Diante da urgência da crise climática contemporânea, penso: de onde vem essa cultura de exploração desenfreada? Frequentemente me deparo com a tradição judaico-cristã. Seria "vilã" da natureza? Tendo fornecido o salvo-conduto teológico para a exploração desenfreada do planeta? Mas será que essa narrativa resiste a uma análise rigorosa das fontes? Seria o conceito de "domínio" uma licença para destruir ou um chamado à responsabilidade?
Este tema já foi discutido no passado recente e convido você a mergulhar em uma postagem sobre as raízes do pensamento monoteísta e sua complexa relação com o mundo natural, tendo como base o trabalho de J. Donald Hughes, especificamente sua análise em Ecology in Ancient Civilizations (1975), capítulo 5 Ancient Israel and the environmental ancient. Para o autor, embora o Israel antigo fosse um território minúsculo, espremido entre colossos imperiais e constantemente devastado por guerras, seu sistema de pensamento gerou ondas de choque que ainda definem o comportamento global. Através do judaísmo, do cristianismo e do islamismo, a visão israelita sobre a terra tornou-se a lente pela qual grande parte da humanidade enxerga o meio ambiente. Entender esse povo é, portanto, entender a nossa própria conduta ética frente aos ecossistemas que nos sustentam.
A grande ruptura de Israel com seus vizinhos residiu no monoteísmo ético. Enquanto os povos ao redor divinizavam os elementos, adorando o sol, a tempestade ou a própria fertilidade do solo, os judeus conceberam um Deus transcendente. Ele era o Criador, mas não a criatura. Como descreve Hughes, Deus "podia cavalgar sobre a tempestade, mas não era a tempestade". Essa desmistificação alterou profundamente o que chamamos na ecologia histórica de metabolismo sociedade-natureza. Esse conceito descreve como uma sociedade organiza suas trocas de matéria e energia com o meio. Em Israel, esse metabolismo era mediado pela ética. A natureza não era um objeto de adoração cega, mas uma evidência da majestade divina, um palco onde a conduta humana era posta à prova.
Ao contrário do que sugerem certas críticas modernas, os judeus amavam a natureza e nela viam uma beleza arrebatadora. O "amor à natureza" não era estranho a eles e pode ser notado na lírica do Cântico dos Cânticos, onde a primavera é celebrada com doçura: "As flores aparecem na terra, chegou o tempo do canto... a figueira produz seus figos". No Salmo 104 e no livro de Jó, vemos um Criador que se deleita com Suas criaturas, dando-lhes alimento na estação própria. Para o israelita, o mundo era intrinsecamente "muito bom", uma visão que rejeitava qualquer dualismo que visse a matéria como maléfica.
Essa visão de bondade original nos leva ao polêmico conceito de "domínio" em Gênesis 1:28. Hughes é enfático ao afirmar que para os antigos judeus, esse termo jamais significou exploração predatória. O ser humano era visto como um "vice-rei" ou zelador (stewardship), ocupando uma posição subordinada à soberania final de Deus. A tarefa humana original, no Jardim do Éden, era "cultivar e guardar" um mundo ainda não deteriorado. A "Queda" do homem, inclusive, é narrada como tendo consequências ecológicas imediatas: a terra passa a produzir "espinhos e cardos", tornando-se um comentário moral sobre a falha humana.
Essa ética de zeladoria se traduzia em leis práticas e surpreendentemente avançadas para a época:
- O descanso sabático: A pausa semanal obrigatória estendia-se aos animais domésticos, garantindo-lhes fôlego.
- O Ano Sabático: A cada sete anos, a terra deveria repousar de forma absoluta, e o que crescesse espontaneamente pertencia aos necessitados.
- Preservação de recursos: Hughes menciona que certas árvores eram preservadas do uso humano, e havia proibições estritas contra a crueldade animal — como a proibição de amordaçar o boi que trabalha ou colher uma ave junto de sua ninhada.
- Higiene e Pureza: Regras rígidas para a eliminação de resíduos e a proteção de nascentes contra a contaminação.
No plano econômico, Hughes identifica tensões fascinantes entre modos de vida. O conflito entre Abel (pastor) e Caim (agricultor) ilustra a transição de sociedades, mas revela também uma hostilidade latente entre as culturas urbanas e rurais. No entanto, o trabalho na terra era dignificado; de reis como Uzias dizia-se que "amava o solo". Como viviam em uma região sem os grandes sistemas fluviais do Egito ou da Mesopotâmia, os judeus dependiam inteiramente das chuvas sazonais — o que levava os egípcios a observar, com surpresa, que Israel tinha o seu "Nilo no céu". Isso exigiu o desenvolvimento de uma engenharia hidráulica meticulosa, com cisternas e barragens para conservar cada gota da bênção celeste.
É aqui que chegamos ao ponto mais crítico da análise de Hughes e onde o silêncio histórico costuma ser mais ruidoso. Frequentemente culpa-se a teologia bíblica pela degradação da "Terra Santa". Todavia, o registro histórico revela que a erosão, o desmatamento e o esgotamento do solo foram frutos de séculos de campanhas militares devastadoras e da exploração extrativista de impérios conquistadores, e não necessariamente das práticas agrícolas locais. A terra "pranteava" quando a justiça social e política falhava.
Concluo esta reflexão reforçando que o pensamento ocidental posterior distorceu o "domínio" bíblico, transformando-o em uma ferramenta do capitalismo extrativista que os antigos profetas dificilmente reconheceriam. A História Ambiental nos ensina que as relações entre sociedade e natureza são construções políticas e éticas. O legado de Israel antigo não é um manifesto para o consumo, mas um lembrete de que a saúde do ecossistema é o espelho da nossa conduta moral.
Se o domínio sobre a Terra foi concedido como uma tarefa de zeladoria para um "vice-rei", resta-nos perguntar: como a nossa atual estrutura social e nossas crenças silenciosas estão nos conduzindo na gestão desse jardim que nos resta? Estamos agindo como zeladores de uma herança divina ou como saqueadores de um espólio que não nos pertence?
Estamos analisando em nossas postagens essa grande obra, e se você chegou até aqui, acesse o capítulo 5 clicando aqui. Este texto foi corrigido e adaptado com o uso de IA

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