"Eu sou o que me cerca. Se eu não preservar o que me cerca, eu não me preservo".
José Ortega y Gasset

sexta-feira, 30 de outubro de 2026

Entre os rios, matas e a memória ambiental de Elisabeth Germer sobre a Mulde de Timbó

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O presente estudo analisa a transcrição do depoimento oral de Elisabeth Germer. A gravação original foi conduzida pelos pesquisadores Martin e Vanessa, e contou com o apoio dos bolsistas Tanise K. Oliveira do curso de História e Irving F. Gomes da Silva, do curso de Engenharia Florestal da FURB. A entrevista integra o acervo do Grupo de Pesquisas de História Ambiental do Vale do Itajaí. A entrevista também compôs fonte para a pesquisa histórica e social da elaboração do Plano de Manejo do Parque Natural Municipal Freimund Germer, realizada pela FURB sob coordenação geral de Julio Cesar Refosco e coordenação socioeconômica de Vanessa Dambrowski e Shimene Feuser, sendo estas últimas integrantes do grupo.

A transcrição reveste-se de valor documental para a historiografia do Vale do Itajaí ao registrar as memórias de uma moradora e ex-coordenadora de Meio Ambiente e de Cultura da região. O relato abrange desde a trajetória de seus antepassados, como seu avô Freidemund Germer, reconhecido no texto como admirador e discípulo do naturalista Fritz Müller, até as dinâmicas de povoamento pioneiro e as transformações ecológicas verificadas ao longo do século XX. Sob o olhar da História Ambiental os elementos naturais como os rios, relevo, vegetação nativa e fauna, não são pano de fundo inerte na construção da Historia, são processos de sua dinâmica. A natureza é agente histórico ativo, e suas características físicas e ecológicas impõem limites, oferecem recursos e reagem continuadamente às intervenções das sociedades locais. 

A ocupação colonial da localidade da Mulde e do Morro Azul insere-se no processo de expansão do povoamento a partir do núcleo de Blumenau. Os imigrantes de origem alemã e pomerana, representados por famílias como Westphal, Piske, Weikman, Kopsch, Kriser e Gessner, estabeleceram-se acompanhando os cursos d'água, em especial o Ribeirão Mulde. O avanço pioneiro foi liderado por Johan Westphal, que adentrou a região margeando o ribeirão para a construção dos primeiros ranchos de palmito com cobertura de folhas de guaricana (Germer, 2015).

A percepção cultural da paisagem pelos imigrantes refletiu-se na atribuição de nomes aos acidentes geográficos. A topografia do Morro Azul evocou na comunidade a memória de suas regiões de origem, sendo denominada por eles como "Unsere Schweiz" ("Nossa Suíça"). O próprio termo Mulde, segundo Germer (2015), remete geograficamente à conformação de um vale circundado por elevações. O processo de apropriação territorial deu-se sobre espaços previamente habitados por populações indígenas. A relação entre os colonos europeus e os povos nativos foi marcada por ambivalências, primeiro pela apropriação do território e dos saberes técnicos.  Os imigrantes incorporaram saberes indígenas cruciais para a sobrevivência local, tais como o uso do tipiti (prensa vegetal) para o processamento da mandioca e do aipim na fabricação de farinha, além do aprendizado de técnicas de artesanato tradicional. E também pelos conflitos sobre o território e os atos de violência. A ocupação das terras indígenas gerou tensões e confrontos armados violentos de ambos os lados. Em decorrência desse processo, as elites locais e o poder administrativo organizou, em Blumenau, os grupos de "bugreiros" encarregados de caçar as populações nativas, resultando no abatimento sistemático de grupos indígenas e no deslocamento forçado dos sobreviventes em direção ao planalto (Germer, 2015).

A colonização europeia no Vale da Mulde promoveu alterações estruturais na cobertura vegetal e no uso do solo. A abertura de clareiras para o assentamento e a implantação de roças baseou-se na derrubada da vegetação nativa. A madeira abatida não atendia imediatamente a um circuito mercantil de exportação, ao contrário, era queimada ou deixada para apodrecer no próprio local com o intuito de preparar o solo para a agricultura de subsistência. A subsistência e a economia local estruturaram-se a partir de uma diversidade de cultivos e técnicas de processamento agrícola

Ocorreram cultivos de subsistência e para comercialização, predominando plantio de mandioca/aipim, milho, cana-de-açúcar com uso de engenhos para a produção de açúcar mascavo e araruta. O processamento da araruta envolvia socar e ralar a raiz, lavar a massa em água para o assentamento da fécula, cortar os blocos com pás e secá-los ao sol sobre mesas de madeira. Entre os anos de 1940 e 1945, introduziu-se o cultivo de arroz irrigado nas áreas de baixada. Essa inovação técnica foi ensinada aos agricultores locais por agricultores de origem italiana vindos de Rio dos Cedros, entre os quais destaca-se a figura do agricultor Andreata (Germer, 2015).

