"Eu sou o que me cerca. Se eu não preservar o que me cerca, eu não me preservo".
José Ortega y Gasset

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2026

A mata que virou fumaça: um recorte de História Ambiental da Fumicultura em Botuverá, SC.

Fonte
Imagine uma paisagem de vales estreitos envoltos por encostas íngremes, coberta por uma densa floresta de Mata Atlântica com árvores que superam os 30 metros de altura. Este era o cenário de Botuverá, em Santa Catarina, antes que uma única cultura agrícola redefinisse sua ecologia, economia e a própria memória de sua comunidade. A história da fumicultura nesta região é uma poderosa lição sobre a complexa teia de interações entre o progresso material e seus custos ambientais.

Localizado no Vale do Itajaí, Botuverá serve como um microcosmo para analisar como a sociedade e a natureza se influenciaram mutuamente ao longo de décadas. Nesta postagem, vamos explorar um estudo acadêmico que mergulha nessa história. Utilizando a perspectiva da História Ambiental e os valiosos relatos de antigos moradores, os pesquisadores desvendam o auge e o declínio da cultura do fumo e o impacto profundo e duradouro que ela deixou no meio ambiente e na vida das pessoas. É o artigo História Ambiental dos Fumicultores em Botuverá - SC, um recorte de uma iniciação científica que desenvolvemos no grupo, apresentado no  VI Congresso brasileiro de agroecologia e II Congresso Latino americano de Agroecologia. Os anais foram publicados no Cadernos de Agroecologia e podem ser acessados clicando aqui.

O objetivo central desta pesquisa foi compreender a interação entre a sociedade e a natureza em Botuverá, traçando uma linha do tempo desde a introdução do fumo em escala comercial, na década de 1940, até os dias atuais. O estudo organiza a trajetória da fumicultura em Botuverá em três grandes períodos, que marcam transformações significativas na economia e na paisagem local.


Fase 1 (1860-1940): Agricultura de Subsistência Este período inicial, marcado pela colonização europeia, foi definido pela agricultura de subsistência. Os imigrantes enfrentaram grandes dificuldades para se adaptar à geografia da região, com seus vales estreitos e encostas íngremes. O cultivo do fumo existia, mas era destinado exclusivamente ao consumo próprio das famílias.

Fase 2 (1940-1980): A Expansão Comercial A partir da década de 1940, o cenário mudou drasticamente. Empresas de tabaco passaram a incentivar o cultivo comercial, transformando a fumicultura na principal atividade agrícola do município. Este período representou o auge da produção e foi o motor de um significativo avanço econômico, social e tecnológico para os agricultores familiares. A atividade se tornou tão central que, como recorda uma moradora entrevistada no estudo: “Aqui em Botuverá cada um, cada família era uma estufa ou duas, quem não tinha três” (Tomazia, 2008).

Fase 3 (A partir de 1990): O Declínio da Atividade A década de 1990 marcou o início do declínio da fumicultura. Diversos fatores contribuíram para essa mudança: a chegada de indústrias têxteis à região, o fortalecimento da mineração de calcário e o deslocamento da população jovem para centros econômicos mais dinâmicos como Brusque. Essa transição econômica, somada a novas políticas ambientais, gerou uma profunda mudança cultural, alterando hábitos tradicionais da comunidade, como a extração de madeira e a caça, e redefinindo a relação dos moradores com a natureza ao seu redor.

Se por um lado a fumicultura trouxe prosperidade e acesso a novas tecnologias para as famílias de Botuverá, por outro, deixou uma marca profunda no ecossistema local. O estudo detalha os principais impactos ambientais dessa atividade. A cultura do fumo foi uma das principais causas da redução da cobertura vegetal nativa da Mata Atlântica na região. Isso ocorreu de duas maneiras interligadas.

Para aumentar a produção, era necessário desmatar novas áreas para o plantio. O processo de secagem das folhas de fumo demandava uma quantidade imensa de lenha para abastecer as estufas. Um agricultor entrevistado quantificou essa necessidade: “para secar, a base de 50 mil pé de fumo, vai à base de 70 ou 80 metros de lenha” (Molinari Fillho, 2008). O estudo aponta que, embora as empresas incentivassem o plantio de eucalipto, a madeira nativa era preferida por ser mais eficiente: os agricultores calculavam que "se vai 20 (metros) de madeira de mato, vai 25 ou 30 de eucalipto”.

Com a intensificação do cultivo, especialmente após a chamada "Revolução Verde", o uso de agroquímicos tornou-se massivo. Os pesquisadores relatam que os próprios agricultores entrevistados hoje refletem sobre os perigos a que foram expostos ao aplicar esses produtos sem proteção adequada. Essa prática também levantou sérias preocupações sobre a contaminação do solo e dos recursos hídricos da região, um legado químico que pode perdurar por muito tempo.

