de Israel antigo não é um manifesto para o consumo, mas um lembrete de que a saúde do ecossistema é o espelho da nossa conduta moral.

Se o domínio sobre a Terra foi concedido como uma tarefa de zeladoria para um "vice-rei", resta-nos perguntar: como a nossa atual estrutura social e nossas crenças silenciosas estão nos conduzindo na gestão desse jardim que nos resta? Estamos agindo como zeladores de uma herança divina ou como saqueadores de um espólio que não nos pertence?

Estamos analisando em nossas postagens essa grande obra, e se você chegou até aqui, acesse o capítulo 5 clicando aqui. Este texto foi corrigido e adaptado com o uso de IA

sexta-feira, 17 de julho de 2026

História Ambiental e Desenvolvimento Sustentável: o passado como ferramenta para projetar o futuro

Muitas vezes me pego refletindo sobre a perigosa insistência em um modelo de desenvolvimento que, embora tenha mais de 230 anos de fundamentação teórica, foca quase exclusivamente no crescimento econômico ilimitado. Como bem apontam Seabra e seus colaboradores, apesar de séculos reforçando essa tese, o mundo permanece predominantemente pobre e desigual. O resultado dessa escolha é um colapso evidente nas relações entre a natureza e a sociedade. Diante de uma crise global que não é apenas ecológica, mas civilizatória, lanço a pergunta: como podemos planejar um futuro sustentável se ignoramos as pegadas de destruição que deixamos no caminho?

Para desatar esse nó, recorro ao trabalho fundamental de Martin Stabel Garrote, pesquisador vinculado ao Grupo de Pesquisas de História Ambiental do Vale do Itajaí (GPHAVI) da Universidade Regional de Blumenau (FURB). Seu artigo, publicado na revista tecno-científica Dynamis, propõe uma mudança de paradigma: o historiador não deve ser um mero espectador do passado, mas um agente estratégico na elaboração de agendas públicas. O trabalho de Garrote, fruto das discussões do GPHAVI, demonstra que a historiografia ambiental é o "olhar clínico" que falta aos gestores. Para o cidadão comum, entender essa ciência é compreender que a crise atual não é um acidente do destino, mas um processo construído.

A História Ambiental surge de um descontentamento profundo. Donald Worster, um dos pilares dessa disciplina, explica que ela nasceu para confrontar a história tradicional, que via os seres humanos como seres "supernaturais" — como se fôssemos independentes das leis biológicas. Essa visão "inocente" foi o que alimentou a ilusão do crescimento infinito. Para nós, historiadores ambientais, a sociedade não existe sem uma ancoragem no mundo natural. Como defende Enrique Leff, precisamos de uma racionalidade ambiental que entenda a hibridização entre processos sociais e naturais. Não somos externos ao planeta; somos parte dele.

Baseando-me nas lições de José Augusto Drummond, a História Ambiental se organiza através de uma metodologia rigorosa que deveria ser a base de qualquer plano de governo:

-Ênfase Regional: Foca em territórios com identidade natural e social própria, onde os processos são geograficamente circunscritos.

-Diálogo Interdisciplinar: Estabelece pontes entre a ecologia, a biologia e as ciências sociais para entender o cenário completo.

-Interação com Recursos Naturais: Analisa como diferentes civilizações lidaram com o que a natureza oferece, transformando o útil e o "inútil" em cultura e economia.

-Pesquisa em Fontes Tradicionais: Vasculha censos, inventários e registros de viajantes para reconstruir a trajetória da degradação.

-Trabalho de Campo: Exige que o pesquisador saia do gabinete e sinta o terreno, coletando dados onde a história realmente aconteceu.

Para que esse conhecimento não seja apenas contemplativo, utilizo o conceito de redução sociológica de Alberto Guerreiro Ramos. Esse método nos permite "filtrar" os fatos sociais, compreendendo sua natureza histórica e local em vez de importar modelos prontos. No Vale do Itajaí, por exemplo, o uso da memória oral — como no estudo sobre a "Nova Rússia" citado por Garrote — revela como a degradação avançou sobre as nascentes.

