Muitas vezes me pego refletindo sobre a perigosa insistência em um modelo de desenvolvimento que, embora tenha mais de 230 anos de fundamentação teórica, foca quase exclusivamente no crescimento econômico ilimitado. Como bem apontam Seabra e seus colaboradores, apesar de séculos reforçando essa tese, o mundo permanece predominantemente pobre e desigual. O resultado dessa escolha é um colapso evidente nas relações entre a natureza e a sociedade. Diante de uma crise global que não é apenas ecológica, mas civilizatória, lanço a pergunta: como podemos planejar um futuro sustentável se ignoramos as pegadas de destruição que deixamos no caminho?
Para desatar esse nó, recorro ao trabalho fundamental de Martin Stabel Garrote, pesquisador vinculado ao Grupo de Pesquisas de História Ambiental do Vale do Itajaí (GPHAVI) da Universidade Regional de Blumenau (FURB). Seu artigo, publicado na revista tecno-científica Dynamis, propõe uma mudança de paradigma: o historiador não deve ser um mero espectador do passado, mas um agente estratégico na elaboração de agendas públicas. O trabalho de Garrote, fruto das discussões do GPHAVI, demonstra que a historiografia ambiental é o "olhar clínico" que falta aos gestores. Para o cidadão comum, entender essa ciência é compreender que a crise atual não é um acidente do destino, mas um processo construído.
A História Ambiental surge de um descontentamento profundo. Donald Worster, um dos pilares dessa disciplina, explica que ela nasceu para confrontar a história tradicional, que via os seres humanos como seres "supernaturais" — como se fôssemos independentes das leis biológicas. Essa visão "inocente" foi o que alimentou a ilusão do crescimento infinito. Para nós, historiadores ambientais, a sociedade não existe sem uma ancoragem no mundo natural. Como defende Enrique Leff, precisamos de uma racionalidade ambiental que entenda a hibridização entre processos sociais e naturais. Não somos externos ao planeta; somos parte dele.
Baseando-me nas lições de José Augusto Drummond, a História Ambiental se organiza através de uma metodologia rigorosa que deveria ser a base de qualquer plano de governo:
-Ênfase Regional: Foca em territórios com identidade natural e social própria, onde os processos são geograficamente circunscritos.
-Diálogo Interdisciplinar: Estabelece pontes entre a ecologia, a biologia e as ciências sociais para entender o cenário completo.
-Interação com Recursos Naturais: Analisa como diferentes civilizações lidaram com o que a natureza oferece, transformando o útil e o "inútil" em cultura e economia.
-Pesquisa em Fontes Tradicionais: Vasculha censos, inventários e registros de viajantes para reconstruir a trajetória da degradação.
-Trabalho de Campo: Exige que o pesquisador saia do gabinete e sinta o terreno, coletando dados onde a história realmente aconteceu.
Para que esse conhecimento não seja apenas contemplativo, utilizo o conceito de redução sociológica de Alberto Guerreiro Ramos. Esse método nos permite "filtrar" os fatos sociais, compreendendo sua natureza histórica e local em vez de importar modelos prontos. No Vale do Itajaí, por exemplo, o uso da memória oral — como no estudo sobre a "Nova Rússia" citado por Garrote — revela como a degradação avançou sobre as nascentes.
A historiografia ambiental fornece indicadores de práticas errôneas. Se os registros históricos e a memória oral mostram que determinado modelo de exploração da biodiversidade levou à escassez ou a desastres no passado, por que insistir neles hoje? A história, aqui, é uma evidência empírica para rejeitar modelos de desenvolvimento predatórios.
O Estado, como definiu Engels, é um produto das contradições sociais que deve atuar para evitar que a sociedade se autodestrua em seus próprios conflitos. Na gestão ambiental, ele é o gestor por excelência. No entanto, enfrentamos o que Diniz descreve como o "enclausuramento" das elites burocráticas sob a hegemonia neoliberal. Esse pensamento tentou reduzir o Estado a uma tecnocracia isolada, enfraquecendo sua estrutura e afastando o cidadão do processo decisório. Contra esse isolamento, defendemos uma Gestão Participativa. O desenvolvimento real não pode ser medido apenas por índices de PIB, mas pelo que Ignacy Sachs chama de Ecodesenvolvimento, que deve garantir cinco dimensões essenciais: social, econômica, ecológica, cultural e espacial. Sem o equilíbrio desses cinco pilares, o desenvolvimento é apenas um "mau desenvolvimento".
Uma "agenda" de política pública é o campo de batalha onde problemas sociais são transformados em prioridades do Estado. Para que a sustentabilidade não seja apenas um discurso vazio, o historiador ambiental deve estar na mesa de planejamento. Nossa função é fornecer o lastro histórico para a tomada de decisão. A participação do historiador garante que a relação entre natureza e sociedade seja compreendida em sua complexidade. Somos nós que apontamos que a escassez de água atual é fruto de uma ocupação desenfreada iniciada há décadas, e não um fenômeno "natural".
A História Ambiental ganhou força nos anos 70, impulsionada pela crise do petróleo e pelo despertar de uma consciência global que culminou em marcos como o Ato da Política Nacional para o Meio Ambiente (NEPA) de 1969. Hoje, os desafios são a perda de biodiversidade e a emergência climática. Esses problemas são frutos de processos históricos de apropriação da natureza. Entender como chegamos aqui é o primeiro passo para resignificar nossa concepção de tempo e sustentabilidade. A história nos ensina que o que foi construído pelo homem pode, e deve ser transformado pela política.
O artigo de Martin Stabel Garrote e as pesquisas do GPHAVI nos deixam uma lição clara: a História Ambiental é uma ferramenta de sobrevivência no antropoceno. Ela nos oferece os dados necessários para transformar a gestão pública em um compromisso real com a vida. Convido você a observar o seu entorno, seja no Vale do Itajaí ou em qualquer região deste país.
As políticas públicas aplicadas na sua cidade estão aprendendo com os erros do passado ou estão apenas repetindo ciclos de degradação em nome de um crescimento passageiro?
O passado já nos deu os indicadores e cabe a nós, como cidadãos e agentes políticos, decidir se teremos a coragem de aplicar essa nova racionalidade ambiental antes que o próximo colapso se torne inevitável. Covidamos você para conhecer nosso vídeo (é amador) sobre o Antropoceno, clique aqui. Este texto foi corrigido e adaptado por IA. Mas o estudo completo de Garrote pode ser acessado clicando aqui.
Referência:
GARROTE, Martin Stabel. A contribuição da história ambiental como ferramenta de elaboração de políticas públicas para o desenvolvimento sustentável. Dynamis, Blumenau, v. 15, n. 3, p. 10-17, 2009.

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