Para reconstruir essa complexa história, os pesquisadores adotaram uma abordagem em duas frentes, combinando rigor acadêmico com a sabedoria local. Primeiro uma pesquisa documental, onde realizaram uma revisão de bibliografias e documentos existentes sobre a região e a atividade agrícola. E com História Oral, onde conduziram 15 entrevistas com os agricultores mais antigos do município para resgatar práticas, valores e conhecimentos.

Esta abordagem em duas frentes é poderosa porque cruza a história documentada com a memória viva, capturando não apenas o que aconteceu, mas como esses eventos foram vividos e percebidos por quem os protagonizou. O estudo chega a conclusões claras sobre o legado da fumicultura, revelando um processo de degradação em duas etapas. A transformação da paisagem começou nos anos 1940, com o desmatamento para abrir lavouras e alimentar as estufas. A partir da década de 1960, com a "Revolução Verde", essa degradação foi acentuada pelo uso intensivo de agroquímicos. A principal consequência, apontada pelos próprios agricultores, foi a perda de grande parte da cobertura vegetal original e a contaminação do solo e da água, resultando em um desequilíbrio ecológico sentido até hoje.

Talvez a conclusão mais alarmante seja o vácuo deixado para trás. O estudo destaca que, mesmo com o declínio da fumicultura, não foram identificadas na região experiências de agricultura sustentável ou com perspectiva agroecológica. O fim de um modelo extrativista não deu origem, automaticamente, a um mais sustentável — uma lição crítica para comunidades rurais em transição em todos os lugares. No fim, o caso de Botuverá exemplifica perfeitamente a visão da História Ambiental: a natureza não é apenas um cenário passivo para as ações humanas. Ela é um agente ativo que condiciona o desenvolvimento de uma sociedade e, ao mesmo tempo, é profundamente transformada por ele. Essa perspectiva nos lembra que cada campo, rio e trecho de floresta tem uma história escrita por escolhas humanas, uma história que continua a moldar nosso presente e futuro.

Referência:
SANTOS, G. F.; MOSER, A. C.; GARROTE, M. S. História Ambiental dos Fumicultores em Botuverá - SC. Revista Brasileira de Agroecologia, v. 4, n. 2, p. 4429-4433, nov. 2009. Disponível em: https://revista.aba-agroecologia.org.br/cad/article/view/5366

Este texto passou por revisão e adaptações realizadas por IA.

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026

A floresta de palavras: um estudo sobre as raízes do ambientalismo brasileiro com a "Revista Florestal"

Você acredita que a preocupação com o meio ambiente no Brasil é um movimento recente, nascido a partir dos anos 1970? Se você acha que sim, quero te mostrar uma das pesquisas de história que desafia essa visão. Uma dissertação de mestrado, analisando um artefato cultural, um periódico, e lança dados sobre as raízes do pensamento ambientalista/ecológico nacional. É a dissertação de mestrado Matas folheadas: imprensa, práticas letradas e sociabilidades de proteção à natureza na Revista Florestal (1929-1949), de Filipe Oliveira da Silva, desenvolvida na Universidade Federal Fluminense (UFF), Programa de Pós-Graduação em História  sob orientação da Prof.ª Dr.ª Juniele Rabêlo de Almeida, e que teve como banca examinadora o Prof. Dr. José Augusto Valladares Pádua (UFRJ) e Prof.ª Dr.ª Lise Fernanda Sedrez (UFRJ).

A origem da pesquisa se deu de forma quase acidental. Ao trabalhar com o acervo da bióloga e feminista Bertha Lutz no Museu Nacional, o autor da dissertação deparou-se com uma vasta rede de correspondências que revelavam o engajamento de diversos intelectuais em questões de proteção à natureza muito antes do que se costumava pensar. Essa descoberta inicial contrariou frontalmente a percepção tradicional de que o ambientalismo brasileiro só se consolidou como movimento a partir da Conferência de Estocolmo, em 1972. Essa rede pioneira, no entanto, não debatia em um vácuo. Sua urgência era alimentada por um contexto material muito claro: o boom madeireiro que se seguiu à Primeira Guerra Mundial, quando a exploração e exportação de madeira brasileira atingiram níveis sem precedentes. 

