"Eu sou o que me cerca. Se eu não preservar o que me cerca, eu não me preservo".
José Ortega y Gasset

terça-feira, 25 de agosto de 2026

Ciência, Tecnologia e História Ambiental: interconexões com o território

Imagem produzida com IA - ChatGPT

A presente postagem surge de uma análise bibliográfica que usei em uma de minhas aulas de tecnociência e sociedade. O objetivo da aula era analisar a interação tecnologia e território, uma abordagem que articula as teorias geográficas de Milton Santos sobre o meio técnico-científico-informacional com os Estudos Sociais da Ciência e Tecnologia (CTS). Historicamente, a transição para este debate marca uma ruptura com o paradigma da "ciência neutra" que predominou em parte do século XX. 

Sob a ótica da História Ambiental e dos CTS, o conhecimento científico não é uma acumulação linear de verdades, mas uma produção situada em contextos socioterritoriais específicos. Esta mudança de perspectiva fundamenta-se na crise dos paradigmas tradicionais. Karl Popper (1934) estabeleceu o princípio da falseabilidade, argumentando que a validade científica reside na capacidade de uma teoria ser testada e contestada pelos fatos. Conforme Thomas Kuhn (1962), a ciência avança através de revoluções que substituem modelos consolidados quando estes deixam de explicar anomalias da realidade. Tais bases epistemológicas permitem analisar como a natureza e o espaço geográfico deixam de ser cenários passivos para se tornarem agentes centrais.  A análise que se segue convida o leitor a compreender o território como um agente que molda e é moldado por sistemas técnicos, em uma relação de mútua constituição (Santos, 1991; Pinheiro et al., 2009).

O território não é meramente uma base física, mas um espaço socialmente produzido pela interação entre sistemas técnicos e o ambiente (Santos, 1991). Nesta dinâmica, os elementos ambientais exercem agência ao condicionar e interagir com as infraestruturas. A hidrografia, o relevo e a composição do solo atuam como forças estruturantes que definem a viabilidade e a localização de redes digitais, sistemas de transporte e matrizes energéticas. A natureza participa da rede técnica através de processos como a adubação natural e a cobertura vegetal do solo. Por exemplo, a floresta desempenha funções de manutenção da porosidade da terra e ciclagem de nutrientes, desafiando o homem a despertar o conhecimento para atuar em parceria com a força biológica. 

Segundo Santos (1991), a incorporação de "capital constante", como sementes selecionadas, fertilizantes e sistemas informacionais, altera a composição orgânica do território. A sequência histórica observa-se da seguinte forma: a evidência de novas infraestruturas técnicas promove uma interpretação de reorganização do espaço para atender a fluxos globais, resultando em uma nova relação sociedade-natureza, na qual a paisagem é tecnificada e hierarquizada de acordo com sua densidade técnica.

O vídeo "Indígenas Digitais" fornece evidências históricas da apropriação tecnológica para a defesa ambiental. Ferramentas como câmeras e internet são ressignificadas como "arcos digitais", instrumentos de monitoramento e proteção do bioma. Esta transição configura o "Cyberativismo" (cyberativismo), onde a tecnologia é mobilizada para a preservação de territórios e direitos.




A agência indígena manifesta-se na utilização de vídeos como evidências materiais diante de órgãos estatais. Um exemplo central ocorre quando uma Cacique, impossibilitada de viajar a Brasília por falta de recursos, utiliza o registro audiovisual para denunciar queimadas criminosas praticadas por agentes externos diante de deputados. O habitus indígena interage com a rede técnica para transformar a "caça física" em uma "caçada virtual" por soberania e visibilidade global. A tecnologia, neste contexto, não descaracteriza a cultura, mas serve como continuação da história e instrumento de governança do território contra a degradação seletiva.

A transformação ambiental em periferias manifesta-se através de tecnologias sociais que respondem à ausência de infraestrutura estatal. Projetos como o "Litro de Luz" e as intervenções na Vila Nova Esperança demonstram que as soluções técnicas emergem da necessidade e do conhecimento local. Um marco relevante é a horta comunitária estabelecida em uma ZEPAN (Zona Especial de Preservação Ambiental), onde a comunidade converteu um espaço degradado em um instrumento de segurança alimentar e recuperação ecológica.


Estes casos reforçam a busca por Soberania Digital, onde as periferias deixam de ser apenas consumidoras de tecnologia para se tornarem desenvolvedoras de soluções que respeitam a identidade local.

A tecnologia não possui neutralidade, ela incorpora valores e decisões políticas (Winner, 1977). O acesso desigual a infraestruturas cria "periferias técnicas", reforçando assimetrias onde a técnica é orientada por racionalidades de mercado (Santos, 2000).  Andrew Feenberg (citado em Pinheiro et al., 2009) distingue entre a racionalização técnica dominante e a "Racionalização Subversiva". Esta última ocorre quando comunidades ressignificam sistemas técnicos para atender necessidades sociais e ambientais, como observado nas iniciativas da Vila Nova Esperança. Na perspectiva de Latour (2000), as "redes sociotécnicas" são compostas por atores humanos e não humanos (clima, artefatos, recursos naturais). A governança do território brasileiro, frequentemente marcada pela apropriação corporativa, demonstra como a concentração de recursos técnicos resulta em degradação ambiental seletiva, priorizando áreas integradas ao capital global (Nascimento Júnior, 2012).

