| Bolsistas Vanessa N. e Ana. C. M com entrevistas Acervo GPHAVI 2008. |
Existe uma relação intensa entre as pesquisas do Grupo de Pesquisa em História Ambiental do Vale do Itajaí (GPHAVI) e a região de Botuverá. Essa aproximação começou ainda nos primeiros anos de consolidação do grupo e acabou produzindo, ao longo do tempo, um conjunto de pesquisas que permite observar diferentes dimensões da relação entre sociedade e natureza no município e, particularmente, nas comunidades localizadas no entorno do Parque Nacional da Serra do Itajaí (PNSI).
| Entorno do PNSI. Acervo GPHAVI |
Lembro da primeira vez em que nos aventuramos pela região em uma espécie de missão científica. Eu ainda não conhecia Botuverá. Junto com Gilberto, percorremos o entorno do PNSI tendo em mãos o mapa das comunidades do parque. Passamos por Salto de Águas Negras, pelos Lageados, até Ribeirão do Ouro e Areias. O relevo impressionava: vales estreitos, encostas, diferentes níveis de conservação da floresta e, entre eles, elementos do mundo rural, pequenas áreas de ocupação e sinais da presença urbana. A paisagem já apresentava, naquele momento, aquilo que posteriormente se tornaria uma das características das pesquisas realizadas pelo GPHAVI na região: a possibilidade de observar a história ambiental a partir das relações entre ocupação humana, floresta, agricultura, mineração, produção artesanal, fauna e diferentes formas de apropriação dos recursos naturais.
| Botuverá - SC. Acero do GPHAVI |
O ano de 2008 ocupa um lugar especial nessa trajetória. Naquele período, ainda estávamos estreitando nossos laços de trabalho. Eu estava bastante entusiasmado com as possibilidades de pesquisa e insistia com Gilberto para que avançássemos na apresentação de projetos de iniciação científica. Naquele momento, os critérios do PIBIC/CNPq consideravam, entre outros aspectos, a titulação e o currículo do pesquisador, além da qualidade e dos critérios específicos de avaliação do projeto. Insisti para que elaborássemos as propostas e tive a autorização de Gilberto para escrever e inserir os projetos no sistema. Como a pesquisa abrangia diversas comunidades do entorno do parque, a estratégia foi dividir o recorte territorial em dois projetos.
Assim nasceram nossas duas primeiras pesquisas de PIBIC relacionadas a Botuverá: “História ambiental das comunidades do entorno do Parque Nacional da Serra do Itajaí: comunidades do Lageado Baixo, Lageado Alto e Ribeirão do Ouro, município de Botuverá - Vale do Itajaí - SC”, desenvolvida com bolsa PIBIC/CNPq, tendo como bolsista Vanessa N., estudante de História. E: “História ambiental das comunidades do entorno do Parque Nacional da Serra do Itajaí: comunidades do Salto de Águas Negras, Beira Rio e Lageado Central, município de Botuverá - Vale do Itajaí - SC”, desenvolvida com bolsa PIBIC/FURB, tendo como bolsista Ana C. M., estudante de Ciências Sociais.
Foram, portanto, duas pesquisas de iniciação científica desenvolvidas simultaneamente em 2008, abrangendo seis comunidades: Lageado Baixo, Lageado Alto, Ribeirão do Ouro, Salto de Águas Negras, Beira Rio e Lageado Central. Foi um momento importante para o grupo. Lembro da emoção de Gilberto com a aprovação daqueles projetos. Eram nossas primeiras pesquisas em nível de PIBIC e, olhando retrospectivamente, é possível perceber que aquela experiência estabeleceu uma linha de investigação que continuaria nos anos seguintes.
Essa história do final rendeu seis pesquisas de iniciação científica entre 2008 e 2018. São eles:
História ambiental das comunidades do entorno do Parque Nacional da Serra do Itajaí: comunidades do Lageado Baixo, Lageado Alto e Ribeirão do Ouro, município de Botuverá - Vale do Itajaí - SC — 2008, PIBIC/CNPq, bolsista Vanessa N.
História ambiental das comunidades do entorno do Parque Nacional da Serra do Itajaí: comunidades do Salto de Águas Negras, Beira Rio e Lageado Central, município de Botuverá - Vale do Itajaí - SC — 2008, PIBIC/FURB, bolsista Ana C. M.
História da Produção Artesanal de Cal no Município de Botuverá (Médio Vale do Itajaí-Mirim) — 2011-2012, PIPe/Art. 170, bolsista José R. S. História.
Comunidades de Ribeirão do Ouro e Lageado Central (Botuverá - SC - Zona de Amortecimento do Parque Nacional Serra do Itajaí): uma História Ambiental baseada no ouro e calcário — 2011, PIPe/Art. 170, bolsista Vitória d. A.
