"Eu sou o que me cerca. Se eu não preservar o que me cerca, eu não me preservo".
José Ortega y Gasset

sexta-feira, 25 de julho de 2025

Blog faz 16 anos

O blog do GPHAVI (Grupo de Pesquisas de História Ambiental do Vale do Itajaí) funciona há 16 anos, é um Programa de Extensão Permanente,  como uma plataforma digital central para a divulgação e discussão de temas da história ambiental, com foco na região do Vale do Itajaí. Dedicado a História Ambiental, o blog dissemina o conhecimento científico, publicando artigos, resultados de pesquisas e reflexões de seus membros e colaboradores. Isso é fundamental para tornar a pesquisa acadêmica mais acessível ao público, contribuindo para a educação e a conscientização sobre as complexas relações entre as sociedades e o meio ambiente ao longo do tempo. Além disso, o blog promove as atividades do grupo, divulgando projetos de pesquisa, chamadas para iniciação científica (como PIBIC-CNPq) e celebrando marcos importantes, a exemplo do 21º aniversário do GPHAVI. Essa atuação reforça a visibilidade do grupo, atrai novos pesquisadores e estimula a colaboração.

Como um espaço virtual, o blog aborda criticamente questões ambientais, tanto atuais quanto históricas. Ele explora temas como as ameaças ao Parque Nacional da Serra do Itajaí, a influência do clima e da imigração no Vale do Itajaí do século XIX, e o impacto ambiental da colonização alemã na região. Com isso, contribui para a compreensão das raízes históricas dos desafios ambientais de hoje e para a formulação de soluções mais informadas. Com isso colabora ao enfatizar o papel da história ambiental na educação e sua conexão com questões sociais mais amplas, como direitos trabalhistas e conservação da biodiversidade, mostrando a relevância interdisciplinar desse campo do conhecimento.


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quarta-feira, 23 de julho de 2025

Uma viagem no tempo e no território: explorando as colônias alemãs do Sul do Brasil em 1936

Olá, amantes da história e do meio ambiente! Hoje, vamos mergulhar em um texto fascinante, parte da obra Im Kamp und Urwald Südbrasiliens: Ein Skizzenbuch zur Siedlungs- und Deutschtumskunde, de Hugo Grothe, especificamente a última parte de um subcapítulo, traduzida por Sonia Maria Wittmann e publicada como No Campo e na Mata Virgem do Sul do Brasil na revista Blumenau em Cadernos (tomo 51, n. 4, p. 1-128, jul./ago. 2010). Este relato nos transporta para 1936, acompanhando a viagem de Grothe e seu filho Olaf pelas terras catarinenses. Mas não vamos apenas recontar a história. A partir da abordagem da História Ambiental, tendo como ponto de partida  Donald Worster, José Augusto Pádua e John McNeill, vamos entender como o ambiente moldou (e foi moldado por) a experiência dos colonos alemães no sul do Brasil.

A narrativa de Grothe é rica em detalhes e oferece um panorama da vida, das lutas e das aspirações dos colonos alemães da época. Começa descrevendo sua chegada à colônia menonita de Witmarsum, no alto Krauel, onde alemães-russos se estabeleceram. Ele nota a paisagem montanhosa e os riachos como o ribeirão Alto Krauel, e a "confusão de tocos de árvores nos campos", indicando a proximidade da colonização menonita. A recepção é calorosa, com os moradores exibindo "verdadeira alegria de uma visita da terra alemã". Ele testemunha a organização comunitária, com um moinho já instalado e o transporte de derivados de leite para Hammonia e Blumenau apenas dois anos e meio após o início dos trabalhos. A disciplina e a perseverança são notáveis, e a comunidade demonstra grande preocupação com a educação, com dois grandes prédios escolares. Ao final de sua fala, um "viva para a antiga Pátria alemã" é entoado com profundo sentimento.

Apesar dos esforços, Grothe também percebe "luzes bem turvas" no quadro cultural dos descendentes de alemães em Santa Catarina. Ele visita uma escola rústica perto de Timbó, onde 40 crianças de imigrantes pomeranos aprendem com um colono que atua como professor por "amor à causa". Grothe se impressiona com o "grande número de crianças dos colonos alemães" (muitas famílias com 15, 16, 17 ou 18 filhos), o que ele considera uma "força vital extraordinária" e uma ajuda valiosa no trabalho rural. Contudo, a carência de material de leitura em alemão é evidente, limitando-se a Bíblias, livros de canto, almanaques e, ocasionalmente, um jornal local. A situação se agrava quando ele percebe que as crianças não conhecem contos de fadas alemães como "Joãozinho e Maria" ou "Chapeuzinho Vermelho", evidenciando a "total submersão da cultura alemã entre a terceira geração de imigrantes". Ele aponta a necessidade de um "imenso trabalho de ressurreição intelectual e psíquico", mencionando o "Lesepatenwerkes", uma iniciativa do "Terceiro Reich" de envio de material pedagógico para alemães no exterior.

A jornada de Grothe segue o rio Itajaí-Açu até Itajaí, um porto histórico para a colonização alemã. A região, com extensas plantações e pastagens, demonstra a transformação da paisagem ao longo do rio. Itajaí é apresentada como uma cidade abastada e um importante porto de transbordo, escoando produtos como milho, arroz, feijão, e madeira de seu "Hinterland" (Blumenau, Brusque, Rio do Sul, Taió). A navegabilidade limitada da barra do rio (apenas navios de até 3,7m de calado) mostra um desafio natural à expansão do comércio. Grothe observa o "caráter alemão de Itajaí", apesar da dispersão da população, e destaca figuras importantes de origem alemã que atuaram na política local e nacional.

Nos meses quentes, colonos de Blumenau buscam o litoral. Cabeçudas e Camboriú são os balneários preferidos, descritos como aglomerações de casas de madeira e cabanas de pescadores, com areia macia e recifes de granito. Grothe relata a presença de "feridas de aclimatação" em crianças e mulheres, erupções cutâneas que duram meses, atribuídas a picadas de moscas venenosas pela população local e sem tratamento eficaz conhecido pelos médicos, sendo a limpeza o único alívio. Este é um indicador claro dos desafios de adaptação humana ao novo ambiente ecológico.

A viagem é marcada por dificuldades, como a ineficácia dos serviços telegráficos, que levam à perda de passagens e redução drástica de recursos. A jornada de Grothe culmina com um voo de Joinville, cidade que ele admira pela forte presença de nomes alemães em placas comerciais e arquitetura que "lembram a pátria". Ele destaca a vibrante vida comunitária alemã, com clubes, bombeiros voluntários, hospital alemão e diversas sociedades, além do "Kolonie-Zeitung", considerado o jornal brasileiro mais antigo. Joinville e Blumenau são descritas como rivais na busca por ser o modelo de trabalho e formação alemã em Santa Catarina.

Ao analisar com a História Ambiental este trecho de Grothe, percebemos que suas observações, embora centradas na cultura e na colonização alemã, revelam muito sobre a interação humana com a natureza. Primeiro, ele não apenas descreve o ambiente, mas mostra como ele é um "cenário ativo da colonização". A "mata virgem" impõe desafios e oferece recursos, moldando os trajetos e as possibilidades dos colonos. A presença de tocos de árvores nos campos e a adaptação a solos pedregosos em Witmarsum ilustram um ambiente que está sendo transformado pela ação humana, mas que também resiste e impõe limites. A própria ideia de "avançar logo mato adentro" revela uma relação de constante desafio e superação com a floresta. 