A historiografia ambiental fornece indicadores de práticas errôneas. Se os registros históricos e a memória oral mostram que determinado modelo de exploração da biodiversidade levou à escassez ou a desastres no passado, por que insistir neles hoje? A história, aqui, é uma evidência empírica para rejeitar modelos de desenvolvimento predatórios.

O Estado, como definiu Engels, é um produto das contradições sociais que deve atuar para evitar que a sociedade se autodestrua em seus próprios conflitos. Na gestão ambiental, ele é o gestor por excelência. No entanto, enfrentamos o que Diniz descreve como o "enclausuramento" das elites burocráticas sob a hegemonia neoliberal. Esse pensamento tentou reduzir o Estado a uma tecnocracia isolada, enfraquecendo sua estrutura e afastando o cidadão do processo decisório. Contra esse isolamento, defendemos uma Gestão Participativa. O desenvolvimento real não pode ser medido apenas por índices de PIB, mas pelo que Ignacy Sachs chama de Ecodesenvolvimento, que deve garantir cinco dimensões essenciais: social, econômica, ecológica, cultural e espacial. Sem o equilíbrio desses cinco pilares, o desenvolvimento é apenas um "mau desenvolvimento".

Uma "agenda" de política pública é o campo de batalha onde problemas sociais são transformados em prioridades do Estado. Para que a sustentabilidade não seja apenas um discurso vazio, o historiador ambiental deve estar na mesa de planejamento. Nossa função é fornecer o lastro histórico para a tomada de decisão. A participação do historiador garante que a relação entre natureza e sociedade seja compreendida em sua complexidade. Somos nós que apontamos que a escassez de água atual é fruto de uma ocupação desenfreada iniciada há décadas, e não um fenômeno "natural".

A História Ambiental ganhou força nos anos 70, impulsionada pela crise do petróleo e pelo despertar de uma consciência global que culminou em marcos como o Ato da Política Nacional para o Meio Ambiente (NEPA) de 1969. Hoje, os desafios são a perda de biodiversidade e a emergência climática. Esses problemas são frutos de processos históricos de apropriação da natureza. Entender como chegamos aqui é o primeiro passo para resignificar nossa concepção de tempo e sustentabilidade. A história nos ensina que o que foi construído pelo homem pode, e deve ser transformado pela política.

O artigo de Martin Stabel Garrote e as pesquisas do GPHAVI nos deixam uma lição clara: a História Ambiental é uma ferramenta de sobrevivência no antropoceno. Ela nos oferece os dados necessários para transformar a gestão pública em um compromisso real com a vida. Convido você a observar o seu entorno, seja no Vale do Itajaí ou em qualquer região deste país. 

As políticas públicas aplicadas na sua cidade estão aprendendo com os erros do passado ou estão apenas repetindo ciclos de degradação em nome de um crescimento passageiro? 

O passado já nos deu os indicadores e cabe a nós, como cidadãos e agentes políticos, decidir se teremos a coragem de aplicar essa nova racionalidade ambiental antes que o próximo colapso se torne inevitável. Covidamos você para conhecer nosso vídeo (é amador) sobre o Antropoceno, clique aqui. Este texto foi corrigido e adaptado por IA. Mas o estudo completo de Garrote pode ser acessado clicando aqui.

Referência:

GARROTE, Martin Stabel. A contribuição da história ambiental como ferramenta de elaboração de políticas públicas para o desenvolvimento sustentável. Dynamis, Blumenau, v. 15, n. 3, p. 10-17, 2009.

quinta-feira, 9 de julho de 2026

Entre peraus e lajes: a memória ambiental de um morador de Braço Salão em Apiúna.

Braço Salão- Apiúna
A história ambiental de uma região não se encerra em tratados geográficos ou mapas estáticos, ela pulsa na voz daqueles que sentiram o frio da geada na pele e o peso do machado nos braços. No Braço do Salão, em Apiúna, em plena Serra do Itajaí a narrativa de Luís Berkenbrock atua como uma ponte sobre os peraus do tempo, conectando o presente do Parque Nacional da Serra do Itajaí (PNSI) a um passado de florestas densas e transformações profundas. Luís, nascido em 1946 e filho de migrantes de Tubarão, é mais do que um morador endêmico,  ele é um guardião de uma micro-história que revela as tensões entre o território vivido e as imposições do desenvolvimento e da conservação.  Para o historiador ambiental, a memória oral é a ferramenta que preenche os silêncios dos documentos oficiais. Enquanto o Estado registra decretos de criação de parques, Luís recorda o som do macuco e o cheiro pungente das antigas fábricas de óleo de sassafrás. Sua vivência permite acessar o cotidiano de uma comunidade que, isolada pela topografia, desenvolveu uma relação simbiótica e, por vezes, conflituosa com a Mata Atlântica. Ao ouvir Luís, compreendemos que a paisagem atual do Vale do Itajaí é um palimpsesto, onde as marcas da colonização e da exploração madeireira ainda são visíveis sob o verde da regeneração florestal.

