Nesse contexto, o conceito de Antropoceno ocupa posição de destaque. Embora ainda objeto de debates quanto ao seu estatuto geológico e às suas implicações teóricas, ele tornou-se uma das principais categorias analíticas mobilizadas pelas Humanidades Ambientais para compreender os impactos das ações humanas sobre os sistemas terrestres e as profundas transformações socioambientais que caracterizam o mundo contemporâneo. Dessa forma, a escolha do tema do encontro não representa apenas uma referência ao cenário atual das mudanças climáticas, mas sinaliza a crescente inserção dessas discussões na agenda historiográfica.
Não foi realizado para a construção desta postagem um levantamento sistemático das edições anteriores do Encontro Estadual de História da ANPUH-SC com o objetivo de identificar desde quando temas relacionados à História Ambiental passaram a integrar sua programação (olha que ideia legal!). Porem podemos afirmar que quando o Grupo de Pesquisa em História Ambiental do Vale do Itajaí (GPHAVI), foi criado em 2004, já haviam ST dedicados à História Ambiental rolando aqui em SC sob coordenação dos pesquisadores do LABIMHA da UFSC. Ainda assim, a escolha do tema geral desta edição, colocando explicitamente as crises climáticas no centro do debate, representa um momento particularmente significativo, evidenciando o amadurecimento da historiografia diante dos desafios ambientais do século XXI. A crise socioambiental se tornando um elementos presente nas pesquisas.
Uma maneira de avaliar a presença da História Ambiental no evento é observar a organização de seus Simpósios Temáticos (STs). Não foi realizado um levantamento exaustivo de todos os simpósios para identificar trabalhos que abordam a dimensão ambiental em seus conteúdos, ainda que essa abordagem não esteja explicitada em seus títulos. Essa ressalva é importante, pois a História Ambiental caracteriza-se justamente por seu caráter transversal, estando presente em pesquisas desenvolvidas em diferentes especialidades da História. Mas tendo como critério exclusivamente selecionar a partir dos os títulos dos Simpósios Temáticos, o evento conta com 21 STs, dos quais quatro apresentam explicitamente conceitos relacionados à dimensão ambiental. Entre eles, um utiliza diretamente a expressão História Ambiental, outro mobiliza o conceito de Antropoceno, considerado uma das principais categorias das Humanidades Ambientais, enquanto outros dois abordam explicitamente a temática das mudanças climáticas.
Coordenadores: Claiton Marcio da Silva (UFFS), Matheus Villani Cordeiro (UNICENTRO) e Leandro Gomes Moreira Cruz (SED/SC).
Coordenadores: Kauê Junior Neckel (UNICAMP) e Dyel Gedhay da Silva (UFSC).
Coordenadores: Alfredo Ricardo Silva Lopes (UFSC), Michely Cristina Ribeiro (UFSC) e Carlos Renato Carola (UNESC).
ST 17 – Movimentos sociais, conflitos agrários e resistências no mundo rural em tempos de crise climática
Coordenadores: Emerson Neves da Silva (UFFS) e Eliane Taffarel (Município de Chapecó).
Esses quatro simpósios demonstram que a temática ambiental ocupa um espaço relevante na programação científica do encontro. Além disso, merece destaque o fato de que parte deles é coordenada por pesquisadores vinculados ao Grupo de Trabalho de História Ambiental da ANPUH-SC, evidenciando a consolidação dessa comunidade acadêmica e sua participação ativa na organização e no fortalecimento do campo da História Ambiental no estado.
É importante ressaltar que essa análise considera apenas os títulos dos Simpósios Temáticos. Uma investigação mais detalhada dos resumos e trabalhos efetivamente apresentados provavelmente revelará uma presença ainda mais ampla da História Ambiental, uma vez que a dimensão ambiental atravessa múltiplos objetos de pesquisa e dialoga com diferentes campos da historiografia contemporânea. Assim, os quatro simpósios identificados devem ser compreendidos como um indicador inicial da visibilidade institucional da área no evento, e não como um limite para a presença efetiva da História Ambiental na produção historiográfica apresentada no XXI Encontro Estadual de História da ANPUH-SC.
Entre os quatro Simpósios Temáticos que apresentam explicitamente conceitos relacionados à dimensão ambiental, o ST 05 – História Ambiental e estudos das globalidades é aquele que assume de forma direta a identidade do campo da História Ambiental. Coordenado por Alfredo Ricardo Silva Lopes (UFSC), Michely Cristina Ribeiro (UFSC) e Carlos Renato Carola (UNESC), o simpósio propõe uma reflexão ampla sobre a crise socioambiental contemporânea e sobre as contribuições da História Ambiental para a compreensão das múltiplas relações entre sociedade, natureza e território.
A descrição do simpósio evidencia uma concepção de História Ambiental que ultrapassa a compreensão do campo como uma especialidade voltada exclusivamente ao estudo das relações entre seres humanos e natureza ao longo do tempo. A proposta apresenta a História Ambiental como um campo de conhecimento comprometido com a interpretação da atual crise socioambiental e com a construção de novas formas de pensar as relações entre seres humanos e mundo natural. Nessa perspectiva, a questão ambiental é compreendida como um tema transversal, articulado a problemas como desigualdades sociais, direitos humanos, justiça socioambiental, colonialidade, conflitos territoriais e mudanças climáticas.
Outro aspecto relevante é a amplitude temática do simpósio. A chamada para trabalhos contempla pesquisas relacionadas às transformações das paisagens rurais e urbanas, às migrações humanas e biológicas, aos processos de saúde pública e ordenamento sanitário, à formação histórica dos territórios, às comunidades tradicionais, às identidades regionais e às relações entre ensino de História e meio ambiente. Essa diversidade demonstra a natureza interdisciplinar da História Ambiental e seu diálogo permanente com diferentes campos das Ciências Humanas e das Ciências da Natureza.
Destaca-se também a incorporação explícita de conceitos que vêm estruturando os debates mais recentes das Humanidades Ambientais. A descrição faz referência ao Antropoceno, à colonialidade do poder, às crises globais, aos conflitos geopolíticos pelo controle de recursos naturais e ao funcionamento do Sistema Terra, indicando uma aproximação com perspectivas analíticas que compreendem os processos ambientais em múltiplas escalas, articulando dimensões locais, regionais e globais.
A programação do simpósio confirma essa diversidade temática. Ao longo de quatro sessões, foram apresentados 26 trabalhos, provenientes de diferentes instituições de ensino e pesquisa, contemplando um amplo conjunto de objetos, fontes, metodologias e abordagens.
Entre os temas apresentados, observa-se inicialmente um conjunto de pesquisas voltadas à construção histórica das paisagens e às relações entre sociedade e natureza. Inserem-se nesse grupo estudos sobre viajantes naturalistas e a invenção de paisagens, a floresta de araucária e a atuação histórica dos povos Jê meridionais, as representações da fauna sul-americana na arte do século XVII, a história ambiental da produção de álcool em Chapecó, as interpretações da natureza em Santa Catarina durante o século XIX e o melhoramento genético de videiras sob a perspectiva da História Ambiental Global.
Outro eixo temático reúne pesquisas relacionadas às mudanças climáticas, aos desastres socioambientais e às reconfigurações territoriais. Destacam-se trabalhos sobre as migrações haitianas em perspectiva ambiental decolonial, os impactos socioambientais das hidrelétricas no Rio Uruguai, as enchentes de Porto Alegre e do rio Guaíba, as repercussões religiosas da crise climática, a construção midiática dos desastres ambientais e sua influência nas políticas públicas de Defesa Civil, além das desigualdades socioambientais na formação urbana de Desterro/Florianópolis.
A relação entre ambiente, tecnologia, ciência e cultura também aparece como uma importante linha de investigação. Nesse conjunto inserem-se pesquisas sobre ficção científica como fonte para a História Ambiental, metodologias para análise de jogos digitais envolvendo acidentes nucleares, discursos técnico-científicos sobre espécies arbóreas exóticas, a construção médico-sanitária da Cannabis no Brasil e diferentes narrativas museológicas relacionadas ao patrimônio ambiental.
Outro grupo de trabalhos dedica-se às relações entre ambiente, agricultura, saúde e modos de vida. São abordadas questões como os impactos da expansão do agronegócio e das intoxicações por agrotóxicos no Oeste catarinense, experiências de vitivinicultura de baixa intervenção associadas à Floresta Ombrófila Mista, saberes tradicionais de cura, sustentabilidade, mudanças nas sensibilidades humanas em relação aos animais, grandes projetos de infraestrutura envolvendo rios e populações indígenas, bem como críticas às narrativas coloniais sobre a ocupação do Vale do Itajaí.
A distribuição dos trabalhos evidencia algumas tendências importantes. Em primeiro lugar, observa-se uma forte presença de pesquisas relacionadas às mudanças climáticas, aos desastres ambientais, às transformações das paisagens e aos conflitos socioambientais, temas que atualmente ocupam posição central na agenda internacional da História Ambiental. Em segundo lugar, nota-se o fortalecimento de abordagens interdisciplinares, aproximando História Ambiental, Arqueologia, Geografia, Patrimônio Cultural, Estudos de Ciência e Tecnologia, Saúde Pública, Comunicação e Ecologia Política.
Também chama atenção a diversidade institucional dos participantes, com destaque para pesquisadores da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), da Universidade Federal da Fronteira Sul (UFFS), da Universidade do Extremo Sul Catarinense (UNESC), da Universidade Estadual do Centro-Oeste (UNICENTRO), além de representantes de outras instituições de ensino superior e órgãos públicos. Essa composição demonstra a consolidação de uma rede de pesquisadores que vem fortalecendo a História Ambiental em Santa Catarina e na região Sul do Brasil.
De modo geral, o ST 05 confirma o elevado grau de desenvolvimento do campo da História Ambiental. Sua programação evidencia uma robusta produção, diversidade temática e metodológica característica da área, e também sua capacidade de dialogar com alguns dos principais desafios contemporâneos, como as mudanças climáticas, a crise da biodiversidade, os conflitos territoriais, a colonialidade, a saúde ambiental e as diferentes formas de produção do conhecimento sobre natureza e sociedade.
Conheça na integra a proposta do ST e os trabalhos nele apresentados:
ST 05. História Ambiental e estudos das globalidades
Autor(a)Alfredo Ricardo Silva Lopes (UFSC),Michely Cristina Ribeiro (UFSC),Carlos Renato Carola (UNESC)Descrição: A questão ambiental se tornou um tema incontornável para a ciência tanto quanto para a vida humana e não humana no Planeta Terra. No campo da história, sua relevância é redimensionada especialmente pela relação com outros temas como a desigualdade social, a garantia e o reconhecimento dos direitos humanos, justiça social, entre outros. A História Ambiental ultrapassa a esfera de apenas ser um campo de pesquisa, pois, sobretudo, busca apresentar respostas à crise socioambiental que ameaça a vida dos seres vivos em todo o planeta, como também novas formas de pensar a natureza e a relação dos seres humanos com ela. Desta forma, a proposta do presente simpósio é receber trabalhos que tratam das relações entre a pesquisa e o ensino de História e meio ambiente, agrupando trabalhos que discutam as concepções, atitudes e atividades humanas na transformação da paisagem, como os seres humanos alteraram o mundo rural e urbano e, finalmente, as consequências dessas alterações para as comunidades naturais e humanas. Salienta-se, ainda, a importância de estudos relacionados aos movimentos migratórios humanos e da flora/fauna, os processos de ordenamento sanitário e de saúde pública, os estudos relacionados aos aspectos históricos, demográficos e ambientais na formação dos territórios. Este Simpósio Temático propõe socializar e refletir estudos e pesquisas de História Ambiental no atual contexto de uma crise globalizada em que se testemunha mais uma vez o acirramento de conflitos e disputas pelo controle de recursos energéticos, onde as potências imperialistas mobilizam seus arsenais de guerras para o controle de territórios e recursos naturais com o propósito de perpetuar a ordem da modernidade/colonialidade. No campo de batalha dos discursos, no entanto, os interesses pelo controle de recursos naturais são ocultados e direcionados para elucubrações de ordem e paz. A História Ambiental, portanto, situa a questão ambiental e a natureza no centro da crise civilizatória da modernidade, propondo-se a analisar as relações com as comunidades tradicionais, a colonialidade do poder e a formação de identidades regionais, nacionais e transnacionais na era do Antropoceno. A questão global emerge nesta área de pesquisa em função das múltiplas relações estabelecidas no Sistema Terra que afetam os mais variados seres na escala local.
Sessão 01 - 19/08 (14:00)- Larissa Barth (UFSC)
Viajantes naturalistas e a invenção de paisagens: campos em disputa
Resumo: A presente proposta visa demonstrar como os viajantes-naturalistas e os relatos por ele produzidos tornaram-se fontes para descrever paisagens pretéritas. Aqui ressalta-se o conceito de paisagem a partir das considerações de Dora Shellard Côrrea, como uma união do material e cultural, e como uma categoria analítica em que essa torna-se objeto. Os viajantes do século XIX estavam imbuídos de uma ideologia construída na Modernidade, em que determinados aspectos como civilização e progresso eram privilegiados. Metodologicamente, analiso o relato do francês Louis Frédéric Arsène Isabelle, observando sua construção sobre as paisagens naturais/ambientais das fronteiras platinas na década de 1830. É necessário se ater que as representações feitas por ele passaram por escolhas e disputas, em que tinha-se a intenção de inventar uma paisagem que correspondesse não somente ao que esse observava de fato, mas com a sua própria ideologia. Objetiva-se portanto demonstrar como as representações feitas por viajantes no século XIX passavam por disputas de poder e interesse, sendo a questão econômica o maior atenuante. Compreender como as paisagens platinas foram construídas no século XIX e compará-las aos dias de hoje acende-nos alertas sobre sua degradação, cabendo investigar as causas dessas mudanças, ligadas especialmente a integração da região ao sistema capitalista global, o que Simon Schama já nos chama a atenção.
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- Andrieli Naiara Thesing (UFSC)
A floresta de araucária como paisagem histórica: evidências arqueológicas da atuação dos povos Jê meridionais
Resumo: Este trabalho propõe pensar a floresta de araucária a partir da perspectiva da ecologia histórica, compreendendo que toda floresta é marcada por relações de manejo e que toda planta carrega histórias inscritas no tempo. A pesquisa toma a araucária como eixo de análise por sua relação intrínseca com os povos Kaingang e Laklãnõ-Xokleng, povos Jê do sul do Brasil, para os quais essa espécie permanece presente em territorialidades, práticas de manejo, rituais, cosmovisões e epistemologias. Nesse sentido, a floresta deixa de ser entendida como simples recurso natural e passa a ser interpretada como espaço de memória, parentesco e cuidado. Ao reconhecer a centralidade desses saberes indígenas, o trabalho busca tensionar perspectivas que reduzem a natureza à lógica da exploração, evidenciando outras formas de relação com a floresta e com os seres que a constituem. Procura-se evidenciar, por meio de bibliografia especializada e estudos arqueológicos relacionados aos povos Jê, que a distribuição da araucária esteve vinculada a processos históricos de deslocamento, manejo ambiental e produção indígena do território. Dessa maneira, o trabalho compreende a floresta como uma paisagem historicamente construída através do papel das populações Jê meridionais na dispersão e manutenção dessa espécie no sul do Brasil. A pesquisa fundamenta-se em revisão bibliográfica interdisciplinar, articulando contribuições da História Ambiental, Ecologia Histórica, Arqueologia e estudos etno-históricos sobre os povos indígenas do Sul do Brasil. Além disso, mobiliza análises de sítios arqueológicos associados aos povos Jê meridionais e incorpora produções acadêmicas indígenas, especialmente trabalhos vinculados à Licenciatura Intercultural Indígena do Sul da Mata Atlântica. Buscando reconhecer a centralidade indígena na interpretação da história ambiental da região e refletir sobre os impactos históricos da devastação da mata nas territorialidades indígenas por meio da apresentação de dados que demonstrem o impacto do colonialismo nas terras indígenas. Ao compreender a paisagem como fonte histórica, a pesquisa busca evidenciar que natureza e cultura não constituem dimensões separadas, mas relações produzidas historicamente e inscritas na própria floresta. Nesse sentido, reconhecer a centralidade dos conhecimentos indígenas na constituição e manutenção da mata de araucária implica também compreender que as violências impostas aos povos indígenas afetaram igualmente a paisagem, atingindo territorialidades, práticas de manejo e formas de existência vinculadas à floresta. A devastação da mata, portanto, não representa apenas a destruição de um ecossistema, mas também o apagamento de memórias, saberes e relações de cuidado construídas ao longo do tempo. Em contraposição às perspectivas que reduzem a floresta à condição de recurso econômico, o trabalho busca evidenciar concepções nas quais a mata é entendida como presença viva, marcada por relações de parentesco, cuidado e agência.