Segundo, a vida nas colônias alemãs e descrita intrinsecamente ligada à agricultura familiar, à criação de gado leiteiro e ao uso coletivo de infraestrutura como o moinho. O trabalho é intensivo, com crianças e famílias integradas precocemente à produção rural, cuidando de porcos e trabalhando no campo. Isso aponta para uma economia camponesa de subsistência, com tentativas de inserção mercantil através da venda de derivados de leite.

Terceiro, a narrativa projeta uma visão idealizada do "espírito alemão", enfatizando a perseverança e o trabalho. A natureza, neste contexto, é vista como um espaço a ser civilizado, domado e cultivado. Há uma clara oposição entre a "mata virgem" e o "trabalho alemão", sugerindo que a floresta é um obstáculo a ser superado para a manifestação da ordem e progresso germânicos. 

Quarto, o seu relato nos situa em 1936, um momento de consolidação das colônias alemãs. Ele descreve o avanço da fronteira agrícola e o desmatamento contínuo. No entanto, sua visão eurocêntrica e nacionalista oculta desigualdades e processos de exclusão. A ausência completa de menção a povos originários, caboclos ou afrodescendentes que habitavam ou influenciaram a paisagem é um silenciamento revelador de "outras histórias da paisagem". Mesmo a precariedade material de algumas escolas é subordinada a um elogio da perseverança, escamoteando uma crítica social mais profunda. A paisagem modificada, as construções em estilo germânico e os nomes dos rios são apresentados como parte da construção de um "mundo alemão tropical", onde o ambiente se torna palco para a recriação da pátria.

Quinto, podemos identificar no trecho referências a impactos ambientais. A presença de "tocos de árvores nos campos" demonstra o desmatamento. A descrição das "feridas de aclimatação" que afetam crianças imigrantes (como o filho de Grothe, Olaf) e mulheres é um indicador direto dos efeitos da transposição de corpos humanos para um novo ambiente ecológico. A construção de infraestruturas, como o moinho e as pontes, e a modificação de cursos de água para a navegação (no rio Itajaí-Açu) também são exemplos de transformações ecológicas. 

E um sexto ponto a considerar é que Grothe demonstra como os colonos se inserem em sistemas de produção e circulação que transcendem o local. O moinho, o transporte de leite e a tentativa de expandir a ferrovia conectam as colônias a sistemas mais amplos de energia e mercadorias. A descrição do porto de Itajaí, dos vapores da "Companhia de Navegação Hoepcke" e da aspiração por uma ligação ferroviária com Blumenau revelam interconexões entre as colônias e os centros exportadores, sendo parte de uma economia global. As referências à cultura alemã, as políticas culturais do "Terceiro Reich" e o envio de materiais pedagógicos pelo "Lesepatenwerk" conectam o Sul do Brasil a um projeto cultural transnacional, mostrando a mobilidade em escalas espaciais e temporais.

A leitura do texto de Hugo Grothe nos permite ir além do mero relato de viagem. É uma fonte que trata a natureza não como pano de fundo, mas um ator fundamental que interage com os modos de produção, as percepções culturais e as transformações ecológicas. Percebemos as complexas relações socioambientais, as desigualdades intrínsecas e as conexões das colônias locais com escalas globais de migração, cultura e economia. Assim, o relato de 1936 de Grothe se torna um valioso documento para compreender não apenas a história da colonização alemã no Brasil, mas também a história ambiental do território catarinense, suas modificações e os desafios de aclimatação e coexistência cultural em um "mundo alemão tropical".

domingo, 20 de julho de 2025

Clima e imigração no Vale do Itajaí no século XIX

Imagem gerada com IA
Você já parou para pensar nos desafios enfrentados por aqueles que buscam uma nova vida em terras distantes? No século XIX, milhares de imigrantes europeus, principalmente alemães e italianos, embarcaram em uma jornada rumo ao sul do Brasil, especificamente o Vale do Itajaí, em Santa Catarina. Longe de ser um caminho fácil, a adaptação a um ambiente com características abióticas e bióticas totalmente diferentes de sua terra natal se tornou um dos principais obstáculos.

Vamos explorar aqui o artigo “A influência do clima nos imigrantes europeus do Vale do Itajaí-SC (século XIX)”, de autoria de Gilberto Friedenreich dos Santos, Suzana Beatriz Petters, Juliano João Nazário e Martin Stabel Garrote, publicado na revista científica Ars Historica da UFRJ. A pesquisa se insere nas chamadas Humanidades Ambientais e procura compreender como o clima impactou a vida dos colonos alemães e italianos que se estabeleceram no Vale do Itajaí no século XIX. Com base em cartas de imigrantes, relatórios de administração colonial e relatos de viajantes, os autores analisam o processo de aclimatação dos europeus a um ambiente muito diferente de suas terras de origem.

Inicialmente, o clima representava uma das maiores dificuldades para o estabelecimento e a adaptação dos colonos europeus no Vale do Itajaí. Relatos de viajantes, de Dr. Hermann Blumenau (o empreendedor da colonização da região) e dos próprios imigrantes documentam esse processo de aclimatação. Um exemplo marcante é a experiência de Baumgarten, um imigrante alemão que chegou em junho de 1853. Em uma carta de outubro do mesmo ano, ele descreve as severas dificuldades para trabalhar na roça devido à aclimatação, mencionando pés inchados, o corpo coberto por abscessos, dores de cabeça e fraqueza. Ele estava impossibilitado de fazer qualquer trabalho.

No entanto, a narrativa sobre o clima começou a mudar. Dr. Blumenau, antes de fundar a colônia, já considerava a salubridade do clima como um fator crucial para a escolha do território, atribuindo a ela poucos casos de doenças. Em seus relatórios, ele afirmava que os problemas de aclimatação (como pés inchados e erupções de pele) desapareciam rapidamente com uma dieta e estilo de vida adequados, e que o clima à beira do Itajaí era "excepcional e, sem dúvida, muito saudável para a constituição física alemã".

Curiosamente, o mesmo Baumgarten que enfrentou grandes dificuldades, menos de um ano depois, em abril de 1854, já descrevia o clima da colônia como "ameno e saudável". Ele relatou que "De março a outubro é uma contínua primavera e os meses de verão são mais quentes que na Alemanha, é verdade, mas bem suportáveis e o calor é abrandado pelos ventos que regularmente sopram do mar e de terra e que tornam as noites frescas e agradáveis".

Esse discurso de um clima "ameno e saudável" prevaleceu nas fontes e foi usado como propaganda para atrair novos imigrantes, associado a fatores de saúde e progresso. Folhetos com mapas e textos explicativos eram distribuídos na Alemanha, exaltando o clima salubre e agradável do Vale do Itajaí. Mesmo com os europeus na Alemanha associando o clima tropical a problemas, cartas como as dos irmãos Weise afirmavam que o calor "não representava problema", pois as pessoas se acostumavam rapidamente. Os irmãos Kirschner, que chegaram em 1854, também não manifestaram problemas de aclimatação, contestando o "exagero atribuído pelos europeus em relação ao calor e às doenças".
Adaptação de Hábitos e Desafios Contínuos

O clima não influenciou apenas a saúde, mas também condicionou mudanças nos hábitos dos colonos, especialmente os alimentares. A dificuldade de cultivar cereais como o trigo no clima quente levou à substituição do pão de trigo por pão de milho. A dieta passou a incluir carne-seca, bolinhos, pirão de farinha de mandioca e feijão preto, no lugar da manteiga e cerveja da Alemanha.