A ocupação do Braço do Salão foi ditada por um equívoco geográfico e pela dureza da terra. Os pais de Luís chegaram à região atraídos pela promessa de "vargens" (terras planas), mas o que encontraram foram os "peraus" encostas íngremes e acidentadas. O próprio nome da localidade carrega a marca da geologia: uma grande laje de pedra servia de abrigo e ponto de referência para os caçadores da época.

Lage de pedra que dá o nome de Braço Salão - Apiúna - SC


"Antigamente nem sei como era. Era salão, apelidaram de salão porque tem uma laje de pedra aqui né. Os caçador vinha ai, dai era salão né, eles iam caçar lá no salão."


Observamos como a topografia acidentada moldou não apenas o assentamento, mas a própria identidade social da comunidade. O isolamento imposto pelos peraus forçou a adoção de uma economia de subsistência baseada na força animal, onde o "cargueiro" (animal de carga) era o único elo de transporte possível. A geografia não foi um mero cenário, mas um agente ativo que marginalizou os colonos tardios, empurrando-os para as terras de difícil manejo "debaixo do perau".

A sobrevivência no Salão exigia uma leitura precisa dos ciclos climáticos. Luís recorda que o trabalho começava aos oito anos, em um cotidiano marcado pela produção de farinha em tafonas e de açúcar mascavo em engenhos de cana. Contudo, a natureza impunha limites severos: as geadas intensas de outrora "azedavam" a cana até o chão, e tentativas de diversificação, como uma experiência com arrozeiras, fracassavam diante do frio, o arroz crescia alto, mas "não dava baga" (grão).

"Fazia aipim, plantava mais no morro porque se plantava na terra baixa ele apodrecia, a geada matava muito né, daí a gente tinha que planta mais nas lomba."


O que movia o desenvolvimento local era o "Regime Orgânico", onde a energia provinha exclusivamente da biomassa e da força animal/humana. O "Metabolismo Social" dessa comunidade era estreitamente vinculado aos limites ecológicos: o plantio em "lombas" (morros) não era uma escolha aleatória, mas uma tecnologia de sobrevivência para fugir da umidade das baixadas e da geada. A tafona e o cargueiro definiam uma temporalidade de vida lenta, pautada pela autossuficiência e pelo conhecimento profundo das microvariações climáticas locais.

O relato de Luís evoca uma biodiversidade outrora vibrante, onde antas, veados e o piar constante do macuco faziam parte do cenário. A pesca era generosa em piavas, jundiás, traíras e lambaris nos poços dos ribeirões. Entretanto, essa fauna sofreu o impacto de trocas biológicas e pressões externas: Luís recorda a transição das abelhas "mansas" nativas para as "africanas", cujo temperamento agressivo gerava medo, e o declínio dos peixes, possivelmente devido ao uso de "veneno" (agrotóxicos) ou à pesca predatória.

Percebemos como a interação sociedade-natureza foi alterada por vetores externos. A caça, antes um elemento de subsistência local, tornou-se predatória com a chegada de grupos vindos de Blumenau e Apiúna, que desequilibravam o ecossistema. A presença de "pedrinhas de flecha" encontradas por Luís serve como um vestígio silencioso de um metabolismo social anterior (indígena), cujas formas de manejo da floresta foram obliteradas pela colonização europeia e sua lógica de extração.

