"Eu sou o que me cerca. Se eu não preservar o que me cerca, eu não me preservo".
José Ortega y Gasset
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quinta-feira, 17 de setembro de 2026

Rio Esperança: quando a pesquisa termina, a história continua

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Vamos contar a história de uma de nossas ICs. Em abril de 2010, os meios de comunicação anunciaram a construção de uma usina hidrelétrica na comunidade de Rio Esperança, município de Rio dos Cedros, na sub-bacia hidrográfica do rio Benedito. O empreendimento seria realizado pela empresa canadense Brookfield Energia Renovável, com investimento previsto de R$ 120 milhões, e a Pequena Central Hidrelétrica (PCH) Arrozeira Meyer teria capacidade de geração de 27 megawatts, suficiente, segundo as informações divulgadas na época, para atender a uma população de até 100 mil habitantes.

Mas havia uma outra dimensão nessa notícia que nos chamou a atenção: a comunidade de Rio Esperança era formada por 46 famílias, parte das quais seria indenizada para deixar suas propriedades em razão da implantação do empreendimento. Ainda não havia, naquele momento, um prazo definido para a saída das famílias. Essas informações chegaram até nós, foram filtradas pelo nosso grupo e despertaram o interesse em conhecer esse processo de perto. Afinal, mais do que uma obra de engenharia e um investimento de milhões de reais, a construção de uma hidrelétrica significava uma transformação profunda no território, envolvendo propriedades, famílias, relações sociais, paisagem, rio e formas de apropriação da natureza.

A partir daí, iniciamos um pequeno levantamento para tentar entender melhor a situação. Foi nesse movimento que surgiu a ideia de transformar aquela inquietação em uma pesquisa de Iniciação Científica. Gilberto trouxe a ideia e a vontade de desenvolver o estudo, além dos primeiros rascunhos do projeto. Analisamos o material, discutimos juntos e fomos dando forma à proposta. Assim nasceu o projeto “A construção de hidroelétrica a ser realizada na comunidade de Rio Esperança (Rio dos Cedros, Santa Catarina): um estudo sob enfoque da História Ambiental”, executado pelo estudante pesquisador bolsista Douglas Ricardo Grubel sob orientações de Gilberto Friedenreich dos Santos. Submetemos a proposta ao Programa Institucional de Bolsas de Iniciação Científica (PIBIC), na tentativa de conseguir uma bolsa e contratar um estudante de História para assumir essa missão de pesquisa.

Conseguimos o recurso por meio do programa de Iniciações Científicas PIBIC-FURB, uma modalidade contrapartida institucional ao PIBIC/CNPq. Para nós, naquele momento, a conquista da bolsa significava mais do que financiamento: significava a possibilidade concreta de transformar uma notícia que havia despertado nossa curiosidade em uma investigação histórica.

A pesquisa foi desenvolvida ao longo de 2010, chegando até o final de outubro daquele ano. O estudo procurou compreender o processo de construção da hidrelétrica e, sobretudo, as transformações que ele poderia provocar na comunidade de Rio Esperança. Vista pela perspectiva da História Ambiental, a questão deixava de ser apenas a construção de uma infraestrutura energética. Tratava-se de observar as relações entre sociedade, território e natureza e perceber como diferentes interesses se encontravam, e entravam em tensão, diante da transformação de um rio, de uma paisagem e do espaço vivido por uma comunidade.

O nome do município, Rio dos Cedros, é em si um registro histórico: deriva da antiga abundância do cedro, preciosa madeira de lei que outrora dominava a paisagem (Santos; Grubel, 2011). Sob esta lente, o relevo e o rio não são cenários passivos, mas protagonistas que condicionaram desde a colonização trentina até o interesse contemporâneo do capital energético. O conflito em Rio Esperança coloca em xeque a convivência entre a herança biofísica do território e o imperativo técnico-industrial da geração de energia.

A sub-bacia do Rio Benedito e do Rio Esperança não é um alvo fortuito para a exploração hidrelétrica; sua geologia atua como um agente que dita o destino econômico da região. O território situa-se em uma zona de transição entre o planalto sedimentar da Bacia do Paraná e as rochas gnáissicas do Complexo Granulítico de Santa Catarina. Essa "discordância litológica" cria fortes rupturas de declive e um elevado gradiente nos canais de drenagem, fatores naturais que definem o potencial para o barramento das águas (Santos; Grubel, 2011).