A adaptação também se estendeu às técnicas de cultivo. Em 1866, a agremiação "Culturverein der Colonie Blumenau" discutiu estratégias para enfrentar o intenso frio, propondo a importação de sementes de grama e capim mais resistentes às geadas dos Estados de La Plata.

Apesar do tom geralmente positivo, o clima também trouxe desafios. Dr. Blumenau, em 1855, relatou um verão excepcionalmente quente que causou várias doenças. Em 1856, ele citou casos graves e até fatais de febres reumáticas, gástricas e nervosas, que afetaram tanto os habitantes locais quanto os recém-chegados e aclimatados, associando-as ao tempo seco e calor intenso. Christian Müller, um zoólogo que viveu em Blumenau nos anos 1880, descreveu noites verdadeiramente frias no inverno e, meses depois, um verão com sol "queimando quase verticalmente", tornando a hora do almoço insuportável. Ele notou como o clima influenciava a rotina diária. Além disso, enchentes foram extensivamente relatadas nos documentos do Dr. Blumenau, mostrando que os eventos associados ao clima nem sempre foram benéficos.

No final do século XIX e início do século XX, relatos de viajantes notaram mudanças físicas na aparência dos colonos, como o reconhecimento por Lacmann, em 1903, de uma "metamorfose". A cor da face dos nascidos na colônia tinha uma leve tonalidade amarela, e a estatura era um pouco menor que a do agricultor alemão, embora sem representar uma "degeneração da raça". Esse tipo de discurso reflete claramente as influências do pensamento evolucionista e do determinismo ambiental, comuns à época, marcados por categorias raciais e por uma visão hierarquizada das populações humanas.

Ao investigar essas representações do clima, o artigo contribui para uma História Ambiental crítica, mostrando como discursos sobre a natureza foram usados para moldar políticas migratórias e justificar ocupações territoriais. Além disso, ajuda a compreender os impactos das mudanças ambientais na construção das identidades culturais e sociais da região. Estes documentos históricos, incluindo cartas pessoais e relatórios oficiais, são fontes valiosas para compreender as relações passadas e presentes entre a sociedade e a natureza. Ao analisá-los, percebemos as inter-relações da interação humana com o meio ambiente e como as percepções e adaptações ao clima foram cruciais para o desenvolvimento local. A experiência dos imigrantes europeus no Vale do Itajaí no século XIX foi marcada por uma profunda interação com o clima. De um obstáculo inicial para a aclimatação a um elemento fundamental na propaganda e no desenvolvimento da colônia, o clima moldou hábitos, influenciou a saúde e deixou uma marca indelével na história dessa população.

Este trabalho ajuda a perceber que a História do clima é também uma história de adaptações culturais e estratégias políticas. Ao olhar para o passado sob a lente da História Ambiental, compreendemos melhor os desafios contemporâneos das mudanças climáticas, dos deslocamentos humanos e da sustentabilidade.

📖 Você pode acessar o artigo completo aqui:
👉 Leia o artigo na Revista Ars Historica

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quinta-feira, 19 de junho de 2025

O papel da História Ambiental na educação contemporânea



O artigo escrito por Nathália Moro, Anelisa Gregoleti e Christian Fausto dos Santos propõe uma reflexão interdisciplinar e pedagógica sobre o papel da História Ambiental no contexto educacional contemporâneo. Segundo os autores, a proposta da História Ambiental é “redefinir a perspectiva histórica convencional”, promovendo análises que integrem as dimensões políticas, sociais, culturais e ambientais.

Essa abordagem, ainda rara nas escolas e pouco explorada na formação docente, tem o potencial de aproximar os estudantes da compreensão de que o ser humano é parte integrante dos ecossistemas — ideia reforçada com a citação de Clive Ponting:

“Os seres humanos também fazem parte dos ecossistemas terrestres, mesmo nem sempre estando conscientes desse fato e de suas implicações.” (Ponting, 1995, p. 43)


O artigo resgata autores clássicos e contemporâneos — como Marc Bloch, Fernand Braudel, William Cronon e Alfred Crosby — para demonstrar como a História Ambiental surgiu como reação à visão humanocêntrica da história, que separava sociedade e natureza. A crítica de Donald Worster aparece como central, especialmente ao destacar que:

“A História Ambiental rejeita a premissa convencional de que a experiência humana teria se desenvolvido sem restrições naturais.” (Worster, 1991, p. 199)

O estudo também enfatiza que a História Ambiental exige uma abordagem temporal mais ampla, que inclua não apenas o tempo histórico, mas também o tempo geológico, com suas dinâmicas ecológicas, climáticas e biológicas. Os autores defendem que a adoção da História Ambiental no ensino pode contribuir significativamente para a formação de uma consciência ecológica crítica. Isso passa, necessariamente, pela superação da fragmentação entre disciplinas escolares — sobretudo entre as ciências humanas e naturais.

Para isso, propõem uma educação que situe os estudantes não apenas no tempo, mas também no espaço, ou seja, que integre as paisagens, os biomas e as marcas da ocupação humana aos conteúdos escolares. Um exemplo é a Mata Atlântica, que apesar de sua importância histórica e ambiental, é muitas vezes invisibilizada no ensino de História. Como destacam os autores:

“Devido à intensa exploração, resta apenas 5 a 12% da Mata Atlântica, principalmente em pequenos fragmentos florestais.” (Ferrão, 1992; Dean, 1996).

A pesquisa finaliza enfatizando que a História Ambiental, quando integrada ao ensino, pode ser um poderoso instrumento de Educação Ambiental, por meio da articulação entre teoria, pesquisa e práticas pedagógicas. É preciso, segundo os autores, que o ensino leve os estudantes a compreenderem que as ações humanas do passado moldam o presente — e comprometem o futuro. Assim existe uma urgência de uma educação comprometida com a sustentabilidade, capaz de formar sujeitos críticos, conscientes e atuantes. A sustentabilidade, portanto, é apresentada como um eixo transversal e necessário para uma pedagogia do presente e do futuro.

“Tecendo conexões sustentáveis” é um texto fundamental para educadores e pesquisadores que desejam compreender o potencial formativo da História Ambiental. Ao integrar teoria, crítica e propostas didáticas, o artigo convida à reflexão sobre como ensinar História de forma ambientalmente consciente e socialmente engajada.


📘 Autoras: Nathália Moro, Anelisa Mota Gregoleti e Christian Fausto Moraes dos Santos
📍 Publicado em: Revista Educação e Saber – REdeS, v. 2, edição especial dos Anais do II Seminário Internacional sobre Educação e Desenvolvimento Regional (2025), p. 47–56.
🔗 DOI: 10.24302/redes.v2ianais.5161

segunda-feira, 9 de junho de 2025

Desvendar a História Ambiental: um ensaio sobre abordagens e fontes, por José Augusto Drummond


Vamos tratar do texto Caminhos para a História Ambiental – Ensaio sobre Abordagens e Fontes, de José Augusto Drummond, publicado na revista HALAC – Historia Ambiental, Latinoamericana y Caribeña (v.15, n.1, 2025), p. 452–484. 🔗 Disponível em: https://halacsolcha.org/index.php/halac. 

Neste ensaio o pesquisador José Augusto Drummond compartilha de sua caminhada intelectual e  metodológica, que percorreu para construir sua leitura e prática da História Ambiental (HA). O texto se estrutura como uma jornada teórica, vivencial e interdisciplinar, revelando não apenas fontes e conceitos, mas também dilemas, encontros e influências decisivas.