Guiado por essa nova pista, o pesquisador chegou ao objeto central de sua análise: a Revista Florestal, um periódico que circulou por 20 anos e que se tornou o "artefato cultural" que materializou as ideias, os debates e as tensões desse movimento pioneiro. A dissertação organiza suas descobertas de forma meticulosa, revelando as múltiplas facetas de um movimento que era, ao mesmo tempo, progressista em sua pauta e profundamente elitista em sua composição e seus preconceitos. O estudo identifica três grandes correntes de pensamento que disputavam a interpretação sobre a natureza brasileira no início do século XX:

• A natureza como obstáculo: Uma visão pessimista, influenciada por teóricos como Henry Thomas Buckle e representada por intelectuais como Paulo Prado. Para eles, a exuberância da natureza tropical era um entrave ao progresso e à civilização, uma força a ser domada e superada.

• A natureza como paraíso ("Ufanismo"): Uma exaltação da natureza como divina, perfeita e inesgotável, exemplificada pela obra de Afonso Celso. Essa corrente minimizava ou ignorava os problemas ambientais crescentes, como o desmatamento, em nome de um patriotismo idealizado.

• A natureza como Nação (Nacionalismo crítico): Uma vertente que, embora nacionalista, criticava a exploração predatória dos recursos naturais e defendia o seu uso racional, baseado na ciência, como alicerce para a construção de uma nação forte e moderna. Foi a essa corrente, representada por figuras como Euclides da Cunha, Alberto Torres e Monteiro Lobato, que a Revista Florestal se filiou.

A pesquisa ainda aponta para uma quarta vertente, marginalizada, encarnada por Lima Barreto, que introduziu uma crítica social ao elitismo do movimento florestal, questionando quem de fato tinha o direito de usufruir e proteger a natureza. 

A trajetória do periódico é analisada em três fases distintas, cada uma refletindo a consolidação da ideologia da "Natureza como Nação" em diferentes contextos políticos. 

A primeira fase (1929-1930), marcada por um tom de "cruzada patriótica" pelo reflorestamento. O debate central girava em torno da criação do Serviço Florestal do Brasil e da definição dos "inimigos da floresta". Essa categoria, construída pelo discurso da elite, frequentemente incluía populações rurais, caboclas e indígenas, responsabilizadas por práticas destrutivas como as queimadas.

A segunda sase (1932-1934), momento do Governo Provisório de Getúlio Vargas, a revista se tornou um órgão oficial do Serviço Florestal. O foco se deslocou para a modernização do campo e o projeto de integração nacional através da criação de Parques Nacionais, como o de Iguaçu — cujo projeto arquitetônico, a cargo de Ângelo Murgel, foi influenciado por modelos de parques norte-americanos —, vistos como ferramentas para a construção da identidade nacional.

A terceira fase (1945-1949), ocorre sob a gestão do Conselho Florestal Federal, o periódico aprofundou seu caráter técnico-científico, com uso intenso de fotografias e seções fixas como "Notas Bibliográficas" e "Legislação". O foco se voltou crescentemente aos problemas urbanos, e a culpa pelo desmatamento nos morros do Rio de Janeiro foi atribuída diretamente aos moradores de favelas, ampliando a lista dos "inimigos da floresta" e reforçando o viés socialmente excludente do discurso.

A análise dos colaboradores da revista, por meio de uma prosopografia (um estudo biográfico coletivo), revela um movimento elitista e profundamente genderizado, dominado por uma visão técnica que moldou suas prioridades e preconceitos.

Um universo predominantemente masculino, com a identificação de apenas cinco mulheres entre centenas de participantes ao longo de 20 anos, um dado que expõe a exclusão das mulheres dos círculos de poder técnico-intelectual da época.

Hegemonia de engenheiros agrônomos, seguidos por escritores, engenheiros civis, médicos e advogados. Isso reflete a visão de que a solução para os problemas ambientais residia na aplicação da ciência. No entanto, o grupo não era um monolito: havia intensas disputas internas, como a rivalidade entre Francisco de Assis Iglésias (com foco na agricultura e no meio rural) e José Mariano Filho (voltado à arborização urbana) pelo controle das políticas florestais.

A maioria era de brasileiros, mas com uma surpreendente participação de estrangeiros, principalmente norte-americanos. Este dado revela que o debate não era isolado. Intelectuais como Lourenço Baeta Neves eram diretamente influenciados pelo movimento conservacionista dos EUA de Gifford Pinchot e Theodore Roosevelt, e técnicos americanos participaram ativamente da criação do Serviço Florestal brasileiro, mostrando que o debate nacional era parte de uma conversa global. Era um grupo intergeracional, unindo jovens técnicos a intelectuais experientes. O que os unificava não era a data de nascimento, mas a experiência comum de testemunhar a acelerada destruição ambiental do país.

As contribuições deste estudo são fundamentais para compreendermos a longa e complexa trajetória do pensamento ambiental no Brasil, desfazendo mitos e expondo contradições que perduram até hoje. A pesquisa prova que um robusto movimento de proteção à natureza, com instituições, periódicos e debates complexos, já existia no Brasil muito antes do marco global dos anos 1970. Entender as prioridades e os preconceitos desse movimento pioneiro é crucial para compreender os desafios atuais.