A alimentação era complementada pela coleta e cultivo de frutas nativas, como araçá (vermelho e amarelo), goiaba, bacupari, cambucá e jabuticaba. Concomitantemente, espécies exóticas foram introduzidas nos pomares domésticos, tais como tangerina, laranja e carambola. Os cursos d'água exerceram múltiplas funções no cotidiano da comunidade: serviam como vias primárias de transporte e navegação na ausência de estradas consolidadas, fontes para pesca e dessedentação, e, simultaneamente, receptáculos para o descarte de efluentes e resíduos domésticos. 

A fauna nativa constituiu uma fonte proteica para os moradores da Mulde. A prática da pesca era realizada quinzenalmente ou durante períodos de chuva intensa e tempestades (torós), quando espécies como jundiá, traíra, cascudo, piava e cará subiam os riachos e eram capturadas com o auxílio de balaios. A caça integrou a rotina alimentar das famílias coloniais devido à escassez diária de carne de gado. O abate focava em aves e mamíferos de médio porte, como paca, cutia, cateto (porco-do-mato), jacu, macuco e jacutinga. Determinados animais, a exemplo do tatu, não eram consumidos pela comunidade de origem alemã, sendo essa prática associada exclusivamente aos costumes da população cabocla. A evolução temporal das práticas extrativas gerou conflitos de valores no interior da comunidade. Enquanto no período inicial da colonização a caça e a pesca fundamentavam-se estritamente na necessidade biológica de sobrevivência familiar, em momentos posteriores a caça assumiu um caráter esportivo e recreativo, sendo qualificada na fonte como uma prática de degradação ambiental desprovida de função alimentar (Germer, 2015).

As práticas culturais e comunitárias na Mulde mantinham profunda conexão com o uso dos recursos ambientais e a organização do espaço. O trabalho estruturava-se em mutirões para tarefas agrícolas e preparativos de festividades. Os rituais de casamento desdobravam-se ao longo de dias, envolvendo o abate comunitário de aves para o preparo da cabidela e a realização do ritual do "quebra-caco" (Polterabend), no qual louças eram quebradas para trazer sorte aos noivos, que deviam posteriormente varrer e recolher os fragmentos. Os hábitos de higiene dividiam-se entre o uso direto dos cursos d'água e o uso de banheiras de cimento alimentadas por água aquecida em tachos (Germer, 2015).

A flora nativa e cultivada possuía ampla aplicação ritual e religiosa. O cultivo da murta gigante nos jardins domésticos destinava-se à confecção de guirlandas fúnebres para os sepultamentos. Adicionalmente, cultivavam-se lírios especificamente programados para florescer no mês de novembro, abastecendo as homenagens prestadas aos mortos no Dia dos Finados. Essa dimensão sagrada estendia-se à disposição dos cemitérios luteranos da região. Esses locais, localizados em encostas de morros, apresentavam túmulos construídos no sentido inverso à inclinação do terreno, garantindo que os mortos ficassem voltados para o nascer do sol, conforme os preceitos teológicos e as tradições antigas da comunidade (Germer, 2015).

O ambiente natural atuou também como refúgio e espaço de salvaguarda frente às intervenções repressivas do Estado brasileiro, especialmente durante a Campanha de Nacionalização (1936–1945). O regime varguista estabeleceu a proibição do uso público e privado da língua alemã. A repressão policial resultou na prisão de lideranças locais, como Freidemund Germer, detido por possuir acervos bibliográficos em alemão e fotografias, e em episódios de violência física extrema, a exemplo do morador Wille, submetido a tortura mediante a ingestão forçada de óleo cru introduzido pelo cano de uma espingarda após ter seus dentes quebrados. Diante dessas perseguições estatais e de eventos geológicos de grande impacto, como a catástrofe de deslizamentos de 1911, os moradores utilizaram locais nas matas da região para ocultar livros, documentos, fotografias e bens de valor histórico e cultural (Germer, 2015).

