Este texto anallisa um trecho da obra An Environmental History of the World: Humankind’s Changing Role in the Community of Life (2ª edição), do historiador ambiental J. Donald Hughes. A postagem não substitui a leitura do original, mas propõem releituras orientadas pela História Ambiental, pensadas como mediação didática e apoio a professores de História que desejam inserir a dimensão ambiental. O texto a seguir dialoga especialmente com o capítulo 3, “The Great Divorce of Culture and Nature”, mais precisamente com o trecho “The Uruk Wall: Gilgamesh and Urban Origins” (páginas 33–38). Trata-se, portanto, de uma interpretação guiada por Hughes, mas traduzida e ampliada a partir das preocupações próprias da História Ambiental.
Segundo Hughes, poucas coisas em um museu conseguem anular o cansaço e nos transportar para outro tempo. Ao entrar na sala do Museu de Pérgamo, em Berlim, dedicada aos achados de Uruk, uma antiga cidade suméria, a história torna-se palpável. De um lado da sala, dispostos em padrões regulares, encontram-se os tijolos de argila cozida de uma muralha urbana. A legenda confirma: trata-se de um fragmento da muralha de Uruk, a cidade do lendário rei Gilgamesh. Nesse momento, as palavras do mais antigo poema épico da humanidade ganham vida:
“Proclamarei ao mundo os feitos de Gilgamesh… Em Uruk ele construiu muralhas, uma grande fortificação… Olha-a ainda hoje: a muralha externa, onde corre a cornija, brilha com o esplendor do cobre; e a muralha interna, ela não tem igual. Toca o limiar, ele é antigo… Sobe à muralha de Uruk; caminha sobre ela, eu digo; observa o terraço de fundação e examina a alvenaria: não é de tijolo cozido e de boa qualidade?”
Essa estrutura monumental, com cerca de 9,6 quilômetros de extensão, aproximadamente 900 torres e uma população estimada em 25 mil habitantes, não era apenas um feito de engenharia. Ela se tornou o símbolo de uma tragédia arquetípica. Do ponto de vista da História Ambiental, a muralha de Uruk representa aquilo que Hughes denomina de “Grande Divórcio”: uma separação progressiva — física, simbólica e ideológica — entre a cultura humana e o mundo natural. Essa ruptura ajudou a criar as condições que, ao longo do tempo, contribuíram para o colapso da própria civilização que a ergueu.
As muralhas das cidades sumérias não criaram apenas fronteiras militares; estabeleceram uma divisão profunda na forma como os seres humanos passaram a perceber o mundo. Dentro dos muros, localizava-se a ordem da cidade; fora deles, um espaço entendido como caótico, selvagem e hostil. Essa distinção marcou um afastamento psicológico em relação à natureza, mais profundo do que aquele vivido por caçadores, pastores ou agricultores de aldeias.
Essa nova visão de mundo exigiu uma justificativa cosmológica, encontrada na mitologia mesopotâmica. No épico babilônico da criação, o Enuma Elish, o mundo nasce de uma batalha violenta entre Marduk, símbolo da ordem, e Tiamat, entidade feminina que personifica o caos primordial. Após derrotá-la, Marduk “a divide como um peixe em duas partes”, usando seu corpo para formar o céu e o mar, e então constrói Esharra, a cidade celestial. O mito funcionava como legitimação simbólica: a cidade terrestre, com suas muralhas e ruas geométricas, aparecia como a imposição da ordem sobre o caos da natureza. A violência do mito validava, assim, a violência material contra o mundo natural.
A própria saga de Gilgamesh e de seu companheiro Enkidu expressa essa relação conflituosa. Enkidu surge inicialmente como um “homem selvagem”, vivendo em harmonia com os animais da estepe. Sua integração à civilização ocorre por meio do contato humano e do consumo de pão e vinho — produtos da técnica e da cultura urbana. Após essa transformação, os animais passam a temê-lo, e sua ligação com o mundo selvagem é rompida. Juntos, Gilgamesh e Enkidu avançam sobre a floresta sagrada de cedros, matam seu guardião, Humbaba, e derrubam as árvores para abastecer a cidade. A narrativa expressa uma nova lógica de exploração sistemática dos recursos naturais. Em outro episódio, Gilgamesh mata leões simplesmente por vê-los “regozijando-se na vida”, gesto que simboliza uma hostilidade aberta ao selvagem.