Logo na introdução, o autor esclarece sua proposta: não pretende apresentar uma metodologia rígida, mas sim reunir “observações e aprendizados sobre abordagens e fontes referentes à história ambiental” (p. 452). Trata-se de um ensaio pensado a partir de uma palestra dada em 2023, o que lhe confere um tom informal, ao mesmo tempo crítico e didático. 

Drummond afirma sua filiação direta à abordagem do historiador Donald Worster, especialmente à proposta que ficou conhecida como perspectiva sócionaturalista. Essa perspectiva articula três eixos: (1) o ambiente biofísico, (2) as tecnologias de uso da natureza e (3) os valores e culturas humanas envolvidos nesse processo. Segundo o autor, para que uma pesquisa seja verdadeiramente uma história ambiental “de raiz”, ela precisa lidar com esses três níveis simultaneamente. Citando Worster, ele enfatiza:

“Um estudioso que pratica a HA de raiz [...] tem que lidar com as três dimensões.” (p. 455)

Ao longo do texto, Drummond apresenta autores que o influenciaram na construção de sua visão integrada: Julian Steward, Leslie White, Marvin Harris, Darcy Ribeiro e Carl Sauer. Ele reconhece, por exemplo, que Steward já trabalhava com uma abordagem tripartite semelhante à de Worster, sob o nome de “ecologia cultural” — estudando:

 “o quadro de recursos naturais disponíveis, as tecnologias de exploração desses recursos, e os valores e estruturas sociais que emergem daí” (p. 457).

Drummond lamenta que autores como Steward e Harris sejam pouco ensinados no Brasil e destaca que, embora associados ao evolucionismo cultural, suas propostas são centrais para pensar a história das interações entre sociedade e natureza de maneira materialista, porém crítica.

Um dos trechos mais provocativos do ensaio é quando Drummond discute o tempo geológico, muitas vezes ignorado pelos historiadores sociais. Segundo ele, praticar História Ambiental exige familiaridade com escalas temporais muito mais amplas do que as comumente trabalhadas nas ciências humanas.

“O praticante da HA precisa estar antenado para — e se sentir confortável com — as dilatadas escalas de tempo que marcaram o surgimento e mudança dos componentes da natureza.” (p. 463)

Ele também critica o “paradigma da imunidade humana” — a ideia, ainda presente em parte das ciências sociais, de que a natureza não condiciona a ação humana. Em contraposição, afirma que


“as sociedades humanas [...] não são imunes às ações e aos condicionantes das variáveis naturais.” (p. 464)


Drummond encerra com uma valiosa discussão sobre fontes, métodos e instituições voltadas à História Ambiental. Ele recomenda recursos como a revista HALAC, a Sociedad Latinoamericana y Caribeña de Historia Ambiental (SOLCHA) e outras plataformas nacionais e internacionais. Também defende o trabalho de campo, incentivando os pesquisadores a “calçarem as botas” e observarem diretamente as paisagens, as marcas humanas e os conflitos ambientais nos territórios que estudam (p. 465).

Drummond deixa claro que a História Ambiental não é uma simples subcategoria da História ou da Ecologia, mas sim uma ciência histórica com base interdisciplinar, que demanda domínio conceitual e abertura ao diálogo com diferentes campos do saber.

Em sua definição mais lapidar, ele afirma:

“A HA é o estudo das interações mútuas entre o mundo das sociedades humanas e o mundo da natureza, com a suposição de que as sociedades modificam a natureza e de que a natureza faz o mesmo com as sociedades.” (p. 466)


A leitura deste ensaio é fundamental para estudantes, pesquisadores e professores interessados na História Ambiental como prática crítica e transformadora. Com uma escrita clara, provocativa e generosa, José Augusto Drummond oferece aqui não apenas uma introdução ao campo, mas um verdadeiro manifesto pelo rigor e pela interdisciplinaridade na abordagem das questões socioambientais.

📖 Leia o artigo completo na revista HALAC:
🔗 Caminhos para a História Ambiental - HALAC 2025

quinta-feira, 5 de junho de 2025

🌱 Hoje é um dia especial: Dia Mundial do Meio Ambiente e aniversário de 21 anos do Grupo de Pesquisas de História Ambiental do Vale do Itajaí! 🎉

Hoje, 5 de junho, celebramos não apenas o Dia Mundial do Meio Ambiente, mas também um marco muito especial para a nossa comunidade acadêmica: os 21 anos do Grupo de Pesquisas de História Ambiental do Vale do Itajaí (GPHAVI), aqui na FURB.

A trajetória do nosso grupo é inspiradora. Surgimos a partir do entusiasmo e da iniciativa de um estudante interessados em pesquisar e compreender as complexas relações entre sociedade e natureza em nossa região. O GPHAVI nasceu a partir de uma Iniciação Científica. Ao longo dessas mais de duas décadas de atividades, mais de 60 estudantes participaram conosco, realizando Iniciações Científicas, Trabalhos de Conclusão de Curso, dissertações, tese de doutorado e diversas outras pesquisas que contribuíram para consolidar a História Ambiental como um campo de estudo fundamental no Vale do Itajaí e em Santa Catarina. 

Seguimos como formiguinhas, pouco a pouco produzindo com as Iniciações Científicas, como principal atividade, conhecimento sobre o Vale do Itajaí, ampliando o diálogo entre as Ciências Humanas, a Ecologia, a Geografia e outras áreas afins. Também, a partir das redes sociais, mantemos o compromisso com a divulgação científica, com este blogue, facebook, instagram e canal no youtube. E como sempre, na Universidade e região, promovendo eventos, publicações e ações que fortalecem e dão visibilidade à História Ambiental como uma perspectiva essencial para entender os desafios socioambientais contemporâneos. É uma necessidade pesquisar, refletir e intervir criticamente sobre as relações entre sociedade e meio ambiente, contribuindo para a formação de profissionais conscientes e comprometidos com um futuro mais justo e sustentável.

Parabéns a todas e todos que fizeram e fazem parte dessa história! 🎊
Que venham muitos outros anos de pesquisa, aprendizado e transformação!


📚 Um dos mais recentes Trabalhos de Conclusão de Curso desenvolvidos no GPHAVI foi realizado por Juliano João Nazário, estudante que participou de três projetos de Iniciação Científica ao longo de sua graduação e encerrou sua trajetória acadêmica com o TCC intitulado: 

🔎 “GPHAVI: a contribuição de um grupo de pesquisa para a História Ambiental”.

✨ O estudo é uma importante reflexão sobre a atuação do grupo e sua relevância na consolidação da História Ambiental como campo de pesquisa no Vale do Itajaí. 👉 Para quem deseja conhecer mais sobre a nossa trajetória, este trabalho é leitura fundamental!

🎥 Assista à apresentação pública




domingo, 18 de maio de 2025

Chamada para seleção de Projetos de Iniciação Científica – PIBIC-CNPq 2025

O GPHAVI, vinculado ao Departamento de História e Geografia da FURB, e Programa de Pós-graduação em Desenvolvimento Regional, está selecionando propostas de projetos de Iniciação Científica de estudantes da graduação para concorrer ao edital PIBIC-CNPq 2025.

As inscrições vão de 07 de abril a 02 de junho de 2025, e estudantes de graduação da FURB interessados em pesquisa nas áreas de História e Meio Ambiente estão convidados a participar.