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- Júlia Mai Velasco (UFFS)
Entre arte e ciência: a representação da fauna sul-americana nas obras de Jan Brueghel e a circulação de saberes no século XVII
Resumo: O presente trabalho integra a pesquisa de mestrado no Programa de Pós-Graduação em História da Universidade Federal da Fronteira Sul (PPGH/UFFS), vinculada à linha de pesquisa “História Ambiental, das Migrações e das Ciências”. A pesquisa investiga a circulação de saberes coloniais sobre a fauna sul-americana no século XVII, analisando sua representação em obras selecionadas do artista flamenco Jan Brueghel (1568-1625), que nunca esteve na América e elaborou suas composições a partir de fontes naturalistas. As obras selecionadas para este estudo são “O Jardim do Éden e a queda do homem” (1615) e “Alegoria do Ar” (1621). Parte-se do pressuposto de que relatos de viajantes, espécimes transportados, gravuras científicas e gabinetes de curiosidades constituíram elementos centrais na produção e difusão de saberes sobre a natureza sul-americana para então compreender a imagem como forma de produção e circulação do conhecimento no contexto da expansão colonial europeia e do desenvolvimento das ciências de observação no século XVII. O objetivo é explorar como tais materiais foram apropriados por um artista que não esteve nas colônias americanas e convertidos em imagens que contribuíram para a consolidação de formas específicas de ver, classificar e hierarquizar a natureza deste “Novo Mundo”. Metodologicamente, a pesquisa articula a análise histórica de fontes iconográficas com o exame das redes de circulação de saberes coloniais, enfatizando mediações entre ciência, arte e colonialidade e contribuindo para a compreensão dos processos de construção do conhecimento europeu sobre a natureza sul-americana.
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- Ademir Miguel Salini (UNOCHAPECÓ)
A Companhia de Álcool Chapecó (COALC): uma história ambiental, social e tecnológica da usina de álcool em Chapecó-SC (década de 1980)
Resumo: Este trabalho propõe apresentar o projeto de doutorado em História, a ser realizado na Universidade Federal da Fronteira Sul (UFFS), atualmente em fase inicial. A pesquisa investigará a implantação, atuação e os possíveis impactos socioambientais da Companhia de Álcool Chapecó (COALC) na década de 1980, no Oeste de Santa Catarina. O estudo insere-se no contexto das políticas energéticas brasileiras e da expansão da agroindústria sucroalcooleira desenvolvida principalmente na segunda metade do século XX. Sob o viés da História Ambiental, buscar-se-á compreender como processos globais e nacionais, como a crise do petróleo dos anos 1970 e o Programa Nacional do Álcool (Proálcool), se materializaram em escala regional, reconfigurando as relações entre sociedade, natureza e tecnologia. A trajetória da COALC será analisada em articulação com as políticas públicas do período, os saberes técnico-científicos mobilizados e as dinâmicas regionais que terão incidido sobre as transformações ambientais, econômicas e sociais em Chapecó e região. Do ponto de vista teórico-metodológico, a pesquisa dialogará prioritariamente com a História Ambiental, a história das ciências e das tecnologias e a ecologia política. Metodologicamente, serão combinadas análise documental produzidas no contexto de atuação da Companhia, história oral com ex-trabalhadores e moradores locais, análise de imagens, leitura crítica de fontes técnicas e institucionais, buscando aprender tanto os discursos quanto as ações práticas relacionadas à implantação e atuação da usina. Serão examinadas as relações políticas e econômicas da criação da Companhia, os impactos da monocultura da cana-de-açúcar, a geração e destinação de resíduos, especialmente a vinhaça, a circulação de conhecimentos científicos e tecnológicos, mudança da paisagem regional, bem como as relações de trabalho e as articulações entre elites locais, Estado e agentes financiadores. O corpus documental constitui-se de fontes diversificadas, destaque para o acervo da COALC preservado no CEOM/Unochapecó, incluindo documentos administrativos, técnicos e financeiros. Acervo da imprensa regional, especialmente o Diário da Manhã, processos civis e trabalhistas de Chapecó, entrevistas orais, além de fontes visuais e documentos institucionais de órgãos como IMA - Instituto do Meio Ambiente de Santa Catarina e a Epagri - Empresa de Pesquisa Agropecuária e Extensão Rural. Ao evidenciar uma lacuna na historiografia regional sobre a agroindústria sucroalcooleira no Oeste catarinense, o estudo buscará contribuir para os debates sobre energia, modernização agrícola e sustentabilidade, destacando os processos complexos e contraditórios de transformação socioambiental associados à produção de etanol. A pesquisa conta com apoio financeiro do Governo do Estado de Santa Catarina, através da Fundação de Amparo à Pesquisa e Inovação do Estado de Santa Catarina (FAPESC). Palavras-chave: História Ambiental; Proálcool; Biocombustível; Chapecó-SC; COALC.
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- Jackson Alexsandro Peres (FMP)
Natureza e cultura em Santa Catarina na segunda metade do século XIX no testemunho de Duarte Paranhos Schutel
Resumo: O presente artigo traz a análise inicial da obra A Massambu, de Duarte Paranhos Schutel, como fonte histórica, considerando sua inserção no contexto intelectual de Desterro (capital da Província de Santa Catarina) e do Rio de Janeiro do século XIX. A obra foi publicada em capítulos no periódico Revista Popular na cidade do Rio de Janeiro a partir de 1860 e publicada em livro em 1988. Nessa primeira etapa de análise, partindo da interface entre literatura e historiografia, discute-se o potencial dos relatos literários enquanto registros de experiência, aproximando-os da tradição dos relatos de viajantes. A análise mobiliza dados biográficos do autor e contribuições teóricas sobre narrativa, memória e representação do espaço, evidenciando como a obra permite acessar dimensões da natureza, do cotidiano, das sensibilidades e das dinâmicas sociais da Ilha de Santa Catarina e do continente fronteiriço. O aporte teórico, entrelaça três campos: literatura e história; História Ambiental no que diz respeito às possibilidades do uso de diferentes fontes de análise e a História Global, no entendimento da prática das viagens no século XIX. Ocultar
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- Eunice Sueli Nodari (UFSC), Gil Karlos Ferri (IEE)
Cruzando vinhas e saberes: o melhoramento genético de videiras e as variedades PIWI sob a perspectiva da História Ambiental Global
Resumo: Neste trabalho apresentaremos um panorama histórico sobre as pesquisas de melhoramento genético de videiras, com ênfase no trabalho de pesquisadores da Fondazione Edmund Mach (Itália) e na cooperação tecnocientífica estabelecida com pesquisadores de Santa Catarina (Brasil). A análise está embasada na História Ambiental Global e dialoga com os debates contemporâneos acerca das relações entre sociedade e natureza, das crises socioambientais e das formas de apropriação técnica dos recursos naturais no contexto da modernidade. Utilizando revisão bibliográfica, entrevistas, saídas a campo, conferências e publicações da área vitivinícola, o trabalho apresenta uma narrativa histórica sobre o processo de hibridização de videiras, desde a crise vitivinícola provocada pela introdução de patógenos nos vinhedos europeus a partir de meados do século XIX até as recentes pesquisas com variedades resistentes denominadas Pilzwiderstandsfähige Rebsorten (PIWI = “resistentes a fungos”). O estudo evidencia como os processos de circulação de espécies vegetais, conhecimentos técnicos e agentes humanos se articulam em escalas globais e locais, modificando ecossistemas, paisagens culturais e práticas produtivas. Nesse sentido, a pesquisa também problematiza as relações entre ciência, território e sustentabilidade, demonstrando como a cooperação entre instituições europeias e brasileiras permitiu aplicar conhecimentos históricos do melhoramento genético a condições edafoclimáticas específicas do contexto catarinense. Dessa forma, o trabalho insere a vitivinicultura contemporânea nos debates da História Ambiental acerca da crise climática, da sustentabilidade agrícola, do uso intensivo de defensivos químicos e das transformações ambientais. A sustentabilidade da vitivinicultura depende de redes colaborativas transnacionais, financiamento público e investimento contínuo em pesquisa científica. Assim, o melhoramento genético de videiras pode representar uma estratégia relevante para a construção de modelos produtivos mais resilientes e socioambientalmente responsáveis diante da crise global do Antropoceno. Palavras-chave: Vitivinicultura; Melhoramento Genético; Variedades PIWI.
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Sessão 02 - 20/08 (08:30)- Taíse Staudt (UFSC)
Desastres e as migrações haitianas: uma perspectiva ambiental decolonial, nos século XX e XXI
Resumo: A migração humana está intrinsecamente relacionada com as questões sociais, econômicas, culturais e políticas das sociedades, mas também ambientais. Dessa forma, busco investigar os fatores ambientais que podem ter influenciado, direta ou indiretamente, os 4 grandes fluxos migratórios haitianos, ocorridos durante os séculos XX e XXI (HANDERSON, 2015). O Haiti é um país que possui histórico de migração como estratégia de sobrevivência e melhoria das condições de vida nos últimos séculos, e uma região que sofre com frequentes desastres socioambientais, que vão desde terremotos até a erosão do solo em consequência do desmatamento. O país localizado no Caribe, compartilha a história da colonização com o restante da América. Neste processo exploratório, seres humanos, florestas, águas, o solo, e os outros animais foram violentados. O habitar colonial (FERDINAND, 2022) transformou a relação dos humanos com o meio, com a terra e a “natureza” a partir do pensamento ocidental antropocêntrico. As explorações coloniais e capitalistas, forjam a estrutura de destruição ambiental que vemos atualmente no planeta e as modificações antrópicas que geram desequilíbrios ecossistêmicos (MOORE, 2025) especialmente nos territórios mais explorados, como nas Américas. O que difere na história colonial do Haiti é a forma como a abolição e a independência ocorreram: através de Revolução (1791-1804) realizada por escravizados, ato que gerou uma série de consequências econômicas e diplomáticas ao país, ocasionando um empobrecimento planejado como forma de punição ao ato revolucionário (EXIL, 2024.) Atualmente, o Haiti é considerado o país mais pobre da América (UNICEF, 2023) e um dos países com menor cobertura vegetal do continente (CHARLES; OLIVEIRA; JOSÉ, 2020), não por acaso. Realizo a investigação utilizando de dados e fontes históricas em correlação com dados de transformações antrópicas e desastres socioambientais, examinando esses fluxos migratórios a partir de uma óptica da história ambiental e interdisciplinar. Como resultados preliminares, a investigação evidencia como as transformações antrópicas a partir da colonização e em seguida do capitalismo, afetam as condições de vida da população haitiana em diversos níveis, e que o empobrecimento do país combinada com as consequências exploratórias do ambiente, impossibilitam necessidades básicas da população, e em consequência, a migração é uma forma de alcançar essas condições. As crises políticas e sociais no Haiti, combinadas com eventos climáticos extremos e desgaste ambiental contínuo, corroboraram para os grandes fluxos migratórios no último século. Também é possível apontar como o empobrecimento do país aumenta consideravelmente os impactos à população, assim o número de afetados, em casos de desastres ambientais como terremotos e furacões. Com dificuldade de suporte estatal, a migração é por vezes a única possibilidade de sobrevivência.
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- Melody Forcelini (UFFS)
O Rio Uruguai Em Disputa: Hidrelétrica, Fronteiras E Reconfigurações Territoriais
Resumo: Este trabalho analisa os impactos socioambientais decorrentes da implantação da Usina Hidrelétrica Foz do Chapecó (UHE Foz do Chapecó), inaugurada em 2010 no Rio Uruguai, na divisa entre Santa Catarina e Rio Grande do Sul. Sob a perspectiva teórica e metodológica da História Ambiental, em especial a partir da estrutura de análise de Donald Worster (1990) investiga-se como esse grande projeto de infraestrutura energética, inserido no Programa de Aceleração do Crescimento (PAC I), transcende a dimensão puramente técnica para atuar como agente de profundas reconfigurações ecológicas, sociais e territoriais. Historicamente visto pelo Estado brasileiro como um "espaço energético em expansão", o Rio Uruguai teve seu curso natural profundamente alterado por sucessivos barramentos que converteram ecossistemas complexos em sistemas tecnificados e regulados para a produção contínua de eletricidade. No caso da UHE Foz do Chapecó, executada por um consórcio público-privado com financiamento do BNDES, a formação do reservatório de 7.900 hectares resultou no alagamento de terras férteis e no deslocamento forçado de aproximadamente 1.100 famílias, incluindo agricultores, pescadores artesanais e comunidades indígenas. Ao submergir áreas de circulação, pesca e uso comunitário, o empreendimento redefiniu fronteiras físicas e simbólicas, substituindo referências territoriais historicamente construídas por uma lógica espacial regulada pelo setor elétrico. A análise evidencia as contradições de um modelo de desenvolvimento que, embora amparado na retórica da energia limpa e do progresso nacional, marginaliza dinâmicas locais, simplifica ecossistemas e reproduz desigualdades históricas. Assim, o estudo de caso da UHE Foz do Chapecó revela-se emblemático para refletir criticamente sobre as tensões entre técnica, poder e natureza na modernização do Sul do Brasil.
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- Antonio João Dias Prestes (UFSC)
Porto Alegre e as cheias do Guaíba. no limiar da Mudança Climática Global
Resumo: Porto Alegre e região metropolitana, no Brasil Meridional, estão em região suscetível a cheias, em função do clima, do relevo e das características da Bacia Hidrográfica do Rio Jacuí e do Lago Guaíba, drenada na Laguna dos Patos. A grande enchente de maio de 1941 teve severos impactos, incluindo a inundação de muitas áreas da cidade, levando os poderes públicos a tomar uma série de iniciativas: aterros, retificação de riachos e a construção de amplo sistema de proteção contra as cheias, incluindo diques, comportas, casas de bombas e um muro de contenção isolando o Centro Histórico do Guaíba. Também neste contexto, ocorreu a remoção de populações carentes, descendentes de escravizados, vivendo em áreas centrais, para regiões da periferia urbana. Em 2024, também em maio, depois de duas cheias intensas, que afetaram toda a Bacia do Jacuí/Guaíba, em 2023, ocorreu mais uma grande enchente, comparável à de 1941. Grandes áreas da cidade foram atingidas, com seu sistema de proteção, incluindo a rede pluvial, se mostrando ineficaz. Parte significativa do Centro Histórico e dos bairros próximos foi atingida, mas os efeitos mais severos e prolongados se abateram sobre comunidades mais carentes, no norte da cidade, em espaços compreendidos no interior do sistema de proteção contra as cheias de Porto Alegre. Este trabalho contempla os seguintes aspectos, com foco no período das primeiras décadas do século XXI, durante as quais os impactos globais da Mudança Climática foram acentuados, no cenário regional do Sul do Brasil pela prevalência das políticas de viés neoliberal, com a flexibilização das leis e das estruturas de controle ambientais e a fragilização das infraestruturas de proteção contra as cheias: (i) o contexto geográfico e histórico das cheias em Porto Alegre; (ii) o sistema de proteção contra as cheias, premissas, gestão e atualização tecnológica, visões, expectativas e narrativas acerca dele; (iii) o sistema de drenagem pluvial, investimentos e gestão; (iv) a distribuição desigual dos efeitos das enchentes sobre a população porto-alegrense (justiça e racismo ambientais); (iv) reflexões sobre o cenário futuro, frente aos efeitos da Mudança Climática. Palavras-chave: História Ambiental, História Urbana, Justiça Ambiental, Antropoceno, Desastres Socioambientais, Neoliberalismo
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- Isadora Santos Arrais (UFSC)
Repercussões religiosas da Crise Climática
Resumo: Na segunda metade do século XX, durante o período conhecido como Guerra Fria, a Crise Climática invade a compreensão de mundo da humanidade, através de chuvas ácidas, poluição do ar e água, envenenamento de terras entre outros. Neste contexto, Frank Herbert lança suas obras “Duna” (1965) e “Messias de Duna” (1969). Este trabalho busca compreender a relação entre a narrativa religiosa destes livros, com seu teor sincrético e ambientalista, e o crescimento da religiosidade New Age nos Estados Unidos, conhecida por ser eclética, e acusada de apropriação cultural sobre povos indígenas e religiões não monoteístas da Ásia Ocidental. Dentro deste contexto, a pesquisa busca questionar o papel das mudanças climáticas percebidas pelo Norte Global no campo religioso, entendendo que as sociedades urbanizadas fazem o caminho oposto descrito por Pierre Bourdieu(2005), afastando-se da institucionalização da religiosidade.
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- Matheus Eing (TJSC)
Entre as Águas e a Notícia: a construção midiática dos desastres socioambientais e sua influência nas políticas públicas de Defesa Civil (1974–2011)
Resumo: Este projeto de iniciação científica investiga como os principais periódicos nacionais influenciaram a formulação de políticas públicas, a partir da cobertura de três grandes enchentes no Brasil: Tubarão em SC (1974), Vale do Itajaí em SC (2008) e Região Serrana do RJ (2011). A pesquisa parte do pressuposto de que os desastres não são naturais, mas sim produtos de relações sociais desiguais com a natureza, intensificadas pelo modelo de desenvolvimento capitalista. O conceito de Antropoceno será incorporado como chave interpretativa para compreender a produção da crise ecológica contemporânea.
