| Fonte |
Localizado no Vale do Itajaí, Botuverá serve como um microcosmo para analisar como a sociedade e a natureza se influenciaram mutuamente ao longo de décadas. Nesta postagem, vamos explorar um estudo acadêmico que mergulha nessa história. Utilizando a perspectiva da História Ambiental e os valiosos relatos de antigos moradores, os pesquisadores desvendam o auge e o declínio da cultura do fumo e o impacto profundo e duradouro que ela deixou no meio ambiente e na vida das pessoas. É o artigo História Ambiental dos Fumicultores em Botuverá - SC, um recorte de uma iniciação científica que desenvolvemos no grupo, apresentado no VI Congresso brasileiro de agroecologia e II Congresso Latino americano de Agroecologia. Os anais foram publicados no Cadernos de Agroecologia e podem ser acessados clicando aqui.
O objetivo central desta pesquisa foi compreender a interação entre a sociedade e a natureza em Botuverá, traçando uma linha do tempo desde a introdução do fumo em escala comercial, na década de 1940, até os dias atuais. O estudo organiza a trajetória da fumicultura em Botuverá em três grandes períodos, que marcam transformações significativas na economia e na paisagem local.
Fase 1 (1860-1940): Agricultura de Subsistência Este período inicial, marcado pela colonização europeia, foi definido pela agricultura de subsistência. Os imigrantes enfrentaram grandes dificuldades para se adaptar à geografia da região, com seus vales estreitos e encostas íngremes. O cultivo do fumo existia, mas era destinado exclusivamente ao consumo próprio das famílias.
Fase 2 (1940-1980): A Expansão Comercial A partir da década de 1940, o cenário mudou drasticamente. Empresas de tabaco passaram a incentivar o cultivo comercial, transformando a fumicultura na principal atividade agrícola do município. Este período representou o auge da produção e foi o motor de um significativo avanço econômico, social e tecnológico para os agricultores familiares. A atividade se tornou tão central que, como recorda uma moradora entrevistada no estudo: “Aqui em Botuverá cada um, cada família era uma estufa ou duas, quem não tinha três” (Tomazia, 2008).
Fase 3 (A partir de 1990): O Declínio da Atividade A década de 1990 marcou o início do declínio da fumicultura. Diversos fatores contribuíram para essa mudança: a chegada de indústrias têxteis à região, o fortalecimento da mineração de calcário e o deslocamento da população jovem para centros econômicos mais dinâmicos como Brusque. Essa transição econômica, somada a novas políticas ambientais, gerou uma profunda mudança cultural, alterando hábitos tradicionais da comunidade, como a extração de madeira e a caça, e redefinindo a relação dos moradores com a natureza ao seu redor.
Se por um lado a fumicultura trouxe prosperidade e acesso a novas tecnologias para as famílias de Botuverá, por outro, deixou uma marca profunda no ecossistema local. O estudo detalha os principais impactos ambientais dessa atividade. A cultura do fumo foi uma das principais causas da redução da cobertura vegetal nativa da Mata Atlântica na região. Isso ocorreu de duas maneiras interligadas.
Para aumentar a produção, era necessário desmatar novas áreas para o plantio. O processo de secagem das folhas de fumo demandava uma quantidade imensa de lenha para abastecer as estufas. Um agricultor entrevistado quantificou essa necessidade: “para secar, a base de 50 mil pé de fumo, vai à base de 70 ou 80 metros de lenha” (Molinari Fillho, 2008). O estudo aponta que, embora as empresas incentivassem o plantio de eucalipto, a madeira nativa era preferida por ser mais eficiente: os agricultores calculavam que "se vai 20 (metros) de madeira de mato, vai 25 ou 30 de eucalipto”.
Com a intensificação do cultivo, especialmente após a chamada "Revolução Verde", o uso de agroquímicos tornou-se massivo. Os pesquisadores relatam que os próprios agricultores entrevistados hoje refletem sobre os perigos a que foram expostos ao aplicar esses produtos sem proteção adequada. Essa prática também levantou sérias preocupações sobre a contaminação do solo e dos recursos hídricos da região, um legado químico que pode perdurar por muito tempo.
Para reconstruir essa complexa história, os pesquisadores adotaram uma abordagem em duas frentes, combinando rigor acadêmico com a sabedoria local. Primeiro uma pesquisa documental, onde realizaram uma revisão de bibliografias e documentos existentes sobre a região e a atividade agrícola. E com História Oral, onde conduziram 15 entrevistas com os agricultores mais antigos do município para resgatar práticas, valores e conhecimentos.
Esta abordagem em duas frentes é poderosa porque cruza a história documentada com a memória viva, capturando não apenas o que aconteceu, mas como esses eventos foram vividos e percebidos por quem os protagonizou. O estudo chega a conclusões claras sobre o legado da fumicultura, revelando um processo de degradação em duas etapas. A transformação da paisagem começou nos anos 1940, com o desmatamento para abrir lavouras e alimentar as estufas. A partir da década de 1960, com a "Revolução Verde", essa degradação foi acentuada pelo uso intensivo de agroquímicos. A principal consequência, apontada pelos próprios agricultores, foi a perda de grande parte da cobertura vegetal original e a contaminação do solo e da água, resultando em um desequilíbrio ecológico sentido até hoje.
Talvez a conclusão mais alarmante seja o vácuo deixado para trás. O estudo destaca que, mesmo com o declínio da fumicultura, não foram identificadas na região experiências de agricultura sustentável ou com perspectiva agroecológica. O fim de um modelo extrativista não deu origem, automaticamente, a um mais sustentável — uma lição crítica para comunidades rurais em transição em todos os lugares. No fim, o caso de Botuverá exemplifica perfeitamente a visão da História Ambiental: a natureza não é apenas um cenário passivo para as ações humanas. Ela é um agente ativo que condiciona o desenvolvimento de uma sociedade e, ao mesmo tempo, é profundamente transformada por ele. Essa perspectiva nos lembra que cada campo, rio e trecho de floresta tem uma história escrita por escolhas humanas, uma história que continua a moldar nosso presente e futuro.
Referência:
SANTOS, G. F.; MOSER, A. C.; GARROTE, M. S. História Ambiental dos Fumicultores em Botuverá - SC. Revista Brasileira de Agroecologia, v. 4, n. 2, p. 4429-4433, nov. 2009. Disponível em: https://revista.aba-agroecologia.org.br/cad/article/view/5366
Este texto passou por revisão e adaptações realizadas por IA.