O estudo demonstra que o conceito de "conservação" da época era fundamentalmente antropocêntrico e econômico. Impulsionado pelo boom madeireiro, o objetivo não era preservar ecossistemas intocados, mas garantir o uso racional e contínuo dos recursos — como a madeira para a construção de ferrovias, conforme apontado pelo historiador Warren Dean — para o progresso da nação.

A dissertação evidencia como, desde suas origens, o discurso de proteção da natureza no Brasil carregou fortes preconceitos de classe e raça. Ele construiu ativamente a imagem de certos grupos como os "inimigos da floresta", culpabilizando populações como indígenas, sertanejos, jecas, caboclas e, mais tarde, moradores de favelas pela degradação ambiental, enquanto isentava as elites econômicas que mais lucravam com a exploração.

O mergulho na história da Revista Florestal revela mais do que um passado esquecido; ele oferece um espelho para os dilemas do presente. As tensões identificadas na dissertação — a disputa entre desenvolvimento econômico e conservação, a primazia da lógica utilitária sobre a preservação ecológica e, principalmente, o perigoso discurso que culpa os mais pobres pela degradação ambiental — continuam extremamente atuais. Vemos ecos diretos dos "inimigos da floresta" do século XX nos debates contemporâneos que criminalizam comunidades tradicionais, povos indígenas e moradores de periferias nas discussões sobre a Amazônia, o Cerrado e as áreas urbanas. A pesquisa nos mostra que muitas das contradições do ambientalismo brasileiro têm raízes profundas. Conhecer essa história não é apenas um exercício acadêmico; é uma ferramenta essencial para construir um futuro onde a proteção da natureza seja, de fato, sinônimo de justiça social.

Se quiser conhecer o estudo na integra clique aqui. Este texto passou por revisão e adaptações realizadas com IA.

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2026

Em 1930, um jornal refletiu sobre o futuro da exportação de madeira e o reflorestamento em Blumenau

Nesta postagem analisamos o texto “O futuro da nossa exportação de madeira e a preocupação com o reflorestamento”, reproduzido na revista Blumenau em Cadernos, n. 02, Tomo XXXI, de 1990. O texto original foi retirado do periódico O Mercado de Madeiras, órgão da Liga das Serrarias de Blumenau, em seu número 3, ano 1, publicado em 1930. Trata-se de um fragmento de texto assinado apenas pelas iniciais “E. G.”, cuja autoria permanece indefinida (faltou a pesquisa para identificar - se alguém souber coloca nos comentários), mas que oferece pistas valiosas para enriquecer uma história ambiental da exploração madeireira no Vale do Itajaí e, em particular, do passado de Blumenau. À primeira vista, o relato parece concentrar-se quase exclusivamente nas questões do desenvolvimento econômico regional, descrevendo a dinâmica da exportação de madeira, os desafios logísticos do transporte e a competição entre diferentes modais e regiões produtoras. Essa ênfase reforça a centralidade da madeira como base material da economia local nas primeiras décadas do século XX. No entanto, é justamente nas linhas finais do texto que emerge um elemento surpreendente: uma preocupação explícita com o futuro das florestas e com a necessidade do reflorestamento. Essa observação, aparentemente marginal, revela que a noção de finitude dos recursos naturais já fazia parte do debate público, mesmo em um contexto fortemente marcado pela ideologia do progresso e pela expansão da exploração florestal.

Ao analisar esse breve relato, esta postagem propõe demonstrar como fontes oriundas da imprensa econômica e industrial podem ser mobilizadas como documentos relevantes para a História Ambiental, evidenciando que a consciência dos limites ecológicos não é uma invenção recente, mas já estava presente — ainda que de forma contraditória — nos discursos que sustentaram o avanço econômico regional.

Na fonte, o autor "E. G." descreve um cenário econômico pulsante, centrado na exportação de tábuas e marcado por uma "concorrência viva" em sua logística. Duas rotas principais disputavam o escoamento da produção: A rota ferroviária, transporte direto por trem de Blumenau até o porto de Itajaí. E a rota híbrida ferro-fluvial, um trajeto mais curto de trem da estação de Itoupava Seca até Gaspar, onde ocorria a baldeação (transferência) da carga para barcos que seguiam pelo rio.

A madeira, proveniente das "extensas florestas de pinheiros no planalto", era a mola propulsora dessa atividade. O autor previa o sucesso da rota híbrida, pois a navegação fluvial a partir de Gaspar era mais barata, em grande parte pela "distância muito reduzida" de apenas 15 quilômetros. Diante da competição, "E. G." não hesita em projetar: "Penso que sairá vitoriosa a navegação fluvial."