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- Adrieli Carla Coporski Wenning Rodrigeri (UFFS)
Entre Serras e Balsas: Considerações sobre a atuação da Cooperativa Madeireira do Vale do Uruguai Ltda. entre os anos de 1940 a 1970
Resumo: Este trabalho analisa os processos históricos de ocupação territorial e reconfiguração da paisagem no Oeste de Santa Catarina entre as décadas de 1940 e 1970, com centralidade na atuação da Cooperativa Madeireira do Vale do Uruguai Ltda., sediada em Chapecó. Sob a perspectiva teórica e metodológica da História Ambiental, compreende-se a natureza não apenas como cenário, mas como agente interligado à experiência histórica e às transformações socioeconômicas geradas pelas lógicas de desenvolvimento regional. O processo de colonização da região, intensificado no século XX e impulsionado por companhias privadas e pelo poder público, promoveu uma acelerada antropização dos ecossistemas locais. A exploração sistemática dos recursos florestais converteu-se na principal base econômica da época, impactando profundamente as fitofisionomias do bioma Mata Atlântica, especificamente a Floresta Ombrófila Mista e a Floresta Estacional Decidual. Diante da expansão das serrarias e da necessidade de organizar o escoamento produtivo do setor, fundou-se a Cooperativa Madeireira do Vale do Uruguai LTDA. em 1945. A instituição tinha por objetivo atuar como articuladora estruturadora do setor, além de defensora dos interesses de seus associados, viabilizando a unificação das vendas e conferindo maior competitividade de mercado. Inicialmente, a logística dependia do transporte fluvial pelo Rio Uruguai, onde a produção era escoada por meio de balsas em períodos de cheias até portos como São Borja e Uruguaiana. Posteriormente, a modernização da infraestrutura viária introduziu o transporte por caminhões, ampliando as frentes comerciais. A atividade cooperativa promoveu o fortalecimento econômico da classe madeireira regional ao custo de uma severa degradação ambiental, marcada pelo avanço desenfreado do desmatamento para dar lugar à agricultura e à pecuária. O período mais intenso de exploração madeireira encerrou-se em 1975 com a incorporação da instituição pela Cooperalfa, atual Cooperativa Agroindustrial Alfa, simbolizando a transição para a agroindústria. Metodologicamente, os dados quantitativos e qualitativos da pesquisa são compilados e cruzados a partir de fontes disponíveis no acervo do Centro de Memória do Oeste de Santa Catarina (CEOM/Unochapecó), com destaque para registros institucionais e financeiros da própria cooperativa, como certidões de registro e contas de venda de associados que detalham a comercialização da madeira, guias de exportação, periódicos locais, como A Voz de Chapecó e O Imparcial, além de fotografias e mapas. Assim, a pesquisa contribui para o debate sobre a memória socioambiental do Oeste catarinense, evidenciando como a ação coletiva institucionalizada moldou novas relações entre a sociedade e o meio ambiente. Palavras-chave: História Ambiental; Cooperativismo; Exploração Madeireira; Paisagem.
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- Samuel Victor Borba (UFSC), Eunice Sueli Nodari (UFSC)
Reconfigurações urbanas e desigualdades socioambientais em Desterro/Florianópolis (1889-1930)
Resumo: Este trabalho propõe discutir os processos de segregação socioambiental e exclusão racial em Desterro/Florianópolis (SC) durante a Primeira República (1889-1930), adotando uma perspectiva que considera interconexões globais. Utilizando os três níveis da História Ambiental (Worster, 1991), busca-se compreender a configuração socioambiental e espacial da capital catarinense, com destaque para a região central, onde se localizavam antigos territórios negros, conforme apontam Mortari e Cardoso (2004). Investigam-se assim relações entre a sociedade e o meio ambiente a partir do caso das lavadeiras do Rio da Bulha, situado na atual Avenida Hercílio Luz. Essas mulheres, sobretudo mulheres negras, dependiam do acesso a fontes e córregos para exercer seu ofício. Para compreender os aspectos técnicos e as condições desse trabalho, estabelece-se um diálogo comparativo com experiências de outras partes do mundo. Sarasúa (2003), por exemplo, analisa o ofício das lavadeiras na Espanha entre os séculos XVIII e XX e destaca tanto os processos e técnicas empregadas na lavagem dos tecidos quanto as condições insalubres, a exposição à água gelada, à umidade e ao peso das roupas molhadas, fatores que causavam doenças respiratórias e dermatológicas. Em Florianópolis, a canalização dos cursos d’água e a construção da Avenida do Saneamento (atual Avenida Hercílio Luz) deslocaram essas trabalhadoras para os morros da cidade, onde ainda havia acesso à água (Santos, 2009). Nesse sentido, a infraestrutura sanitária, entendida como elemento transformador do ambiente e da governabilidade tecnocrática das águas, contribuiu para a desestruturação do tecido social da região central, expulsando trabalhadoras e demais dependentes. A ocupação das encostas e áreas de menor valor econômico, evidencia as desigualdades socioambientais geradas por esse processo. Adicionalmente, busca-se compreender as percepções, os valores, as legislações e outras estruturas de significação produzidas no período, em especial as difundidas pela imprensa local. Os ideais de uma nova racionalidade político cultural manifestados pelas tentativas de reformas sanitárias de cunho higienista e pelas formulações cientificistas de organização social objetivavam controlar e reajustar amplas camadas da população à racionalidade capitalista (Araújo, 1989). Além das dinâmicas internas da ilha, essas transformações podem ser inseridas em uma rede mais ampla de circulação de saberes, tecnologias e de modelos urbanos, marcada pela difusão de discursos técnicos, sanitários e estéticos provenientes de centros como Rio de Janeiro, Buenos Aires e Paris, associados às ideias de progresso e modernização (Santos, 2009). Dessa forma, analisar as reconfigurações urbanas e as desigualdades socioambientais em Desterro/Florianópolis permite compreender como processos locais se articulam com tendências globais, revelando a complexidade das dinâmicas de exclusão e de transformação urbana nesse contexto histórico.
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Sessão 03 - 20/08 (14:00)- Éric Gabriel Kundlatsch (UFSC)
Imaginar o ambiente, historicizar o futuro: ficção científica como fonte para a história ambiental
Resumo: Este trabalho propõe uma reflexão no campo da história ambiental a partir da análise de imaginários de futuro mobilizados pela ficção científica contemporânea, com ênfase no subgênero solarpunk. Parte-se do entendimento de que a crise ecológica atual, frequentemente sintetizada pela noção de Antropoceno, não se manifesta apenas em transformações materiais, mas também na produção de expectativas, sensibilidades e disputas simbólicas acerca das possibilidades de futuro. Nesse contexto, o solarpunk emerge como uma forma específica de elaboração cultural da crise ambiental, articulando narrativas que se afastam de diagnósticos distópicos hegemônicos e propõem cenários orientados por princípios como sustentabilidade, descentralização energética, cooperação comunitária e justiça socioambiental. Mais do que um repertório estético, essas narrativas configuram intervenções no debate público ao projetarem futuros possíveis que tensionam modelos de desenvolvimento baseados na exploração intensiva de recursos naturais. A proposta do trabalho consiste em historicizar a emergência desse imaginário, situando-o nas transformações recentes do capitalismo global e nas disputas em torno das respostas à crise climática. Ao mesmo tempo, busca-se evidenciar como, no contexto brasileiro, determinadas inflexões políticas e ambientais contribuem para a circulação e ressignificação dessas perspectivas, revelando a dimensão situada dos futuros imaginados. Do ponto de vista da história ambiental, a análise privilegia o futuro como categoria histórica, compreendendo-o não como projeção abstrata, mas como campo de disputas ancorado em condições materiais e regimes de conhecimento específicos. Ao mobilizar a ficção científica como fonte, o trabalho argumenta que tais narrativas constituem um espaço privilegiado para observar a formulação de alternativas, limites e contradições nas formas contemporâneas de pensar as relações entre sociedade e natureza. Assim, a pesquisa busca contribuir para o debate ao evidenciar como diferentes formas de imaginar o futuro participam da própria configuração histórica da crise ambiental, não apenas como reflexo, mas como elemento ativo na produção de horizontes de ação e transformação.
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- Rafael Giloni de Lima (Unicentro), Jo Klanovicz (UNICENTRO)
Imaginando um ambiente nuclear desastroso: uma proposta metodológica de leitura de games na pesquisa de história ambiental por meio da série S.T.A.L.K.E.R
Resumo: O processo de industrialização nuclear da URSS seguiu uma trajetória de sucessos, tentativas e erros que também resultou no desastre ambiental e tecnológico de Tchernóbil em 1986. Ao considerar a permanente imaginação ambiental dos desastres nucleares como integrante das manifestações culturais do século XX e XXI (Josephson, 2023), esta comunicação apresenta um recorte metodológico de pesquisa de iniciação científica vinculada ao Centro de História Ambiental, Cultura & Tecnologia (CHAT-UNICENTRO) voltado à análise das narrativas ambientais que articulam desastre e russofobia ou sovietofobia, presentes na série de games S.T.A.L.K.E.R., desenvolvidas pela empresa ucraniana GSC Game World. Assim, a proposta é apresentar e discutir uma proposta metodológica para ler games na pesquisa histórica, utilizando como ponto de partida o produto S.T.A.L.K.E.R: Shadow of Chernobyl (2007). Nesse sentido, discutimos as aproximações, distanciamentos e indicamos pontos de superação da leitura e da interpretação de games quando comparados a análises históricas de outras mídias tais como cinema, literatura ou jogos analógicos. Dada a importância de discutir a agência de jogadores e jogadoras em narrativas simuladas em espaços digitais - no sentido de percebermos historicamente como são construídas e manejadas narrativas ambientais sobre desastres nucleares - procura-se articular essas discussões no âmbito da história ambiental, problematizando a construção de imaginações ambientais do desastre nos espaços virtuais. Palavras-chaves: games; imaginação ambiental; União Soviética.
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- Jaine Menoncin Voicolesko (Rede Municipal de Educação de Chapecó)
Entre memória e natureza: museus e narrativas socioambientais no Oeste Catarinense
Resumo: O presente trabalho discute as possibilidades de aproximação entre História Ambiental e Museologia a partir da análise das narrativas construídas por museus do Oeste Catarinense sobre os processos de colonização, migração e modernização agrícola ocorridos na região ao longo do século XX. A pesquisa parte do pressuposto de que os museus, por meio de exposições, ações educativas e práticas de preservação, atuam como espaços de produção de memória e construção de identidades regionais, selecionando elementos a serem evidenciados ou silenciados em seus discursos expográficos. Nesse contexto, busca-se refletir sobre como as transformações socioambientais decorrentes da ocupação territorial e da modernização agrícola são representadas por essas instituições, especialmente no que se refere às relações históricas entre sociedade e natureza. Do ponto de vista teórico, o estudo fundamenta-se na História Ambiental, sobretudo nas contribuições de Donald Worster, em diálogo com discussões acerca da memória, patrimônio e museologia. Metodologicamente, a pesquisa prevê a combina a análise documental e expográfica, entrevistas com profissionais de museus e exame de materiais educativos produzidos pelas instituições. Ao articular diferentes campos de investigação, o trabalho pretende contribuir para os debates sobre patrimônio cultural, memória regional e representação das transformações ambientais no Oeste Catarinense.
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- Chariel Busatto (UFFS)
Expansão do Agronegócio e Intoxicações por Agrotóxicos no Oeste de Santa Catarina: Soja, Milho e Saúde nos Anos 2010 a 2020.
Resumo: O presente trabalho tem como objetivo analisar a relação entre a expansão das monoculturas de soja e milho no Oeste de Santa Catarina e o aumento dos casos de intoxicação por agrotóxicos durante o período de 2010 a 2020, identificando municípios mais expostos e discutindo os impactos socioambientais desse modelo produtivo. Seus cultivos exigem ciclos repetidos de herbicidas, inseticidas e fungicidas. O uso intensivo de agrotóxicos, quando dissociado de medidas de proteção rigorosas ou de um manejo consciente, deixa de ser apenas um dado econômico para se tornar um fator de risco real, ameaçando a saúde de quem trabalha no campo e das comunidades que respiram o ar do entorno dessas plantações. A expansão da soja e do milho no Oeste catarinense está intrinsecamente associada ao aumento dos riscos de intoxicação química nos municípios de base agrícola. O modelo vigente impõe um ônus elevado à saúde do trabalhador e ao equilíbrio ecossistêmico. A pesquisa adota abordagem qualitativa fundamentada na História Ambiental, utilizando fonte do IBGE/PAM (área cultivada) e do Sinan/MS (notificações de intoxicação) para mapear as transformações no uso da terra no Oeste de Santa Catarina. A análise correlaciona a expansão de monoculturas de soja e milho com os impactos na saúde pública, interpretando os dados como evidências das transformações e impactos ambientais gerados pela modernização agrícola no Oeste catarinense.
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- Vanessa Cadó Lopes (UFSC)
Da natureza ao perigo: a construção médico-sanitária da Cannabis no Brasil (1915–1958)
Resumo: O presente trabalho analisa a construção histórico discursiva da Cannabis como objeto de controle médico, sanitário e jurídico no Brasil, entre os anos de 1915 e 1958. A partir de uma perspectiva de história ambiental, a planta é compreendida não como entidade natural fixa, mas como agente histórico cujos significados são produzidos nas relações entre sociedade e natureza, em contextos de disputa, regulação e produção de saber, expressos na diversidade de seus usos (medicinais, produtivos, alimentares, rituais, intoxicantes e comerciais), que se configuram de maneiras plurais ao longo do tempo e do espaço. A análise concentra-se na obra Maconha: coletânea de trabalhos brasileiros, publicada em 1958 pelo Serviço Nacional de Educação Sanitária (SNES), órgão que atuava como instrumento estatal de difusão de valores higienistas através da divulgação e educação sanitárias. O recorte temporal da pesquisa abrange o período entre 1915, ano de publicação do artigo mais antigo do documento, que assinala a emergência das discussões sobre os males da maconha no Brasil, e 1958, ano da publicação da obra completa. Argumentamos que a coletânea consolida um regime de saber ao organizar e difundir determinadas leituras sobre a Cannabis, produzindo-a como problema social de alcance nacional. Os artigos que compõem a obra operam como práticas discursivas que descrevem e constituem a Cannabis como objeto de intervenção, mobilizando categorias como vício, degeneração, desordem, toxicidade e ameaça à ordem pública. Esse processo constrói uma linguagem que atribui à planta um caráter intrinsecamente perigoso, ao mesmo tempo em que desloca para o campo da natureza fenômenos produzidos em relações sociais e históricas específicas. Assim, o “problema da maconha” emerge como efeito de processos de significação que articulam ciência e eugenia, pois essa produção discursiva incide também sobre os sujeitos associados à planta. A construção da Cannabis como perigo social é acompanhada pela classificação de determinados corpos como desviantes, especialmente populações racializadas e socialmente marginalizadas, vinculadas a práticas consideradas incompatíveis com projetos de modernização e ordenamento social. Desse modo, a regulação da planta e a produção dessas categorias sociais operam de forma conjunta, evidenciando a intersecção entre controle da natureza e dos corpos. Consideramos, portanto, que a criminalização da Cannabis não decorre de propriedades biológicas, mas de processos históricos de hierarquização social e ambiental.
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- Débora Nunes de Sá (UFFS), Samira Peruchi Moretto
Natureza planejada: discursos técnico-científicos em torno de espécies arbóreas exóticas nas décadas de 1960 e 1970
Resumo: O presente trabalho tem como objetivo analisar, através da História Ambiental, expansão dos monocultivos de espécies exóticas no nordeste de Misiones, região ambientalmente conectada ao estado de Santa Catarina, Brasil. Como fonte, será utilizado o documento técnico "Resistencia a las heladas de pinos exóticos en Misiones", produzido pelo engenheiro florestal Lamberto Golfari, em 1962, e publicado em Buenos Aires, como Notas Silvicolas pela Dirección de Investigaciones Forestales da Administración Nacional de Bosques. No documento, aparecem discursos técnico-científicos sobre adaptação climática, produtividade florestal e manejo biotecnológico que contribuíram para transformar paisagens na região transfronteiriça entre a província de Misiones, Argentina, e o estado de Santa Catarina, Brasil. A fonte discorre sobre a introdução e aclimatação de espécies como Pinus elliottii, Pinus caribaea e Eucalyptus saligna, apresentadas como alternativas economicamente viáveis para a modernização florestal regional. Sendo assim, podemos perceber a atuação de especialistas florestais na formulação de discursos técnico-científicos que legitimaram a silvicultura de espécies exóticas como parte dos projetos de modernização econômica e transformação da paisagem no sul da América do Sul. O trabalho também dialoga com o texto "Fantasias e realidades sobre plantios de eucaliptos", publicado por Golfari em 1975, no qual o autor responde a críticas relacionadas aos impactos ambientais dos monocultivos arbóreos, permitindo problematizar os conflitos em torno da expansão de espécies exóticas e os discursos de legitimação técnico-científica mobilizados no período. Nesse contexto, busca-se compreender como políticas públicas, incentivos econômicos e instituições técnico-científicas contribuíram para a consolidação de monocultivos arbóreos exóticos ao longo da segunda metade do século XX, redefinindo relações entre floresta, clima, produção e ocupação territorial.