Nas décadas de 1950 e 1960, a floresta do Braço do Salão foi tratada como um estoque inesgotável. O Sassafrás e a Canela eram os alvos principais, alimentando fábricas de óleo no Rio Novo e no Jundiázinho. O relato de Luís expõe a face perversa dessa exploração: a empresa do "Velho Nenê Schulz" (futura Valima) utilizou a madeira dos colonos para abrir estradas, lesando-os sistematicamente. O pai de Luís, que cedeu 50 dúzias de toras, viu a empresa levar 64 dúzias e jamais recebeu o pagamento prometido.

"O falecido pai deu cinquenta dúzia pra abrir a estrada... foram desmatando tudo do falecido pai, deu sessenta e quatro dúzia e ainda nem recebeu depois."


A exploração madeireira industrial alterou permanentemente a estrutura da Mata Atlântica local. Luís observa uma mudança sensorial e ecológica: a floresta original era "mais limpa por baixo", com árvores de grande porte que impediam a entrada de luz; após o corte raso, o solo foi invadido por taquaras e cipós, criando uma mata secundária de difícil acesso. Este processo ilustra como o motor econômico da madeira gerou uma transferência de riqueza da biodiversidade local para o capital industrial, deixando para o colono apenas o prejuízo e uma paisagem degradada.

A década de 1960 trouxe a Souza Cruz e a introdução da monocultura do fumo. Com ela, chegou o eucalipto, incentivado para fornecer lenha rápida para as estufas, substituindo a madeira nativa que escasseava. Para Luís, o eucalipto nunca teve a nobreza da mata original, sendo descrito como "umas porcaria de pauzinho" que sequer servia para rachar como lenha de qualidade.

A chegada do eucalipto representa a modernização agrícola discutida por McNeill. Trata-se da simplificação da paisagem: a substituição de uma floresta diversa por uma monocultura exótica voltada a servir à indústria global do tabaco. Essa mudança alterou o uso do solo e a percepção estética da região, inserindo o Braço do Salão em uma lógica de mercado que priorizava a produtividade industrial em detrimento das qualidades ecológicas e culturais das espécies nativas.

A criação do Parque Nacional da Serra do Itajaí trouxe um novo paradigma. Luís observa o retorno de animais que haviam sumido e uma mudança na mentalidade comunitária. Se antes a mata era obstáculo ou recurso, hoje há uma consciência de que a preservação das "beiradas de rio" é vital. Embora crítico à falta de cuidados estatais e à exploração de palmito por terceiros dentro do parque, ele reconhece que a proteção da floresta é, em última análise, a proteção da água.

Na terceira dimensão de Worster (Cultura e Percepção), identificamos uma evolução ética. O valor atribuído à floresta transitou da extração imediata para a sustentabilidade hídrica. A prática de não mais derrubar mata ciliar demonstra que a comunidade, após décadas de exploração predatória, internalizou a floresta como um bem comum essencial para a manutenção da vida e da agricultura em um cenário de ribeirões cada vez mais rasos.

Juliano, Kayuã e Luiz no registro da entrevista
A narrativa de Luís Berkenbrock é um testemunho vital da História Ambiental do Vale do Itajaí. Ela preenche as lacunas que as estatísticas ignoram: a dor da exploração sofrida pelo pai, a frustração com o arroz que não floresce no frio e a percepção de uma floresta que mudou de textura. Através de sua memória, compreendemos que a conservação não é apenas um ato burocrático, mas uma resposta necessária a um século de cicatrizes. Sua história nos ensina que a paisagem é uma construção humana e natural em constante diálogo. O Braço do Salão, com suas lajes e peraus, continua a contar sua história através daqueles que, como Luís, escolheram cuidar do que restou.

A história apresentada neste texto tem como fonte uma entrevista de História Oral realizada em 2018 com Luís Berkenbrock, morador da comunidade de Braço do Salão, em Apiúna (SC). O relato integra o acervo produzido pelo projeto de Iniciação Científica História e Desenvolvimento no Entorno do Parque Nacional da Serra do Itajaí em Apiúna, Presidente Nereu e Vidal Ramos (SC). A pesquisa foi desenvolvida com o apoio de dois bolsistas e contou com financiamento do Programa UNIEDU/FUMDES, por meio dos recursos do Artigo 171 da Constituição do Estado de Santa Catarina.