O otimismo com o futuro de Blumenau é palpável no texto. "E. G." antecipa que, com o prolongamento da estrada de ferro em direção ao planalto, a cidade se tornaria "uma das principais praças do Estado". É exatamente nesse ponto, no auge da expectativa de progresso, que o autor introduz um ponto de virada: um alerta que soa quase profético para os leitores de hoje. Com um parágrafo que rompe com o tom puramente econômico, ele adverte: 

Mas não nos esqueçamos da fonte da nossa riqueza, das extensas florestas de pinheiros no planalto não nos esqueçamos de protegê-las por uma lei que regulamente e determine o reflorestamento. Do contrário, a magnificência do nosso desenvolvimento econômico será efêmera.

O significado desta advertência é claro e poderoso. O autor estabelece uma conexão direta entre a continuidade da prosperidade econômica e a sustentabilidade ambiental. A escolha da palavra "efêmera" é particularmente reveladora, o desenvolvimento sem a proteção da "fonte da riqueza" não seria apenas interrompido, mas sua grandiosidade seria fugaz e ilusória. O que você acha?

Um pequeno trecho como este é uma fonte de imenso valor para a pesquisas em história ambiental, pois revela as complexas raízes do pensamento socioecológico no Brasil.  O texto demonstra uma percepção precoce da finitude dos recursos. No entanto, não se trata de um apelo à preservação da natureza por seu valor intrínseco, mas sim de um exemplo clássico de conservacionismo utilitário: a ideia de que os recursos devem ser geridos de forma racional para garantir sua exploração econômica contínua. A floresta deveria ser protegida para que a "fonte da nossa riqueza" não se esgotasse. Para um historiador, é crucial quando uma fonte identifica a base material da economia. O autor aponta sem rodeios para as "extensas florestas de pinheiros" como o alicerce da riqueza em uma fronteira de recursos. Isso nos permite compreender qual elemento natural moldou a sociedade, a economia e a própria paisagem da região. 

"E. G." propõe uma solução institucional: uma "lei que regulamente e determine o reflorestamento". Este chamado por intervenção estatal é um vislumbre notável do pensamento sobre governança ambiental, especialmente no contexto da Primeira República, período em que o Estado brasileiro começava a consolidar seu controle sobre o território e seus recursos naturais. O autor apela ao orgulho cívico para justificar sua proposta. Ele menciona que Blumenau, como "primeiro município modelo, do Brasil", teria a "obrigação moral" de agir de forma exemplar na gestão florestal. A ação não seria apenas para o bem local, mas também "em prol da grandeza da nossa pátria Brasil", conectando a responsabilidade ambiental a um projeto de identidade e orgulho nacional.

O pequeno trecho assinado por "E. G." pode ser muito mais explorado, e esse tema, a história ambiental da exploração da madeira, é fundamental para compreender a História Ambiental local. Assim o texto é uma fonte valiosa para verificarmos a mentalidade de uma época, revelando que a euforia do desenvolvimento econômico caminhava lado a lado com uma nascente consciência sobre seus limites ecológicos. Mais de um século depois, o alerta de "E. G." sobre uma riqueza "efêmera" ecoa com uma urgência renovada. Fontes históricas como esta são essenciais, pois nos mostram que os debates atuais sobre a sustentabilidade do agronegócio, o desmatamento na Amazônia e a finitude da riqueza natural do Brasil não são novos. Eles são a continuação de um diálogo antigo, lembrando-nos que os avisos sobre a necessidade de proteger nossos recursos ecoam há muito tempo em nossa história, aguardando para serem, finalmente, ouvidos.

Se quiser conhecer a fonte analisada, clique aqui para acessar. Este texto passou por revisão e adaptações realizadas por IA

sábado, 7 de fevereiro de 2026

Pesquisadores publicam estudo na Fronteiras: Revista Catarinense de História

É com grande satisfação que anunciamos a publicação de um novo artigo que divulga parte dos resultados de nossas pesquisas em História Ambiental, com foco na água no Vale do Itajaí. Essas investigações vêm sendo desenvolvidas ao longo dos últimos anos e refletem um percurso coletivo, contínuo e interdisciplinar de pesquisa. O interesse pela temática da água começou a se consolidar a partir de 2019, com o projeto “Arenas, disputas e desafios nos múltiplos arranjos de gestão das águas”, desenvolvido no âmbito do Programa de Pós-Graduação em Desenvolvimento Regional, no qual o professor Gilberto atua. Nesse projeto, além da participação direta de Gilberto, o Grupo de Pesquisa de História Ambiental do Vale do Itajaí (GPHAVI) integrou-se como parceiro, contribuindo para a incorporação da perspectiva da História Ambiental nas análises.