📘 O que é História Ambiental?
A História Ambiental é uma abordagem historiográfica interdisciplinar que busca compreender a interação entre sociedades humanas e a natureza ao longo do tempo. Segundo o historiador Donald Worster, um dos fundadores da disciplina, a História Ambiental “estuda o papel desempenhado pelo ambiente natural no curso da história humana, assim como o impacto das ações humanas sobre esse ambiente”. Em outras palavras, é uma história que considera tanto os seres humanos quanto o mundo natural como protagonistas do processo histórico.

Essa perspectiva permite analisar como práticas econômicas, culturais e políticas transformaram paisagens, alteraram ecossistemas e moldaram modos de vida. No contexto do Vale do Itajaí, marcado por uma intensa colonização e exploração da Mata Atlântica, a História Ambiental revela os conflitos, adaptações e consequências ambientais da ocupação do território.

💬 Por que participar de uma Iniciação Científica no GPHAVI?

Fazer parte do GPHAVI significa integrar um grupo com 20 anos de experiência comprometido com a produção de conhecimento crítico e interdisciplinar, voltado à compreensão histórica dos impactos ambientais e à busca por alternativas sustentáveis para o futuro. A iniciação científica é uma oportunidade de aprofundar sua formação acadêmica, desenvolver habilidades de pesquisa e contribuir para debates relevantes sobre o território em que vivemos.

No GPHAVI estudantes de graduação de diferentes áreas — como História, Ciências Sociais, Comunicação Social, Jornalismo, Arquitetura, Biologia, Engenharias, Biomedicina, entre outras — podem submeter propostas de Iniciação Científica vinculadas às temáticas que analisamos ao longo desses anos de pesquisa. Assim as propostas devem dialogar com os desenvolvimento das pesquisas do grupo, em uma ou mais de nossas linhas de pesquisa, que articulam a relação entre sociedade e natureza, nas mais diversas dimensões.

São temas interessantes:

-Estudos que abordem as relações entre a natureza e a ação humana no processo de desenvolvimento do território do Vale do Itajaí, considerando aspectos econômicos, sociais e culturais, com foco em eventos históricos e transformações paisagísticas.

-Estudos que analisam como a paisagem é construída, percebida e representada social e culturalmente ao longo do tempo, por meio de fontes como relatos de viajantes, mapas, imagens, documentos administrativos e literatura.

-Estudos que abordem as interações entre grupos sociais e a biodiversidade regional, com atenção às práticas culturais, modos de subsistência, saberes locais e tradicionais, e sua relação com o uso e conservação dos recursos naturais.

-Estudos sobre os desastres naturais e os processos de vulnerabilidade socioambiental, compreendendo-os como resultantes de dinâmicas históricas e da intervenção humana no ambiente, especialmente em tempos de crise climática.

-Estudos que explorem as transformações ambientais associadas à colonização europeia na região, destacando os saberes, práticas e impactos das populações imigrantes na paisagem e na biodiversidade local.

🌍 Conheça as linhas de pesquisa do GPHAVI

História Ambiental
Esta é a linha matriz do GPHAVI, centrando-se na identificação dos processos e modificações ambientais resultantes da interação entre sociedade e natureza, desde os primórdios da humanidade até os dias atuais. Analisamos as mudanças ambientais ao longo do tempo para compreender melhor os desafios atuais e desenvolver estratégias sustentáveis. Um exemplo emblemático desta linha é o projeto guarda-chuva do GPHAVI: investigar a História Ambiental do Vale do Itajaí. Aqui, exploramos como a ocupação humana e as práticas culturais moldaram a paisagem e os ecossistemas da região.

História Ambiental do Desenvolvimento Regional
Esta linha se dedica a identificar e compreender os processos históricos de ocupação e uso dos recursos naturais que moldaram o desenvolvimento regional. Analisamos as problemáticas ambientais decorrentes desses processos para propor modelos e indicadores de desenvolvimento mais sustentáveis, visando uma gestão equilibrada dos recursos naturais. Nosso objetivo é traçar um panorama histórico que ilumine as melhores práticas para o desenvolvimento sustentável da região.

Desenvolvimento Regional Sustentável
A linha de Desenvolvimento Regional Sustentável visa uma análise aprofundada do território, explorando sua diversidade histórico-cultural e os impactos socioambientais. Pesquisamos temas como gestão e análise de políticas públicas, governança, planejamento urbano e regional, e turismo. Também investigamos dinâmicas socioeconômicas, como economia solidária, ciência e tecnologia, e redes de cooperação. Nosso objetivo é promover processos efetivos de desenvolvimento regional sustentável, considerando a interconexão entre diferentes fatores que impactam a região.

Tecnologia Social, Desenvolvimento Regional e Sustentabilidade Ambiental
Nesta linha, investigamos a produção de tecnologias sociais e sua relação com o desenvolvimento regional e a sustentabilidade ambiental. Buscamos compreender como inovações tecnológicas podem ser aplicadas de maneira eficaz para promover práticas sustentáveis, contribuindo para o progresso regional de forma equitativa e ecologicamente responsável.

Ecologia da Paisagem
Abordamos a inter-relação entre processos ecológicos e a dinâmica de transformação da paisagem. Nossa pesquisa combina a perspectiva espacial do geógrafo com a visão sistêmica do ecólogo, visando compreender as complexas interações entre elementos naturais e antrópicos. Contribuímos para a gestão ambiental, oferecendo insights valiosos sobre como as mudanças ecológicas influenciam a configuração da paisagem ao longo do tempo.

Geografia Histórica
A linha de Geografia Histórica concentra-se na reconstrução de paisagens geográficas de eras anteriores e no Antropoceno. Investigamos a interação dos fenômenos e processos humanos com o ambiente ao longo do tempo, buscando oferecer uma visão aprofundada das transformações geográficas. Nossa pesquisa auxilia na compreensão das raízes históricas dos desafios ambientais atuais, fornecendo uma base sólida para soluções futuras.


📝 Estrutura do Projeto
As propostas de Iniciação Científica deverão seguir a seguinte estrutura:

Título do projeto
Resumo (até 500 palavras)
Introdução e justificativa
Objetivos (geral e específicos)
Revisão bibliográfica
Metodologia
Cronograma de atividades  com pano de trabalho. (12 meses)
Referências Bibliográficas

📌 Critérios para participação do estudante no PIBIC-CNPq (2025)

Para participar da seleção de bolsistas do PIBIC-CNPq no GPHAVI, o(a) estudante deve atender aos seguintes requisitos:

✅ Estar regularmente matriculado(a) em curso de graduação da FURB
✅ Não estar inadimplente com a instituição
✅ Não participar do Programa Universidade Gratuita
✅ Não acumular outra bolsa ou recurso de fomento público (municipal, estadual ou federal)
✅ Verificar os critérios atualizados para bolsistas no site oficial do CNPq – Programa PIBIC
✅ Ter disponibilidade para cumprir uma carga horária de 20 horas semanais, divididas entre atividades de pesquisa presenciais e remotas, incluindo participação nas ações do grupo GPHAVI.

📅 Período de inscrições: 07/04 a 02/06/2025

Os interessados devem agendar uma reunião para apresentação do projeto, entrar em contato no e-mail: gphavi01@gmail.com


quinta-feira, 1 de maio de 2025

A História Ambiental e 01 de maio!


O Dia do Trabalhador, celebrado em 1º de maio, é marcado pela memória das lutas por condições dignas de trabalho, como a que ocorreu em 1886, nos Estados Unidos, com a Greve de Chicago. No entanto, ao pensar essa data por uma perspectiva da História Ambiental, percebemos que ela também é o marco simbólico de um processo mais amplo de transformação: a consolidação da Revolução Industrial e suas consequências para os trabalhadores e para o meio ambiente.