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Sessão 04 - 21/08 (14:00)- Gabrieli Elisa da Costa (UFFS)
Harmonização entre vinho e floresta: produção vitivinícola de baixa intervenção e relação com a Floresta Ombrófila Mista no Extremo Oeste Catarinense
Resumo: O presente trabalho integra a pesquisa de mestrado no Programa de Pós-Graduação em História da Universidade Federal da Fronteira Sul (PPGH/UFFS), vinculada ao campo da História Ambiental. A apresentação tem como objetivo analisar de que maneira a produção vitivinícola de baixa intervenção pode constituir uma forma alternativa de uso do solo em diálogo com o meio ambiente no Extremo Oeste de Santa Catarina, tomando como estudo de caso a Vinícola Vinha dos Ventos, localizada no município de Anchieta (SC), no período compreendido entre os anos 2015, ano de fundação da vinícola em questão, e 2025. Esta pesquisa parte da constatação de que os estudos sobre a vitivinicultura catarinense concentram-se majoritariamente nas regiões serranas do estado, deixando em aberto análises sobre experiências emergentes no Oeste catarinense. Nessa região, a formação florestal predominante é a Floresta Ombrófila Mista (FOM), bioma pertencente à Mata Atlântica historicamente impactado pelo desmatamento e pela expansão de monocultivos florestais exóticos, como Pinus (Pinus elliottii) e Eucalipto (Eucalyptus sp.) ao longo do século XX. A justificativa da pesquisa reside na necessidade de compreender se e como a produção vitivinícola pode constituir uma prática de uso do solo compatível com a recuperação e convivência com remanescentes da FOM, em contraposição ao modelo agroindustrial hegemônico da região. A metodologia articula história oral, por meio de entrevistas com os proprietários da vinícola, análise documental e revisão bibliográfica em História Ambiental, vitivinicultura e paisagem. Como resultados parciais, aponta-se que a Vinha dos Ventos representa uma experiência singular de produção vitivinícola familiar no Extremo Oeste em relação às outras 17 vinícolas estudadas ao longo da pesquisa, sendo a única orientada pela filosofia do vinho natural, com manejo orgânico do parreiral e mínima intervenção enológica, configurando uma alternativa socioambiental em diálogo com os remanescentes florestais locais e com os debates contemporâneos sobre sustentabilidade na vitivinicultura brasileira.
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- Arthur Antonius Eissler (UNIVILLE)
Saberes Tradicionais de Cura, História Ambiental e Patrimônio Cultural Imaterial: O Benzimento de Animais em Santa Catarina
Resumo: Os saberes tradicionais de cura, dentre os quais está o benzimento de animais, constituem práticas culturais populares bastante antigas, cujas origens remontam às sociedades europeias da Alta Idade Média (SOUZA, 2009). Os inquisidores Kramer e Spenger (2024), em seu “Malleus Maleficarum”, escrito no século XV, já mencionavam que, mediante certas condições, é lícito benzer o gado. A prática está presente em relatórios da inquisição (BETHENCOURT, 1987) e nas Ordenações Filipinas (Livro V, Título IV), sendo posteriormente trazido ao Brasil por imigrantes europeus (CASCAES, 2015). Há dois casos de benzimento de animais relatados no período colonial (SOUZA, 2009). Ademais, embora seja costumeiramente deslegitimado por discursos que partem de uma religiosidade oficial (WEINGÄRTNER, 2014) e de uma tecnicidade fortalecida pelo desenvolvimento das ciências agrárias veterinárias nos séculos XIX e XX, tal cultura popular se encontra ainda hoje presente no cotidiano de muitos populares do Brasil e de Santa Catarina (EISSLER, 2025), sendo inclusive considerada patrimônio imaterial do estado por meio da lei nº 19.145, de 20 de dezembro de 2024. Compreende-se também que o benzimento de animais pode ser enquadrado como objeto da história ambiental por estar relacionado ao papel desempenhado pela natureza na vida humana (WORSTER, 1991). Essa cultura popular está envolta na formação de ideias distintas sobre a natureza, que ocorrem nas camadas populares das sociedades, e inclui elementos que transcendem o religioso, mas que indicam um complexo mecanismo ecológico que reflete compreensões de proximidade e interseccionalidade com a natureza, especialmente com os animais (THOMAS, 2010; WORSTER, 1991).
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- Claiton Marcio da Silva (UFFS)
Histórias e futuros (sustentáveis) conectados entre Brasil e Holanda
Resumo: Sustentabilidade é noção ambígua, mas sensível para estudar narrativas socioambientais. No plural, permitem analisar narrativas de eventos históricos interligados. No Brasil, desde os anos 1970, a aceleração da soja (na época majoritariamente plantada no bioma Mata Atlântica e hoje também no Cerrado e Amazônia) tem sido associada a desmatamentos, violência e agrotóxicos. Sua exportação tornou a Holanda o maior criador intensivo de animais da Europa desde então, interligando dois países por meio de uma crise ambiental que persiste há mais de 4 décadas, envolvendo resíduos sólidos (estrume), poluição por nitrogênio (N), aumento das emissões de gases de efeito de estufa e riscos para a saúde humana, animal e do solo em diferentes ecorregiões holandesas. Essa história interligada da soja não foi ainda discutida. E portanto, o projeto analisa narrativas históricas da soja do Brasil e da Holanda a partir de fontes diversas e por meio da aproximação entre História Ambiental (HA) e Pesquisa Transdisciplinar sobre Sustentabilidade (PTS). A equipe busca redimensionar narrativas que permanecem presas a lógicas fragmentadas ou nacionais da história da soja, analisando narrativas de sustentabilidade da soja a partir: da história ambiental global; problematizando a governamentalidade sobre a política do conhecimento em torno da sustentabilidade da soja; construindo nova abordagem teórico-metodológica (uma história ambiental conectada à história das sustentabilidades). O projeto analisa narrativas históricas da soja do Brasil e da Holanda a partir de fontes diversas e por meio da aproximação entre História Ambiental (HA) e Pesquisa Transdisciplinar sobre Sustentabilidade (PTS). Por um lado, observamos como a relação entre demanda (Holanda) e produção (Brasil) de soja impactam historicamente ambos os lados do Atlântico, de diferentes formas. A partir da combinação entre História Ambiental e Pesquisa Transdisciplinar sobre Sustentabilidade, analisaremos os processos históricos e discursos que transformaram a soja na mais importante commodity agrícola na atualidade e, dentro desse processo, também analisaremos como os atores envolvidos nesse processo histórico projetam suas noções de futuro (in)sustentável. O autor agradecem o apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa e Inovação do Estado de Santa Catarina (FAPESC), por meio do Edital nº 21/2024 e do Processo/Termo de Outorga nº 2024TR002491
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- Saiomara Alessi Cassaro (SECRETARIA DE ESTADO DA EDUCAÇÃO DE SANTA CATARINA)
Dos “cães vadios” aos “pets”: mudanças nas sensibilidades humanas em Santa Catarina (1980-2020)
Resumo: O presente trabalho integra a pesquisa de mestrado no Programa de Pós-Graduação em História da Universidade Federal da Fronteira Sul (PPGH/UFFS), vinculada à linha de pesquisa “História Ambiental, das Migrações e das Ciências”. O trabalho propõe uma reflexão acerca das transformações nas sensibilidades e percepções públicas em relação aos cães em Santa Catarina, tomando como foco a maneira pela qual casos de maus-tratos e crueldade animal passaram a ser representados na imprensa catarinense, além de buscar entender como as relações entre humanos e os cães (não humanos) evoluíram nesse período. Nas últimas décadas, os animais de companhia, especialmente os cães, deixaram de ocupar apenas um lugar associado ao controle sanitário ou à utilidade doméstica, tornando-se progressivamente alvo de discursos de proteção, compaixão e responsabilização moral. Nesse contexto, a imprensa desempenhou papel relevante na circulação de sensibilidades, na construção de debates públicos e na consolidação da crueldade contra animais como um problema social e jurídico. A pesquisa busca compreender de que maneira jornais catarinenses apresentaram episódios de violência, abandono e maus-tratos contra cães ao longo do período delimitado, atentando para mudanças na linguagem empregada, nos enquadramentos narrativos e nas formas de sensibilização mobilizadas pelas matérias jornalísticas, acompanhando transformações sociais mais amplas acerca das relações entre humanos e animais. Metodologicamente, o trabalho utiliza a imprensa como fonte histórica capaz de evidenciar percepções coletivas, disputas discursivas e mudanças culturais. A investigação dialoga com a História dos Animais e a História Ambiental, compreendendo os animais não apenas como elementos periféricos da experiência humana, mas como sujeitos historicamente inseridos nas dinâmicas sociais, urbanas e afetivas.
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- Carlos Renato Carola (UNESC), Ângelo Gabriel Sillmann (UNESC)
O espírito de Fausto na Província de Santa Catarina: os rios, as lagoas e os Laklãnõ/Xokleng no Projeto do Canal de Navegação de Laguna a Porto Alegre (1879)
Resumo: O século 19 é o século das lutas de independência nas Américas. O século em que se inicia a construção dos Estados republicanos que resultaram nas configurações atuais dos países americanos/latino-americanos. Os exércitos dos colonizadores foram derrotados e os gestores metropolitanos foram forçados a voltar para a Europa. Expulsaram os agentes coloniais europeus, mas não suas ideias, crenças, língua, religião e desejo de poder e riqueza. Na realidade complexa do processo histórico da “era das evoluções”, as elites crioulas foram todas seduzidas pelo feitiço do canto da sereia da modernidade republicana burguesa. Seduzidas também pelo espírito de Fausto (desejo de modernidade e modernização) e a religião do progresso propagados pelas ondas sísmicas da Revolução Industrial e os novos paradigmas da modernidade euro-ocidental. Foi neste contexto de revolução e neocolonização que a Província de Santa Catarina foi infestada de desejo de conhecimentos sobre suas potencialidades de recursos naturais, almejando um horizonte de modernidade e progresso via mercado capitalista nacional e internacional. Muitos viajantes-naturalistas percorreram o território da província inventariando e mapeando detalhadamente as riquezas naturais, as paisagens geográficas, serras e as características dos rios e lagoas; e muitos engenheiros foram produzindo projetos e planos de construção de estradas térreas e hidrovias para expandir a produção e comércio de produtos naturais para mercado interno e externo. Foi com este propósito que o Engenheiro Eduardo José de Moraes apresentou seu Plano de Canal de Navegação de Laguna (SC) a Porto Alegre, em 1789. Neste trabalho, identificamos e problematizamos o “espirito de Fausto” na concepção do Projeto de Canal de Navegação do Eng. Moraes, a racionalidade científica no escrutínio das intervenções no meio natural hídrico, a desconsideração total dos indígenas Laklãnõ/Xokleng como sujeitos de direitos e as políticas de ocupação e organização dos povoados no formato de pequenas colônias de produção de produtos naturais para o mercado. Demonstramos, desta forma, uma continuidade de um modelo de gestão de poder público – local, provincial e nacional- que se incube de providenciar a construção e expansão de infraestrutura de transporte de produtos para o mercado, como no “Programa Estrada Boa” do atual governo de Santa Catarina. Abordamos as fontes documentais na perspectiva da ecologia decolonial articulada com as ferramentas teóricas da História Ambiental. Palavras-chaves: Natureza; Rios; Modernidade; Progresso; Canal de Navegação Laguna-Porto Alegre.
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- Leonardo Mees da Rosa (UFSC), Willian Meurer Welter (UFSC)
O mito do "vale europeu": diversidade de fontes contra a narrativa colonial
Resumo: O Vale do Itajaí é uma região geográfica que engloba todos os municípios da bacia hidrográfica do Rio Itajaí-açu e seus afluentes (Itajaí do Sul, Itajaí do Norte, Itajaí do Oeste e Itajaí-Mirim). É uma região que demonstra uma riqueza única em seu potencial de pesquisa arqueológica. Desde os levantamentos do PRONAPA por Walter Piazza na década de 1960, com a continuidade na década de 70 por um de seus alunos, Alroino Baltazar Eble, servindo como base para as pesquisas que vieram a ocorrer, e ainda ocorrem na região, com mais de 400 sítios arqueológicos já foram registrados. O presente trabalho tem por objetivo discutir o embate da utilização do termo “Vale Europeu” com as pesquisas arqueológicas realizadas no Vale do Itajaí e as narrativas-históricas dos povos indígenas da região, estabelecendo fontes além da escrita como fundamentais na construção de uma história fundamentalmente contra-colonial. A centralidade do trabalho consiste em estabelecer ambas as narrativas a partir de fontes múltiplas, por uma perspectiva historiográfica, arqueológica e das narrativas-históricas. A partir de revisão e breve análise da presença do termo “Vale Europeu” em jornais de Santa Catarina, buscando compreender como se iniciou e o teor político do termo, bem como sua estruturação ao longo do tempo. Com isso, apresenta-se uma narrativa contra-colonial sobre o Vale do Itajaí, inserindo no debate as pesquisas arqueológicas realizadas na região, revisando os sítios registrados e as datações radiocarbônicas, construindo uma cronologia antiga e contínua, além de evidenciar as conectividades possíveis entre os diferentes lugares pesquisados, entendo a espacialidade das ocupações indígenas. Conjuntamente, tendo as próprias narrativas orais do povo Laklãnõ/Xokleng sobre o seu próprio território inseridas como uma fator essencial para a resistência indígena sobre a sua presença histórica e atual no Vale do Itajaí, contra os repetitivos ataques de políticas neocoloniais, atestando a sua duradoura ocupação na bacia do rio Itajaí. Então, trazendo uma oposição direta ao termo “Vale Europeu”, que continua a caracterizar uma rota turística, estando também estruturado em debates legislativos, visto a aprovação de mudança de nome da Região Metropolitana do Vale do Itajaí para o Vale Europeu, demonstrando a evidente intenção política de tentativa de apagamento da história dos povos originários.
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Em segundo lugar destacaremos o ST 01 – Antropoceno e História: Temporalidades em Tensão, coordenado por Claiton Marcio da Silva (UFFS), Matheus Villani Cordeiro (UNICENTRO) e Leandro Gomes Moreira Cruz (SED/SC). A relevância desse simpósio reside no fato de colocar em evidência um dos conceitos mais debatidos nas Humanidades Ambientais nas últimas décadas: o Antropoceno, compreendido não apenas como uma possível nova época geológica, mas sobretudo como uma categoria interpretativa capaz de tensionar as formas tradicionais de compreender a História e as relações entre sociedade e natureza.
A proposta do simpósio parte das reflexões desenvolvidas por Dipesh Chakrabarty, autor que contribuiu decisivamente para inserir o debate sobre o Antropoceno na historiografia ao demonstrar que a crise climática desafia as escalas temporais tradicionalmente utilizadas pela disciplina histórica. Ao reconhecer a humanidade como uma força capaz de alterar os processos do Sistema Terra, a História deixa de operar exclusivamente no tempo social e político e passa a dialogar também com as temporalidades geológicas e ecológicas, aproximando-se de campos como a Geologia, a Arqueologia, a Ecologia, a Antropologia e as Ciências da Terra.
Contudo, a própria descrição do simpósio evidencia que o Antropoceno está longe de constituir um conceito consensual. Ao contrário, é apresentado como um campo de disputas teóricas, epistemológicas e políticas. Nesse sentido, a proposta incorpora importantes críticas formuladas nas Humanidades Ambientais, destacando conceitos alternativos como Capitaloceno, que atribui ao capitalismo histórico a responsabilidade central pela crise ambiental; Plantationoceno, que enfatiza os legados do colonialismo, da escravidão e dos sistemas monocultores; Ctulhuceno, formulado por Donna Haraway para valorizar as relações multiespécies e as interdependências ecológicas; e, em uma perspectiva regional, o Sojaceno, conceito que evidencia os impactos socioambientais decorrentes da expansão do agronegócio e da agricultura de monoculturas no Sul da América do Sul.
Ao incorporar essas diferentes perspectivas, o simpósio desloca o debate da simples identificação de uma nova época geológica para uma reflexão crítica sobre as causas históricas das transformações planetárias contemporâneas. A questão central deixa de ser apenas quando começou o Antropoceno, passando a problematizar quais modelos econômicos, políticos e culturais produziram as atuais crises ecológicas e quais sujeitos históricos foram responsáveis — ou sofreram de maneira desigual — seus impactos.
Essa perspectiva crítica é amplamente refletida na programação do simpósio. Distribuídos em quatro sessões, foram apresentados 25 trabalhos, que evidenciam a diversidade de abordagens atualmente presentes nas pesquisas que articulam História Ambiental, Antropoceno e Humanidades Ambientais.
Um primeiro conjunto de trabalhos concentra-se nas relações entre mudanças climáticas, historicidade e transformações ambientais de larga escala. Inserem-se nesse eixo pesquisas sobre temporalidades climáticas, desastres ambientais, historicidade moderna, construção histórica da Amazônia como fronteira do desenvolvimento, Projeto RADAM, migrações para a Amazônia Legal durante a ditadura militar, garimpo em Roraima e os impactos da utilização de herbicidas associados ao Agente Laranja sobre populações indígenas.
Outro eixo importante dedica-se às transformações provocadas pela expansão do capitalismo agrícola e do agronegócio. São discutidos processos de monocultura, reconfiguração do uso da terra, industrialização da produção de alimentos, expansão da cultura da cevada, degradação de cursos hídricos, financeirização da natureza e os impactos socioambientais da agricultura intensiva, especialmente na região Sul do Brasil. A recorrência desses temas aproxima diversos trabalhos das discussões sobre o Capitaloceno e, particularmente, sobre o Sojaceno, conceito que vem sendo utilizado para interpretar os efeitos territoriais e ambientais da expansão da agricultura empresarial.