Antes e durante esse período, nossas preocupações de pesquisa já se voltavam para diferentes problemáticas ambientais e regionais, como evidenciam diversas Iniciações Científicas (ICs). Entre elas, destacam-se os estudos sobre a produção de arroz orgânico no município de Massaranduba (SC) e a História Ambiental do desenvolvimento regional no sul do Parque Nacional da Serra do Itajaí, ambos com fomento do PIPe/Artigo 170, sob orientação do professor Gilberto (no caso do arroz) e do professor Martin (no caso do parque).

Paralelamente, desenvolvíamos o projeto “História Ambiental do Clima e o Desenvolvimento do Vale do Itajaí-açu (Santa Catarina)”, coordenado pelo professor Gilberto, que articulou diferentes ICs, como: 
Representações da natureza e descrições da paisagem do Vale do Itajaí-açu no século XIX; Investigando o acervo científico do GPHAVI para compreender o desenvolvimento regional do entorno do Parque Nacional da Serra do Itajaí; Natureza e paisagem do Vale do Itajaí (SC) nas publicações da revista Blumenau em Cadernos (1957–1960). Essas atividades foram, gradualmente, despertando um interesse mais específico em aprofundar as investigações sobre a água, uma vez que muitos dos elementos analisados — paisagem, clima, biodiversidade, ocupação humana e desenvolvimento regional — estavam diretamente integrados a ela.

Foi nesse contexto que, em 2022, teve início o projeto “História Ambiental e Desenvolvimento Regional da Água na Bacia Hidrográfica do Rio Itajaí (SC)”, também coordenado por Gilberto. Esse projeto fundamentou e articulou novas atividades de Iniciação Científica que ampliaram significativamente o levantamento e a análise de dados históricos. Entre elas, destacam-se: a IC de 2022, com fomento PIBIC, A água na História do Vale do Itajaí (SC): uma análise das publicações da revista Blumenau em Cadernos (1957–1979); em 2023, as ICs Uma abordagem interdisciplinar no estudo da água na Bacia Hidrográfica do Rio Itajaí-açu (SC) (PIBIC) e História Ambiental da Água no Vale do Itajaí (SC) nas publicações da revista Blumenau em Cadernos (1980–1999), com fomento do UNIEDU/Artigo 170 – Estado de Santa Catarina. O conjunto dessas pesquisas resultou em um acervo consistente de dados históricos que agora se materializa em novas publicações, como o artigo recentemente lançado.




O estudo “Água, paisagem e desenvolvimento: impressões de viajantes no Vale do Itajaí (século XIX e início do século XX)” foi publicado em 2 de fevereiro, integrando o número 47 da Fronteiras: Revista Catarinense de História. O artigo tem como objetivo analisar as impressões sobre a água a partir das descrições da paisagem no Vale do Itajaí, inter-relacionando esse elemento com a presença humana, a biodiversidade e os demais componentes da geodiversidade.

A pesquisa usou fontes primárias, especialmente relatos de viajantes que percorreram a região ao longo do século XIX e início do século XX, além de fontes secundárias. Os viajantes, ao navegarem pelos rios Itajaí-açu e Itajaí-mirim, registraram a beleza da paisagem associada aos cursos d’água, destacando a biodiversidade e os aspectos geológicos da região. Em seus relatos, estabelecem comparações com rios de outros lugares, sugerem melhorias nos sistemas de transporte fluvial como estratégia para promover o desenvolvimento regional e descrevem a ocupação humana, as etnias presentes e as dimensões das propriedades localizadas às margens do rio Itajaí.

Ao mesmo tempo em que evidenciam o uso dos recursos hídricos como elemento fundamental para o desenvolvimento regional, esses registros permitem compreender uma transformação histórica: os fluxos de água, tão admirados pelos viajantes, tornam-se, ao longo do tempo, um problema crescente, associado às enchentes de grande impacto e repercussão catastrófica na região.

O estudo pode ser acessado (clique aqui) e fortalece as atividades acadêmicas e as práticas de pesquisa em História Ambiental desenvolvidas pelo grupo. Além das Iniciações Científicas realizadas no âmbito do GPHAVI, o estudo integra esforços de pesquisa desenvolvidos por Stella Maris Martins Cruz Castelo de Souza Nemetz, que realizou sua pesquisa doutoral sob orientação do professor Gilberto, estando integrada ao GPHAVI, e que atualmente é professora do curso de Arquitetura da FURB. Soma-se ainda a contribuição de Manuela Buzzi, mestranda no PPGDR, também orientada pelo professor Gilberto e integrante do GPHAVI, que foi bolsista do grupo durante a graduação e desenvolve pesquisas voltadas aos parques urbanos. Em nosso blog temos diversas publicações sobre História Ambiental da Água no Vale do Itajaí, clique aqui e descubra.