A partir da segunda metade do século XVIII, a industrialização alterou profundamente não só as formas de produção, mas também os espaços e as relações entre seres humanos e a natureza. A instalação de fábricas, a exploração intensiva dos recursos naturais e o crescimento desordenado das cidades promoveram uma verdadeira reconfiguração das paisagens. Rios foram desviados ou contaminados; florestas foram derrubadas para dar lugar a ferrovias, bairros operários e complexos industriais; o ar se encheu de fuligem, e o solo urbano se cobriu de resíduos industriais.

Uma paisagem industrial da década de 1830 em Nantyglo, Blaenau Gwent, no Reino Unido, retrata o intenso desenvolvimento siderúrgico da época. Diversas chaminés lançam fumaça no ar, enquanto uma ponte se destaca como elemento central da cena, simbolizando a transformação do espaço pela industrialização.

Fonte: Revolução Industrial – Wikipédia




A lógica capitalista da produção em larga escala, movida a carvão e depois a petróleo, consolidou um modelo de desenvolvimento que se apoiava na degradação ambiental como algo natural e necessário. A busca incessante por lucro e produtividade transformou a natureza em recurso a ser exaurido, e os trabalhadores, em meros instrumentos de produção. As cidades industriais, como Manchester, Londres e Chicago — palco das manifestações que originaram o 1º de maio — tornaram-se símbolos dessa nova era. Mas esses centros urbanos também se tornaram espaços de insalubridade extrema, onde operários viviam em cortiços superlotados, rodeados de esgoto, fumaça e doenças.

A Revolução Industrial, portanto, não foi apenas uma revolução tecnológica ou econômica: foi uma revolução territorial e ambiental. Os espaços rurais foram esvaziados de gente e sentidos, enquanto as cidades cresciam de forma caótica, sem planejamento, num cenário de profunda desigualdade socioambiental. A degradação do meio ambiente urbano acompanhou o processo de exploração do trabalho humano. A fábrica, símbolo do progresso industrial, era também o local onde corpos eram adoecidos por jornadas exaustivas, ruído constante, calor, poeira, intoxicação química e a ausência quase completa de segurança.

A imagem retrata uma criança puxando um carrinho carregado de carvão em uma mina durante a Revolução Industrial britânica. Essa cena ilustra as duras condições de trabalho infantil da época, marcadas por jornadas exaustivas, espaços confinados e ausência de proteção, refletindo a exploração extrema que caracterizou o trabalho nas minas.

Fonte: A Mineração de Carvão na Revolução Industrial Britânica – World History Encyclopedia



Essa destruição do equilíbrio entre sociedade e natureza tornou-se estrutural ao sistema capitalista. E é nesse ponto que a História Ambiental lança luz: ao nos mostrar que o modelo de produção que oprime o trabalhador é o mesmo que devasta o ambiente. A luta dos operários por condições dignas de trabalho é, também, uma luta por condições dignas de vida — e isso inclui o direito a um ambiente saudável.

A modernização, que tantas vezes é vendida como "progresso", veio acompanhada da expropriação tanto da força de trabalho quanto dos territórios. Na perspectiva da História Ambiental, o 1º de maio deve nos lembrar não só da resistência ao modelo de exploração humana, mas também da resistência ao modelo de exploração da natureza. A destruição ambiental e a degradação das condições de vida andam juntas — e a urbanização descontrolada, os bairros operários cercados de poluição e a atual crise climática são desdobramentos contínuos daquele mesmo processo iniciado nos séculos XVIII e XIX.

No século XXI, os desafios persistem. Os trabalhadores de aplicativos enfrentam jornadas extensas, sem proteção legal, e circulam em cidades congestionadas, poluídas e fragmentadas. A tecnologia que prometia aliviar a carga de trabalho muitas vezes tem servido para intensificá-la. A lógica da mais-valia continua a pautar o uso tanto da natureza quanto da vida humana como matéria-prima descartável.

Assim, o 1º de maio deve ser resgatado como uma data de luta e reflexão não apenas sobre os direitos trabalhistas, mas sobre os caminhos do desenvolvimento que temos escolhido. Um mundo mais justo exige pensar trabalho e meio ambiente como dimensões inseparáveis da dignidade humana. E exige reconhecer que a justiça social e a justiça ambiental caminham lado a lado — ontem, hoje e sempre.

segunda-feira, 28 de abril de 2025

O spectro do capitalismo assola um Parque Nacional

Mais uma vez, empresas, políticos e o projeto que ameaça a proteção da Serra do Itajaí!

Desde 2022 o Parque Nacional da Serra do Itajaí, após uma associação de interesses empresariais e políticos, vendo sendo ameaçado, e com isso toda uma comunidade do seu entorno, através do Projeto de Lei 1797/2022, proposto pelo deputado federal Darci de Matos (PSD-SC), que visa reclassificar o parque como Floresta Nacional, alterando seu status de proteção integral para uso sustentável. Dentro do grau de conservação, é uma regressão de nível, abrandando a exploração da região. Essa mudança, se fosse realizada permitiria atividades econômicas dentro da área, como exploração madeireira e agricultura, desde que compatíveis com o manejo e a conservação.


Essa ideia maluca, que por de trás obviamente possui algum interesse econômico, ao desenrolar da proposta legislativa, tem gerado preocupação entre ambientalistas e organizações da sociedade civil. Pois quando um parque é criado são os estudos preliminares que indicam a categoria, e a que melhor se adéqua a qualidade ambiental da região é o de PARNA. O parque abriga cerca de 57 mil hectares de Mata Atlântica, distribuídos por nove municípios do Vale do Itajaí, e é lar de diversas espécies ameaçadas. Além disso, a área é crucial para a proteção de nascentes que abastecem a região, e desde a sua criação as atividade de exploração extrativistas diminuíram drasticamente fazendo surgir empreendimentos voltados para o turismo da conservação e sustentabilidade. A mudança de categoria afetaria diversos negócios que vivem pela existência do Parque Nacional, devido a qualidade ambiental e de uso público existentes nesta categoria. Ou seja, o tipo de parque, se é de proteção integral ou sustentável, é realizado por cientistas, geralmente sem vínculos com o mercado, e que classificam o território a ser conservado.

Parece haver um falta de informação e má índole na proposta, e de quem defende esse rebaixamento de categoria do parque, ou qualquer outra ação contrária a ele. A mudança de categoria não resolveria os conflitos fundiários existentes, pois, mesmo como Floresta Nacional, as terras continuariam sendo de domínio público federal e sujeitas à desapropriação. E as empresas de reflorestamento do entorno, teriam que se enquadrar, o que não é difícil, e com isso teriam a liberdade de explorar. E ainda toda uma legislação de ordenamento do uso do solo e do recursos punitiva continuaria valendo. ​

Em uma Floresta Nacional, o manejo florestal sustentável é permitido — isso significa que empresas podem explorar madeira, inclusive em regime de concessão. Muitas vezes, isso se traduz na implantação de monoculturas de pinus ou eucalipto, que empobrecem a biodiversidade, alteram o solo, os cursos d’água e favorecem incêndios florestais. Enquanto Parques Nacionais exigem a desapropriação e domínio público da terra, as Florestas Nacionais permitem propriedades particulares em seu interior. Isso abre brechas para conflitos fundiários, pressões por infraestrutura (como estradas e barragens) e uso intensivo do solo com fins comerciais.