Também merece destaque o conjunto de pesquisas voltadas às relações entre território, paisagem, arqueologia e povos indígenas. Os trabalhos abordam desde arqueologia da paisagem, ocupações Guarani e materialidades do coronelismo até cosmologias Kaingang e disputas territoriais contemporâneas envolvendo povos indígenas. Essas pesquisas demonstram que a História Ambiental tem ampliado seu diálogo com a Arqueologia e com os estudos decoloniais, valorizando diferentes formas de compreender a relação entre sociedade, ambiente e território.
Outro grupo significativo de comunicações aproxima a História Ambiental de perspectivas culturais e epistemológicas inovadoras. Destacam-se pesquisas sobre ecocrítica e cinema, literatura ambiental, relações multiespécies, representações da fauna, ecologia decolonial, bem como análises sobre a circulação e apropriação do conceito de Antropoceno na produção historiográfica brasileira entre 2010 e 2024. Esses trabalhos evidenciam o crescimento das Humanidades Ambientais como um espaço de diálogo entre História, Literatura, Filosofia, Comunicação e Estudos Culturais.
A programação também revela uma importante dimensão internacional. Além dos estudos centrados na Amazônia e no Sul do Brasil, encontram-se pesquisas sobre Haiti, Moçambique e debates globais sobre colonialismo, desenvolvimento e transformações ambientais. Essa diversidade espacial reforça a perspectiva comparativa proposta pelo simpósio e evidencia que as crises ambientais contemporâneas ultrapassam fronteiras nacionais, exigindo interpretações em múltiplas escalas.
Do ponto de vista institucional, observa-se uma expressiva participação de pesquisadores da Universidade Federal da Fronteira Sul (UFFS), da Universidade Estadual do Centro-Oeste (UNICENTRO), da Universidade Comunitária da Região de Chapecó (UNOCHAPECÓ), da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), além de profissionais vinculados às redes públicas de ensino e outras instituições de pesquisa. Essa composição demonstra que o debate sobre o Antropoceno não permanece restrito aos grandes centros acadêmicos, mas vem sendo incorporado por diferentes grupos de pesquisa e programas de pós-graduação da região Sul.
De maneira geral, o ST 01 representa uma das expressões mais atuais das transformações em curso na historiografia ambiental. Diferentemente de abordagens tradicionais centradas exclusivamente na reconstrução histórica das relações entre sociedade e natureza, o simpósio propõe uma reflexão de caráter teórico e epistemológico, discutindo os próprios fundamentos da escrita da História diante da crise climática global. Ao reunir pesquisas que articulam História Ambiental, Arqueologia, Ecologia Política, Estudos Decoloniais, Geografia, Patrimônio, História Indígena e Humanidades Ambientais, o simpósio evidencia a consolidação de um campo interdisciplinar voltado à compreensão das profundas transformações planetárias que caracterizam o século XXI.
Conheça a proposta do ST e os estudos apresentados:
ST 01. Antropoceno e História: Temporalidades em Tensão
Autor(a)
Claiton Marcio da Silva (UFFS),Matheus Villani Cordeiro (UNICENTRO),Leandro Gomes Moreira Cruz (SED/SC)
Descrição: O debate sobre o Antropoceno, impulsionado por autores como Dipesh Chakrabarti, introduz uma profunda tensão entre temporalidades históricas e geológicas. Ao propor que a humanidade se tornou uma força geológica, Chakrabarti desloca a História de suas escalas tradicionais — centradas na modernidade, no capitalismo e na agência humana — para uma perspectiva que articula múltiplos tempos, incluindo o “tempo profundo” da Terra . Esse deslocamento tem fomentado diálogos interdisciplinares entre História, Arqueologia, Geologia, Ciências Sociais e Literatura, ao mesmo tempo em que expõe divergências conceituais e políticas sobre o próprio termo “Antropoceno”. Nesse contexto, emergem propostas críticas como Capitaloceno (ênfase no capitalismo), Plantationoceno (colonialismo e monocultura), Ctulhuceno (relações multiespécies) e, em chave regional, o Sojaceno, que destaca regimes agroindustriais específicos. Tais formulações questionam a universalização da responsabilidade humana, evidenciando desigualdades históricas e geográficas. Consideramos para esse simpósio temático, trabalhos (estudos de caso, estudos bibliográficos, teóricos, etc.) que dialoguem com o Antropoceno de maneira que este torna-se menos uma categoria consensual e mais um campo de disputa teórica, no qual diferentes disciplinas tensionam suas bases epistemológicas e narrativas, redefinindo o papel da História frente à crise climática e às transformações planetárias contemporâneas.
Sessão 01 - 19/08 (14:00)- Jo Klanovicz (UNICENTRO)
Tempo Histórico Climático: Mudanças Climáticas, Desastres e a Transformação da Historicidade Moderna
Resumo: Este trabalho parte do argumento de que as mudanças climáticas não constituem apenas uma crise ambiental ou política, mas também uma profunda transformação da própria temporalidade histórica. A crescente instabilidade climática desafia as categorias temporais que estruturaram a historiografia moderna desde o século XIX, especialmente a distinção relativamente estável entre passado, presente e futuro. Como resposta a esse desafio, proponho o conceito de tempo histórico climático, entendido como um regime temporal caracterizado pela sobreposição de múltiplas durações, pela contingência condicionada por limites planetários, pela presença de processos irreversíveis, pela expansão do presente e pela crescente disputa em torno dos futuros possíveis. Nesse contexto, eventos climáticos extremos deixam de ser compreendidos apenas como episódios excepcionais e passam a atuar como momentos reveladores das transformações da experiência histórica contemporânea. A reflexão articula contribuições da História Ambiental, dos estudos do Antropoceno, da História do Tempo Presente e das Humanidades Ambientais para discutir de que maneira as mudanças climáticas desestabilizam a historicidade moderna, reconfiguram as formas de explicação histórica sob condições de restrição ecológica e introduzem novas tensões éticas e políticas relacionadas à irreversibilidade e à antecipação do futuro. O trabalho analisa narrativas produzidas após o tornado que atingiu o município de Rio Bonito do Iguaçu, no Paraná, em 2025. A partir desses relatos, demonstra-se como o tempo histórico climático torna-se visível na experiência do desastre, revelando a compressão do tempo vivido, a distribuição desigual das vulnerabilidades socioambientais e a transformação do presente em uma condição prolongada de risco. Ao propor o conceito de tempo histórico climático, o artigo busca contribuir para os debates contemporâneos sobre história, clima e sociedade, sugerindo que compreender as mudanças climáticas exige não apenas novas interpretações do ambiente, mas também novas formas de pensar o próprio tempo histórico.
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- Matheus Villani Cordeiro (UNICENTRO)
A construção da Amazônia como fronteira do desenvolvimento: expansão capitalista, exploração territorial e crise ambiental
Resumo: Este trabalho analisa a construção histórica da Amazônia como parte da fronteira estratégica de desenvolvimento e expansão econômica a partir da década de 1940, procurando compreender de que forma os discursos científicos, geográficos e políticos contribuíram para a consolidação de uma racionalidade desenvolvimentista articulada à incorporação dos recursos naturais da região amazônica aos projetos de modernização e acumulação capitalista no Brasil, atualmente associada à discussão sobre a Grande Aceleração. O estudo aproxima-se especialmente das perspectivas críticas do capitaloceno, formuladas por Jason Moore, como parte dos desdobramentos do debate sobre as tensões entre temporalidades históricas e geológicas, compreendendo a crise ambiental como expressão histórica das formas capitalistas de apropriação da natureza. Assim, busca-se, sobretudo, historicizar as transformações socioambientais na Amazônia brasileira, enfatizando o papel desempenhado pelo Estado, pela produção científica, pelos projetos de capitalismo nacional e de integração territorial, bem como por políticas direcionadas à exploração econômica da região. Privilegia-se os discursos e a atuação da Superintendência do Plano de Valorização Econômica da Amazônia (SPVEA), identificando a construção de uma lógica de “aproveitamento” dos recursos naturais, diversificação econômica, mudança cultural dirigida e investimentos em infraestrutura como fundamentos para o desenvolvimento e a integração nacional. Argumenta-se que as iniciativas promovidas pela SPVEA contribuíram para a formação das bases discursivas, institucionais e materiais de intensificação da exploração dos ecossistemas amazônicos, posteriormente aprofundadas durante o regime militar e mantidas, sob novas roupagens, em projetos contemporâneos de infraestrutura, mineração, logística e expansão agropecuária. Pretende-se, assim, como eixo central da discussão, utilizar a história da Amazônia como espaço privilegiado para o debate sobre as permanências históricas entre exploração territorial e crise ambiental.
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- Leandro Gomes Moreira Cruz (SED/SC)
O antropoceno como regime de exceção? O Projeto RADAM e a produção da Amazônia antropocênica
Resumo: A pesquisa analisa o Projeto Radar na Amazônia (RADAM) como uma tecnologia política fundamental para a produção de uma “Amazônia antropocênica” durante a ditadura militar brasileira (1964-1985). Criado em 1970, no contexto do Programa de Integração Nacional (PIN), o RADAM articulou ciência, tecnologia e aparato estatal para realizar o levantamento sistemático dos recursos naturais da Amazônia, subsidiando projetos de colonização, mineração e expansão agropecuária. Partindo da hipótese de que o antropoceno pode ser interpretado como uma forma de estado de exceção permanente, argumentamos que o projeto desenvolvimentista da ditadura promoveu a suspensão prática de formas anteriores de relações socioambientais, subordinando humanos e não-humanos à racionalidade tecnocrática e à lógica da segurança nacional. Assim, o RADAM é interpretado não apenas como um empreendimento científico, mas como um agenciamento tecnocientífico responsável pela produção de classificações territoriais, hierarquias ambientais e formas de ordenamento biopolítico. A partir da análise de documentação oriunda do Arquivo Nacional e do acervo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), incluindo relatórios internos do projeto, documentos administrativos, mapas, fotografias e testemunhos de cientistas envolvidos nas atividades de campo, e em diálogo com a História Ambiental, a História das Ciências e os estudos de Ciência, Tecnologia e Sociedade (CTS), argumentamos que a produção cartográfica e o sensoriamento remoto desempenharam papel central na construção do imaginário de uma ocupação racional da Amazônia, transformando florestas, rios, solos e populações em objetos de cálculo econômico e planejamento estatal. Portanto, buscamos demonstrar que a construção da Amazônia antropocênica esteve profundamente vinculada à produção tecnocientífica do território e à consolidação de um modelo autoritário de modernização homogeneizante, baseado na obstrução de formas de relação socioambiental consideradas primitivas.
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- Marina Andrioli (UFFS)
Colonos da Fronteira Sul na Amazônia Legal: Uma Análise das migrações durante os Planos Nacionais de Desenvolvimento I E II (1964 a 1979)
Resumo: Este trabalho abordará como ocorreram as colonizações advindas da Fronteira Sul do Brasil para a Amazônia legal durante os Planos Nacionais de Desenvolvimento I e II (1964 a 1979), bem como, estabelecerá as relações desses processos migratórios e colonizadores, seus atores, resistências e, especialmente, se debruçará em suas motivações. O enfoque deste projeto será a relação da Amazônia Legal com a Fronteira Sul do Brasil, entretanto,migrações para outras regiões como as que ocorreram no estado do Mato Grosso do Sul também serão analisadas com o objetivo de fornecer subsídios para a tese a ser elaborada. Metodologicamente, esse trabalho se pautará nas noções de colonização a partir do diálogo com Norbert Elias no que se refere às relações sociais entre “estabelecidos” e “outsiders”, e com Donald Woster no que refere às questões ambientais, interseccionando ambas as perspectivas teóricas e metodológicas. As fontes primárias utilizadas serão os PND´s I e II, documentos do Instituto Nacional da Reforma Agrária (INCRA) e SNI (Serviço Nacional de Informações), além de entrevistas com colonos participantes destas experiências. A partir destes movimentos migratórios colonizadores esperamos revelar os mecanismos de favorecimento ou não dos colonos brancos da Fronteira Sul do Brasil, contrariamente à possíveis colonos de outras regiões do país. Portanto, essa possibilidade demonstraria que a noção ambiental de desmatamento pormeio da tecnologia foi preferida pelos militares, já que experiências na Fronteira Sul do Brasil rumavam para este caminho.
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- Rosângela Maria Bezerra da Costa (Governo do Estado de Roraima)
Uma Leitura Arqueológica da Paisagem: Marcas e Cicatrizes do Garimpo na Amazônia Setentrional - Território Federal de Roraima (1960-1980).
Resumo: Esta comunicação analisa transformações territoriais na Amazônia Setentrional (Roraima) entre 1960 e 1980 sob a ótica da Arqueologia da Paisagem. O objetivo é compreender como a garimpagem institucionalizou marcas profundas no solo, transformando o espaço em um "arquivo vivo" de marcas e agências. Metodologicamente, articula-se a pesquisa historiográfica documental à epistemologia do "saber do trecho", método focado na observação direta e no inventário das cicatrizes materiais deixadas pela extração mineral na paisagem, transpondo o dado empírico diretamente para a narrativa científica escrita. O referencial teórico ancora-se na historiografia sobre as fronteiras extrativas e a memória do garimpo na Amazônia, dialogando com os operadores conceituais de espaço habitado de Jaisson Teixeira Lino para interpretar os vestígios da exploração mineral. Conclui-se que a leitura dessas paisagens extrativas reconverte vestígios materiais em narrativas de resistência e salvaguarda da história regional frente aos conflitos da mineração.
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- Gabriel Artur Roesler (UFFS)
Construindo o problema: herbicidas associados ao Agente Laranja e resistência Nambiquara durante a ditadura civil-militar brasileira – reflexões de pesquisa
Resumo: Durante a ditadura civil-militar brasileira (1964-1985), a Amazônia foi convertida em palco de um projeto autoritário de desenvolvimento que articulou expansão rodoviária, grilagem de terras e violência ambiental sistemática. Nesse contexto, este projeto de pesquisa investiga a aplicação de herbicidas associados ao Agente Laranja, notadamente o Tordon 155, fabricado pela Dow Chemical, sobre aldeias do povo Nambiquara no Vale do Guaporé (divisa entre noroeste de Mato Grosso e sul de Rondônia) entre as décadas de 1970 e 1980. Parte-se da hipótese de que o uso desses desfolhantes químicos, concebidos originalmente como armas de guerra no Sudeste Asiático, foi transposto para a Amazônia como instrumento de controle territorial, degradação de áreas de subsistência indígena e facilitação da ocupação agropecuária privada. O objetivo central é analisar como essa violência química produziu processos de denúncia e resistência que mobilizaram, de forma articulada, saberes científicos (toxicologia, ecologia), conhecimentos indígenas e discursos políticos, no âmbito da História Ambiental e da História das Ciências. Como objetivos específicos, busca-se: mapear as conexões entre os debates globais que condenaram o Agente Laranja no Vietnã e as denúncias contra o Tordon 155 no Brasil; examinar a influência das controvérsias científicas sobre a toxicidade do 2,4,5-T e da dioxina (TCDD) nas decisões regulatórias do Estado brasileiro; analisar as estratégias discursivas de indígenas, missionários do CIMI, antropólogos e parlamentares que utilizaram argumentos científicos e referências ao Vietnã como formas de resistência; compreender historicamente como a contaminação química e seus efeitos sobre a saúde e os modos de vida Nambiquara foram incorporados às narrativas de denúncia. Metodologicamente, a pesquisa adota a análise documental crítica de fontes fragmentadas, incluindo relatórios do Serviço Nacional de Informações (SNI), documentos do Conselho Indigenista Missionário (CIMI), pareceres da CETESB, pronunciamentos parlamentares e etnografias de David Price, Pedro Agostinho da Silva e outros. O referencial teórico articula: a História Ambiental de Worster, Pádua e Drummond (que situa a transformação ecológica como prática de poder); o conceito de “violência lenta” de Rob Nixon (para capturar efeitos fragmentados, cumulativos e invisibilizados); os “regimes de produção do saber” de Dominique Pestre; e a “produção da ignorância científica” de Robert Proctor.
