"Eu sou o que me cerca. Se eu não preservar o que me cerca, eu não me preservo".
José Ortega y Gasset

terça-feira, 29 de setembro de 2026

As três matrizes da História Ambiental brasileira: uma análise do estudo de Roger Domenech Colacios


Na historiografia brasileira contemporânea, o termo "meio ambiente" frequentemente opera como uma engrenagem oculta, utilizada sem o devido escrutínio analítico. Roger Domenech Colacios propõe uma desconstrução dessa categoria por meio da metáfora da "caixa-preta", conceito apropriado da cibernética e transposto para os estudos sociais por Bruno Latour em suas análises da teoria ator rede. Formulada originalmente por Wilhelm Cauer em 1945, a caixa-preta designa um sistema de alta complexidade do qual se conhecem apenas as entradas (inputs) e saídas (outputs), enquanto seu funcionamento interno permanece opaco para o observador.

Segundo Colacios (2017), a História Ambiental no Brasil padece de uma "incipiência teórica" que transforma seus conceitos fundamentais em caixas-pretas. Nas ciências humanas, o autor identifica dois tipos de ocorrências para esse fenômeno: a primeira, em que há consonância entre a entrada da informação e sua saída interpretativa. A segunda, e para ele mais problemática, em que o conceito é inserido em argumentos sem que seu significado seja plenamente apreendido, resultando em distorções que servem apenas às intenções imediatas do autor (Colacios, 2017).

fonte

O artigo "Os meios ambientes da História Ambiental brasileira: pela abertura da caixa-preta", publicado por Roger Domenech Colacios (2017) na revista História e Revista (Goiânia), surge em um momento de paradoxo disciplinar. Se, por um lado, o campo apresenta vigor institucional,  visível na consolidação de Grupos de Trabalho na ANPUH, na criação de laboratórios e no aumento de teses defendidas, por outro, persiste um hiato em relação ao amadurecimento epistemológico. Desta forma, a obra convida o historiador a transcender a aplicação técnica de termos e a "abrir" as definições que alicerçam a área. O objetivo é superar o uso flutuante do vocabulário e buscar uma conformação rigorosa entre os objetos de estudo, as bases teóricas e os métodos de investigação. 

A tese central de Colacios postula que o meio ambiente não deve ser reduzido a um cenário passivo ou a um adorno para a ação humana. Ele é uma entidade dotada de agência e historicidade. Para organizar a produção historiográfica brasileira, o autor identifica três matrizes teóricas que operam conforme diferentes pressupostos sobre o que constitui o mundo natural:

  • Matriz Ecológica: Pautada na separação entre sociedade e natureza, com foco nos impactos biofísicos sobre o mundo selvagem.
  • Matriz Socioambiental: Baseada na simbiose e na construção recíproca entre as formações sociais e o mundo natural.
  • Matriz Geográfica: Centrada na categoria de espaço e paisagem como elementos de significação regional e política.
Influenciada pela historiografia dos Estados Unidos, especialmente por Donald Worster e Roderick Nash, a matriz ecológica fundamenta-se no conceito de wilderness. Para Nash (1976), o mundo selvagem é "essencialmente um estado de espírito", o sentimento de estar removido da civilização e do controle tecnológico. Nesta perspectiva, o meio ambiente é interpretado como uma natureza intocada, externa ao ser humano, e o foco analítico recai sobre o "impacto" degradante da sociedade sobre ecossistemas definidos. Essa vertente estabelece um diálogo contínuo com as ciências biológicas, incorporando conceitos como entropia e biodiversidade para mensurar as alterações físicas do ambiente. 

Em termos bem simples, portanto, a História Ambiental trata do papel e do lugar da natureza na vida humana. Há um consenso de que ‘natureza’ designa o mundo não-humano, o mundo que nós não críamos originalmente (Worster, 1991, p. 201).

A matriz socioambiental adota o "mundo natural" como categoria central, buscando dissolver fronteiras rígidas entre humanidade e biosfera. Autores como Warren Dean e Paulo H. Martinez integram o meio ambiente às estruturas econômicas e políticas. Martinez (2006) utiliza o Materialismo Histórico para inverter a lógica da matriz ecológica: em vez de partir da divisão, ele foca na construção recíproca entre sociedade e natureza. 

Uma das peculiaridades mais destacadas da História Ambiental seria, assim, o exame das relações entre os seres humanos e, dentro e a partir delas, a análise das relações que se estabelecem com o mundo natural (Martinez, 2006, p. 19). 

Nesta visão, o ambiente possui uma "face humana", sendo resultado de formações sociais que desencadeiam "agravos" ou interações simbióticas no mundo natural. A natureza é aqui entendida como parte indissociável dos processos de produção e poder.

