"Eu sou o que me cerca. Se eu não preservar o que me cerca, eu não me preservo".
José Ortega y Gasset

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026

A floresta de palavras: um estudo sobre as raízes do ambientalismo brasileiro com a "Revista Florestal"

Você acredita que a preocupação com o meio ambiente no Brasil é um movimento recente, nascido a partir dos anos 1970? Se você acha que sim, quero te mostrar uma das pesquisas de história que desafia essa visão. Uma dissertação de mestrado, analisando um artefato cultural, um periódico, e lança dados sobre as raízes do pensamento ambientalista/ecológico nacional. É a dissertação de mestrado Matas folheadas: imprensa, práticas letradas e sociabilidades de proteção à natureza na Revista Florestal (1929-1949), de Filipe Oliveira da Silva, desenvolvida na Universidade Federal Fluminense (UFF), Programa de Pós-Graduação em História  sob orientação da Prof.ª Dr.ª Juniele Rabêlo de Almeida, e que teve como banca examinadora o Prof. Dr. José Augusto Valladares Pádua (UFRJ) e Prof.ª Dr.ª Lise Fernanda Sedrez (UFRJ).

A origem da pesquisa se deu de forma quase acidental. Ao trabalhar com o acervo da bióloga e feminista Bertha Lutz no Museu Nacional, o autor da dissertação deparou-se com uma vasta rede de correspondências que revelavam o engajamento de diversos intelectuais em questões de proteção à natureza muito antes do que se costumava pensar. Essa descoberta inicial contrariou frontalmente a percepção tradicional de que o ambientalismo brasileiro só se consolidou como movimento a partir da Conferência de Estocolmo, em 1972. Essa rede pioneira, no entanto, não debatia em um vácuo. Sua urgência era alimentada por um contexto material muito claro: o boom madeireiro que se seguiu à Primeira Guerra Mundial, quando a exploração e exportação de madeira brasileira atingiram níveis sem precedentes. 

Guiado por essa nova pista, o pesquisador chegou ao objeto central de sua análise: a Revista Florestal, um periódico que circulou por 20 anos e que se tornou o "artefato cultural" que materializou as ideias, os debates e as tensões desse movimento pioneiro. A dissertação organiza suas descobertas de forma meticulosa, revelando as múltiplas facetas de um movimento que era, ao mesmo tempo, progressista em sua pauta e profundamente elitista em sua composição e seus preconceitos. O estudo identifica três grandes correntes de pensamento que disputavam a interpretação sobre a natureza brasileira no início do século XX:

• A natureza como obstáculo: Uma visão pessimista, influenciada por teóricos como Henry Thomas Buckle e representada por intelectuais como Paulo Prado. Para eles, a exuberância da natureza tropical era um entrave ao progresso e à civilização, uma força a ser domada e superada.

• A natureza como paraíso ("Ufanismo"): Uma exaltação da natureza como divina, perfeita e inesgotável, exemplificada pela obra de Afonso Celso. Essa corrente minimizava ou ignorava os problemas ambientais crescentes, como o desmatamento, em nome de um patriotismo idealizado.

• A natureza como Nação (Nacionalismo crítico): Uma vertente que, embora nacionalista, criticava a exploração predatória dos recursos naturais e defendia o seu uso racional, baseado na ciência, como alicerce para a construção de uma nação forte e moderna. Foi a essa corrente, representada por figuras como Euclides da Cunha, Alberto Torres e Monteiro Lobato, que a Revista Florestal se filiou.

A pesquisa ainda aponta para uma quarta vertente, marginalizada, encarnada por Lima Barreto, que introduziu uma crítica social ao elitismo do movimento florestal, questionando quem de fato tinha o direito de usufruir e proteger a natureza. 

A trajetória do periódico é analisada em três fases distintas, cada uma refletindo a consolidação da ideologia da "Natureza como Nação" em diferentes contextos políticos. 

A primeira fase (1929-1930), marcada por um tom de "cruzada patriótica" pelo reflorestamento. O debate central girava em torno da criação do Serviço Florestal do Brasil e da definição dos "inimigos da floresta". Essa categoria, construída pelo discurso da elite, frequentemente incluía populações rurais, caboclas e indígenas, responsabilizadas por práticas destrutivas como as queimadas.

A segunda sase (1932-1934), momento do Governo Provisório de Getúlio Vargas, a revista se tornou um órgão oficial do Serviço Florestal. O foco se deslocou para a modernização do campo e o projeto de integração nacional através da criação de Parques Nacionais, como o de Iguaçu — cujo projeto arquitetônico, a cargo de Ângelo Murgel, foi influenciado por modelos de parques norte-americanos —, vistos como ferramentas para a construção da identidade nacional.