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Sessão 02 - 20/08 (08:30)- Tiago João Benetti (Colégio e Pré Vestibular Expressivo)
Monocultura, capitalismo agrícola e exclusão social no Oeste catarinense: transformações territoriais e reconfigurações do mundo rural
Resumo: Esta pesquisa analisa a consolidação do modelo agroindustrial e monocultor no Oeste de Santa Catarina, com foco no município de Xanxerê entre as décadas de 1970 e 1980, buscando compreender as transformações sociais, econômicas e territoriais decorrentes da inserção regional no capitalismo agrícola. Parte-se da compreensão de que a modernização agrícola ocorrida na segunda metade do século XX não representou apenas aumento produtivo e tecnológico, mas também um processo de reorganização estrutural do espaço rural, marcado por desigualdades e exclusões sociais. O trabalho investiga como políticas públicas de incentivo ao agronegócio, ampliação do crédito rural, mecanização agrícola e integração agroindustrial contribuíram para consolidar um modelo produtivo voltado à monocultura e à exportação de commodities. A expansão das monoculturas de soja, trigo e milho redefiniu o uso da terra e alterou a organização econômica regional, substituindo práticas de policultura e agricultura de subsistência por sistemas especializados e dependentes de insumos industriais. Embora tenha promovido crescimento econômico e aumento da produtividade, esse processo também intensificou mecanismos históricos de exclusão social. Pequenos agricultores, posseiros e comunidades caboclas encontraram dificuldades para adaptar-se às novas exigências tecnológicas e mercantis impostas pelo modelo agroindustrial. A necessidade de investimentos em maquinário e insumos agrícolas contribuiu para ampliar o endividamento rural e acelerar a concentração fundiária. Este instrumento adota perspectiva interdisciplinar, articulando História Ambiental e História Agrária, buscando interpretar a modernização agrícola como processo contraditório, associado simultaneamente à expansão econômica e à desestruturação de formas históricas de organização social no campo. Este estudo busca contribuir para os debates sobre as consequências históricas da expansão do agronegócio no Brasil e os limites do discurso desenvolvimentista no Sul do país. Agradeço o apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa e Inovação do Estado de Santa Catarina (FAPESC), por meio do Edital nº 21/2024 e do Processo/Termo de Outorga nº 2024TR002491. (Tiago João Benetti – Doutorando do PPGH-UFFS – tjbenetti@hotmail.com).
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- Leonardo Alves da Silva (UFFS)
Reconfiguração do uso da terra e os monocultivos nos Campos de Palmas (1965–1985)
Resumo: A formação fitogeográfica do sul do Brasil corresponde majoritariamente no domínio do bioma de Mata Atlântica, destacando-se pela presença de espécies arbóreas como a Araucária Angustifolia, que caracteriza o ecossistema florestal. Portanto, observa-se também, a ocorrência significativa de vegetações campestres, que em relação com as áreas florestais, estabelecem mosaicos na transição de paisagens composta por campos nativos e florestas. Historicamente, os Campos de Palmas correspondiam à uma ampla região de predominância campestre que se estendia entre os rios Iguaçu e Uruguai, abrangendo partes que hoje integram territórios dos estados do Paraná e Santa Catarina. Essa região sofreu com processos de ocupação conforme interesses econômicos vigentes, passando das atividades pecuárias e extrativistas do século XIX, para a introdução e avanço de monoculturas florestais e agrícolas no início dos anos 1960, voltadas para uma produção industrial, colocando em risco a biodiversidade campestre. Assim, o projeto busca analisar o processo de expansão das monoculturas florestais voltadas a produção de commodities, através do cultivo das espécies exóticas de Pinus e Eucalyptus, nos municípios de Palmas e General Carneiro, durante o período da ditadura civil-militar no Brasil. Parte-se da hipótese que tais municípios se inserem no ecossistema campestre, posteriormente submetidos à criação de uma unidade de conservação. Nota-se que tais ocorrências ocorrem durante um processo histórico de articulações políticas estatais movimentadas pelos governantes militares, especialmente a partir do código florestal de 1965 e os incentivos fiscais de “reflorestamento” em áreas de pastagens. Através disso, argumenta-se que o governo militar atuou como agente de conversão dos campos nativos à homogeneização da paisagem por monocultivos arbóreos, promovendo uma reconfiguração territorial fomentada pela lógica da indústria madeireira na produção de papel celulose, e a demanda de carvão vegetal. Como abordagem metodológica, a pesquisa propõe uma análise bibliográfica nas áreas da história ambiental e geografia com o objetivo de fundamentar a investigação sobre a transformação de paisagem e políticas estatais. Além disso, o trabalho busca utilizar de fontes institucionais, como o Código Florestal de 1965, relatórios técnicos, jornais da região e dados estatísticos referentes aos Campos de Palmas, e de análises iconográficas envolvendo o uso de mapas e registros fotográficos com o intuito de evidenciar a expansão monocultural sobre a vegetação campestre. A articulação destes procedimentos permite uma análise entre as políticas ambientais do governo ditatorial e a mudança da paisagem ambiental na região. Neste contexto, o trabalho contribui para a compreensão das relações entre Estado e paisagem no contexto da ditadura militar brasileira, oferecendo uma leitura histórica dos processos de produção industrial e avanço monocultural sobre os campos da Mata Atlântica.
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- Miguel Mundstock Xavier de Carvalho (UFFS)
Do quintal para a granja industrial: produção e consumo de frango no Paraná, Brasil (1960-1980)
Resumo: As estatísticas da FAO sobre o consumo de frango no Brasil indicam que a média em 1961 era de cerca de 1,72 kg per capita por ano. Não havia exportação de frango naquela época. Este dado é um grande contraste com a atualidade, quando o Brasil é o maior exportador mundial de frango e o consumo interno alcançou 48 kg por pessoa por ano. Para estudar essa grande transformação de hábitos de consumo e padrões de produção, e suas implicações ambientais e no bem-estar/direitos desses animais, utilizou-se uma metodologia baseada na pesquisa do influente jornal paranaense, “Diário do Paraná”. Ao todo, foram analisadas mais de 1.500 reportagens. O Paraná rapidamente se alçou nas últimas décadas como uma das principais regiões mundiais no cenário da produção de frango, o que aponta para a relevância da pesquisa. O foco da análise é o período 1960-1980, considerando o contexto político e econômico nacional, as práticas rurais e recomendações baseadas em ciência e os arranjos institucionais e políticos. Objtivou-se estudar as mudanças ocorridas nesse período no que se refere a produção e consumo de frango e suas conexões com transformações mais amplas do desenvolvimento agrícola do Brasil e das transformações ambientais durante os governos militares e seu rápido processo de urbanização. Durante este período, muitas características centrais da indústria contemporânea de frangos estabeleceram-se e um padrão de consumo de frango expandiu rapidamente, embora o bem-estar da galinha raramente fosse mencionado nas discussões dos jornais. Entre a produção e o consumo está a criatura viva e senciente, a galinha, cujo bem-estar geralmente não era reconhecido oficialmente, mas parece que todos sabiam que ela estava lá, mas que de alguma forma não era considerada relevante o suficiente em comparação com os objetivos de transformá-la em pedaços de carne. Como era comum naquele contexto, o consumo de carne, e a matança de animais para isso, foi simplesmente naturalizado, sem levar em consideração os direitos dos animais à vida ou as considerações de saúde dos limites do consumo de carne pela população. Como afirmou o historiador vegano israelense Yuval Harari, “os animais são a principal vítima da história, e o tratamento de animais domesticados em fazendas industriais é talvez o pior crime da história” (HARARI in SINGER, p.IX). O filósofo estadunidense Michael Huemer também discute a ideia de que a criação de animais nas granjas industriais, sejam eles galinhas, porcos ou bois, e que envolvem a tortura e a morte de cerca de 83 bilhões de animais terrestres por ano (e crescendo...), “talvez seja o pior de todos os problemas mundiais” (HUEMER, p.49, 57). Se essas ponderações estiverem acertadas, negligenciar o sofrimento dos animais ao longo da história da industrialização da produção de animais é um grande erro e ao mesmo tempo uma grande lacuna a ser preenchida pelos historiadores.
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- Lucas Martins (UFFS)
O Cultivo de Cevada no Antropoceno: Impactos Socioambientais no Paraná (1970-2026)
Resumo: Fundamentada na História Ambiental, esta pesquisa problematiza a inserção do complexo agroindustrial da cevada e do malte nas regiões de Guarapuava e Ponta Grossa (PR), entre a década de 1970 e o presente, inserindo-se no debate do Antropoceno e das "temporalidades em tensão". A pesquisa analisa como ecossistemas nativos, como a Mata Atlântica e os campos gerais, com suas dinâmicas temporais de longa duração, foram rapidamente modificados por lógicas capitalistas de monocultura e industrialização em apenas cinco décadas. O objetivo é investigar os profundos impactos socioambientais dessa modernização técnica e territorial delimitada, impulsionada por políticas de Estado, como o Projeto de Autossuficiência em Malte e Cevada (1975) durante a Ditadura Militar, e pelo capital privado agroindustrial. Metodologicamente, a pesquisa opera em um movimento regressivo do presente ao passado, mobilizando Censos Demográficos e Agropecuários, além de fontes da Embrapa, Ministério da Agricultura e documentações locais. Os resultados parciais revelam que a mecanização e a alteração drástica da paisagem foram acompanhadas por uma "hiper discursividade" que forjou e exaltou identidades europeias (especialmente germânicas) atreladas ao progresso tecnológico. Esse processo atuou silenciando e apagando a presença histórica e a resistência de povos indígenas (Kaingang e Xokleng), além de populações miscigenadas e caboclas que ocupavam o território anteriormente. A agência humana reescreveu a biologia de uma planta milenar para atender ao latifúndio moderno. Conclui-se que a cevada transmutou-se em uma estratégia de Estado e de dominação territorial, demonstrando como o tempo histórico do desenvolvimento acelerado tensiona a temporalidade ambiental de forma irreversível no Sul do Brasil.
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- Carlos Eduardo Marcondes Carro Soares (SEDUC Chapecó)
O papel da Sociedade Anônima Indústria e Comércio Chapecó (SAIC) na degradação ambiental dos cursos hídricos da região de Chapecó (1990-2000)
Resumo: O presente trabalho tem como objetivo analisar o impacto ambiental, com ênfase na poluição do curso hídrico, no Rio Uruguai e na Microbacia do Lajeado São José. Impactos promovidos também, pelo frigorífico Sociedade Anônima Indústria e Comércio Chapecó (SAIC) no município de Chapecó, Santa Catarina, Sul do Brasil. No período da década de 1990 à 2000, cuja base econômica está intimamente conectada aos frigoríficos. Para isso, dialoga-se com os conceitos elaborados pelo geógrafo-historiador Jason Moore (2022), acerca da formação de uma “natureza barata”, onde essa lógica do capitalismo é empregada na configuração relacional com a Natureza. O mesmo pode ser percebido no frigorífico em questão, quando para o “desenvolvimento” de seu capital despejou toneladas de dejetos suínos e aves no Rio Uruguai e seus afluentes, conforme expõe os autores Amaral, Zuravski, Querol, Machado e Oliveira (2018). Assim como também ocorre na Microbacia do Lajeado de São José, como esclarece Locatelli (2009). Em conjunto com a teoria da “fronteira da mercadoria”, de Moore (2023), busca-se quais os impactos gerados por tal extrativismo e suas relações com a intervenção antropogênica. Visa-se, assim, permitir a compreensão de como a biota de Chapecó foi alterada. A metodologia a ser utilizada consiste em uma pesquisa bibliográfica relativa aos conceitos anteriormente apresentados, aliada ao uso de relatórios de instituições como a Empresa de Pesquisa Agropecuária e Extensão Rural de Santa Catarina (EPAGRI), Instituto do Meio Ambiente de Santa Catarina (IMA), entre outros. Além de pesquisa de arquivo no Centro de Memória do Oeste de Santa Catarina (CEOM) em busca de periódicos locais e fotografias que corroboram para a compreensão da expropriação da Natureza e o contexto da formação dos frigoríficos locais, bem como os seus mecanismos de desenvolvimento, como consequência auto geradora de impactos ao meio ambiente no município de Chapecó. Também serão utilizadas bibliografias sobre o estabelecimento desses frigoríficos e a maneira como o capital moldou sua lógica produtiva. A partir dessas análises, compreender o papel do modo de produção capitalista no âmbito alimentício, especificamente, nos frigoríficos e como este papel desempenhado pela SAIC e outros frigoríficos afetaram os cursos hídricos do município, degradando todo um ecossistema, atingido animais e solos ao seu entorno, consequentemente na flora local, e aos próprios seres humanos, que consomem a água destes cursos hídricos.
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- Patrícia Miguel Cavagnoli (Secretaria de Educação de São Miguel do Oeste)
Narrativas da fauna e a historicidade do “silvestre”: relações multiespécies no oeste catarinense (1920-1970)
Resumo: Esta proposta insere-se no campo da História Ambiental em diálogo com os Estudos Multiespécies, buscando analisar como narrativas memorialistas, representações e classificações jurídicas produziram sentidos históricos sobre a fauna silvestre no oeste catarinense entre 1920 e 1970. Partindo da compreensão de que categorias como natureza e animalidade não constituem dados naturais, mas construções históricas e culturais, a pesquisa investiga de que maneira indígenas, caboclos e colonos descendentes de europeus perceberam, classificaram e se relacionaram com os animais no contexto da colonização republicana e da expansão agrícola sobre remanescentes da Mata Atlântica. Articulando representações de memorialistas, imagens e História como campos capazes de revelar sensibilidades em torno das relações entre humanos e outros animais, o estudo utiliza como fontes primárias livros memorialistas, fotografias e legislações. Nesse sentido, tais narrativas são compreendidas não apenas como descrições do processo colonizador, mas como espaços de produção de imaginários sobre a floresta, os animais e os limites entre humano e não humano. Simultaneamente, a pesquisa problematiza a historicidade da categoria “fauna silvestre”, observando como classificações legais e científicas redefiniram práticas de caça, domesticação, proteção e extermínio animal ao longo do século XX. Ao dialogar com autores como Donald Worster, Roger Chartier, Bruno Latour, Regina Horta Duarte e Ana Lúcia Camphora, a investigação busca compreender as relações entre representação e produção histórica da animalidade. Como afirma Worster (1991, p. 210), “natureza” corresponde a “muitas ideias, significados, pensamentos, sentimentos”, evidenciando que as formas de narrar os animais também participam da construção das paisagens e relações sociais. Latour (1994, p. 16) contribui para essa discussão ao afirmar que as sociedades modernas operam através de “híbridos de natureza e cultura”, tensionando separações rígidas entre humano e não humano. Dessa maneira, o trabalho analisa como determinadas espécies foram historicamente percebidas e utilizadas como recurso econômico, troféu, companhia ou manifestação do perigo, revelando que tais classificações participaram da organização material e simbólica do território colonial e atuaram como mecanismos de ordenamento territorial, disciplinamento ambiental e definição das fronteiras entre espécies consideradas úteis, perigosas ou elimináveis. Ao historicizar essas categorias e aproximar História e fotografia, a pesquisa dialoga com os debates sobre relações multiespécies, evidenciando que a colonização do oeste catarinense não operou apenas sobre a terra e seus habitantes humanos, mas também sobre os corpos animais e as formas legítimas de coexistência entre espécies. Assim, o estudo contribui para a História Ambiental ao compreender a fauna como coparticipante da experiência histórica regional e da transformação das paisagens da Mata Atlântica.
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Sessão 03 - 20/08 (14:00)- Arlene Anelia Renk (UNOCHAPECÓ)
As insurgências ambientalistas na luta contra a UHE Pai Querê
Resumo: No rescaldo do Termo de Acordo/Ajuste de Conduta entre a concessionária da Usina Hidrelétrica (UHE) Barra Grande, o IBAMA e Ministérios do Meio Ambiente e de Minas e Energia, foi outorgada às empresas Alcoa Alumínio S/A, DME Energética Ltda e Votorantim Cimentos Ltda, a concessão de uso de bem público para a exploração de potencial hidráulico, por meio da usina hidrelétrica denominada Pai Querê (Decreto de 02 de abril de 2002). Esta UHE estava prevista para o trecho do rio Pelotas (a montante da UHE Barra Grande) nos estados de Santa Catarina e Rio Grande do Sul, cujo Estudo e Relatório de Impacto Ambiental foi uma das maiores fraudes ambientais no âmbito de hidrelétricas brasileiras. Estava prevista no plano de prospecção realizado pelo Consórcio Canadá-Brasil (CONAMBRA), nos anos de 1960. Após a outorga foram realizados os Estudos e Relatório de Impacto Ambiental, sob forte pressão dos ambientalistas, constituídos por associação de classe, professores universitários e organizações não governamentais. Observou-se uma clivagem entre as posições dos sul riograndenses e aquelas dos catarinenses. Os primeiros se opunham à implantação obra, sob alegação de graves danos ambientais e da extinção de flora e fauna endêmica naquele trecho de rio. O lado catarinense, com a honrosa exceção APREMAVI, mostrou-se favorável ao empreendimento. O Relatório de Estudo Ambiental (EIA RIMA) devolvido pelo IBAMA, foi refeito por outra empresa, e novamente sob contestação dos ambientalistas, expresso em documentos e nas audiências públicas. O IBAMA viu-se obrigado a não aprovar o segundo Relatório. Em conjunto, o Ministério de Minas de Energia e as empresas concessionárias, em 2012, assinaram termo de rescisão da concessão. Administrativamente, poderia ser assim simplificada a trajetória da UHE Pai Querê. No entanto, o intento da comunicação é recuperar a lógica dos ambientalistas ao contestar os estudos do EIA RIMA, explicitando as insurgências e os “direitos da natureza”, usados como argumentos. Palavras-chave: insurgências, direitos da natureza, ongs ambientalistas.