As transformações de longa duração na paisagem da Mulde resultaram em alterações severas na dinâmica hidrológica e florestal do vale. O desmatamento contínuo das encostas e cabeceiras provocou a redução gradual da vazão dos riachos e o desaparecimento de nascentes, promovendo a migração das águas superficiais para o lençol freático (Germer, 2015). 

Com o avanço da urbanização e das obras de infraestrutura contemporâneas Germer (2015) aponta impactos diretos sobre o meio físico e biótico, como a prática recorrente de encanar e canalizar riachos em novos loteamentos imobiliários, impedindo a manutenção do fluxo hídrico natural na superfície e alterando a paisagem local. Depois o abate mecânico de espécimes vegetais da flora nativa protegida por lei, como a canela-preta, mediante o emprego de máquinas pesadas para a abertura de acessos e instalação de torres de comunicação no Morro Azul. Paralelamente, a estrutura agrária tradicional calcada nos lotes coloniais originais, que mediam 750 metros de largura por 1,5 a 2 quilômetros de extensão, sofreu intensa fragmentação devido às sucessões hereditárias e ao avanço urbano. Esse processo descaracterizou a divisão espacial histórica e acelerou a perda da identidade paisagística das antigas colônias rurais da Mulde (Germer, 2015).

A trajetória histórica do Vale da Mulde constitui um caso ilustrativo para a historiografia ambiental ao revelar as transformações nas relações entre sociedade, natureza, economia e cultura no sul do Brasil. A evidência documental preservada pelo depoimento de Elisabeth Germer registra com precisão as etapas de ocupação territorial, as técnicas de manejo da flora e da fauna, os processos de adaptação agrícola e as subsequentes rupturas ecológicas provocadas pela modernização contemporânea no município de Timbó (Germer, 2015).

A análise desse registro permite interpretar que o povoamento colonial inicial estabeleceu uma relação de dependência material direta em relação à matriz biológica local. Em um primeiro momento, as florestas e os rios atuaram simultaneamente como vias de circulação, fornecedores de alimento, fontes de matéria-prima construtiva e refúgios topográficos em períodos de conflito político e catástrofes naturais. A apropriação desses recursos ambientais não ocorreu no vazio, mas foi mediada por saberes locais europeus e por expressivas assimilações técnicas oriundas das populações indígenas nativas. Com o passar das décadas, esse modelo de subsistência e manejo comunitário cedeu espaço a um padrão de uso intensivo do solo, adensamento imobiliário e implantação de infraestruturas técnicas. A explicação histórica para a degradação observada reside na transição de uma economia colonial de subsistência para uma lógica de expansão urbana e tecnológica que desconsiderou os limites ecossistêmicos do vale. O represamento e a tubulação de riachos, a supressão mecânica de espécies florestais protegidas e a divisão sucessória dos lotes coloniais tradicionais resultaram na alteração do regime hídrico, no empobrecimento da biodiversidade e na perda da identidade socioespacial da comunidade (Germer, 2015).

Dessa forma, a história ambiental da Mulde demonstra que a natureza não desempenhou o papel de mero cenário estático, mas operou como restrição física, conjunto de recursos materiais e força ativa permanente, moldando e sendo profundamente moldada pelas dinâmicas econômicas, sociais e culturais dos grupos humanos no Vale do Itajaí. Se você chegou até aqui, pode consultar a transcrição desta entrevista clicando aqui. O plano de manejo da UC pode ser consultado clicando aqui.

Elisabeth Germer (1940–2021) foi professora, historiadora, escritora, poeta, fotógrafa e ambientalista de Timbó (SC). Dedicou sua vida à educação, à preservação ambiental e à valorização da memória, da cultura e das tradições do município. Foi uma das fundadoras da APAE de Timbó, atuou no Departamento de Meio Ambiente e participou de importantes iniciativas culturais, incluindo o Museu do Imigrante e o grupo de danças Volkstanzgruppe Blauer Berg. Também deixou um importante acervo fotográfico e diversos registros sobre a história e a cultura da região.



Referência:

GERMER, Elisabeth. Entrevista concedida a Martin Stabel Garrote em junho de 2015. Timbó, SC: Grupo de Pesquisas de História Ambiental do Vale do Itajaí, 2015. 20 p.

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