"Eu sou o que me cerca. Se eu não preservar o que me cerca, eu não me preservo".
José Ortega y Gasset

quarta-feira, 28 de janeiro de 2026

O outro lado da História Ambiental? Crítica, ideologia e a invisibilização do capitalismo na crise socio ambiental


Nos últimos anos, discursos que se apresentam como “politicamente incorretos” têm ganhado grande visibilidade ao tratar de temas ambientais. Em comum, afirmam romper com o “alarmismo” e com a “ideologia ambientalista”, oferecendo uma leitura supostamente baseada em dados, otimismo tecnológico e celebração do progresso humano. Mas o que significa, afinal, falar em o outro lado da História Ambiental? Foi essa expressão que encontrei ao realizar uma pesquisa rápida pelo termo História Ambiental nos vídeos publicados em 2025 na plataforma YouTube. Entre os resultados, o título me chamou imediatamente a atenção. Confesso que, num primeiro momento, me questionei: pronto, o que seria isso? Que “outro lado” estaria sendo reivindicado? A curiosidade intelectual falou mais alto, e me coloquei a assistir ao material.

Em uma análise inicial, tornou-se evidente que se tratava de um conteúdo deliberadamente polêmico, construído muito mais no registro da provocação do que da crítica acadêmica propriamente dita. Não se trata, de fato, de uma crítica fundamentada à História Ambiental enquanto campo de pesquisa consolidado, com seus métodos, debates internos e diversidade teórica. 

No episódio do Millennium Talks, Leandro Narloch apresenta as ideias de seu Guia Politicamente Incorreto do Meio Ambiente. Narloch constrói sua narrativa em oposição direta ao que chama de ambientalismo moralista, pessimista e culpabilizador. Defende uma visão otimista da história recente, destacando os avanços tecnológicos que elevaram a expectativa e a qualidade de vida, e critica a educação ambiental por, segundo ele, reduzir inovações a narrativas de exploração e culpa. Propaga uma imagem de que o empresário faz o que faz para o bem humano, e com isso esconde inúmeras outras questões que estão em jogo, e faz isso com uma postura nada neutra. 

Ao celebrar conquistas como o aço, o cimento, a energia nuclear ou o plástico, o discurso desloca o foco das relações sociais e econômicas que tornaram essas tecnologias possíveis. O problema não é reconhecer seus benefícios, mas apresentá-los como resultados quase naturais da engenhosidade humana, dissociados de processos históricos de exploração, desigualdade e apropriação desigual da natureza. 

Um dos aspectos centrais do discurso “politicamente incorreto” é a personalização da crise ambiental. Cientistas “ativistas”, ambientalistas “ingênuos” ou empresários “bem-intencionados” ocupam o centro da narrativa. Assim, a degradação ambiental aparece como fruto de escolhas morais individuais — e não como resultado estrutural de um modo de produção baseado na acumulação incessante. Essa abordagem obscurece o funcionamento do capitalismo enquanto sistema histórico. A transformação da natureza em mercadoria, a externalização de custos ambientais e a desigualdade no acesso aos recursos não são desvios éticos ocasionais, mas elementos constitutivos desse modelo. Ao ignorar essa dimensão, o discurso despolitiza a crise ecológica.

O argumento de que as emissões de carbono dos países ricos “salvaram vidas” ao viabilizar tecnologias usadas no Sul global exemplifica um processo de des-historicização. Sob uma perspectiva marxista e da História Ambiental Crítica, tais tecnologias não podem ser separadas do imperialismo, da troca ecológica desigual e da exploração de territórios e populações periféricas. O mesmo desenvolvimento que produziu represas e infraestruturas também gerou vulnerabilidades socioambientais profundas, muitas vezes nas mesmas regiões que hoje dependem dessas “soluções”. Não se trata de gratidão, mas de reconhecer uma dívida histórica e material.

Quando o discurso celebra a incorporação de territórios indígenas à mineração ou ao agronegócio como libertação do “paternalismo ambientalista”, ignora-se a lógica da acumulação primitiva. A transformação de terras comunais em ativos econômicos frequentemente intensifica conflitos, destrói modos de vida e aprofunda desigualdades, ainda que venha acompanhada de promessas de progresso e inclusão.

Discursos como o de Narloch não são apenas populares; são eficazes. Justamente por isso, representam simultaneamente um desafio e uma oportunidade para a História Ambiental e para a ciência em si. Cabe aos cientistas qualificar o debate público, oferecendo análises que articulem rigor empírico, consciência histórica e crítica estrutural. Uma História Ambiental crítica não rejeita o progresso, mas interroga seus pressupostos: progresso para quem, a que custo e sob quais relações de poder? Quais consequências ambientais são produzidas — especialmente aquelas de difícil ou nula resiliência — e de que forma é possível promover processos efetivos de resiliência socioambiental? Estamos em um cenário de crise socioecológica global, e essas perguntas não são apenas acadêmicas!

O chamado “outro lado” da História Ambiental se apresenta como uma ruptura com dogmas, mas cumpre uma função ideológica clara: naturalizar o capitalismo, fetichizar a tecnologia e despolitizar a crise ambiental. Diante disso, a História Ambiental enquanto um campo de conhecimento crítico reafirma seu papel como ferramenta analítica e política, capaz de revelar as raízes históricas da crise ecológica e de dialogar com a sociedade sem abrir mão da complexidade, e apontar caminhos para uma sustentabilidade.

Mas considero fundamental que você veja por si mesmo, observe, analise e busque constatar o discurso de Narloch

Segue o vídeo:


O texto desta postagem passou por revisão e modificações realizadas por IA, mas sem violar a originalidade do texto do autor.

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