A paisagem, caracterizada pelo domínio das serras litorâneas e um leito rochoso acentuado, é banhada por um regime climático mesotérmico e superúmido, garantindo um escoamento superficial concentrado. O fato de o município ser cercado por serras atua como um facilitador geográfico para a inundação necessária à barragem. Assim, a configuração abiótica do Rio Esperança, suas quedas e seu encaixe nas montanhas, é o legado natural que atrai o projeto de 27 megawatts, capaz de atender 100 mil habitantes, mas que exige a submersão de ecossistemas locais.

A ocupação humana, iniciada em 1875, foi impulsionada por fatores externos como a Revolução Industrial e a Guerra Franco-Prussiana, que trouxeram imigrantes trentinos ao Vale do Itajaí. A relação inicial com a Mata Atlântica foi de enfrentamento e transformação para garantir a sobrevivência. Na década de 1940, o ciclo do tabaco consolidou a integração da comunidade ao mercado, convivendo com uma economia de subsistência rigorosa. O depoimento de Egídio Pedrelli detalha o ritmo e a agressividade desse processo:

Era um capoeirão e aí a gente derrubava tudo... Queimava, fazia montes, botava fogo sempre mais de noitinha, botávamos fogo aqui embaixo e o fogo ia embora. (Egídio Pedrelli, 2011 apud Santos; Grubel, 2011).


A autossuficiência da época é reforçada por Romilda Gaulke, que descreve como a natureza era processada internamente:


Era muito difícil o trabalho antigamente, só que eles diziam para mim que eles gastavam menos do que nós agora por que eles tinham tudo em casa, só precisam comprar o trigo no mercado por que nós tínhamos o açúcar vermelho da cana, tinha o fubá de milho, a polenta era moída, também tinha sozinho, então era pouca coisa que nós comprávamos né. (Romilda Gaulke, 2011 apud Santos; Grubel, 2011).


A Madeireira Beyer, que operava na comunidade explorando lenha e madeira de lei, funcionava como o nó central entre o trabalho agrícola e a extração florestal. Seu fechamento na década de 1980 marcou a transição para uma vida urbana e operária, alterando novamente a fisionomia da paisagem (Santos; Grubel, 2011).

A exploração das águas de Rio dos Cedros segue um ciclo histórico de rupturas. A construção da Usina Palmeiras, na década de 1950, foi o primeiro grande marco de transformação, desviando a mão de obra da agricultura para as obras de infraestrutura e iniciando a desvalorização do modo de vida agropastoril. O projeto atual da PCH Arrozeira Meyer insere-se na mesma lógica, agora amparada pelo discurso do "desenvolvimento sustentável" e da "energia limpa".

Entretanto, o relatório de Grubel e Santos destaca que tais conceitos camuflam impactos bióticos severos, como a submersão de espécies e alteração de habitats. O processo administrativo, segundo o prefeito Fernando Tomaselli, indicava uma probabilidade de 90% para a construção da usina, com o Estudo de Impacto Ambiental (EIA) sob análise da FATMA (Santos; Grubel, 2011). A "angústia da falta de resposta" relatada por moradores como Jordana Agostini revela que o discurso do desenvolvimento raramente contempla o cronograma de vida das populações afetadas, gerando um estado de suspensão e incerteza sobre o futuro das terras e das indenizações.

O impacto social sobre as 46 famílias de Rio Esperança era mediado por uma distância corporativa acentuada. A Brookfield utilizava a Empresa Tecnologia do Solo e Serviços (ETS) como intermediária para as medições e avaliações de propriedades, o que aprofunda a sensação de isolamento da comunidade. Para os moradores idosos, a perda da terra não representa apenas um prejuízo financeiro, mas a desintegração de uma identidade cultural construída sobre o manejo secular do solo.

A falha na comunicação institucional é um dos pontos mais críticos do conflito. José Braulio Pires descreve a precariedade do diálogo estabelecido pela empresa e pelo poder público:

Foi no grito, três ou quatro dias antes a Celesc passou nas casas com um convite para a reunião, eu nem estava aqui, eu estava lá para Volta Grande... Cada um escutou ali e aí nós ficamos esperando a contra proposta deles, mas não teve uma contra proposta outra reunião. (José Braulio Pires, 2011 apud Santos; Grubel, 2011).