Parques têm como finalidade principal a preservação integral da natureza, com visitação apenas para fins educativos, científicos e recreativos controlados. Florestas Nacionais, por outro lado, têm foco em uso múltiplo e sustentável dos recursos florestais, o que pode colocar em risco espécies endêmicas ou ameaçadas.

A reclassificação pode atender interesses de setores como o de silvicultura e agronegócio, que têm atuação política ativa e lobbies no Congresso Nacional. No caso do Parque Nacional da Serra do Itajaí, há indícios de pressão de empresas de reflorestamento e envolvimento de parlamentares que já apresentaram outros projetos contrários à preservação ambiental. Com o uso econômico, ocorre abertura de vias, circulação de veículos pesados, introdução de espécies exóticas, tudo isso fragmenta habitats, afeta corredores ecológicos e rompe o equilíbrio entre sociedade e natureza que essas áreas protegem.

As populações do entorno do Parque Nacional da Serra do Itajaí, que no passado dependiam da exploração direta dos recursos naturais, passaram por um processo de transformação desde a criação da unidade de conservação em 2004. Em municípios como Blumenau, Gaspar, Ascurra, Indaial e Botuverá, por exemplo, observa-se uma redução significativa dessas práticas e o surgimento de novas iniciativas ligadas ao ecoturismo e a atividades sustentáveis. Esses empreendimentos têm contribuído para a diversificação e o fortalecimento da economia local, alinhando conservação ambiental e desenvolvimento socioeconômico.

No entanto, todo esse avanço está sob ameaça com a proposta de reclassificação do parque. A pressão para modificar seus limites e até mesmo questionar sua existência não é recente — trata-se de uma demanda histórica de setores empresariais, especialmente ligados à indústria madeireira e ao agronegócio. Diante disso, cabe uma pergunta incômoda, mas necessária: estariam alguns políticos sendo comprados? A insistência em desmantelar uma conquista ambiental e social tão relevante parece indicar que a lógica do lobby está sobrepondo o interesse público. Muitos parlamentares demonstram maior compromisso com sua permanência no poder e com os interesses do capital do que com a preservação ambiental ou o bem-estar das populações locais. Isso fica evidente quando suas falas e ações defendem majoritariamente os interesses de setores econômicos que historicamente pressionam pela flexibilização das leis ambientais.

Infelizmente, a proposta já tramitou na Câmara dos Deputados e, embora esteja temporariamente paralisada — em uma espécie de "banho-maria" legislativo —, ainda pode ser retomada a qualquer momento. Isso porque permanecem ativos os interesses daqueles que controlam a política e almejam também controlar o território. A proposta deverá ser analisada pelas comissões de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável, e de Constituição e Justiça e de Cidadania, o que reforça a necessidade de vigilância e mobilização social diante da possibilidade de retrocessos. Leia o posicionamento do relator, clique aqui!

Últimas notícias: https://www.camara.leg.br/proposicoesWeb/fichadetramitacao?idProposicao=2330599#tramitacoes

04/04/2025

Comissão de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável ( CMADS )Designado Relator, Dep. Delegado Matheus Laiola (UNIÃO-PR).
07/04/2025

Comissão de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável ( CMADS )Prazo para Emendas ao Projeto (5 sessões a partir de 08/04/2025)
15/04/2025

Comissão de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável ( CMADS )Encerrado o prazo de 5 sessões para apresentação de emendas ao projeto (de 07/04/2025 a 15/04/2025). Não foram apresentadas emendas.

Fonte:

APREMAVI. Comitê do Itajaí publica moção contrária à mudança de categoria do PNSI. Apremavi, 2023. Disponível em: https://apremavi.org.br/comite-do-itajai-publica-mocao-contraria-a-mudanca-de-categoria-do-pnsi/. Acesso em: 17 abr. 2025.

CÂMARA DOS DEPUTADOS. Proposta transforma parque em Santa Catarina em floresta nacional. Câmara Notícias, 2022. Disponível em: https://www.camara.leg.br/noticias/898497-proposta-transforma-parque-em-santa-catarina-em-floresta-nacional/. Acesso em: 17 abr. 2025.

JORNAL DO MÉDIO VALE. Projeto quer transformar Parque Nacional da Serra do Itajaí em Floresta Nacional. Jornal do Médio Vale, 2023. Disponível em: https://jornaldomediovale.com.br/geral/projeto_quer_transformar_parque_nacional_da_serra_do_itajai_em_floresta_nacional-103694/. Acesso em: 17 abr. 2025.

MOURA, Caroline. Projeto rebaixa categoria de proteção do Parque Nacional da Serra do Itajaí. AMDA – Associação Mineira de Defesa do Ambiente, 2022. Disponível em: https://amda.org.br/noticias/6569-projeto-rebaixa-categoria-de-protecao-do-parque-nacional-da-serra-do-itajai/. Acesso em: 17 abr. 2025.


Outras fontes que tratam sobre o tema:

PROJETO DE LEI N.º 1.797, DE 2022

https://www.camara.leg.br/noticias/898497-PROPOSTA-TRANSFORMA-PARQUE-EM-SANTA-CATARINA-EM-FLORESTA-NACIONAL?utm_source=chatgpt.com

https://amda.org.br/noticias/6569-projeto-rebaixa-categoria-de-protecao-do-parque-nacional-da-serra-do-itajai/?utm_source=chatgpt.com

https://apremavi.org.br/comite-do-itajai-publica-mocao-contraria-a-mudanca-de-categoria-do-pnsi/?utm_source=chatgpt.com

https://jornaldomediovale.com.br/geral/projeto_quer_transformar_parque_nacional_da_serra_do_itajai_em_floresta_nacional-103694/?utm_source=chatgpt.com

https://amda.org.br/noticias/6569-projeto-rebaixa-categoria-de-protecao-do-parque-nacional-da-serra-do-itajai/

https://www.camara.leg.br/noticias/898497-PROPOSTA-TRANSFORMA-PARQUE-EM-SANTA-CATARINA-EM-FLORESTA-NACIONAL

https://apremavi.org.br/comite-do-itajai-publica-mocao-contraria-a-mudanca-de-categoria-do-pnsi/


https://oeco.org.br/reportagens/politicos-de-sc-se-unem-para-reduzir-protecao-do-parque-nacional-da-serra-do-itajai/

https://jornalfolhalitoral.com.br/unidade-de-conservacao-moradores-defendem-nova-categoria-para-o-parque-nacional-da-serra-do-itajai/

https://omunicipio.com.br/audiencia-publica-discute-mudanca-de-categoria-do-parque-nacional-da-serra-do-itajai/

quinta-feira, 17 de abril de 2025

Trabalho, natureza e História

Na História Ambiental, buscamos compreender como as sociedades humanas se relacionam com o meio natural ao longo do tempo. Essa abordagem interdisciplinar parte do princípio de que a natureza não é apenas um pano de fundo passivo para a ação humana, mas um agente ativo que influencia e é influenciado pelos processos sociais, econômicos e culturais. Nesse sentido, as ideias de Karl Marx oferecem importantes contribuições teóricas para pensarmos a dimensão histórica da relação entre sociedade e natureza.

Para Marx, a natureza não é separada da humanidade. Pelo contrário, ela é o fundamento material da existência humana — fonte dos meios de subsistência, dos objetos do trabalho e da própria possibilidade de produção histórica. A relação entre seres humanos e natureza é, portanto, mediada pelo trabalho. É através dele que o ser humano transforma a natureza externa para satisfazer suas necessidades, ao mesmo tempo em que se transforma a si mesmo. Trata-se de um intercâmbio material contínuo, no qual o ser humano regula e reorganiza seu entorno natural.