A partir da transcrição da entrevista, foi elaborado um resumo do relato, que serviu de base para a construção desta narrativa. Para organizar as informações, identificar temas recorrentes e adaptar o conteúdo ao formato de divulgação científica, foram utilizadas as ferramentas NotebookLM e ChatGPT. O texto final foi revisado pelos pesquisadores, buscando preservar a fidelidade ao depoimento do entrevistado e, ao mesmo tempo, apresentar uma narrativa acessível ao público interessado na história ambiental da região.

Fonte: BERKENBROCK, Luís. (Depoimento oral, 21/06/2018). Local da Entrevista: Comunidade de Braço do Salão - Apiúna, Grupo de Pesquisa de História Ambiental do Vale do Itajaí - GPHAVI - FURB, 23/06/2018, 25p.

segunda-feira, 6 de julho de 2026

Seleção de Bolsista de Iniciação Científica PIBIC-CNPq 2026-2027


O Grupo de Pesquisas de História Ambiental do Vale do Itajaí (GPHAVI) está selecionando estudantes de graduação interessados em participar de projeto de Iniciação Científica na modalidade PIBIC/CNPq. Esta chamada destina-se à formação de cadastro de reserva. Os(as) estudantes selecionados(as) poderão ser convocados(as) caso o projeto seja aprovado e haja disponibilidade de bolsas para contratação pela DAP/FURB a partir de agosto de 2026. Os resultados gerais podem ser acessados na página https://www10.furb.br/editais/

Esta chamada do GPHAVI selecionará bolsistas para:

Nome do Projeto de Iniciação Científica:
História Ambiental da Agropecuária do Vale do Itajaí (SC) na segunda metade do século XX

Coordenação: Dr. Gilberto Friedenreich dos Santos - frieden@furb.br

Síntese: O projeto investiga as relações entre sociedade e natureza no desenvolvimento da agricultura e da pecuária no Vale do Itajaí, analisando transformações na paisagem, uso do solo, biodiversidade, impactos ambientais e políticas públicas voltadas ao desenvolvimento regional na segunda metade do século XX.

Atividades do Bolsista 20 horas semanais:

-Levantamento e organização de fontes históricas;  (Continuo)
-Pesquisa em bibliotecas, arquivos e bases digitais; (Continuo)
-Leitura e fichamento de bibliografia especializada (Continuo);
-Participação em reuniões/atividades do grupo de pesquisa (atividades diversas);
-Elaboração de relatórios e produção de artigo científico (Relatório Parcial e Artigo Final);
-Apresentação dos resultados em eventos acadêmicos (Participação na MIPE FURB).


Valor da bolsa 12 vezes de IC: R$ 700,00 mensais em conta bancária (Banco do Brasil), valores estabelecidos


Requisitos:
-Estar regularmente matriculado em curso de graduação FURB;
-Ter interesse em História Ambiental, Desenvolvimento Regional, História, Geografia ou áreas afins;
-Disponibilidade para cumprir as atividades previstas no plano de trabalho (20h semanais);
-Atender aos requisitos estabelecidos pelo programa PIBIC/CNPq e pela FURB (Não pode receber Bolsa Universidade Gratuita).
-Ter ou criar Currículo Lattes CNPq (https://lattes.cnpq.br/)
-Abrir conta bancária para recebimento do recurso de Bolsas do CNPq
-Ter atitude filosófica, ética e rigor acadêmico.

Preencha os dados a seguir. Além de identificação eles serão usados para a realização da seleção:
Os interessados deverão se inscrever em:



quarta-feira, 1 de julho de 2026

Uruk e as origens urbanas do conflito entre sociedade e ambiente

Este texto anallisa um trecho da obra An Environmental History of the World: Humankind’s Changing Role in the Community of Life (2ª edição), do historiador ambiental J. Donald Hughes. A postagem não substitui a leitura do original, mas propõem releituras orientadas pela História Ambiental, pensadas como mediação didática e apoio a professores de História que desejam inserir a dimensão ambiental. O texto a seguir dialoga especialmente com o capítulo 3, “The Great Divorce of Culture and Nature”, mais precisamente com o trecho “The Uruk Wall: Gilgamesh and Urban Origins” (páginas 33–38). Trata-se, portanto, de uma interpretação guiada por Hughes, mas traduzida e ampliada a partir das preocupações próprias da História Ambiental.