A terceira fase (1945-1949), ocorre sob a gestão do Conselho Florestal Federal, o periódico aprofundou seu caráter técnico-científico, com uso intenso de fotografias e seções fixas como "Notas Bibliográficas" e "Legislação". O foco se voltou crescentemente aos problemas urbanos, e a culpa pelo desmatamento nos morros do Rio de Janeiro foi atribuída diretamente aos moradores de favelas, ampliando a lista dos "inimigos da floresta" e reforçando o viés socialmente excludente do discurso.

A análise dos colaboradores da revista, por meio de uma prosopografia (um estudo biográfico coletivo), revela um movimento elitista e profundamente genderizado, dominado por uma visão técnica que moldou suas prioridades e preconceitos.

Um universo predominantemente masculino, com a identificação de apenas cinco mulheres entre centenas de participantes ao longo de 20 anos, um dado que expõe a exclusão das mulheres dos círculos de poder técnico-intelectual da época.

Hegemonia de engenheiros agrônomos, seguidos por escritores, engenheiros civis, médicos e advogados. Isso reflete a visão de que a solução para os problemas ambientais residia na aplicação da ciência. No entanto, o grupo não era um monolito: havia intensas disputas internas, como a rivalidade entre Francisco de Assis Iglésias (com foco na agricultura e no meio rural) e José Mariano Filho (voltado à arborização urbana) pelo controle das políticas florestais.

A maioria era de brasileiros, mas com uma surpreendente participação de estrangeiros, principalmente norte-americanos. Este dado revela que o debate não era isolado. Intelectuais como Lourenço Baeta Neves eram diretamente influenciados pelo movimento conservacionista dos EUA de Gifford Pinchot e Theodore Roosevelt, e técnicos americanos participaram ativamente da criação do Serviço Florestal brasileiro, mostrando que o debate nacional era parte de uma conversa global. Era um grupo intergeracional, unindo jovens técnicos a intelectuais experientes. O que os unificava não era a data de nascimento, mas a experiência comum de testemunhar a acelerada destruição ambiental do país.

As contribuições deste estudo são fundamentais para compreendermos a longa e complexa trajetória do pensamento ambiental no Brasil, desfazendo mitos e expondo contradições que perduram até hoje. A pesquisa prova que um robusto movimento de proteção à natureza, com instituições, periódicos e debates complexos, já existia no Brasil muito antes do marco global dos anos 1970. Entender as prioridades e os preconceitos desse movimento pioneiro é crucial para compreender os desafios atuais.

O estudo demonstra que o conceito de "conservação" da época era fundamentalmente antropocêntrico e econômico. Impulsionado pelo boom madeireiro, o objetivo não era preservar ecossistemas intocados, mas garantir o uso racional e contínuo dos recursos — como a madeira para a construção de ferrovias, conforme apontado pelo historiador Warren Dean — para o progresso da nação.

A dissertação evidencia como, desde suas origens, o discurso de proteção da natureza no Brasil carregou fortes preconceitos de classe e raça. Ele construiu ativamente a imagem de certos grupos como os "inimigos da floresta", culpabilizando populações como indígenas, sertanejos, jecas, caboclas e, mais tarde, moradores de favelas pela degradação ambiental, enquanto isentava as elites econômicas que mais lucravam com a exploração.

O mergulho na história da Revista Florestal revela mais do que um passado esquecido; ele oferece um espelho para os dilemas do presente. As tensões identificadas na dissertação — a disputa entre desenvolvimento econômico e conservação, a primazia da lógica utilitária sobre a preservação ecológica e, principalmente, o perigoso discurso que culpa os mais pobres pela degradação ambiental — continuam extremamente atuais. Vemos ecos diretos dos "inimigos da floresta" do século XX nos debates contemporâneos que criminalizam comunidades tradicionais, povos indígenas e moradores de periferias nas discussões sobre a Amazônia, o Cerrado e as áreas urbanas. A pesquisa nos mostra que muitas das contradições do ambientalismo brasileiro têm raízes profundas. Conhecer essa história não é apenas um exercício acadêmico; é uma ferramenta essencial para construir um futuro onde a proteção da natureza seja, de fato, sinônimo de justiça social.

Se quiser conhecer o estudo na integra clique aqui. Este texto passou por revisão e adaptações realizadas com IA.

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