A matriz geográfica utiliza o espaço e a paisagem como categorias sociais e políticas, recorrendo à historiografia clássica (Caio Prado Jr., Sérgio Buarque de Holanda) para compreender a ocupação do território. Para historiadores como Dora Shellard Corrêa e Janes Jorge, a paisagem é "dinâmica e humanizada". Corrêa (2013) propõe a análise do sentido político e jurídico da paisagem por meio da "sobreposição de paisagens" no Barão de Antonina (Mata de Itapeva). Esse conceito revela como as agendas do Estado ocultam representações anteriores do território para impor novos sentidos governamentais. De forma análoga, Janes Jorge demonstra como a degradação do Rio Tietê reflete a apropriação do espaço urbano e a acentuação das desigualdades sociais em São Paulo.

A despeito da diversidade de matrizes, persiste no campo uma dicotomia entre o humano e o não-humano. Colacios (2017) ressalta que mesmo na História Ambiental Urbana o meio ambiente é frequentemente reduzido a "nichos" (rios, parques), mantendo o ser humano no entorno da natureza, em vez de integrá-los. José Augusto Pádua (2010) caracteriza a posição do historiador nesse cenário como "flutuante", em que o pesquisador se coloca em um lugar privilegiado de observação externa. Essa separação impede o uso de categorias como "ambiente artificial", mantendo a caixa-preta selada e limitando a compreensão da totalidade da biosfera como parte da trajetória histórica.

A abertura da "caixa-preta" revela que o meio ambiente não é um conceito singular, mas plural: os "meios ambientes". Latour propõe que o termo possui duas significações complementares: é o "complementar de um conjunto" (o depósito de nossas ações) e a "união entre o conjunto e seu complemento" (aquilo que nos invade e nos diz respeito) (Latour et al., 1998). Essa transição teórica é acompanhada pela "inversão antropológica" observada na década de 1970, quando a natureza deixou de ser vista como uma força forte e dominável para ser compreendida como fraca e indefesa diante da ação globalizada. A robustez da História Ambiental depende, portanto, de sua capacidade de superar visões puramente técnicas e fragmentadas. O desafio futuro reside em questionar se a sociedade e a historiografia são capazes de se perceberem como parte integrante da biosfera ou se continuarão a tratar os meios ambientes apenas como recursos externos sob gestão flutuante.

Referência da fonte analisada: DOMENECH COLACIOS, Roger. Os meios ambientes da História Ambiental brasileira: pela abertura da caixa-preta. História Revista, Goiânia, v. 22, n. 2, p. 6–22, 2017. DOI: 10.5216/hr.v22i2.47142. Disponível em: https://revistas.ufg.br/historia/article/view/47142. Acesso em: 20 set. 2026.


Roger Domenech Colacios é um historiador com formação acadêmica voltada à História Social, História das Ciências e História Ambiental. Sua trajetória começou na graduação em História pela Universidade Estadual de Londrina (UEL), concluída em 2006. Na Universidade de São Paulo (USP), realizou o mestrado em História Social, concluído em 2009, e o doutorado na mesma área, em 2014. Em 2017, aprofundou sua formação com um pós-doutorado em História Ambiental pela Universidade Estadual Paulista (UNESP). Sua trajetória revela, portanto, uma aproximação progressiva entre a História Social, a História das Ciências e as questões ambientais. Essa combinação permite investigar não apenas os processos sociais e históricos, mas também as relações estabelecidas pelas sociedades com a natureza, os conhecimentos produzidos sobre o mundo natural e as transformações ambientais ocorridas ao longo do tempo. Atualmente, é docente do Curso de Comunicação e Multimeios (CMM), vinculado ao Departamento de Fundamentos da Educação (DFE), e professor do Programa de Pós-Graduação em História (PPH) da Universidade Estadual de Maringá (UEM). Na UEM, também coordena o Laboratório de Pesquisa em Educação e História Ambiental (LEHA), espaço dedicado à pesquisa e à reflexão sobre as relações entre educação, história e ambiente. Integra ainda o Laboratório do Tempo Presente (LabTempo) e o Laboratório de Pesquisa em História Agrária (LAPHA). Sua trajetória acadêmica permite situar sua produção em uma área interdisciplinar da História, na qual questões relacionadas às ciências, agricultura, sociedade, ambiente e produção do conhecimento podem ser analisadas historicamente. É justamente essa trajetória que torna sua produção relevante para quem procura compreender como a História Ambiental pode ser praticada, quais problemas históricos podem ser investigados e de que maneira diferentes tipos de fontes e campos do conhecimento podem ser articulados na pesquisa histórica. 
(Fonte: http://lattes.cnpq.br/0041482937454960)

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