Segundo Hughes, poucas coisas em um museu conseguem anular o cansaço e nos transportar para outro tempo. Ao entrar na sala do Museu de Pérgamo, em Berlim, dedicada aos achados de Uruk, uma antiga cidade suméria, a história torna-se palpável. De um lado da sala, dispostos em padrões regulares, encontram-se os tijolos de argila cozida de uma muralha urbana. A legenda confirma: trata-se de um fragmento da muralha de Uruk, a cidade do lendário rei Gilgamesh. Nesse momento, as palavras do mais antigo poema épico da humanidade ganham vida:

“Proclamarei ao mundo os feitos de Gilgamesh… Em Uruk ele construiu muralhas, uma grande fortificação… Olha-a ainda hoje: a muralha externa, onde corre a cornija, brilha com o esplendor do cobre; e a muralha interna, ela não tem igual. Toca o limiar, ele é antigo… Sobe à muralha de Uruk; caminha sobre ela, eu digo; observa o terraço de fundação e examina a alvenaria: não é de tijolo cozido e de boa qualidade?”

Essa estrutura monumental, com cerca de 9,6 quilômetros de extensão, aproximadamente 900 torres e uma população estimada em 25 mil habitantes, não era apenas um feito de engenharia. Ela se tornou o símbolo de uma tragédia arquetípica. Do ponto de vista da História Ambiental, a muralha de Uruk representa aquilo que Hughes denomina de “Grande Divórcio”: uma separação progressiva — física, simbólica e ideológica — entre a cultura humana e o mundo natural. Essa ruptura ajudou a criar as condições que, ao longo do tempo, contribuíram para o colapso da própria civilização que a ergueu.

As muralhas das cidades sumérias não criaram apenas fronteiras militares; estabeleceram uma divisão profunda na forma como os seres humanos passaram a perceber o mundo. Dentro dos muros, localizava-se a ordem da cidade; fora deles, um espaço entendido como caótico, selvagem e hostil. Essa distinção marcou um afastamento psicológico em relação à natureza, mais profundo do que aquele vivido por caçadores, pastores ou agricultores de aldeias.

Essa nova visão de mundo exigiu uma justificativa cosmológica, encontrada na mitologia mesopotâmica. No épico babilônico da criação, o Enuma Elish, o mundo nasce de uma batalha violenta entre Marduk, símbolo da ordem, e Tiamat, entidade feminina que personifica o caos primordial. Após derrotá-la, Marduk “a divide como um peixe em duas partes”, usando seu corpo para formar o céu e o mar, e então constrói Esharra, a cidade celestial. O mito funcionava como legitimação simbólica: a cidade terrestre, com suas muralhas e ruas geométricas, aparecia como a imposição da ordem sobre o caos da natureza. A violência do mito validava, assim, a violência material contra o mundo natural.

A própria saga de Gilgamesh e de seu companheiro Enkidu expressa essa relação conflituosa. Enkidu surge inicialmente como um “homem selvagem”, vivendo em harmonia com os animais da estepe. Sua integração à civilização ocorre por meio do contato humano e do consumo de pão e vinho — produtos da técnica e da cultura urbana. Após essa transformação, os animais passam a temê-lo, e sua ligação com o mundo selvagem é rompida. Juntos, Gilgamesh e Enkidu avançam sobre a floresta sagrada de cedros, matam seu guardião, Humbaba, e derrubam as árvores para abastecer a cidade. A narrativa expressa uma nova lógica de exploração sistemática dos recursos naturais. Em outro episódio, Gilgamesh mata leões simplesmente por vê-los “regozijando-se na vida”, gesto que simboliza uma hostilidade aberta ao selvagem.

Essa postura de confronto com a natureza aparece associada, sobretudo, a uma cultura urbana fortemente masculinizada. Guerreiros passaram a dominar as estruturas políticas e simbólicas dessas sociedades, e, como eram também os principais produtores da literatura, imagens de combate e conquista tornaram-se centrais. A natureza passou a ser representada como um inimigo a ser subjugado, e não como parte de um sistema de relações.