Estudos sobre a História Ambiental dos usos da avifauna do Parque Nacional Serra do Itajaí (SC), nos municípios de Blumenau, Botuverá e Guabiruba — 2013. A pesquisa contou com três bolsistas: Guilherme B. S. do curso de Ciências Biológicas, posteriormente substituído por Mariane P. S. do curso de biomedicina e Francisco J. M. do curso de história.
História, Desenvolvimento e Sustentabilidade no entorno do Parque Nacional da Serra do Itajaí em Botuverá e Guabiruba-SC — 2018, PIPe/Art. 170. O projeto contou com dois bolsistas, sendo João H. T., da Arquitetura, que permaneceu até o final, e outro estudante de Ciências Sociais que posteriormente deixou a pesquisa.
Os títulos das pesquisas mostram também como o olhar do grupo foi se ampliando. As primeiras investigações estavam concentradas na história ambiental das comunidades do entorno do PNSI, buscando compreender a ocupação humana e as relações estabelecidas com a Floresta Atlântica. Posteriormente, surgiram pesquisas mais específicas.
A produção de cal passou a ser investigada em História da Produção Artesanal de Cal no Município de Botuverá. A exploração mineral apareceu novamente no estudo sobre ouro e calcário nas comunidades de Ribeirão do Ouro e Lageado Central. A avifauna constituiu outro eixo de investigação, especialmente na pesquisa desenvolvida em 2013, que articulou Botuverá a Blumenau e Guabiruba.
Já a pesquisa de 2018 incorporou a discussão sobre desenvolvimento e sustentabilidade, ampliando novamente o campo de observação para as relações entre sociedade, território e conservação ambiental.
Não se trata, portanto, de uma única história de Botuverá, mas de diferentes histórias ambientais que se cruzam no mesmo território. E o resultado desse percurso também pode ser observado nas publicações. Temos 18 trabalhos publicados ou apresentados em eventos e revistas, distribuídos entre artigos científicos, trabalhos completos em eventos, resumos expandidos e resumos.
Entre os artigos publicados em revistas científicas, aparecem três trabalhos diretamente relacionados a Botuverá:“História Ambiental dos Fumicultores em Botuverá (SC)”, publicado na Revista Brasileira de Agroecologia, em 2009.
“Lageado Alto e Lageado Baixo (Botuverá, Santa Catarina): história da ocupação humana e uso da biodiversidade da Mata Atlântica de comunidades localizadas na zona de amortecimento do Parque Nacional da Serra do Itajaí”, publicado na Revista GeoNorte, em 2012.
“Apontamentos para uma História Ambiental do uso dos recursos naturais em Botuverá - Vale do Itajaí-Mirim - SC”, publicado na Geosul, volume 39, em 2024.
Há aqui uma trajetória particularmente interessante: o primeiro artigo identificado é de 2009, enquanto o mais recente é de 2024. São, portanto, 15 anos de produção publicada, permitindo observar a permanência do município como espaço de investigação do GPHAVI.
A produção não ficou restrita às revistas científicas. Foram identificados cinco trabalhos completos publicados em anais de eventos, entre eles:
“História Ambiental da Mineração em Botuverá (SC)”, apresentado no Simpósio Internacional de História Ambiental e Migrações, em 2010.
“Os processos de uso dos recursos naturais no município de Botuverá (Santa Catarina)”, apresentado no X Encontro Nacional da Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Geografia, em 2013.
“Breve história do ambiente no Parque Nacional da Serra do Itajaí em Apiúna, Presidente Nereu, Vidal Ramos e Botuverá - Vale do Itajaí - SC”, apresentado no III Workshop Internacional de História do Ambiente, em 2013.
Também aparecem trabalhos dedicados especificamente a comunidades e processos locais, como “História e apropriação da natureza no entorno do Parque Nacional da Serra do Itajaí: o caso de Salto de Águas Negras em Botuverá - SC” e “Usos da natureza na História da comunidade de Lageado Alto em Botuverá - SC”, ambos apresentados em 2009.
A produção em eventos mostra como as pesquisas locais foram sendo incorporadas a discussões mais amplas da História Ambiental, da Geografia e da educação. Outro aspecto importante desse conjunto documental é a diversidade temática. Em 2008, os trabalhos estão relacionados à colonização italiana e à Floresta Atlântica, como Colonização italiana e sua história Ambiental na Floresta Atlântica do Lageado Alto e Baixo em Botuverá-SC.
Também em 2008 foi apresentado Construindo uma História Ambiental das comunidades Salto de Águas Negras, Beira Rio e Lageado Central do entorno do Parque Nacional Serra do Itajaí Botuverá SC. Em 2009, os trabalhos passaram a abordar diretamente os usos da natureza, as transformações da Floresta Atlântica, a mineração, a apropriação da natureza e o uso da história oral como instrumento de pesquisa.