A relação entre tecnologia e território é definida pela mútua constituição. A tecnologia fornece os fluxos e a reorganização da vida social, a natureza e o território oferecem as condições materiais e históricas. Assim o conceito de "Território-Rede" é fundamental, uma vez que a tecnologia não apenas se sobrepõe ao espaço físico, mas produz novos territórios simbólicos e informacionais, como as zonas de segurança ou risco demarcadas por aplicativos (Latrônico et al., 2019).

A indissociabilidade entre técnica, sociedade e ambiente revela que o desenvolvimento econômico e a transformação da paisagem são processos simultâneos. A tecnociência, portanto, é um fenômeno enraizado no qual a preservação ambiental e a justiça social dependem da democratização dos sistemas técnicos e do reconhecimento da agência dos territórios sobre as ferramentas que os habitam.

A análise da relação entre ciência, tecnologia e território amplia as possibilidades interpretativas da História Ambiental ao permitir compreender que as transformações da natureza não resultam apenas de decisões econômicas, políticas ou sociais, mas também das técnicas, dos conhecimentos e das infraestruturas que tornam determinadas formas de apropriação ambiental historicamente possíveis. A tecnologia, nesse sentido, deve ser compreendida como uma mediação histórica das relações entre sociedade e natureza, e não como um elemento neutro ou externo aos processos ambientais.

Essa perspectiva também permite superar a compreensão do território como simples cenário dos acontecimentos. O território é simultaneamente condição, resultado e agente das relações históricas. Suas características ambientais, como relevo, hidrografia, solos, vegetação e disponibilidade de recursos, condicionam possibilidades técnicas e econômicas, enquanto estradas, máquinas, sistemas produtivos, redes de comunicação, infraestruturas energéticas e tecnologias informacionais transformam continuamente suas paisagens e usos. Sociedade, natureza, tecnologia e território constituem-se, portanto, em relações históricas de mútua transformação.

Para a História Ambiental, essa abordagem possibilita deslocar a pergunta de como os seres humanos transformam a natureza? para uma questão mais complexa: como sociedade, natureza, tecnologia e território se transformam mutuamente ao longo do tempo, e como relações de poder, conhecimento e economia orientam essas transformações? Essa mudança permite investigar não apenas os resultados da degradação ou da conservação ambiental, mas também os conhecimentos, técnicas, interesses e grupos sociais envolvidos na produção dessas paisagens.

Ao mesmo tempo, a tecnologia não deve ser interpretada exclusivamente como instrumento de exploração e transformação ambiental. Os exemplos analisados demonstram que diferentes grupos sociais podem apropriar-se, adaptar e ressignificar sistemas técnicos para responder às suas necessidades, defender territórios, produzir conhecimentos e enfrentar processos de degradação. A tecnologia pode, assim, operar tanto como instrumento de dominação e desigualdade quanto como recurso de resistência, proteção ambiental e reivindicação territorial.

Essa perspectiva torna-se particularmente relevante para a compreensão histórica de territórios marcados por intensas transformações ambientais, como o Vale do Itajaí. Investigar seus processos de ocupação, agricultura, exploração florestal, industrialização, urbanização e conservação implica também compreender as técnicas, os conhecimentos e as infraestruturas que possibilitaram essas transformações, bem como os diferentes grupos que delas participaram e foram afetados por seus efeitos.

Desse modo, Ciência, Tecnologia e História Ambiental: interconexões com o território não constitui apenas uma aproximação entre campos de conhecimento distintos. Trata-se de uma possibilidade de ampliar a própria compreensão histórica das relações sociedade-natureza, reconhecendo que os ambientes são transformados por sistemas técnicos e sociais, mas também que suas características materiais, limites e dinâmicas participam ativamente da construção das trajetórias históricas. A História Ambiental, ao incorporar essa dimensão, pode compreender o território como resultado de uma história simultaneamente social, ambiental, técnica e política.


Referências
LATRÔNICO, Ana Luísa Alves et al. O território como tecnologia de mediação urbana: a customização territorial dos aplicativos móveis. Urbe: Revista Brasileira de Gestão Urbana, Curitiba, v. 11, 2019.

NASCIMENTO JÚNIOR, Francisco das Chagas do. Uso do território e tecnociência: densidades, topologias e hierarquias territoriais da produção técnico-científica no Brasil. 2012. Tese (Doutorado em Geografia) – UNESP, Rio Claro, 2012.

PINHEIRO, Nilcéia Aparecida Maciel; SILVEIRA, Rosemari Monteiro Castilho Foggiatto; BAZZO, Walter Antonio. O contexto científico-tecnológico e social acerca de uma abordagem crítico-reflexiva. Revista Iberoamericana de Educación, v. 49, n. 1, 2009.

SANTOS, Milton. A revolução tecnológica e o território: realidades e perspectivas. Terra Livre, São Paulo, n. 9, p. 7-17, 1991.

SANTOS, Milton. A Natureza do Espaço: Técnica e Tempo, Razão e Emoção. São Paulo: EDUSP, 2000.

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