"Eu sou o que me cerca. Se eu não preservar o que me cerca, eu não me preservo".
José Ortega y Gasset

sexta-feira, 23 de outubro de 2026

O Rio Itajaí-Mirim e a escrita da terra: uma biografia ambiental da paisagem

A compreensão das dinâmicas que moldam o território catarinense exige também um olhar sobre registros que extrapolam a documentação histórica tradicional. É nesse sentido que esta postagem retoma a dissertação de mestrado em Geografia de Gilberto Friedenreich dos Santos, defendida na UFSC em 1991, atual coordenador do nosso grupo de pesquisa. O trabalho realiza um estudo detalhado da geologia e da geomorfologia do Vale do Rio Itajaí-Mirim, com atenção à evolução das formas de relevo e dos depósitos sedimentares durante o período Quaternário.

É interessante observar esse trabalho hoje a partir da perspectiva da História Ambiental. Quando Gilberto desenvolveu essa pesquisa, no início dos anos 1990, a História Ambiental ainda estava em processo de consolidação no Brasil e, evidentemente, essa não era a perspectiva a partir da qual a dissertação foi construída. Em 1991, por exemplo, a Revista Estudos Históricos publicou um dossiê com trabalhos importantes para a constituição desse campo no país.

O documento, porém, permite outro olhar quando lido a partir da História Ambiental. Embora tenha sido produzido no campo da Geografia Física, seu estudo sobre o relevo, os sedimentos e as transformações do Vale do Itajaí-Mirim oferece informações importantes para pensar historicamente as relações entre os processos naturais e a ocupação humana do território. Por isso, ao reencontrar esse documento, resolvi voltar a ele com esse olhar: o que uma dissertação de Geografia produzida em 1991 pode nos dizer hoje quando lida a partir da História Ambiental? O resultado é uma leitura que procura aproximar uma pesquisa sobre a história natural do território das questões colocadas pela História Ambiental.

Sob a ótica da História Ambiental, este documento técnico deixa de ser apenas uma sucessão de dados estratigráficos para tornar-se o registro da "agência" da natureza. A terra não é o palco da história, ela é o seu manuscrito mais antigo, onde cada estrato sedimentar registra um capítulo da biografia planetária. Como demonstra Santos, a paisagem não é um cenário estático, mas o resultado de processos acumulados de erosão e sedimentação que condicionam, de forma absoluta, a trajetória humana no vale.

Os processos geológicos descritos revelam que o clima atuou como o arquiteto primordial da paisagem. A fonte detalha a transição entre ciclos de semi-aridez e períodos de umidade acentuada (Santos, p. xvii). Durante as fases de semi-aridez, predominou a "degradação lateral" do terreno, com o recuo das encostas e a formação de superfícies de aplainamento. Já nos períodos úmidos, a dinâmica alterou-se para a "dissecação vertical", processo no qual os rios ganharam energia cinética para entalhar profundamente os vales, esculpindo o palco onde se encenaria a história social. A evolução dessas formas é sintetizada pelo autor:

"A interpretação dos eventos ambientais baseou-se na evolução das formas de relevo e na sequência de processos de sedimentação atuantes durante o período Quaternário. [...] Na área do Itajaí-Mirim, o clima alterou-se para a semiaridez, com mudanças profundas nas condições hidrológicas e nos processos de erosão atuantes nas encostas" (Santos, p. xvii, 1991).


Essa "escultura" natural estabelece os limites físicos para a ocupação humana. A alternância entre a formação de rampas de colúvio-alúvio e o entalhamento fluvial criou os terraços onde, milênios depois, seriam estabelecidos os núcleos urbanos e as lavouras. A natureza, portanto, exerceu sua agência ao ditar a morfologia do substrato muito antes de qualquer intervenção antrópica.

A geologia regional, composta pelo Complexo Metamórfico Brusque e pela Formação Rio Bonito, fundamenta as possibilidades econômicas e sociais do vale. A relação entre a litologia e a vida social é direta e factual: 

  • Calcários de Botuverá: A presença dessas rochas carbonáticas permitiu a formação de sistemas cársticos e grutas, como a do Ribeirão do Ouro. Mais do que curiosidades geológicas, as estalactites e estalagmites em forma de "velas" (Santos, p. 19) são marcos geoculturais. Estes espeleotemas funcionam como arquivos de estabilidade climática milenar, permitindo o crescimento mineral lento que hoje atrai o interesse científico e turístico.
  • Quartzitos e Metaxistos: Estas rochas do Complexo Brusque apresentam elevada resistência mecânica à "erosão diferencial" (Maack, 1947, citado por Santos, p. 20). Por serem menos suscetíveis ao desgaste, sustentam as cristas e serras que formam a "espinha dorsal" da paisagem, impondo barreiras físicas que historicamente desafiaram a comunicação e a integração entre comunidades.
  • Sedimentos Fluviais e Várzeas: As planícies de inundação, compostas por depósitos recentes de areias e argilas, ofereceram solos de topografia plana e alta fertilidade potencial, cruciais para o desenvolvimento agrícola (Santos, p. 10).
  • Materiais para Construção: Intrusões como o Granitóide Itajaí-Faxinal fornecem o material rochoso essencial para a pavimentação e a infraestrutura urbana contemporânea.

A rede de drenagem do Rio Itajaí-Mirim é um sistema em constante ajuste. Com uma precipitação média anual de 1.748,4 mm (Santos, p. 10), o vale é submetido a um regime hídrico que potencializa movimentos de massa e processos erosivos. A violência das cheias na região possui uma explicação geológica estrutural. A orientação geral dos rios e serras, alinhada na direção SW-NE, é condicionada por falhas e dobras. A erosão diferencial, mencionada por Santos, atua com maior intensidade sobre as "rochas tenras" (menos resistentes), criando vales profundos que funcionam como funis topográficos. É precisamente nesses "vales tenros" que os centros urbanos foram estabelecidos, resultando em um estrangulamento do fluxo hídrico que agrava a magnitude dos desastres naturais. Santos (p. 20) destaca:

"As influências estruturais (falhas e dobras) determinaram a orientação geral dos rios e serras, alinhando-as paralelamente na direção SW - NE. [...] A abertura do Vale do Rio Itajaí-Mirim deve-se à erosão diferencial que atua mais intensamente em rochas tenras."

Essa realidade geológica impõe limites severos à gestão urbana. A ocupação das várzeas não é apenas um problema de planejamento contemporâneo, mas uma tentativa de negociar com uma dinâmica fluvial cujas regras foram estabelecidas por processos de dissecação vertical ativos há milênios.

O trabalho de Gilberto F. dos Santos fornece a base física indispensável para qualquer historiador que deseje compreender o Vale do Itajaí-Mirim além da superfície humana. Ao detalhar a evolução quaternária e os níveis de pediplanação (Tpm, Tpi e Tpm) ele demonstra que a superfície sobre a qual a sociedade atua é o subproduto de uma história natural de longuíssima duração. A indissociabilidade entre sociedade e natureza é factual: as crises de inundação e a instabilidade das encostas são ecos de processos de modelagem que o rio executa incansavelmente. Compreender o solo como agente histórico é uma lição de alteridade ambiental necessária para a mitigação de conflitos no presente. O estudo de Gilberto pode ser acessado clicando aqui.

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