Em 2012, a exploração do ouro aparece novamente, agora a partir das memórias das comunidades de Ribeirão do Ouro e Lageado Central. Em 2013 e 2014, a avifauna passou a integrar esse conjunto de investigações, com estudos sobre os usos históricos das aves do Parque Nacional da Serra do Itajaí.
Esse conjunto revela uma característica importante da trajetória: Botuverá foi sendo estudada a partir de diferentes elementos da paisagem e das relações humanas com a natureza. Quando organizamos os dados, podemos visualizar melhor a dimensão dessa trajetória:
2008–2018 → 6 pesquisas de iniciação científica
2008–2024 → 18 trabalhos identificados entre artigos, trabalhos completos, resumos expandidos e resumos
3 artigos em revistas científicas
5 trabalhos completos em eventos
2 resumos expandidos
8 resumos em eventos
2008 → início das pesquisas de iniciação científica relacionadas a Botuverá
2009 → primeiras publicações em revistas e forte produção em eventos
2010–2014 → ampliação das pesquisas para mineração, recursos naturais, história oral e avifauna
2018 → pesquisa sobre desenvolvimento e sustentabilidade
2024 → publicação de Apontamentos para uma História Ambiental do uso dos recursos naturais em Botuverá - Vale do Itajaí-Mirim - SC
Esses números ajudam a perceber que não estamos diante de uma pesquisa pontual sobre Botuverá. Existe uma trajetória de investigação que atravessa pelo menos 16 anos de produção publicada e uma década de projetos de iniciação científica. Quando reunimos os títulos, pesquisadores, estudantes, comunidades e temas, começa a aparecer um verdadeiro mapa das pesquisas do GPHAVI em Botuverá.
De um lado estão as comunidades: Lageado Alto, Lageado Baixo, Ribeirão do Ouro, Salto de Águas Negras, Beira Rio e Lageado Central. De outro, os processos históricos: colonização, ocupação humana, agricultura, fumicultura, mineração, exploração do ouro e do calcário, produção artesanal de cal, uso da biodiversidade, avifauna e sustentabilidade. E atravessando todos eles está a Floresta Atlântica, não apenas como cenário das ações humanas, mas como parte ativa da história dessas comunidades. É justamente nesse cruzamento que a perspectiva da História Ambiental permite observar Botuverá. O território deixa de ser apenas o local onde os acontecimentos ocorreram e passa a ser compreendido como resultado de relações históricas entre pessoas, comunidades, recursos naturais, técnicas, atividades econômicas, animais, florestas e diferentes formas de apropriação da natureza.
Retomar hoje esse conjunto de pesquisas permite perceber algo que talvez não estivesse tão evidente quando os primeiros projetos foram elaborados. Aquelas duas pesquisas de 2008 abriram uma frente de investigação que posteriormente recebeu novos estudantes, novos projetos, novos temas e novas formas de publicação. Ao longo desse percurso, Botuverá apareceu como território de pesquisa sobre a Floresta Atlântica, as comunidades rurais, a colonização, a agricultura, o fumo, o ouro, o calcário, a produção de cal, a fauna, a avifauna, os recursos naturais, o desenvolvimento e a sustentabilidade.
O levantamento também mostra que muitas dessas pesquisas foram realizadas por estudantes de diferentes áreas: História, Ciências Sociais, Ciências Biológicas e Arquitetura, revelando o caráter interdisciplinar que marcou a construção desse acervo. Talvez esse seja um dos aspectos mais interessantes dessa trajetória: cada pesquisa respondeu a uma pergunta específica, mas, juntas, elas começaram a construir uma história ambiental de Botuverá.
Hoje, ao olhar para os títulos produzidos desde 2008, é possível perceber que existe ali mais do que uma sequência de projetos acadêmicos. Existe um conjunto documental que permite reconstruir diferentes momentos da relação entre sociedade e natureza no município e no entorno do Parque Nacional da Serra do Itajaí. E talvez a próxima pergunta seja justamente essa: o que ainda não foi estudado nessa paisagem? Quais outras comunidades, atividades econômicas, espécies, conflitos, práticas agrícolas, transformações da floresta ou formas de apropriação da natureza ainda podem ser encontradas nos arquivos, nas memórias dos moradores e na própria paisagem de Botuverá? A história ambiental da região, ao que tudo indica, ainda está longe de terminar.
Fonte: levantamento da produção científica e dos projetos de iniciação científica do GPHAVI relacionados a Botuverá.
Nota: Este texto foi elaborado a partir do levantamento e organização dos dados de pesquisa apresentados pelo autor. A autoria intelectual e a responsabilidade pelo conteúdo são humanas; ferramentas de inteligência artificial foram utilizadas como apoio à organização e adequação textual.