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- Silvana Terezinha Winckler (UNOCHAPECÓ)
Capitaloceno, financeirização da natureza e hidronegócio na bacia do rio Uruguai
Resumo: A mobilização para implantação de grandes obras de engenharia para produção hidroenergética aparece no contexto neoliberalizante brasileiro como um projeto civilizador. Fruto de um plano governamental, faz parte de estratégia empresarial para ampliação de negócios pelo barateamento da energia e criação de novo mercado: o hidronegócio. Implica na alteração da natureza e impactos nas atividades tradicionais, como a pesca profissional artesanal. A démarche do texto consiste em tomar o processo de implantação dos projetos de grandes hidrelétricas na bacia do rio Uruguai, situando em posições distintas e antagônicas os empreendedores e as populações atingidas, em especial, os pescadores profissionais artesanais. Nos últimos anos foram implantados dez grandes empreendimentos hidrelétricos no trecho brasileiro dessa bacia hidrográfica. Exceto a fração pertencente à Eletrobras e subsidiárias, as demais empresas, são constituídas por capital transnacional. Suas ações extrapolam esta bacia, melhor dito, têm aqui apenas um ancoradouro para exportação de energia gerada para outras partes do país. Pretendemos, neste texto, problematizar a ascensão das empresas nos moldes do Capitaloceno (Moore, 2022) e o descenso dos pescadores profissionais, tendo como pano de fundo dois aspectos: o da ecologia moral e o da financeirização da natureza. A pesquisa se insere no Campo Ambiental marcado por Projetos de Grande Escala (PGE) (Ribeiro, 2008), demarcadores de tempos e transformações da vida, fauna e paisagem. O PGE Usina Hidrelétrica Foz do Chapecó Energia S/A, sobre cuja trajetória recai este estudo, tem capacidade de gerar 855 MW. Seu reservatório mede 79,93Km2 e margeia 13 municípios dos estados de Santa Catarina e do Rio Grande do Sul, mas cujos reflexos atingem indiretamente outros. Metodologicamente é uma pesquisa qualitativa. Os dados foram construídos em trabalho de campo, entre os anos de 2019 e 2025. Entrevistamos pescadores profissionais e lideranças de colônias. Consultamos materiais de imprensa e literatura produzida sobre hidrelétricas e pescadores. Empiricamente, o texto refere-se aos pescadores da Colônia Z29, da área de abrangência da Usina Hidrelétrica da Foz do Chapecó, em operação desde 2010, embora dialogue com aqueles das Colônias de Z34 (Concórdia-SC) e Z35 (São Carlos-SC). Esta hidrelétrica não pode ser dissociada da dezena delas implantadas na bacia do Uruguai, inseridas no Setor Hidrelétrico Brasileiro. Este é tomado como campo, na acepção de Bourdieu (1984, 1989), espaço multidimensional no qual os agentes são dotados de capitais desigualmente distribuídos. Defrontam-se diferentes visões e divisões de mundo, mesmo que não se expressem com este teor semântico. Num quadrante do espaço social situam-se as agências estatais, reguladoras do setor elétrico e, principalmente, os conglomerados empreendedores que podem ser nominados por dam industry [indústria barrageira] (McCully, 2004).
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- Lucy Victoria Chimilowski (UNICENTRO)
Haiti como eterno lugar de desastre ambiental, entre Antropoceno e Plantationceno
Resumo: A narrativa geopolítica global desde a Guerra Fria representa o Haiti por meio de uma gramática do exotismo e da tragédia perpétua, rotulando o país como um “eterno lugar de desastre ambiental”. Esta pesquisa propõe-se a contestar essa premissa à luz do debate sobre o Antropoceno, argumentando que a extrema vulnerabilidade haitiana a catástrofes, como terremotos, furacões e a severa perda de sua cobertura florestal não decorrem de uma fatalidade geográfica, mas sim de uma violência estrutural historicamente sedimentada. Sob a ótica da ecologia política e dos estudos decoloniais, entende-se que o caso haitiano exemplifica o conceito de Plantationoceno de Donna Haraway (2016), evidenciando como o modelo de plantation escravista da antiga colônia de Saint-Domingue iniciou um processo sistemático de degradação ecológica. Esse quadro foi severamente agravado no século XIX pela indenização bilionária imposta pela França após a independência (1804), que forçou o país a esgotar seus recursos madeireiros para quitar a dívida e no século XX, pelas intervenções imperialistas e políticas neoliberais. Busca-se apontar que o desastre no Haiti além de ambiental é social e politicamente construído como fundamenta a fratura-colonial-ambiental de Ferdinand (2022), funcionando como um marcador empírico de como os impactos do Antropoceno são distribuídos de forma profundamente desigual ao longo da linha global da cor, como aponta o sociólogo e historiador William Edward Burghardt Du Bois (1998). Palavras-chave: Haiti; Antropoceno; Desastre Ambiental; Decolonialidade; Plantationoceno.
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- Camilly Dalzoto Pavelski (pr)
O Lugar da História Diante da Tempestade: Os desastres socioambientais a partir da ecologia decolonial de Malcolm Ferdinand
Resumo: A presente comunicação propõe tomar os desastres socioambientais como uma categoria central de análise histórica para o tempo presente. Parte-se do pressuposto que, se por um lado, a História Ambiental avançou significativamente ao inserir não-humanos ao lado do humano como sujeitos históricos, por outro, o cenário atual nos obriga a compreender que os fenômenos climáticos e os desastres socioambientais possuem uma dimensão histórica profunda, evidenciando uma dupla fratura colonial e ambiental. Para isso, o trabalho dialoga diretamente com à Ecologia Decolonial de Malcom Ferdinand, a fim de pensar os desastres como o colapso estrutural de um "habitar colonial”, um projeto iniciado em 1492, com a chegada europeia na América, que reduziu humanos e não-humanos a meros "recursos" de exploração. Ao adotar o mundo caribenho como palco dos debates ambientais, Ferdinand demonstra como os desastres revelam as nuances da dupla fratura: as consequências das destruições ambientais não atingem a todos da mesma maneira. Afinal, como propõe o autor, aqueles que estão nos "porões" da vulnerabilidade social e racial sofrem o desastre muito antes das primeiras rajadas de vento da tempestade ecológica.
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- Shelsia Agostinho Ngulele (UFFS)
Ferrovias, colónias e transformação ambiental: impacto da Linha do Limpopo no uso da terra e na agricultura de exportação em Moçambique 1955-1994
Resumo: A pesquisa aborda a construção da Linha do Limpopo e o seu impacto no crescimento populacional e nas transformações ambientais observadas ao longo do seu percurso. Busca-se evidenciar como essa infraestrutura colonial impulsionou mudanças demográficas e ambientais, ligando Moçambique à então Rodésia do Sul (atual Zimbábue), promovendo o crescimento económico e incentivando novas culturas agrícolas de exploração. Tal como outras infraestruturas coloniais, a Linha do Limpopo não foi exceção no processo de reorganização territorial, tendo estimulado o surgimento de novas comunidades e a introdução de práticas agrícolas intensivas no Vale do Limpopo. O estudo centra-se especificamente nessa região, analisando o impacto socioeconómico e ambiental da ferrovia em Moçambique. Pretende-se identificar o papel da linha na expansão populacional tanto de colonos portugueses como de africanos e compreender como esse adensamento demográfico influenciou transformações ambientais, práticas culturais e as paisagens agrícolas locais. O recorte temporal, de 1955 a 1994, abrange desde a inauguração da linha até o período pós independência, marcado pela guerra civil e por reconfigurações económicas. Do ponto de vista teórico-metodológico, a pesquisa articula a história ambiental e a história das migrações, mobilizando fontes coloniais para compreender as interseções entre transporte, povoamento e exploração agrícola.
Palavras-chave: Linha do Limpopo; Crescimento populacional; História ambiental; Agricultura colonial; Moçambique.
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- Ruan Lucas Correia Martins (UNICENTRO), Jo Klanovicz (UNICENTRO)
O Antropoceno nas revistas brasileiras de História: usos e apropriações (2010-2024)
Resumo: A noção de Antropoceno, que emergiu em 2000 a partir de provocações do químico da atmosfera Paul Cruzten, veio a adquirir diferentes sentidos, significados e se tornou um termo em disputa disciplinar e interdisciplinarmente. No Brasil, a produção acadêmica no campo da História entre 2010 e 2024 aponta para a multiplicidade e polissemia do Antropoceno. Nesta pesquisa de iniciação científica, que neste momento constitui e consolida um banco de dados com artigos no campo da História publicados no período em foco, o objetivo é analisar as diferentes apropriações da noção de Antropoceno pela historiografia. Com base em revistas brasileiras na área de História, a proposta se situa no encontro de história ambiental e história dos conceitos e faz uso metodológico de recursos bibliométricos. Até aqui, os resultados do levantamento apontam para a inflação no uso do conceito entre 2018 e 2022, período que permite discutir incorporações mais ou menos lentas da noção em relação ao ponto inicial de sua circulação (2000), bem como quais suas ligações com o contexto da pandemia de Covid-19.
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Sessão 04 - 21/08 (14:00)- Morgana Elisha Jahnke (EBM Manira Terezinha Clenis Sarquis Sartori)
Paisagens do Sojaceno: História Ambiental e Ecocrítica no cinema brasileiro independente
Resumo: O presente trabalho deriva de um recorte da pesquisa de doutorado em desenvolvimento. O objetivo deste trabalho consiste em dialogar as teorias da História Ambiental, Cinema Ambiental e Ecocrítica, para investigar as denúncias ambientais que são apresentadas no curta-metragem 290 Venenos (2019), dirigido por Petter Baiestorf, o diretor da Canibal Filmes. O filme representa críticas ambientais ao abordar o uso de agrotóxicos, em contexto de liberação desenfreada durante o governo de Jair Bolsonaro (PSL). O curta foi produzido como resultado de uma oficina de cinema gore durante a V Mostra Cinecaos, ministrada pelo diretor mencionado, em Cuiabá, Mato Grosso. O curta-metragem foi produzido pela Canibal Filmes, se considerarmos, não apenas o nome de Baiestorf como diretor, mas também por terem sido usadas técnicas de produção artesanais para os efeitos em cenas, manter o histórico baixíssimo orçamento e as premissas conceituais filosóficas e artísticas características da produtora. O recorte geográfico dialoga entre dois biomas: Mata Atlântica e Cerrado. Em razão de a Canibal Filmes ter surgido em Palmitos, no Oeste de Santa Catarina, em bioma de Mata Atlântica e o curta-metragem a ser analisado enquanto fonte histórica, ter sido produzido e filmado na capital do Mato Grosso, região Centro-Oeste, no bioma Cerrado. Esse “encontro” produzido pelo cinema, por assim dizer, entre os dois biomas pode revelar algumas tensões a serem investigadas pela História Ambiental, a respeito do uso de agrotóxicos e suas consequências em humanos e não-humanos nessas regiões, mas também em relação a forma como esses biomas foram explorados pelo agronegócio. A partir dessas considerações, abarcamos o Antropoceno, enquanto conceito (guarda-chuva) em perspectiva histórico-cultural, para analisar a forma como alguns humanos produzem impacto ao meio ambiente devido a sua forma capitalista de explorá-lo. Ao considerarmos o agronegócio como um fator considerável à destruição ambiental, canalizamos a análise com as lentes do conceito de Sojaceno, em razão da monocultura voltada à exportação ser um balizador para o avanço da fronteira agrícola e ter como um de seus pilares o uso de agrotóxicos e sementes geneticamente modificadas, como parte do pacote modernizador da agricultura. O recorte temporal está localizado entre os anos de 2000 até 2024, devido ao estabelecimento e divulgação do conceito de Antropoceno até o ano de sua recusa, enquanto nova era geológica, pela Comissão Internacional de Estratigrafia (ICS). Porém, a recusa formal da ICS não nos impede de refletir o Antropoceno como conceito histórico-cultural. Dentre nossos objetivos, analisaremos como o 290 Venenos enquanto ferramenta de denúncia ambiental em suas representações imagéticas, passíveis de criar consciência e sensibilidade ambiental nos espectadores.
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- Guilherme Alliardi Dada (Unimed)
Estrutura de violência no Oeste Catarinense
Resumo: O trabalho consiste em uma análise das estruturas de violência na região do atual Município de Seara, assim como ela se manifesta por muitas vezes através dos instrumentos do trabalho cotidiano rural, se modificando a partir da integração econômica e política da região no século XX. A metodologia utilizada para a confecção do presente estudo baseou-se na catalogação de fontes primárias, mais precisamente de 6 exemplares de jornais e de um livro de memórias. Os seis jornais são do veículo de mídia “O Estado”, o qual não existe mais desde 2008, todos encontrados na Hemeroteca Digital Catarinense, sendo os periódicos dos seguintes anos: 1935, 1956, 1976, e os três restantes do ano de 1977. Já o livro de memórias foi escrito em 1985, por Biágio Aurélio Paludo, primeiro prefeito de Seara nos anos de 1954 a 1958. Sendo um conjunto de fontes diverso em sua temporalidade, o que os estrutura são: o recorte geográfico, o atual município de Seara e região próxima, e a violência, seja ela perpetuada por indivíduos ou instituições. Compreende-se, através do estudo das fontes somadas à análise bibliográfica, que a reconfiguração do espaço rural pelo avanço capitalista gerou duas formas interligadas de violência. No âmbito privado, as fortes tensões sociais, desde disputas de terras, interesses econômicos, defesa da honra e afirmação da masculinidade, até conflitos em espaços de sociabilidade e alcoolismo, preconceito étnico e racial e rivalidades políticas, transformaram ferramentas cotidianas de trabalho, como machados e foices, em armas letais utilizadas para a resolução de conflitos interpessoais. Paralelamente, no âmbito público, consolidou-se uma aliança entre o Estado e as elites econômicas (como as companhias colonizadoras) para exercer uma dura repressão institucional. Através de práticas de mandonismo e coronelismo, essa estrutura de poder utilizou a força para desapropriar ocupantes antigos das terras, promover uma "limpeza" do território e silenciar qualquer resistência, garantindo assim o controle social necessário para o avanço da nova ordem econômica. Em suma, o processo de urbanização acelerado e desordenado na década de 1970 desencadeou uma escalada na violência, culminando no aumento da criminalidade. Por fim, estudar os meios de violência da região Oeste de Santa Catarina no século XX é essencial para o entendimento do mecanismo estruturante e indissociável do avanço capitalista no município de Seara e região. Seja pela brutalidade interpessoal no campo, pela repressão institucional das elites colonizadoras ou pela criminalidade decorrente da urbanização desordenada na década de 1970, a violência moldou-se às novas configurações socioeconômicas, deixando marcas profundas na formação do espaço e das relações sociais no Oeste Catarinense.
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- Alana Goulart (SEDUC)
MATERIALIDADES DO CORONELISMO PARANAENSE DO SÉCULO XIX: Arqueologia da Paisagem e Fenomenologia das fazendas históricas dos Campos de Palmas
Resumo: Nos recentes estudos da cultura material, a terra é compreendida enquanto um patrimônio dotado da potencialidade de evocar sentimentos, histórias e relembrar estruturas sociais e de poder. Nesse sentido, a Arqueologia e Fenomenologia da Paisagem fundamentam-se na interpretação das propriedades como recurso para construir hipóteses sobre o contexto social, cultural e histórico dos seus antigos residentes por meio da visão e das sensações vivenciadas pelo pesquisador. Diante disso, autores como Tilley (1994), reforçam como os elementos de organização espacial, vegetação, arquitetura e localização das posses revelam informações sobre seus moradores, evidenciando hierarquias, apagamentos e os mecanismos de violência simbólica e concreta através da terra. Nesse sentido, o presente trabalho baseia-se na análise das fazendas históricas dos Campos de Palmas por meio dos estudos da cultura material e da fenomenologia da paisagem. Assim, a pesquisa tem como objetivo a realização de um trabalho de campo em três posses (Fazenda Pitanga, Floresta e da Cruz) reconhecidas por serem de famílias de influência histórica na ocupação e desenvolvimento do local (Roncatto, 2022). Tais propriedades remetem ao início do povoamento da região no século XIX e constituem parte central na historiografia palmense e paranaense ao representarem a materialidade do coronelismo, status social e da conjuntura vigente na ocupação do território mencionado (Rahmeier, 2004). Dessa forma, a abordagem metodológica fundamenta-se na prática do Bimbling (“perambular”), enquanto recurso de pesquisa baseado em caminhadas pelas fazendas focadas na percepção e vivência de elementos do ambiente e seus possíveis significados. Ademais, o trabalho contará com a utilização de representações cartográficas e iconográficas das fazendas para visualizar as suas transformações ao longo do tempo. Com isso, o trabalho resulta na compreensão, por meio da configuração das fazendas e seus vestígios, da presença de outros grupos sociais, questões de gênero, divisão do trabalho, produção econômica, aspectos culturais e as dinâmicas de dominação exercidas pelos coronéis e fazendeiros. Mediante isso, a Arqueologia e Fenomenologia da Paisagem representam um caminho para assimilar o papel das grandes fazendas na construção do poder das elites palmenses e os papéis sociais dos personagens inseridos nesse contexto.