O surgimento de cidades como Uruk só foi possível porque essa ideologia de domínio veio acompanhada de tecnologias específicas. A agricultura intensiva, impulsionada pelo arado puxado por bois, aumentou significativamente a produção de alimentos. A irrigação em larga escala buscou controlar o fluxo imprevisível dos rios Tigre e Eufrates por meio de extensos sistemas de canais, transformando áreas potencialmente áridas em regiões altamente produtivas, capazes de sustentar populações urbanas e especialização do trabalho.

Entretanto, as planícies aluviais da Suméria careciam de recursos fundamentais como madeira, pedra e minérios metálicos. Para erguer templos, palácios e muralhas, foi necessário recorrer ao comércio de longa distância. Mercadores, controlados pelas elites urbanas, atuavam como intermediários políticos e econômicos, buscando madeira do Líbano, cobre do Chipre e produtos de regiões tão distantes quanto o vale do Indo. Para sustentar essas trocas, a terra precisava gerar excedentes cada vez maiores, intensificando a pressão sobre os ecossistemas locais.

A intensificação da agricultura desencadeou uma cadeia de impactos ambientais. O desmatamento, impulsionado pela demanda por combustível para a metalurgia e a cerâmica, alterou o regime hídrico das bacias. As cheias tornaram-se mais violentas e carregadas de sedimentos, provocando o assoreamento dos canais de irrigação. A dragagem constante elevou os canais acima dos campos cultivados, comprometendo o funcionamento do sistema.

Esse quadro preparou o terreno para a salinização dos solos. Em um clima quente e seco, a irrigação contínua elevou o lençol freático e, com a evaporação, os sais minerais acumularam-se na superfície. Entre 2400 e 1700 a.C., os agricultores foram gradualmente forçados a substituir o trigo pela cevada, mais tolerante ao sal. Em vastas áreas, o solo tornou-se improdutivo. Como concluíram Thorkild Jacobsen e Robert Adams, a salinização desempenhou um papel central na desintegração da civilização suméria — em interação com fatores sociais, econômicos e políticos.

Hoje, cidades como Uruk e Ur são apenas montes abandonados no deserto. Seu declínio não foi um evento isolado nem resultado exclusivo de mudanças climáticas, mas um processo histórico marcado pela exploração intensiva e pelo esgotamento progressivo da terra. A civilização que acreditava controlar a natureza acabou sendo limitada por ela.

Em poucas sociedades antigas a relação entre degradação ambiental e declínio histórico é tão evidente quanto na Mesopotâmia. O “Grande Divórcio” simbolizado pelas muralhas de Uruk — a crença de que a cultura humana pode se isolar do mundo natural — revelou-se insustentável. A história suméria, escrita na poeira de suas cidades, permanece como uma advertência duradoura: toda civilização é também uma paisagem construída, e toda paisagem carrega as marcas das escolhas humanas.

Para o ensino das sociedades antigas no 6º ano, Uruk oferece uma chave de leitura especialmente fecunda. Em vez de apresentar as primeiras cidades apenas como sinais de progresso técnico, a História Ambiental permite mostrar que elas também enfrentaram limites ecológicos concretos. O Crescente Fértil deixa, assim, de ser apenas o “berço da civilização” para ser compreendido como um espaço de interações tensas entre rios, solos, florestas e grupos humanos.

Ao trabalhar temas como agricultura, irrigação e urbanização, o professor pode evidenciar como decisões técnicas e culturais produziram efeitos ambientais de longo prazo. A salinização dos solos ajuda os estudantes a compreender que a natureza não é um cenário passivo, mas um agente que responde às ações humanas, contribuindo para desenvolver a noção de causalidade histórica.

A mitologia, por sua vez, ganha novo significado quando analisada sob a ótica da História Ambiental. Narrativas como o Enuma Elish ou a saga de Gilgamesh podem ser lidas como expressões simbólicas de visões de mundo que legitimaram práticas de dominação sobre a natureza, ampliando a compreensão dos alunos sobre a relação entre cultura, poder e ambiente.

Ao conectar passado e presente sem anacronismos, o ensino de História passa a contribuir para uma reflexão crítica sobre os desafios ambientais contemporâneos. Ensinar Uruk dessa forma é ensinar que não existe sociedade sem natureza — e que toda escolha histórica deixa marcas duradouras no mundo que habitamos.