"Eu sou o que me cerca. Se eu não preservar o que me cerca, eu não me preservo".
José Ortega y Gasset
quinta-feira, 22 de janeiro de 2026
Ouro que não enriquece e os impactos da exploração em Gaspar e Blumenau.
Sob a densa vegetação da Mata Atlântica que define a paisagem do Vale do Itajaí, em Santa Catarina, jaz uma história quase desconhecida. Longe de ser apenas um santuário natural, este vale esconde os vestígios de uma intensa atividade de mineração, uma verdadeira "fábrica de sonhos" movida pela busca de ouro e prata, que reconfigurou a terra e a vida de seus habitantes de formas inesperadas e permanentes. Esta postagem explora algumas das histórias e paradoxos mais fascinantes revelados por essa herança extrativa. Veremos como o passado da mineração ainda ressoa na paisagem, na cultura e na memória local, revelando um legado complexo de riqueza fugaz, identidades transformadas e cicatrizes ambientais que hoje buscam um novo significado.
A seguir, apresentamos alguns apontamentos sobre a história da mineração no Vale do Itajaí. A análise parte de três fontes audiovisuais disponíveis no YouTube: Programa Expressão – Mineração no Vale (1): Minas da Prata; Programa Expressão – Mineração no Vale (2): Arraial do Ouro; e Programa Expressão – Mineração no Vale (3). Deixaremos os links no final da postagem.
Vale ressaltar que, no âmbito do GPHAVI, a historiadora e pesquisadora Marcela Adriana Grandi desenvolveu investigações fundamentais para desvendar minúcias dessa rica história ambiental da mineração, com foco especial na região da Nova Rússia.
“Quando o pessoal da FURB me convidou para depor no programa”, afirma o historiador Martin, “a primeira coisa que me veio à cabeça foi chamar a Marcela”. Prontamente, ela saiu de sua moradia em Gaspar, deslocou-se até a Nova Rússia e participou do programa, contribuindo de forma decisiva com seu conhecimento".
O que chama mais a atenção é que a exploração mineral não deixou ninguém do local rico! No Arraial do Ouro, em Gaspar, uma verdadeira "corrida por metais preciosos" levou muita gente a abandonar a lavoura na esperança de enriquecer. A promessa era real: os jornais da década de 1940 noticiavam a descoberta de pepitas notáveis, incluindo uma com "mais de 1 kg". Somente do terreno de um morador, Carlos Silvano, foram extraídos "62 kg do Metal" entre os anos 80 e 90. Apesar da aparente abundância, surge o grande paradoxo: o garimpo não gerou riqueza duradoura para os trabalhadores. A realidade, distante do sonho dourado, é confirmada pela memória de quem viveu a época.
..não vi ninguém até hoje não Nem eu mesmo não fiquei rico também porque comprei um terreninho... Claro aliviou minha barra tudo mas não para rico não
Essa constatação descontrói o mito romântico da corrida do ouro. Em vez de fortunas instantâneas, o que a história revela é a dura realidade econômica e social da mineração artesanal. Este padrão, onde o imenso trabalho manual gera pouca riqueza local, frequentemente extraída por interesses externos ou dissipada rapidamente, é uma característica clássica das fronteiras de extração de recursos e dos seus ciclos de apogeu e declínio, um fenômeno visto desde o oeste americano até as colônias africanas.
Em Blumenau, a localidade de Nova Rússia, onde estão as Minas da Prata, carrega um nome que intriga. A origem não tem relação com imigrantes russos, mas sim com a própria atividade mineradora. Os primeiros colonizadores da região eram de origem prussiana/alemã, mas a força da mineração como atividade econômica central foi tão grande que redefiniu a identidade local. A explicação é direta:
"A mineração teve... a principal importância para essa colonização e, com o passar do tempo, todas as outras pessoas que passaram a trabalhar nas minas passaram também a ser chamados de Russos."
Este fenômeno sociolinguístico, impulsionado pela centralidade econômica da mineração, demonstra como, em sociedades de fronteira, identidades funcionais ("mineiro") podem se tornar marcadores sociais mais poderosos do que as origens étnicas herdadas ("alemão"). O trabalho nas minas, como eixo econômico central, foi capaz de redefinir o tecido social, criando uma "Nova Rússia" prussiana no coração do Vale do Itajaí.
Em meio às histórias de exploração econômica e ambiental, emerge um relato profundamente humano e afetivo. Eulina, uma moradora de 81 anos do Arraial do Ouro, guarda a memória de um momento singular: em 1948, ela e seu namorado foram ao ribeirão para garimpar o ouro que seria usado na confecção de suas próprias alianças de casamento. A lembrança, carregada de emoção, conecta o recurso natural diretamente a uma história de amor e orgulho.
Eles fizeram a nossa aliança com ouro que nós dois garimpamos é bonito né a gente tinha orgulho disso.
Essa memória pessoal oferece um contraponto delicado à narrativa, muitas vezes brutal, da extração mineral. Ela mostra como o ouro, para além de seu valor de mercado, pôde ser transformado em um símbolo de afeto e união, forjado pelas próprias mãos daqueles cuja história de vida se entrelaçou com o leito do rio.
A busca pela riqueza deixou um rastro de destruição. Em Gaspar, o uso indiscriminado de mercúrio para separar o ouro dos sedimentos resultou na contaminação do Ribeirão Arraial. As consequências não tardaram: o gado começou a adoecer e a produtividade agrícola caiu drasticamente. O problema gerou uma "mobilização a nível Nacional", que culminou na proibição da prática sem o uso de tanques de decantação. Nas Minas da Prata, em Blumenau, o risco ambiental persiste. Há uma preocupação de que a água que flui das antigas galerias possa estar contaminada com um elemento ainda mais perigoso: o arsênio. Como alerta um especialista, "pode estar saindo ali de dentro água com Arsénio e isso seria muito ruim porque tu poderia estar contaminando Mananciais".
Esse legado tóxico não apenas revela a face destrutiva da exploração, mas marca a origem de uma consciência ambiental na região. É crucial notar que essa consciência não nasceu de uma preocupação ecológica abstrata, mas de uma ameaça direta à saúde pública e à viabilidade econômica, a contaminação que adoeceu o gado e destruiu a produtividade agrícola. Foi um despertar forjado pela necessidade, um passo fundamental da conservação utilitária, focada em proteger recursos para o uso humano.
No contexto do início do século XXI, os antigos locais de mineração passam por um surpreendente processo de ressignificação. Em Gaspar, as lagoas que antes serviam para a decantação de rejeitos tóxicos foram transformadas em áreas de lazer, funcionando como estabelecimentos de "Pesque e Pague". Em Blumenau, o potencial é ainda maior. As Minas da Prata, localizadas dentro do Parque Nacional da Serra do Itajaí, estão destinadas a se tornar "uma das portas de entrada de atração turística do Parque Nacional". No entanto, o abandono atual gera problemas como vandalismo ("deixa um lixo quando todos que estragam ficam pixando"), evidenciando a urgência dos investimentos planejados.
Este movimento revela o complexo processo de ressignificação da paisagem. Aqui, testemunhamos a criação de uma "memória ambiental" e de um "patrimônio industrial", onde locais marcados pela degradação são convertidos em espaços de lazer, educação e conservação. Este ciclo, que transforma a cicatriz de uma exploração passada no alicerce para um futuro focado na preservação, levanta questões profundas sobre como as sociedades escolhem quais partes de um passado destrutivo devem ser lembradas e até mesmo modificadas.
A história da mineração no Vale do Itajaí é uma tapeçaria complexa, tecida com fios de sonhos de riqueza, impactos sociais inesperados, degradação ambiental e, por fim, um movimento em direção à preservação da memória e da natureza. Como resume uma das fontes, "é fascinante ver como a memória consegue conservar e ao mesmo tempo reconstruir um passado". A história da mineração no Vale do Itajaí ensina que estas paisagens não são cenários passivos; são arquivos de ambição, conflito e consequência. A derradeira lição das minas esquecidas é que a terra nunca esquece verdadeiramente, e é nossa tarefa aprender a ler as suas cicatrizes.
Os vídeos que utilizamos como fontes para esta postagem apresentam uma síntese da história da mineração no Vale do Itajaí, em Santa Catarina, com destaque para as Minas da Prata, em Blumenau (região da Nova Rússia), e o Arraial do Ouro, em Gaspar. As fontes analisam o papel da exploração de metais, como prata, ouro, cobre e chumbo, na dinâmica social e econômica regional, evidenciando atividades mineradoras que, em alguns casos, antecederam o próprio processo de colonização. Ao mesmo tempo, os materiais discutem os impactos ambientais deixados por essas práticas, como a contaminação por mercúrio no Ribeirão Arraial do Ouro e a presença de arsênio em antigas minas, ressaltando a importância da preservação tanto ambiental quanto histórica desses espaços. Por fim, os vídeos apontam o potencial turístico desses antigos sítios de mineração e a necessidade de investimentos em infraestrutura para visitação, articulando memória, patrimônio e desenvolvimento local. Para complementar a experiência, assista o programa na integra, a seguir expomos as suas partes:
O texto desta postagem passou por adaptações realizadas com o uso de IA. A referência utilizada são os vídeos acima citados.
N este texto a Historiadora Sandra Regina Rosa da Costa (1) apresenta uma história sobre "A caçada da Onça", produzido a parti...
Página do GPHAVI no DGP CNPq
GT Nacional de História Ambiental
O Grupo de Trabalho História Ambiental, da Associação Nacional de História (ANPUH), é formado por estudantes, professores e pesquisadores de diversas universidades brasileiras. Foi constituído em 2013, durante o XXVI Simpósio Nacional de História. Tem dois objetivos principais: promover o debate acadêmico sobre a temática da história e natureza, por meio de eventos e atividades que ajudem a fomentar pesquisas na área de história ambiental no Brasil; articular e promover o intercâmbio de ideias, metodologias e aportes teóricos entre pesquisadores, que vêm desenvolvendo suas atividades em diferentes estados do país, contribuindo para o esforço global de construir uma sociedade ecologicamente viável e socialmente justa.
GT História Ambiental de Santa Catarina
O GTHA-SC é um grupo de trabalho vinculado a ANPUH-SC. Foi criado durante o XIV Encontro Estadual de História, na Assembleia Geral Ordinária da ANPUH-Seção SC, no dia 21 de agosto de 2012, na Universidade do Estado de Santa Catarina - UDESC. Este blog é um espaço de divulgação das atividades do GT assim como dos pesquisadores, professores, estudantes e interessados na História Ambiental de Santa Catarina.
Somos um grupo de profissionais de História interessados na pesquisa das dinâmicas homem-natureza ao longo do tempo. Nosso objetivo é promover o debate acadêmico, através de eventos e atividades que ajudem a fomentar pesquisas na área de história ambiental no Rio Grande do Sul.
LABEAM
Laboratório Blumenauense de Estudos Antigos e Medievais: O principal objetivo do grupo é incentivar a pesquisa especializada nestas duas áreas do conhecimento histórico, tanto em Blumenau quanto em Santa Catarina.
Observatório do Desenvolvimento Regional
O Observatório do Desenvolvimento Regional da região de Blumenau é um Programa de Extensão da Universidade Regional de Blumenau, que busca aprofundar o conhecimento da realidade regional, de forma a orientar a atuação local, sem perder de vista o contexto externo.
Observatório da Educação Básica
Disponibiliza material lúdico e didático dos cadernos temáticos em conteúdo de História e Geografia, para o ensino fundamental da rede pública e privada de Blumenau-SC.
Associação Nacional dos Historiadores
Seção Santa Catarina
Plataforma Lattes
Base de currículos acadêmicos dos pesquisadores/acadêmicos no Brasil
Base de dados da CAPES
Portal de periódicos da CAPES dá acesso aos artigos de brasileiros, e outros, pesquisando na base de dados da Scopus
Base de dados
A Scielo comporta diversos periódicos técnico-científicos em diversas áreas
Base de Dados
Base de dados para pesquisa acadêmica
Base de Dados - Researcher ID
ResearcherID Labs é um ambiente interativo que facilita uma maior exploração, promoção e colaboração entre pesquisadores
Google Acadêmico
Ajuda a localizar dentro de Bases de Dados Acadêmicas, documentos, periódicos, artigos e demais informações.
Bibliotecas virtuais do sistema MCT/CNPq/Ibict: www.prossiga.br
Para refletir:
Na história anda a natureza!
Sou um historiador andador. Que anda e observa a paisagem na qual minha presença rompe. Paisagem essa repleta de natureza seja ela urbana, rural ou natural. A natureza resplandece, pois tudo que vejo é ela. Ela faz parte da minha vida, do meu andar, do meu olhar, da minha história, pois eu sou ela, nós somos dela! Assim, eu não posso ver a minha ou a nossa história sem ela, a história não anda sem ela, pois é através dela que surge. Na história anda a natureza, e na natureza anda a história...
Martin Stabel Garrote
Por Monteiro Lobato
"A natureza criou o tapete sem fim que recobre a superfície da terra. Dentro da pelagem desse tapete vivem todos os animais, respeitosamente. Nenhum o estraga, nenhum o rói, exceto o homem".
Para Mahatma Gandhi
"Cada dia a natureza produz o suficiente para nossa carência. Se cada um tomasse o que lhe fosse necesário, não havia pobreza no mundo e ninguém morreria de fome".
Situação do Bioma Mata Atlântica
Imagem adaptada do Atlas da Mata Atlântica organizado pelo SOS Mata Atlântica. A Imagem expressa o antes da colonização e a situação no final do século XX.
A interação homem natureza: A exploração das florestas
Na foto do início do século XX na 2º Vargem do Rio Garcia, hoje Nova Rússia, a imagem possibilita visualizar a exploração da vegetação na encosta dos morros, e o uso da Coivara, a antiga e tradicional Agricultura Itinerante.
A interação homem natureza: A caça
Na imagem dos anos 1960-70, coletada em pesquisas na região de Warnow, Indaial, demonstra a caça de aves (Jacutinga).
São instituições que realizam ou realizaram atividades em parceria com o GPHAVI. No momento estamos realizando atividades com as seguintes instituições:
Universidade Regional de Blumenau
FAPESC
Governo do Estado de Santa Catarina
Instituto Parque das Nascentes
Grupo Cinema Documentário
ONG Grupo de Estudos MANOA
BioTeia
Rede Brasileira de História Ambiental
Laboratório de História e Meio Ambiente da UNESP
Supertramp Livros
É uma livraria itinerante que presta serviços especializados em eventos científicos/acadêmicos em todo o país.
Estante de Livros - DICAS DE LEITURA
Clique nas imagens dos livros para obter maiores informações - você será direcionado para um site de vendas eletrônica, onde consta sinopse, e outras informações da obra.
Das Araucárias Às Macieiras - Transformações da Paisagem de Fraiburgo - Santa Catarina
Autor: Klanovicz, Jo; Nodari, Eunice Sueli
História Ambiental Paulista - Temas, Fontes, Métodos
Autor: Martinez, Paulo Henrique
Um Sopro de Destruição - Pensamento Político e Crítica Ambiental no Brasil 1786-1888
Autor: Pádua, José Augusto
A Luta Pela Borracha no Brasil
Autor: Dean, Warren
A Ferro e Fogo
Autor: Dean, Warren
A vingança de Gaia
Autor: Lovelock, James
Gaia: alerta final
Autor: Lovelock, James
Das Mãos Do Oleiro
Autor: Alberto da Costa e Silva
A Economia da Natureza
Autor: Ricklefs, Robert E.
Ciência Ambiental
Autor: Miller Jr., G. Tyler
Caminhos de liberdade: a luta pela defesa da selva
Autor: Moro, Javier
A Era da Empatia - Lições da Natureza Para Uma Sociedade Mais Gentil
Autor: De Waal, Frans
Biogeografia - Uma Abordagem Ecológica e Evolucionária
Autor: Cox, C. Barry; Moore, Peter D.
Raízes do Brasil
Autor: Holanda, Sérgio Buarque de
O povo brasileiro
Autor: Ribeiro, Darcy
Casa Grande & Senzala
Autor: Freyre, Gilberto
O Pensamento Selvagem
Autor: Lévi-strauss, Claude
Pegando fogo: como cozinhar nos tornou humanos
Autor: Wrangham, Richard
A Interpretacao das Culturas
Autor: Geertz, Clifford
A História Secreta da Raça Humana - Série Novo Pensamento
Autor: Cremo, Michael A.; Thompson, Richard L.
O Ladrão No Fim do Mundo - Borracha, Poder e As Sementes do Império
Autor: Jackson, Joe
Memórias do Brasil - Uma Viagem Pelo Patrimônio Artistico,histórico , Cultural e Ambiental
Autor: Kok, Glória
A História da Humanidade Contada Pelos Vírus
Autor: Ujvari, Stefan Cunha
1434 - O Ano em que uma Magnífica Frota Chinesa Velejou para a Itália e Deu Início ao Renascimento
Autor: Menzies, Gavin
Fordlândia - Ascensão e Queda da Cidade Esquecida de Henry Ford na Selva
Autor: Grandin, Greg
O Petroleo - Uma História Mundial de Conquistas, Poder e Dinheiro
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