Essa postura de confronto com a natureza aparece associada, sobretudo, a uma cultura urbana fortemente masculinizada. Guerreiros passaram a dominar as estruturas políticas e simbólicas dessas sociedades, e, como eram também os principais produtores da literatura, imagens de combate e conquista tornaram-se centrais. A natureza passou a ser representada como um inimigo a ser subjugado, e não como parte de um sistema de relações.
O surgimento de cidades como Uruk só foi possível porque essa ideologia de domínio veio acompanhada de tecnologias específicas. A agricultura intensiva, impulsionada pelo arado puxado por bois, aumentou significativamente a produção de alimentos. A irrigação em larga escala buscou controlar o fluxo imprevisível dos rios Tigre e Eufrates por meio de extensos sistemas de canais, transformando áreas potencialmente áridas em regiões altamente produtivas, capazes de sustentar populações urbanas e especialização do trabalho.
Entretanto, as planícies aluviais da Suméria careciam de recursos fundamentais como madeira, pedra e minérios metálicos. Para erguer templos, palácios e muralhas, foi necessário recorrer ao comércio de longa distância. Mercadores, controlados pelas elites urbanas, atuavam como intermediários políticos e econômicos, buscando madeira do Líbano, cobre do Chipre e produtos de regiões tão distantes quanto o vale do Indo. Para sustentar essas trocas, a terra precisava gerar excedentes cada vez maiores, intensificando a pressão sobre os ecossistemas locais.
A intensificação da agricultura desencadeou uma cadeia de impactos ambientais. O desmatamento, impulsionado pela demanda por combustível para a metalurgia e a cerâmica, alterou o regime hídrico das bacias. As cheias tornaram-se mais violentas e carregadas de sedimentos, provocando o assoreamento dos canais de irrigação. A dragagem constante elevou os canais acima dos campos cultivados, comprometendo o funcionamento do sistema.
Esse quadro preparou o terreno para a salinização dos solos. Em um clima quente e seco, a irrigação contínua elevou o lençol freático e, com a evaporação, os sais minerais acumularam-se na superfície. Entre 2400 e 1700 a.C., os agricultores foram gradualmente forçados a substituir o trigo pela cevada, mais tolerante ao sal. Em vastas áreas, o solo tornou-se improdutivo. Como concluíram Thorkild Jacobsen e Robert Adams, a salinização desempenhou um papel central na desintegração da civilização suméria — em interação com fatores sociais, econômicos e políticos.
Hoje, cidades como Uruk e Ur são apenas montes abandonados no deserto. Seu declínio não foi um evento isolado nem resultado exclusivo de mudanças climáticas, mas um processo histórico marcado pela exploração intensiva e pelo esgotamento progressivo da terra. A civilização que acreditava controlar a natureza acabou sendo limitada por ela.
Em poucas sociedades antigas a relação entre degradação ambiental e declínio histórico é tão evidente quanto na Mesopotâmia. O “Grande Divórcio” simbolizado pelas muralhas de Uruk — a crença de que a cultura humana pode se isolar do mundo natural — revelou-se insustentável. A história suméria, escrita na poeira de suas cidades, permanece como uma advertência duradoura: toda civilização é também uma paisagem construída, e toda paisagem carrega as marcas das escolhas humanas.
Para o ensino das sociedades antigas no 6º ano, Uruk oferece uma chave de leitura especialmente fecunda. Em vez de apresentar as primeiras cidades apenas como sinais de progresso técnico, a História Ambiental permite mostrar que elas também enfrentaram limites ecológicos concretos. O Crescente Fértil deixa, assim, de ser apenas o “berço da civilização” para ser compreendido como um espaço de interações tensas entre rios, solos, florestas e grupos humanos.
Ao trabalhar temas como agricultura, irrigação e urbanização, o professor pode evidenciar como decisões técnicas e culturais produziram efeitos ambientais de longo prazo. A salinização dos solos ajuda os estudantes a compreender que a natureza não é um cenário passivo, mas um agente que responde às ações humanas, contribuindo para desenvolver a noção de causalidade histórica.
A mitologia, por sua vez, ganha novo significado quando analisada sob a ótica da História Ambiental. Narrativas como o Enuma Elish ou a saga de Gilgamesh podem ser lidas como expressões simbólicas de visões de mundo que legitimaram práticas de dominação sobre a natureza, ampliando a compreensão dos alunos sobre a relação entre cultura, poder e ambiente.
Ao conectar passado e presente sem anacronismos, o ensino de História passa a contribuir para uma reflexão crítica sobre os desafios ambientais contemporâneos. Ensinar Uruk dessa forma é ensinar que não existe sociedade sem natureza — e que toda escolha histórica deixa marcas duradouras no mundo que habitamos.

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