terça-feira, 3 de fevereiro de 2026

A natureza tem História? Como a História Ambiental revolucionou nosso olhar sobre o passado

Você já se perguntou quando exatamente nós, seres humanos, nos tornamos uma força capaz de alterar o clima, os rios e as florestas em escala global? Em meio aos debates urgentes sobre a crise ambiental, essa pergunta parece se referir a um problema recente, fruto da industrialização e da globalização. No entanto, a própria percepção de que temos o poder de transformar – e destruir – a natureza tem uma história fascinante e muito mais antiga do que imaginamos. Entender as origens desse pensamento é fundamental para compreender os desafios que enfrentamos hoje.

Para navegar por essa questão, temos um guia fundamental: o artigo "The Theoretical Foundations of Environmental History", do historiador brasileiro José Augusto Pádua. Este texto funciona como um mapa para entendermos como a História Ambiental surgiu enquanto um campo de conhecimento nos anos 1970, revolucionando a forma como os historiadores olham para o passado.

Compreender como essa área nasceu nos ajuda a ver que as preocupações ecológicas não são apenas uma "moda" passageira. Pelo contrário, são o resultado de profundas mudanças na maneira como a ciência e a sociedade passaram a enxergar a complexa relação entre a humanidade e o planeta Terra. 
A História Ambiental não surgiu do vácuo. Ela foi impulsionada por uma combinação de pressões sociais e transformações internas no próprio campo do conhecimento.

Segundo Pádua, o surgimento da História Ambiental foi movido por um duplo motor: o fator sociológico e epistemológico.

Fator Sociológico
As "vozes das ruas" foram cruciais. O crescimento do ambientalismo e os intensos debates públicos das décadas de 1960 e 1970 criaram uma demanda social por respostas. Um exemplo claro foi o primeiro curso universitário de "História Ambiental" de grande impacto, ministrado em 1972 por Roderick Nash na Universidade da Califórnia. Nash afirmou explicitamente que estava "respondendo aos gritos por responsabilidade ambiental" daquela época. Embora alguns historiadores se sintam desconfortáveis com essa influência externa, Pádua argumenta que os historiadores "sempre olham para o passado com perguntas do presente". Ele lembra que a história monetária foi estimulada pela crise inflacionária dos anos 1920 e a história demográfica, pela explosão populacional do pós-Segunda Guerra.

Fator Epistemológico
Além da pressão social, mudanças internas no próprio conhecimento científico (ou seja, na forma como a ciência entende o que é possível saber e como se pode saber) foram fundamentais. Os historiadores começaram a ser desafiados por novas descobertas e a fazer novas perguntas ao passado, percebendo que a dimensão biofísica não poderia mais ser ignorada em suas análises.

A ideia de que a ação humana pode degradar a natureza de forma massiva é, como aponta Pádua, um tema essencialmente moderno. Por séculos, o debate se concentrou em como a natureza influenciava a história humana, e não o contrário. Um marco nessa virada de percepção foi o livro Man and Nature (1864), do diplomata americano George Perkins Marsh, que denunciou a destruição causada pela humanidade ao longo da história.

Pádua nos lembra de exemplos notáveis no contexto brasileiro, muito anteriores a Marsh, como José Bonifácio de Andrada e Silva (1815), que antes mesmo da independência do Brasil, ao escrever sobre o desmatamento em Portugal, alertou com uma perspectiva histórica: "países que perderam suas florestas são quase estéreis e sem gente. Assim aconteceu na Síria, Fenícia, Palestina". Anos depois, já no Brasil, ele advertiu que a agricultura predatória transformaria o país nos "desertos da Líbia". Outro nome mencionado é o de Tomás Pompeu de Sousa Brasil (1860), que ao discutir as secas no Ceará conectou o problema à destruição de florestas no norte da África, que, em suas palavras, foi o "celeiro da Itália". Ele argumentava que a história provava que a negligência humana com as matas poderia transformar a nação mais fértil em uma "desolação inabitável". Esses pensadores, embora não fossem "historiadores ambientais" no sentido moderno, já demonstravam uma clara percepção histórica dos processos de mudança ambiental.