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- Andréia Richtyelly dos Santos Corassa (cedup)
Arqueologia da Retaguarda na Guerra do Paraguai (1864–1870): Cultura Material, Domesticidade e Presença Feminina
Resumo: Este trabalho tem como objetivo analisar fragmentos de louças datados do período da Guerra da Tríplice Aliança (1864–1870), preservados no acervo do Museu do Quartel de Solano López, em Humaitá, Paraguai. A pesquisa parte da compreensão de que a cultura material constitui uma importante via de acesso às experiências cotidianas em contextos de guerra, permitindo investigar aspectos sociais, simbólicos e de gênero frequentemente ausentes das narrativas historiográficas tradicionais. Inserido no campo da arqueologia histórica, o estudo propõe uma análise tipológica, tecnológica e decorativa das louças, buscando compreender práticas de consumo, alimentação e domesticidade em um espaço diretamente associado ao conflito. A partir desses vestígios materiais, procura-se discutir a presença feminina na retaguarda da guerra, enfatizando o papel das mulheres paraguaias nas dinâmicas sociais e na manutenção do cotidiano em meio ao cenário bélico.
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- Brendha Luana Spricigo (UFFS), Samira Peruchi Moretto
Paisagem, temporalidades e ocupação Guarani no Alto rio Uruguai: diálogos entre Arqueologia e História Ambiental
Resumo: A presente comunicação propõe discutir as relações entre ocupação Guarani pré-colonial, paisagem e temporalidades ambientais no Alto rio Uruguai, a partir da pesquisa de dissertação intitulada “A ocupação Guarani pré-colonial no Alto rio Uruguai: diálogos com a História Ambiental”, desenvolvida no Programa de Pós-Graduação em História da Universidade Federal da Fronteira Sul (UFFS). O trabalho toma como objeto de estudo o sítio arqueológico U-381 Batista Recttor, localizado no município de Alto Bela Vista (SC), atualmente impactado pelo reservatório da Usina Hidrelétrica Itá. A investigação articula História Ambiental e Arqueologia para compreender como diferentes temporalidades se sobrepõem na constituição da paisagem regional. Partindo das contribuições da História Ambiental, da Arqueologia e da Geografia, a pesquisa compreende a paisagem como construção histórica e socioecológica, produzida pela interação contínua entre sociedade e natureza. Nesse sentido, o território não é tratado como cenário passivo da ação humana, mas como resultado de processos multitemporais que envolvem dinâmicas ambientais, práticas técnicas e formas de territorialização indígena. A ocupação Guarani é analisada a partir de sua inserção nos corredores fluviais da Bacia do Prata, considerando práticas de manejo ambiental, circulação, horticultura e produção cerâmica enquanto formas de transformação da paisagem. O debate dialoga diretamente com as discussões contemporâneas acerca do Antropoceno ao tensionar a ideia de que as transformações ambientais seriam fenômenos exclusivamente vinculados à modernidade industrial. A partir da longa duração arqueológica, o trabalho evidencia que diferentes sociedades humanas produziram alterações ambientais significativas muito antes da consolidação do capitalismo industrial, ainda que em escalas, ritmos e impactos distintos. Dessa forma, busca-se refletir criticamente sobre as múltiplas temporalidades presentes nas paisagens do Alto rio Uruguai, articulando os processos históricos de ocupação indígena e as recentes transformações provocadas pelos empreendimentos hidrelétricos. Ao analisar o sítio U-381 Batista Recttor enquanto palimpsesto ambiental e patrimonial, a pesquisa também discute os impactos contemporâneos da UHE Itá sobre os vestígios arqueológicos e sobre a preservação das paisagens indígenas. Assim, o estudo propõe uma contribuição ao debate sobre Antropoceno, História Ambiental e Arqueologia ao evidenciar que as paisagens atuais resultam da sobreposição de distintas formas históricas de relação entre humanos e ambiente, problematizando narrativas homogêneas acerca da ação humana sobre a Terra.
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- Victor Steiner Cardoso (UFSC)
Um estudo sobre os Kaingang: cosmovisão e o tempo na percepção indígena do povo para além das teorias da história
Resumo: Este trabalho aborda a dimensão da teoria da história e outras temporalidades. Busca de maneira a tensionar o tempo da ciência histórica ocidental a partir de relatos e estudos sobre cosmovisão Kaingang, utilizando-se de fontes dos intelectuais e lideranças do povo. Além disso, pretende-se ver as possíveis contribuições às teorias contemporâneas da ciência histórica e as reflexões que florescem a partir dessa temporalidade indígena. Pode-se afirmar que o povo Kaingang do Brasil Meridional envolve-se com o tempo à sua maneira. Sua cosmologia pode ser configurada em ciclos cósmicos de conflagração e regeneração (Paula; Bernardi; Souza, 2022, p. 90) ou até mesmo, na cosmovisão Kaingang, há o tempo Vãsy e Ũri (Ferreira, 2024, p. 9). A busca documental das fontes sobre o tempo do povo Kaingang que aqui se utiliza, são deste século, assim como as teorias da história aqui. Além disso, são todas de intelectuais Kaingang a fim de valorizar suas epistemologias. São elas, os seguintes estudos: Rute Barbosa de Paula (2022); Bruno Ferreira (2024); e por fim, a entrevista de Dorvalino Refej Cardoso (Passos, 2025). Justifica-se a incorporação destas fontes como resposta ao epistemicídio que silencia as populações indígenas desde o processo colonial, visando a presença desses saberes nas discussões contemporâneas sobre tempos heterocrônicos, já que segundo Ana Carolina Barbosa Pereira (2013) “o pensamento indígena sul-americano tardou em participar do conjunto de questões pertinentes à antropologia” (2013, p. 95), devido ao colonialismo e outros fatores que os silenciou e, nas ciências humanas como a história não é diferente pois, pouco se trata disso. Afinal, segundo Edson Kayapó (2019) a história hegemônica possui uma visão de mundo enraizada na perspectiva em que “prevalece a versão dos grupos dominantes, em detrimento das histórias dos grupos subalternos” (2019, p. 4). Ressalta-se ainda, que as categorias de tempo Kaingang estão intrínseca ao seu modo de vida, que são contadas pelos Kófas não são somente contos míticos – como o não-indígena acredita. É como afirma a Professora Doutora Adriana Kaingang é “Através das histórias transmitidas, mantemos viva a memória dos nossos ancestrais, seguimos com este ciclo por muitos anos existindo e resistindo ao tempo” (Biazi, 2023, p. 123). Sendo assim, o trabalho que será apresentado tem como pretensão colocar a cosmovisão de tempo do povo Kaingang à prova do tempo ocidental que rege a ciência da história. Busca-se desenvolver as temporalidades Kaingang e os saberes adjuntos dela para pensar em essa temporalidade na ciência da história de maneira que essas evidências sobre esse tempo, do qual será observado de maneira analítica, seja notório as suas estruturas e organizações temporais para refletir sobre conceitos já destacados no debate, como os regimes de historicidade (Hartog, 2013), heterocronias (Salomon, 2018).
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- Mateus Anciliero (UFFS)
Fronteiras e Territórios em Resistências: perspectivas em disputa em torno dos territórios Kaingang nos Toldos Chimbangue e Pinhal
Resumo: Nesta pesquisa, busca-se analisar os movimentos de fuga, associações e conflitos como formas de resistência Kaingang diante dos impactos provocados pelo projeto colonizador do Estado brasileiro e da empresa colonizadora Luce Rosa & Cia. nos Toldos Chimbangue e Pinhal, localizados nos municípios de Chapecó e Seara (SC). Estes constituem-se como resultado de movimentos de resistência em contraponto à expansão colonizadora ocorrida no sul do Brasil entre os séculos XIX e XX. Embora tenham sua origem nos deslocamentos dos grupos Kaingang que ocuparam a região a pelo menos 12 mil anos, suas demarcações oficiais ocorreram apenas nos séculos XX e XXI, após um longo processo de expropriação territorial e mobilização indígena pela recuperação das terras ocupadas. A constituição desses territórios também evidencia a existência de diferentes perspectivas sobre o mesmo espaço. Enquanto os Kaingang atribuíam ao território sentidos ligados à ancestralidade, à coletividade e à permanência histórica, os colonos que se estabeleceram na região durante o processo de colonização passaram a concebê-lo a partir da lógica da propriedade privada e da ocupação produtiva. Essas diferentes formas de compreender e ocupar a terra produziram territorialidades distintas, que entraram em disputa e influenciaram diretamente a formação dos movimentos sociais indígenas empenhados na recuperação dos territórios espoliados.Para o desenvolvimento da pesquisa, torna-se necessário investigar as relações de poder estabelecidas entre Kaingang, colonos e Estado, observando como essas relações moldaram as comunidades indígenas dos Toldos, suas formas de organização e as transformações das fronteiras geográficas, culturais, sociais e étnicas. A pesquisa está sendo desenvolvida a partir da metodologia da História Social, buscando compreender as dinâmicas políticas, culturais e econômicas que impactam esses grupos. Como principais fontes históricas serão utilizados os laudos antropológicos das terras indígenas, mapas da região, entrevistas com as comunidades indígenas, documentários, produções acadêmicas sobre os grupos e a legislação nacional e estadual relacionada às terras indígenas. Por tratar-se de uma pesquisa ainda em desenvolvimento, espera-se que os resultados contribuam para a historiografia especializada, bem como para o reconhecimento e valorização das culturas indígenas e para a ampliação do entendimento acerca das realidades contemporâneas dos Toldos Chimbangue e Pinhal.
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Que rico esses dois STs! O ST 01 complementa de forma significativa o ST 05. Juntos, os dois simpósios reuniram 51 comunicações científicas, distribuídas em oito sessões, configurando o principal espaço de socialização de pesquisas diretamente vinculadas à História Ambiental e às Humanidades Ambientais no evento.
Do ponto de vista institucional, observa-se predominância de pesquisadores vinculados à Universidade Federal da Fronteira Sul (UFFS), Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), Universidade Estadual do Centro-Oeste (UNICENTRO) e Universidade do Extremo Sul Catarinense (UNESC), além da participação de pesquisadores de universidades comunitárias, instituições públicas de ensino e órgãos governamentais. Essa composição evidencia a existência de uma rede regional de pesquisa consolidada, articulando grupos de diferentes instituições do Sul do Brasil.
Em relação aos objetos de investigação, as comunicações permitem identificar um conjunto de eixos temáticos recorrentes. Os estudos sobre paisagens, uso da terra e transformações ambientais representam um dos grupos mais numerosos, reunindo pesquisas como "Viajantes naturalistas e a invenção de paisagens: campos em disputa" (Larissa Barth), "A floresta de araucária como paisagem histórica" (Andrieli Naiara Thesing), "Reconfiguração do uso da terra e os monocultivos nos Campos de Palmas" (Leonardo Alves da Silva) e "Paisagem, temporalidades e ocupação Guarani no Alto rio Uruguai" (Brendha Luana Spricigo e Samira Peruchi Moretto).
Outro eixo de grande incidência reúne pesquisas sobre mudanças climáticas, desastres e riscos socioambientais, incluindo trabalhos como "Tempo Histórico Climático: Mudanças Climáticas, Desastres e a Transformação da Historicidade Moderna" (Jo Klanovicz), "Porto Alegre e as cheias do Guaíba no limiar da Mudança Climática Global" (Antonio João Dias Prestes), "Entre as Águas e a Notícia" (Matheus Eing) e "O Lugar da História Diante da Tempestade" (Camilly Dalzoto Pavelski).
Os conflitos territoriais, os recursos naturais e os impactos do desenvolvimento econômico constituem outro conjunto expressivo de pesquisas. Inserem-se nesse grupo estudos sobre hidrelétricas, expansão agrícola, agronegócio, monoculturas, mineração, degradação de cursos d'água e infraestrutura, como "O Rio Uruguai em Disputa" (Melody Forcelini), "Capitaloceno, financeirização da natureza e hidronegócio na bacia do rio Uruguai" (Silvana Terezinha Winckler), "Expansão do Agronegócio e Intoxicações por Agrotóxicos no Oeste de Santa Catarina" (Chariel Busatto) e "O papel da Sociedade Anônima Indústria e Comércio Chapecó (SAIC) na degradação ambiental dos cursos hídricos" (Carlos Eduardo Marcondes Carro Soares).
Também se destaca um conjunto de pesquisas voltadas às relações entre ambiente, povos indígenas, comunidades tradicionais e colonialidade, evidenciado por trabalhos como "Construindo o problema: herbicidas associados ao Agente Laranja e resistência Nambiquara" (Gabriel Artur Roesler), "Um estudo sobre os Kaingang: cosmovisão e o tempo" (Victor Steiner Cardoso), "Fronteiras e Territórios em Resistências" (Mateus Anciliero) e "Saberes Tradicionais de Cura, História Ambiental e Patrimônio Cultural Imaterial" (Arthur Antonius Eissler).
Sob a perspectiva conceitual, observa-se a consolidação de categorias analíticas próprias das Humanidades Ambientais. Além da História Ambiental, aparecem de forma recorrente conceitos como Antropoceno, Capitaloceno, Plantationoceno, Sojaceno, colonialidade, ecologia decolonial, relações multiespécies, Sistema Terra, justiça socioambiental e História Ambiental Global, indicando uma ampliação do repertório teórico mobilizado pelas pesquisas.
Quanto às escalas de análise, predominam investigações de caráter regional, especialmente voltadas ao Oeste catarinense, Vale do Itajaí, Planalto Sul, Paraná e Amazônia. Entretanto, diversas pesquisas estabelecem conexões com processos de alcance nacional e internacional, incluindo estudos sobre Haiti, Moçambique, Holanda e circulação global de espécies, saberes e tecnologias. Essa distribuição demonstra que a produção em História Ambiental articula simultaneamente escalas locais e globais, característica própria das abordagens contemporâneas do campo.
Do ponto de vista cronológico, verifica-se predominância de pesquisas concentradas entre os séculos XIX e XXI, especialmente sobre os processos de modernização, expansão das fronteiras agrícolas, industrialização, políticas de desenvolvimento, mudanças climáticas e conflitos ambientais contemporâneos. Também estão presentes estudos relacionados ao período colonial, às ocupações indígenas de longa duração e às transformações ambientais ocorridas antes da consolidação do Estado nacional brasileiro.
Em conjunto, os trabalhos apresentados nos dois simpósios revelam uma História Ambiental caracterizada pela diversidade temática, pela interdisciplinaridade e pelo diálogo permanente com problemas contemporâneos. Mais do que um conjunto de estudos sobre natureza, a produção apresentada evidencia uma historiografia voltada à investigação das relações históricas entre sociedade, ambiente e poder, demonstrando a História Ambiental como um dos campos mais dinâmicos da pesquisa histórica brasileira na atualidade.
Além dos ST 01 e ST 05, o evento contempla outros Simpósios Temáticos que dialogam com a dimensão ambiental. O ST 02 – Climas, poderes e representações: perspectivas pós-eurocêntricas para a história antiga e medieval incorpora discussões sobre clima, desastres socioambientais e relações entre sociedade e ambiente na Antiguidade e no Medievo, evidenciadas em trabalhos como "E o Sol emitia sua luz, mas sem brilho, tal como a Lua": a nuvem misteriosa de 536 em fontes gregas e siríacas (Pedro Henrique Pedrotti), "Respostas sociais às variações climáticas entre a dendrocronologia dos carvalhos (Quercus spp.) e as crônicas insulares da Britânia e Irlanda (c. 901–950)" (Kauê Junior Neckel) e "Tucídides, sincronicidade e a semântica do desastre socioambiental" (Dyel Gedhay da Silva).
De forma semelhante, o ST 17 – Movimentos sociais, conflitos agrários e resistências no mundo rural em tempos de crise climática reúne pesquisas que articulam história agrária e História Ambiental, abordando temas como agroindústria, Revolução Verde, comunidades quilombolas, conflitos territoriais e agricultura global, exemplificados por "De quem é o porco?" (Clademir Trentini), "Comunidades quilombolas e a Revolução Verde" (Eliane Taffarel) e "Histórias conectadas e ecologia de reexistência: conflitos agrários e agricultura global no Oeste catarinense" (Emerson Neves da Silva). Esses exemplos reforçam o caráter transversal da História Ambiental no evento, embora este estudo concentre sua análise nos ST 01 e ST 05, por serem os simpósios em que esse campo constitui o eixo estruturador das propostas.
Por fim, é importante explicitar os limites desta análise proposta aqui na postagem. As observações aqui apresentadas resultam de uma leitura rápida da programação do XXI Encontro Estadual de História da ANPUH-SC, baseada principalmente na identificação de palavras-chave, conceitos e temáticas presentes nos títulos, descrições dos Simpósios Temáticos e resumos das comunicações. Não se trata, portanto, de um levantamento exaustivo nem de um balanço historiográfico da produção em História Ambiental apresentada no evento, mas de um exercício exploratório que busca dialogar com essa possibilidade e evidenciar a crescente inserção das questões ambientais na historiografia contemporânea. Certamente, uma análise sistemática de todos os trabalhos e de seus referenciais teóricos permitirá, no futuro, traçar um panorama mais preciso da produção em História Ambiental no encontro.
Por fim, registra-se que este texto foi elaborado a partir de anotações, transcrições e recortes realizados durante a consulta às fontes disponibilizadas pelo evento. A organização das informações, a interpretação dos dados e as conclusões são de responsabilidade do autor, enquanto a redação passou por um processo de revisão, reorganização textual e adequação para publicação no blog com o auxílio da ferramenta de inteligência artificial ChatGPT.
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