A ausência de uma "contraproposta" ou de um canal contínuo de informação transformou a legítima busca por energia renovável em um processo de desarticulação social, onde o direito à estabilidade cultural dos remanescentes da colonização é negligenciado em favor da urgência energética. 

A contribuição desta IC de Grubel e Santos para a História Ambiental do Vale do Itajaí reside em demonstrar que a trajetória da comunidade de Rio Esperança é indissociável de suas características físicas. O potencial hídrico, gerado pela discordância litológica e pelas serras que outrora abrigavam os cedros, tornou-se o elemento de vulnerabilidade da comunidade frente ao avanço industrial.

Douglas na 5 MIPE

O caso de Rio Esperança sintetiza o dilema contemporâneo: até que ponto a busca por matrizes energéticas renováveis justifica a desarticulação de modos de vida tradicionais e a transformação irreversível de ecossistemas locais? A história dessa comunidade revela que, enquanto o capital busca a fluidez das águas, os moradores lutam pela solidez de suas raízes e pela resposta que o "silêncio" dos projetos de desenvolvimento teima em não fornecer.

É assim que algumas de nossas ICs começam: às vezes, com uma notícia de jornal, uma inquietação e a vontade de entender melhor o que está acontecendo no território. A partir daí, vem a pesquisa, a discussão coletiva, a elaboração do projeto, a busca por financiamento e, finalmente, o trabalho de um estudante que transforma aquela primeira pergunta em investigação histórica. Esse é um recorte, agora se tiver um tempo, acesse o relatório da IC:

GRUBEL, Douglas Ricardo. SANTOS, Gilberto Friedenreich dos. A construção de hidroelétrica a ser realizada na comunidade de Rio Esperança (Rio dos Cedros, Santa Catarina): um estudo sob enfoque da história ambiental. Relatório final de Iniciação Científica PIBIC/FURB. Blumenau: Grupo de Pesquisas de História Ambiental do Vale do Itajaí (GPHAVI). 2011.


Essa é uma dessas histórias. Mas depois não fizemos avanços na pesquisa, e não conseguimos mais acompanhar. E o que será que aconteceu, passado todo esse tempo? Quinze anos depois daquela pesquisa, o cenário é outro. A PCH Arrozeira Meyer, que em 2011 ainda era um projeto cercado de incertezas e cuja construção sequer havia começado, avançou no processo de licenciamento e implantação. A autorização do empreendimento passou posteriormente para a Arrozeira Meyer Energia S.A., o projeto foi atualizado para 24 MW e, em 2025, o IMA concedeu a Licença Ambiental de Implantação. Em 2026, as obras já estão em andamento na região de Rio Esperança, e o cronograma oficial prevê o enchimento do reservatório em setembro e o início da operação comercial das unidades geradoras no final deste ano. Mas ainda fica a pergunta: e aquelas pessoas? E quais impactos sua implantação está proporcionando neste exato momento? 

Fonte

Aquela IC de 2011 registrou um território antes da transformação. O que em 2011 era uma possibilidade e motivo de apreensão entre as famílias entrevistadas, de lá para cá, tornou-se uma obra em implantação. A história, que parecia terminar com o relatório de pesquisa, continuou acontecendo mas no território. E talvez seja justamente aí que a pesquisa histórica encontre uma de suas maiores forças: perceber que o objeto pesquisado não permanece parado depois que o pesquisador encerra seu trabalho. Quinze anos depois, aquele território é outro, as condições são outras e as perguntas também podem ser outras. Será que, diante dessas novas transformações, aquela pesquisa voltará a ser feita?

OBS.: Declaro que a autoria intelectual e a responsabilidade pelo conteúdo deste texto são humanas. O texto foi elaborado a partir de pesquisa, seleção, interpretação e análise realizadas pelo autor. Durante o processo de elaboração e revisão, foram utilizadas ferramentas de Inteligência Artificial, especificamente o NotebookLM e o ChatGPT, como instrumentos auxiliares na organização das informações, aprimoramento da redação, revisão e adaptação textual. A utilização dessas ferramentas não substituiu a autoria, a análise crítica ou a responsabilidade do autor pelo conteúdo apresentado. Todas as informações, argumentos, interpretações e referências foram revisados e validados pelo autor, que permanece integralmente responsável pela versão final do texto.