Mas para que essa percepção se transformasse em um campo de estudo, não bastavam alertas isolados. Eram necessárias duas revoluções intelectuais que mudariam para sempre nossa noção de tempo e de natureza. Primeiro, a percepção do tempo foi radicalmente alterada. A historiografia tradicional operava, no máximo, dentro de um "tempo bíblico" de cerca de seis mil anos. Contudo, a geologia e a biologia revelaram uma história planetária de 4,5 bilhões de anos. Para a História, que tradicionalmente se concentrava nos últimos milênios, essa nova realidade foi um choque, e a história humana se tornou um capítulo brevíssimo na imensa biografia do planeta. Segundo, a natureza como História. A visão da natureza como um cenário estático e passivo para a ação humana ruiu. Como descreve Pádua, foi como se, em meio a uma peça de teatro, "o cenário começasse a se mover", revelando-se não um pano de fundo, mas um ator central na trama. A natureza não é um palco inerte, ela tem sua própria história, cheia de mudanças, ciclos e transformações.

O principal desafio teórico da História Ambiental é superar a visão dualista que separa de forma rígida "natureza" e "sociedade". Por muito tempo, a historiografia tradicional tratou o que Pádua chama de "humanidade flutuante" — a ideia de que os seres humanos vivem como se não dependessem do mundo biofísico para respirar, comer e existir. A História Ambiental não busca reduzir tudo a um determinismo geográfico ou biológico. Pelo contrário, ela se propõe a ser uma expansão da análise histórica, incorporando a dimensão biofísica para tornar nosso entendimento do passado mais completo e complexo. Para escapar dessa armadilha dualista e colocar a análise integrada em prática, historiadores como Donald Worster propuseram um modelo de investigação que funciona como uma caixa de ferramentas, forçando o pesquisador a conectar três níveis fundamentais:

Nível 1 - A Natureza em si: O estudo dos ecossistemas do passado e de suas transformações ao longo do tempo (clima, vegetação, rios etc.).
Nível 2 - A Dimensão Socioeconômica: A análise de como as sociedades se organizam para interagir com o ambiente, incluindo seus "modos de produção", tecnologias e formas de trabalho.
Nível 3 - A Dimensão Cognitiva e Cultural: A investigação das mentalidades, valores, ideologias e percepções que as pessoas têm sobre a natureza e seu lugar nela.

Essa abordagem que integra ecologia, economia e cultura nos oferece uma ferramenta poderosa para compreender a complexidade dos problemas atuais. O desmatamento na Amazônia, a crise climática global ou a poluição de um rio urbano não podem ser entendidos apenas com dados técnicos. A perspectiva histórica revela que essas crises não são problemas de agora. Elas estão profundamente enraizadas em processos históricos, escolhas sociais, modelos econômicos e visões de mundo que foram construídas ao longo do tempo. Ignorar essa dimensão histórica é como tentar tratar os sintomas de uma doença sem entender suas causas.

A grande lição da História Ambiental é que a natureza tem uma história, e a nossa história está inseparavelmente entrelaçada a ela. Não somos meros espectadores, mas participantes ativos — e, na sutil observação de Alfred Crosby, muitas vezes "distraídos" — nos ecossistemas que habitamos.
Importante, essa lente histórica não serve apenas para catalogar desastres, mas também para revelar as formas complexas e por vezes criativas com que as culturas co-construíram suas paisagens.

Mais do que ditar o que fazer, a História Ambiental nos convida a um exercício de observação. Olhe para a paisagem ao seu redor, o rio que corta sua cidade, a área agrícola que a abastece, o parque urbano onde você caminha. Quando você observa se pergunte: qual história este lugar me conta? Este é o convite: aprender a ler as marcas do passado no mundo que nos cerca, transformando nosso olhar sobre a realidade que vivemos e construímos.

Caso você tenha interesse em ler o original que usamos para escrever esta postagem, clique aqui. Este texto da postagem passou por revisão e adaptações realizadas com a IA. A fonte é o estudo apresentado, a referencia segue a seguir.

Referência:
PÁDUA, José Augusto. The theoretical foundations of environmental history. Estudos Avançados, São Paulo, v. 24, n. 68, p. 81–101, 2010.

Sobre o autor:

José Augusto Pádua é historiador ambiental e professor associado do Instituto de História da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), onde coordena o Laboratório de História e Natureza. Graduado em História pela PUC-Rio (1983), é mestre e doutor em Ciência Política pelo IUPERJ (1985; 1997) e realizou pós-doutorado em História na University of Oxford (2007). É especialista em História Ambiental e políticas ambientais, com atuação destacada no Brasil e no cenário internacional. Foi presidente da ANPPAS (2010–2015) e, desde 2025, preside a Sociedade Latino-Americana e Caribenha de História Ambiental (SOLCHA). Integra a Global Faculty da University of Cologne (2024–2025) e é fellow do Rachel Carson Center (Munique). Atua em conselhos editoriais de importantes periódicos científicos e participou da criação do Museu do Amanhã. Desenvolve pesquisas sobre história do Brasil, florestas, agroecossistemas, ideias sobre a natureza e políticas de desenvolvimento sustentável.