Marx concebe essa relação como uma unidade dialética: somos parte da natureza, e nossa ação sobre ela — moldada historicamente — é tanto um processo produtivo quanto formativo. A História da humanidade é, também, a história da transformação da natureza. Essa transformação, contudo, varia conforme os modos de produção historicamente determinados.

No sistema capitalista, segundo Marx, essa relação se torna alienada. O trabalhador é separado dos meios de produção — que incluem a terra, os recursos naturais e os frutos de seu próprio trabalho —, provocando uma ruptura profunda na relação entre sociedade e natureza. O capitalismo, orientado pela lógica do lucro, impulsiona uma exploração intensiva e destrutiva tanto do trabalho humano quanto do meio natural.

Essa análise é especialmente relevante para a História Ambiental, pois nos permite entender como as formas de organização econômica e social impactam ecossistemas, paisagens e ciclos naturais. Além disso, aponta para a possibilidade de outras formas de relação — mais racionais e sustentáveis — com o mundo natural. Em sua visão de uma sociedade comunista, Marx projeta uma superação da alienação, onde a humanidade poderia estabelecer uma relação consciente e planejada com a natureza, pautada pelas necessidades humanas e não pela acumulação de capital.

Assim, o pensamento marxista nos oferece instrumentos teóricos valiosos para refletir criticamente sobre as crises ambientais contemporâneas, suas raízes históricas e os caminhos possíveis para um futuro mais equilibrado entre humanidade e natureza.

terça-feira, 8 de abril de 2025

Colonização alemã no Vale do Itajaí: uma análise ambiental a partir de um trecho da obra Colonização e Industria no Vale do Itajaí


A colonização alemã no século XIX em Santa Catarina não foi apenas um fenômeno social ou econômico, mas também um processo intensamente entrelaçado com o ambiente. Utilizando as três dimensões da história ambiental propostas por Donald Worster — a natureza em si, as interações humanas com o meio e as ideias que orientam essas interações —, podemos desvendar como esse capítulo histórico moldou e foi moldado pelo ecossistema local. Estamos aqui analisando um trecho do livro Colonização e Industria no Vale do Itajaí da historiadora Maria Luiza Renaux, situado entre a página 24 e 38, momento que a autora analisa a colonização alemã.
O território catarinense apresentava desafios e oportunidades únicos para os imigrantes alemães. O relevo acidentado do Vale do Itajaí, com suas serras íngremes e vales fluviais, determinou onde e como as colônias se estabeleceram. As florestas tropicais densas, embora ricas em madeira, exigiam técnicas como a derrubada e queima (roça ou capoeira) para abertura de áreas cultiváveis. Essa prática, herdada dos indígenas e adotada pelos colonos, teve consequências ambientais: o solo, já frágil em encostas, empobrecia rapidamente, levando ao declínio das colheitas e à necessidade de migração para novas terras.



A escolha estratégica de núcleos como Blumenau e Joinville também refletia a dependência dos rios Itajaí-Açu e Itajaí-Mirim para navegação e escoamento da produção, evidenciando como a geografia fluvial moldou a logística econômica. Enquanto Blumenau prosperou graças à vasta hinterlândia planáltica, Brusque enfrentou limitações devido ao relevo estreito e íngreme, dificultando sua expansão.

Os imigrantes alemães trouxeram consigo práticas agrícolas adaptadas à pequena propriedade, contrastando com o latifúndio monocultor do Brasil colonial. Cultivavam policultura (milho, feijão, mandioca) e introduziram sementes selecionadas e gado de raça europeia, graças a iniciativas como o Kulturverein (Sociedade Cultural), que promovia técnicas racionais.

No entanto, a pressão por terras férteis levou ao desmatamento acelerado. A transição para a industrialização (têxteis, cervejarias, metalurgia) a partir de 1860 foi uma resposta à exaustão do solo e à necessidade de diversificação econômica. A infraestrutura — como a estrada de ferro iniciada em 1907 — facilitou o acesso a mercados, mas também consolidou a exploração de recursos naturais, como a madeira e o calcário.

O cooperativismo emergiu como solução às adversidades: mutirões (Bittarbeit) para derrubar matas, construção de engenhos comunitários e sociedades de crédito rural. Essas práticas refletiam uma adaptação pragmática ao isolamento e à escassez de serviços estatais.

A colonização alemã foi impulsionada por políticas imperiais que visavam substituir a mão de obra escrava por imigrantes europeus "livres e laboriosos". Leis como a Lei de Terras de 1850 regulamentaram a ocupação de terras devolutas, privilegiando pequenos proprietários. Os valores dos colonos — ética protestante, moderação e autossuficiência — influenciaram sua relação com a natureza. Enxergavam a floresta como um obstáculo a ser dominado, mas também como recurso a ser gerido com parcimônia. Essa mentalidade, aliada ao espírito comunitário trazido dos pequenos Estados germânicos, permitiu a criação de estruturas sociais coesas, mesmo em meio ao ambiente hostil.

Porém, a visão utilitarista do ambiente prevaleceu. A natureza era um meio para o progresso, seja na agricultura, seja na indústria. A industrialização de Blumenau, por exemplo, dependeu da exploração intensiva dos rios para energia e transporte, consolidando uma economia que priorizava o crescimento sobre a sustentabilidade. A colonização alemã em Santa Catarina deixou marcas profundas. De um lado, trouxe inovações agrícolas, cooperativismo e uma base industrial que impulsionou a região. De outro, acelerou a degradação de ecossistemas, com desmatamento, erosão do solo e fragmentação de habitats.

A análise pelas lentes de Worster revela que o "sucesso" econômico das colônias teve um custo ambiental — um paradoxo comum em processos colonizadores. Hoje, enquanto cidades como Blumenau celebram sua herança germânica, é crucial refletir sobre como equilibrar desenvolvimento e preservação, aprendendo com os erros e acertos do passado.


quarta-feira, 2 de abril de 2025

🚨 CHAMADA URGENTE – Seleção de Estudante para Bolsa de Iniciação Científica (PIBIC-CNPq)


O Grupo de Pesquisa em História Ambiental do Vale do Itajaí (GPHAVI) torna pública a abertura de vaga de substituição para bolsa de Iniciação Científica vinculada ao PIBIC/CNPq.

📝 Tema da pesquisa:

História ambiental da agropecuária no Vale do Itajaí (SC) nos séculos XVIII e XIX

O projeto investiga as relações entre sociedade e natureza a partir da trajetória da agropecuária no contexto histórico regional, com foco em transformações ambientais, práticas produtivas e modos de vida rurais. A pesquisa é desenvolvida por dois bolsistas e a vaga disponibilizada é de substituição (6 meses, bolsa de R$700,00/mês).


👤 Requisitos para candidatura:
  • Estar regularmente matriculado(a) em curso de graduação;
  • Não ser beneficiário(a) de Universidade Gratuita (incluindo bolsas do Art. 170 ou 171);
  • Possuir média geral igual ou superior a 7,0;
  • Ter disponibilidade de 20 horas semanais para dedicação às atividades da bolsa (em regime remoto ou semi-presencial);
  • Demonstrar interesse em pesquisa acadêmica nas áreas de História Ambiental, Ciências Humanas ou afins.

📅 Início imediato!

📩 Como se candidatar:

Os(as) estudantes interessados(as) devem entrar em contato com o Prof. Gilberto através do e-mail:
frieden@furb.br

Maiores informações, confira antigas postagens sobre a pesquisa: