"Eu sou o que me cerca. Se eu não preservar o que me cerca, eu não me preservo".
José Ortega y Gasset

segunda-feira, 4 de maio de 2026

História Ambiental das civilizações antigas segundo J. Donald Hughes


Quando observamos o Partenon, símbolo incomparável da civilização grega, nossa atenção é capturada por sua majestade arquitetônica. No entanto, o historiador J. Donald Hughes nos convida a ampliar o foco e observar seu cenário. Atrás da Acrópole, as montanhas da Ática exibem seus ossos rochosos contra o céu. As ruínas do templo mais sublime dos antigos gregos estão, na verdade, cercadas pelas ruínas muito maiores de um ambiente que eles próprios devastaram. Onde hoje vemos aridez, existiram florestas densas, irrigadas por nascentes que há muito secaram. O próprio Platão notou essa transformação, observando que os tetos de alguns edifícios atenienses eram sustentados por vigas de árvores cortadas em encostas que, em seu tempo, já eram estéreis.

É neste embalo que começa o Capítulo 1 "Environment and civilization", do livro Ecology in ancient civilizations, publicado por Hughes em 1975. Partindo desta fonte, este post propõe uma análise de suas ideias fundamentais, utilizando as lentes da História Ambiental para tratar a natureza não como um mero pano de fundo para as ações humanas, mas como uma força ativa e reativa na ascensão e queda das civilizações.

Segue com esta questão: Mas o que é História Ambiental? A História Ambiental, na formulação de Hughes, é "uma tentativa de aplicar os conhecimentos da ecologia à história humana". Para desvendar o poder dessa abordagem, é crucial primeiro entender a própria ecologia. A palavra deriva das raízes gregas oikos, que significa "casa" ou "lar", e logos, que se traduz como "estudo" ou "razão". Em um sentido mais amplo, oikos deu origem à oikoumene, a terra habitada, o lar de toda a humanidade. A ecologia, portanto, é o estudo racional de como a humanidade se inter-relaciona com seu lar, a Terra, e todos os seus sistemas vivos e não vivos. Nessa análise da relação entre civilizações e ambiente, Hughes propõe três temas centrais de estudo: (1) A influência do ambiente nas civilizações. (2) As atitudes humanas perante a natureza. (3) O impacto das civilizações sobre o ambiente natural. Seguindo a ênfase do próprio autor, nosso foco se concentrará nos dois últimos temas, que exploram a ação humana e suas consequências.

O primeiro tema de Hughes, ainda que não seja o foco principal, estabelece uma premissa fundamental: o ambiente natural exerceu uma "influência constante e formativa" sobre as civilizações antigas. A História Ambiental se cruza aqui com a história social, econômica e cultural, revelando como a paisagem moldou o destino dos povos.

• Geografia e vocação: povos com fácil acesso ao mar, como os gregos e fenícios, desenvolveram habilidades navais e mercantis, em contraste com povos sem litoral, como os assírios e persas.
• Solo e economia: o solo montanhoso e fino da Ática era mais adequado para o cultivo de oliveiras e videiras do que para cereais, definindo a base de sua agricultura e comércio.
• Recursos e arquitetura: a disponibilidade de materiais ditava as técnicas construtivas. Os egípcios ergueram seus monumentos com pedra abundante, enquanto os mesopotâmios, em seu vale aluvial, construíam com tijolos de argila.
• Cultura e natureza: o mundo natural permeou todas as formas de expressão cultural. Ele está presente nos afrescos minoicos de polvos e golfinhos saltitantes, na descrição homérica de uma floresta na Odisseia e até na religião, como o uso do pão e do vinho no cristianismo, alimentos básicos da terra onde a religião se originou.

O terceiro tema de Hughes é o mais contundente, trata do impacto das atividades humanas sobre o ambiente. Se a natureza moldou as civilizações, estas, por sua vez, alteraram profundamente a natureza. Hughes argumenta de forma incisiva que, ao final, a "natureza teve sua vingança na queda das civilizações". As evidências dessa degradação são as ruínas silenciosas que mencionamos no início:
• O desmatamento das montanhas da Grécia, testemunhado e registrado pelo filósofo Platão, que viu as encostas de sua época já erodidas e estéreis.
• A desertificação que soterrou as outrora prósperas cidades romanas do norte da África e as capitais da Mesopotâmia, transformando centros urbanos em montes de argila sob a areia.
• O quase desaparecimento das lendárias florestas de cedro do Líbano, que forneceram madeira para templos e cidades por todo o Oriente Próximo, e das quais hoje restam apenas alguns bosques protegidos.
• A retração do Crescente Fértil, outrora o berço da agricultura, hoje visível do espaço como um "remanescente encolhido" de sua antiga glória.

A geógrafa Ellen Semple, citada por Hughes, reforça essa análise sobre as raízes ambientais do declínio civilizacional: As causas do declínio devem ser buscadas... no desnudamento do solo das encostas, no desmatamento com o desaparecimento das nascentes, na destruição das obras de irrigação por ataques bárbaros ou nômades, no colapso do governo ordenado sob repetidas invasões bárbaras e, possivelmente, no esgotamento do solo, causando o declínio agrícola.

Para Hughes, as ações destrutivas não ocorreram no vácuo. Elas foram guiadas pelo segundo tema central: as atitudes humanas em relação à natureza. A forma como um povo percebe o mundo natural determina como ele interage com ele. Essas percepções variavam amplamente, "da adoração e curiosidade à dominação e uso". A tese é clara, as ações de um povo refletem seus valores. Uma sociedade que vê a natureza como sagrada, povoada por espíritos e divindades, a trata de maneira muito diferente de uma sociedade que a enxerga apenas como um conjunto de recursos a serem explorados para ganho imediato.

Hughes estabelece aqui uma conexão direta com o presente, sugerindo que "alguns problemas ambientais modernos" podem ser resultado da "perpetuação de atitudes antigas". O estudo da mentalidade e dos valores do passado torna-se, assim, uma chave para compreender as raízes intelectuais da nossa crise contemporânea.

A principal contribuição do trabalho de J. Donald Hughes é demonstrar que a dicotomia entre história humana e história natural é falsa. A humanidade é parte da natureza; ela age sobre o mundo e, inevitavelmente, sofre as reações de suas próprias ações. As civilizações antigas não foram apenas moldadas por seus ambientes, mas também os alteraram de forma profunda e, muitas vezes, irreversível, selando com isso o próprio destino. As ruínas de templos e cidades são inseparáveis das ruínas das paisagens que as sustentavam.

O estudo de Hughes, portanto, não é apenas um exercício acadêmico sobre o passado. É um convite à reflexão, feito com a intenção explícita de nos ajudar a "compreender a nossa atual crise ambiental". Isso nos deixa com uma questão provocadora: ao olharmos para as ruínas do nosso próprio tempo, que histórias ambientais as paisagens que estamos criando contarão sobre nós?

Para ter acesso ao capítulo que analisamos clique aqui. Este texto foi adaptado/modificado com IA. Segue a sua referência:

HUGHES, J. Donald. Environment and civilization. In: ______. Ecology in ancient civilizations. Albuquerque: University of New Mexico Press, 1975. p. 1-6